domingo, 25 de novembro de 2007

Um espirito no enterro de seu corpo


Um Espírito no enterro de seu
Corpo

Estado da alma no momento da morte.
Os Espíritos sempre nos disseram que a separação da alma e do corpo não se faz
instantaneamente; ela começa, algumas vezes, antes da morte real, durante a agonia,
quando a última pulsação se faz sentir, o desligamento não está ainda completo; ele se opera
mais ou menos lentamente segundo as circunstâncias, e até a sua inteira liberdade a alma
experimenta uma perturbação, uma confusão que não lhe permite tomar consciência de sua
situação; está no estado de uma pessoa que desperta e cujas ideias são confusas. Esse
estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem muito se explicar do
que vê, é calmo e espera sem medo o despertar completo; ao contrário, é cheio de angústias
e de terror para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é
variável; é muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou seus pensamentos e
purificou sua alma; dois ou três dias lhe bastam, ao passo que, em outros, é preciso,
algumas vezes, oito ou mais. Frequentemente, assistimos a esse momento solene, e sempre
vimos a mesma coisa; isso não é, pois, uma teoria, mas um resultado da observação, uma
vez que é o Espírito quem fala e quem pinta sua própria situação. Eis aqui um exemplo mais
característico e tanto mais interessante para o observador, que não se trata mais de um
Espírito invisível escrevendo por um médium, mas bem de um Espírito visto e ouvido na
presença de seu corpo, seja na câmara mortuária, seja na igreja durante o serviço fúnebre.

O senhor X... vinha de ser atingido por um ataque de apoplexia; algumas horas depois de sua
morte, o senhor Adrien, um de seus amigos, se encontrava em seu quarto com a mulher do
defunto; ele viu distintamente o Espírito deste passear em todos os sentidos, olhar
alternativamente seu corpo e as pessoas presentes, depois sentar-se numa poltrona; tinha
exactamente a mesma aparência de quando vivo; estava vestido do mesmo modo, sobrecasaca
preta, calça preta; tinha as mãos nos bolsos e o ar preocupado.
Durante esse tempo, a mulher procurava um papel na escrivaninha, seu marido a olha e diz:
Procuras inutilmente, não encontrarás nada. Ela não desconfiava nada do que se passava,
porque o senhor X... não era visível senão para o senhor Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o senhor Adrien viu de novo o Espírito de seu
amigo preambular ao lado do caixão, mas não tinha mais o vestuário da véspera; estava
envolvido com uma espécie de roupagem. A conversação seguinte se iniciou entre eles.
Notemos, de passagem, que o senhor Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como
no dia precedente, estava perfeitamente desperto, e que o Espírito lhe aparecia como se
fosse um dos assistentes do enterro.

- P. Diga um pouco, caro Espírito, que sentes agora?
- R. Do bem e do sofrimento.
- P. Não compreendo isso.
- R. Sinto que estou vivo, com minha verdadeira vida e, entretanto, sinto
que vivo, que existo: sou, pois, dois seres? Ah! deixai-me sair desta noite, tenho pesadelo.

Referencia: Revista espírita Dezembro 1958

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O ponto de vista


O ponto de vista

5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no
porvir, fé que acarreta enormes consequências sobre a moralização dos homens, porque muda
completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca,
pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples
passagem, breve estada num pai ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam
de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-
lhes um estado mais ditoso. A morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta
que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa
mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no
lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma
calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.
Pelo simples facto de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus
pensamentos para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao
presente. Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra, torna-se qual a criança
que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não faça para conseguir os únicos
bens que se lhe afiguram reais. A perda do menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um
engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho
ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a existência numa
perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira tortura de todos os
instantes. Colocando o ponto de vista, de onde considera a vida corpórea,
no lugar mesmo em que ele aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O
mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus
olhos. Aquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande: assim os
homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele, porém, a uma
montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e coisas.
É o que sucede ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a
Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então
que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que
proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efémeras a
tantas canseiras se entreguem para conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão
pouco tempo conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está sempre
em razão inversa da fé na vida futura.

6. Se toda a gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria,
porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas. Não; o homem,
instintivamente, procura o seu bem-estar e, embora certo de que só por pouco tempo
permanecerá no lugar em que se encontra, cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe
seja possível. Ninguém há que, dando com um espinho debaixo de sua mão, não a retire, para
se não picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo
instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por
necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência
que, para tal fim, o pôs na Terra. Simplesmente, aquele que se preocupa com o futuro não liga
ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola dos seus insucessos,
pensando no destino que o aguarda.
Deus, consequentemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso
desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.
Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem
emoção uma pequena soma. Aquele cujos pensamentos se concentram na vida terrestre
assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.

7. O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa
visão, acanhada e mesquinha, que o concentra na vida actual, que faz do instante que vivemos
na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não
passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador. Mostra a
solidariedade que conjuga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um
mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Faculta assim uma base e uma razão de ser à
fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de
cada corpo torna estranhos uns aos outros todos os seres. Essa solidariedade entre as partes de
um mesmo todo explica o que inexplicável se apresenta, desde que se considere apenas um
ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender,
motivo por que ele reservou para outros tempos o fazê-lo conhecido.

Referencia: O evangelho segundo o espiritismo

Provas da existência de Deus


Provas da existência de Deus

4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?
“Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a
causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”
Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo
existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa.

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem
em si, da existência de Deus?
“A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma
base? É ainda uma consequência do princípio - não há efeito sem causa.”

6. O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da
educação, resultado de ideias adquiridas?
“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”
Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão-somente produto de um
ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse
ensino, conforme se dá com as noções científicas.

7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da
formação das coisas?
“Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma
causa primária.”
Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria
tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades são, também elas, um efeito que há de ter uma causa.

8. Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação primária a uma
combinação fortuita da matéria, ou, por outra, ao acaso?
“Outro absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser
inteligente? E, demais, que é o acaso? Nada.”
A harmonia existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e desígnios
determinados e, por isso mesmo, revela um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez, pois que o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.

9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior
a todas as inteligências?
“Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a
obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada
admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!”
Do poder de uma inteligência se julga pelas obras. Não podendo nenhum ser
humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é, consequentemente, uma
inteligência superior à Humanidade.
Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela
própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa
primária. Aquela inteligência superior é que é a causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome que lhe dêem.

Referencia: O livro dos espíritos

sábado, 17 de novembro de 2007

Código penal da vida futura


Código penal da vida futura

O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do facto, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

3º - Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.
A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.
De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4º - Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prémio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.
O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.
6º - O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez
como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8º - Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só acção, um só pensamento mau que não tenha consequências fatais, como não na uma única acção meritória. um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais
acções um começo de progresso.

9º - Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

10º - O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a
consequência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.

11º - A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

12º - Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo acto meritório, segundo o seu valor.

13º - A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efectivo, sincero, de volta ao bem.
Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.
Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa
de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este
durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

14º - Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

15º - Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)

16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

17º - O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.
Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes, seja na vida actual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.
A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal.
Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições
voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo directo e efectivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi
descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se tem sido orgulhoso, amável se foi austero, caridoso se tem sido egoísta, benigno se tem sido perverso, laborioso se tem sido ocioso, útil se tem sido inútil,
frugal se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado.

18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em
mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas
existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

19º - Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.
Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.

20º - Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, por conseguinte, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.
Persistindo no mal, sofrerá as consequências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

OBSERVAÇÃO - Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não
se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será
infinito se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas consequências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre
interdita qualquer ideia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.
Diante dessa lei, cai também a objecção extraída da presciência divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efectivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

21º - A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.
Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.

22º - Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.
A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na consequente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.
Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a perturbação de um pacífico despertar.

23º - Um fenómeno muito frequente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e
perplexidades da vida.

24º - Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25º - Espíritos hão mergulhados em densa treva; outros se encontram em absoluto isolamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição,como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.
Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passamcom intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.

26º - Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e
lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as consequências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos dúplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.
27º - O único meio de evitar ou atenuar as consequências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas consequências.

28º - A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.
Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, pagá-la-ão muito caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bem aventurados
os aflitos, porque serão consolados.

29º - Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a consequência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

30º - Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente
observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

31º - As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são consequentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. É na vida
corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a
perfectibilidade. (1)

32º - Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez
é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o facto existe, devemos
aceitá-lo. Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei. injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais
pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva
se facilite por excepção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.
Isto posto, nada mais justo que a liberdade de acção a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prémio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.
Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.
O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.

33º - Em que pese à diversidade de géneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1º - O sofrimento é inerente à imperfeição.

2º - Toda imperfeição, assim como todo o erro proveniente dela, traz consigo o próprio castigo nas consequências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade
nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3º - Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da
vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

A cada um segundo as suas obras tanto no Céu como na Terra: - tal é a lei da Justiça Divina.

O céu e o inferno

Principio da doutrina espírita sobre as penas futuras


Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras

A Doutrina Espírita, no que respeita às penas futuras, não se baseia numa teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se apoia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições;
são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto.

Preciso é afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto, ainda dominado por terrenos prejuízos. Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou de uma visão extática susceptível de ilusões, e não passando muitas vezes de reflexo de
uma imaginação exaltada. (1)
Trata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala, por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns)
disseminados pelo mundo, de sorte que a revelação deixa de ser privilégio de alguém, pois todos podem prová-la, observando-a, sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.

O céu e o inferno

Perda e suspensão da mediunidade


Perda e suspensão da mediunidade

220. A faculdade mediúnica está sujeita a intermitências e a suspensões
temporárias, quer para as manifestações físicas, quer para a escrita. Damos a seguir as respostas que obtivemos dos Espíritos a algumas perguntas feitas sobre este ponto:

1ª Podem os médiuns perder a faculdade que possuem?
"Isso frequentemente acontece, qualquer que seja o género da faculdade. Mas, também, muitas vezes apenas se verifica uma interrupção passageira, que cessa com a causa que a produziu."

2ª Estará no esgotamento do fluido a causa da perda da mediunidade?

"Seja qual for a faculdade que o médium possua, ele nada pode sem o concurso simpático dos Espíritos. Quando nada mais obtém, nem sempre é porque lhe falta a faculdade; isso não raro se dá, porque os Espíritos não mais querem, ou podem servir-se dele."

3ª Que é o que pode causar o abandono de um médium, por parte dos Espíritos?
"O que mais influi para que assim procedam os bons Espíritos é o uso que o médium faz da sua faculdade. Podemos abandoná-lo, quando dela se serve para coisas frívolas, ou com propósitos ambiciosos; quando se nega a transmitir as nossas palavras, ou os factos por nós produzidos, aos encarnados que para ele apelam, ou que têm necessidade de ver para se convencerem. Este dom de Deus não é concedido ao médium para seu deleite e, ainda menos, para satisfação de suas ambições, mas para o fim da sua melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade. Se o Espírito verifica que o médium já não corresponde às suas vistas e já não aproveita das instruções nem dos conselhos que lhe dá, afasta-se, em busca de um protegido mais digno."

4ª Não pode o Espírito que se afasta ser substituído e, neste caso, não se
conceberia a suspensão da faculdade?

"Espíritos não faltam, que outra coisa não desejam senão comunicar-se e que, portanto, estão sempre prontos a substituir os que se afastam; mas, quando o que abandona o médium é um Espírito bom, pode suceder que o seu afastamento seja apenas temporário, para privá-lo, durante certo tempo, de toda comunicação, a fim de lhe provar que a sua faculdade não depende dele médium e que, assim, razão não há para dela se vangloriar. Essa impossibilidade temporária também serve para dar ao médium a
prova de que ele escreve sob uma influência estranha, pois, de outro modo, não haveria intermitências."
"Em suma, a interrupção da faculdade nem sempre é uma punição; demonstra às vezes a solicitude do Espírito para com o médium, a quem consagra afeição, tendo por objectivo proporcionar-lhe um repouso material de que o julgou necessitado, caso em que não permite que outros Espíritos o substituam."

5ª Vêem-se, no entanto, médiuns de muito mérito, moralmente falando, que
nenhuma necessidade de repouso sentem e que muito se contrariam com essas interrupções, cujo fim lhes escapa.
"Servem para lhes pôr a paciência à prova e para lhes experimentar a
perseverança. Por isso é que os Espíritos nenhum termo, em geral, assinam à suspensão da faculdade mediúnica; é para verem se o médium descorçoa. E também para lhe dar tempo de meditar as instruções recebidas. Por essa meditação dos nossos ensinos é que reconhecemos os espíritas verdadeiramente sérios. Não podemos dar esse nome aos que, na realidade, não passam de amadores de comunicações."

6ª Será preciso então, que, nesse caso, o médium prossiga nas suas tentativas para escrever?

"Se o Espírito lhe aconselhar isto, deve; se lhe disser que se abstenha, não deve."

7ª Haveria meio de abreviar essa prova ?

"A resignação e a prece. Demais, basta que faça cada dia uma tentativa de alguns minutos, visto que inútil lhe será perder o tempo em ensaios infrutíferos. A tentativa só deve ter por fim verificar se já recobrou, ou não, a faculdade."

8ª A suspensão da faculdade não implica o afastamento dos Espíritos que
habitualmente se comunicam?

"De modo algum. O médium se encontra então na situação de uma pessoa que perdesse temporariamente a vista, a qual, por isso, não deixaria de estar rodeada de seus amigos, embora impossibilitada de os ver. Pode, portanto, o médium e até mesmo deve continuar a comunicar-se pelo pensamento com seus Espíritos familiares e persuadir-se de que é ouvido. Se é certo que a falta da mediunidade pode privá-lo das comunicações ostensivas com certos Espíritos, também certo é que não o pode privar das
comunicações morais."
9ª Assim, a interrupção da faculdade mediúnica nem sempre traduz uma censura da parte do Espírito?

"Não, sem dúvida, pois que pode ser uma prova de benevolência."

10ª Por que sinal se pode reconhecer a censura nesta interrupção?

"Interrogue o médium a sua consciência e inquira de si mesmo qual o uso que tem feito da sua faculdade, qual o bem que dela tem resultado para os outros, que proveito há tirado dos conselhos que se lhe têm dado e terá a resposta."

11ª O médium que ficou impossibilitado de escrever poderá recorrer a outro médium?

"Depende da causa da interrupção, que tem por fim, amiúde, deixar-vos algum tempo sem comunicações, depois de vos terem dado conselhos, a fim de que vos não habitueis a nada fazer senão com o nosso concurso. Se este for o caso, ele nada obterá recorrendo a outro médium, o que também ocorre com o fim de vos provar que os Espíritos são livres e que não está em vossas mãos obrigá-los a fazer o que queirais.
Ainda por esta razão é que os que não são médiuns nem sempre recebem todas as comunicações que desejam."

NOTA. Deve-se efectivamente observar que aquele que recorre a terceiro para obter comunicações, não obstante a qualidade do médium, muitas vezes nada de satisfatório consegue, ao passo que doutras vezes as respostas são muito explícitas. Isso tanto depende da vontade do Espírito, que ninguém coisa alguma adianta mudando de médium. Os próprios Espíritos como que dão, a esse respeito, uns aos outros a palavra
de ordem, porquanto o que não se obtiver de um, de nenhum mais se obterá. Cumpre então que nos abstenhamos de insistir e de impacientar-nos, se não quisermos ser vítimas de Espíritos enganadores, que responderão, dado procuremos à viva força uma resposta, deixando os bons que eles o façam, para nos punirem a insistência.

12ª Com que fim a Providência outorgou de maneira especial, a certos
indivíduos, o dom da mediunidade?

"É uma missão de que se incumbiram e cujo desempenho os faz ditosos. São os intérpretes dos Espíritos com os homens."

13ª Entretanto, médiuns há que manifestam repugnância ao uso de suas faculdades.

"São médiuns imperfeitos; desconhecem o valor da graça que lhes é concedida."

14ª Se é uma missão, como se explica que não constitua privilégio dos homens de bem e que semelhante faculdade seja concedida a pessoas que nenhuma estima merecem e que dela podem abusar?

"A faculdade lhes é concedida, porque precisam dela para se melhorarem, para ficarem em condições de receber bons ensinamentos. Se não aproveitam da concessão, sofrerão as consequências. Jesus não pregava de preferência aos pecadores, dizendo ser preciso dar àquele que não tem?"

15ª As pessoas que desejam muito escrever como médiuns, e que não o
conseguem, poderão concluir daí alguma coisa contra si mesmas, no tocante à benevolência dos Espíritos para com elas?

"Não, pois pode dar-se que Deus lhe haja negado essa faculdade, como negado tenha o dom da poesia, ou da música. Porém, se não forem objecto desse favor, podem ter sido de outros."

16ª Como pode um homem aperfeiçoar-se mediante o ensino dos Espíritos,
quando não tem, nem por si mesmo, nem com o auxílio de outros médiuns, os meios de receber de modo directo esse ensinamento?

"Não tem ele os livros, como tem o cristão o Evangelho? Para praticar a moral de Jesus, não é preciso que o cristão tenha ouvido as palavras ao lhe saírem da boca."

O livro dos Médiuns

Mudança de caligrafia


Mudança de caligrafia


219. Um fenômeno muito comum nos médiuns escreventes é a mudança da
caligrafia, conforme os Espíritos que se comunicam. E o que há de mais notável é que
uma certa caligrafia se reproduz constantemente com determinado Espírito, sendo às
vezes idêntica à que este tinha em vida. Veremos mais tarde as conseqüências que daí se
podem tirar, com relação à identidade dos Espíritos. A mudança da caligrafia só se dá
com os médiuns mecânicos ou semimecânicos, porque neles é involuntário o movimento
da mão e dirigido unicamente pelo Espírito. O mesmo já não sucede com os médiuns
puramente intuitivos, visto que, neste caso, o Espírito apenas atua sobre o pensamento,
sendo a mão dirigida, como nas circunstâncias ordinárias, pela vontade do médium.
Mas, a uniformidade da caligrafia, mesmo em se tratando de um médium mecânico, nada
absolutamente prova contra a sua faculdade, porquanto a variação da forma da escrita
não é condição absoluta, na manifestação dos Espíritos: deriva de uma aptidão especial,
de que nem sempre são dotados os médiuns, ainda os mais mecânicos. Aos que a
possuem damos a denominação de Médiuns polígrafos.


O livro dos médiuns

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A alma após a morte


A alma após a morte


149. Que sucede à alma no instante da morte?

“Volta a ser Espírito, isto é, volve ao mundo dos Espíritos, donde se apartara momentaneamente.”

150. A alma, após a morte, conserva a sua individualidade?

“Sim; jamais a perde. Que seria ela, se não a conservasse?”
a) - Como comprova a alma a sua individualidade, uma vez que não tem mais corpo material?
“Continua a ter um fluido que lhe é próprio, haurido na atmosfera do seu planeta, e que guarda a aparência de sua última encarnação: seu perispírito.”

b) - A alma nada leva consigo deste mundo?

“Nada, a não ser a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor, lembrança cheia de doçura ou de amargor, conforme o uso que ela fez da vida. Quanto mais pura for, melhor compreenderá a futilidade do que deixa na Terra.”

151. Que pensar da opinião dos que dizem que após a morte a alma retorna ao todo universal?

“O conjunto dos Espíritos não forma um todo? Não constitui um mundo completo?
Quando estás numa assembleia, és parte integrante dela; mas, não obstante, conservas sempre a tua individualidade.”

152. Que prova podemos ter da individualidade da alma depois da morte?

“Não tendes essa prova nas comunicações que recebeis? Se não fôsseis cegos, veríeis; se não fôsseis surdos, ouviríeis; pois que muito amiúde uma voz vos fala, reveladora da existência de um ser que está fora de vós.”
Os que pensam que, pela morte, a alma reingressa no todo universal estão em erro, se supõem que, semelhante à gota d’água que cai no Oceano, ela perde ali a sua individualidade. Estão certos, se por todo universal entendem o conjunto dos seres incorpóreos, conjunto de que cada alma ou Espírito é um elemento.
Se as almas se confundissem num amálgama só teriam as qualidades do conjunto, nada as distinguiria uma das outras. Careceriam de inteligência e de qualidades pessoais quando, ao contrário, em todas as comunicações, denotam ter consciência do seu eu e vontade própria. A diversidade infinita que apresentam, sob todos os aspectos, é a consequência mesma de constituírem individualidades diversas. Se, após a morte, só houvesse o que se chama o grande Todo, a absorver todas as individualidades, esse Todo
seria uniforme e, então, as comunicações que se recebessem do mundo invisível seriam idênticas. Desde que, porém, lá se nos deparam seres bons e maus, sábios e ignorantes, felizes e desgraçados; que lá os há de todos os caracteres: alegres e tristes, levianos e ponderados, etc., patente se faz que eles são seres distintos. A individualidade ainda mais evidente se torna, quando esses seres provam a sua identidade por indicações incontestáveis
particularidades individuais verificáveis, referentes às suas vidas terrestres, Também não pode ser posta em dúvida, quando se fazem visíveis nas aparições. A individualidade da alma nos era ensinada em teoria, como artigo de fé. O Espiritismo a torna manifesta e, de certo modo, material.

153. Em que sentido se deve entender a vida eterna?

“A vida do Espírito é que é eterna; a do corpo é transitória e passageira. Quando o corpo morre, a alma retoma a vida eterna.”
a) Não seria mais exacto chamar vida eterna à dos Espíritos puros, dos que, tendo atingido a perfeição, não estão sujeitos a sofrer mais prova alguma?
“Essa é antes a felicidade eterna. Mas isto constitui uma questão de palavras.
Chamai as coisas como quiserdes, contanto que vos entendais.”


Referencia: O livro dos espíritos

sábado, 10 de novembro de 2007

Desenvolvimento da mediunidade


Desenvolvimento da mediunidade

200. Trataremos aqui, especialmente, dos médiuns escreventes, por ser o género de mediunidade que mais se expandiu, além disso, porque é, ao mesmo tempo o mais simples, o mais cómodo, o que dá resultados mais satisfatórios e completos. E também o que toda gente ambiciona possuir. Infelizmente, até hoje, nenhum meio de diagnóstico se pode inferir, ainda que aproximadamente, que alguém possua essa faculdade. Os sinais físicos que alguns tomam por indícios nada têm de certo. Ela se manifesta nas crianças e nos velhos, em homens e mulheres, quaisquer que sejam o temperamento, o estado de saúde, o grau de desenvolvimento intelectual e moral. Só existe um meio de se lhe comprovar a existência. É experimentar.
Pode obter-se a escrita, como já vimos, com o auxílio das cestas e pranchetas ou directamente pela mão. Sendo este último modo o mais fácil, e podemos dizer que o único hoje empregado
, este último modo é o que recomendamos à preferência de todos. O processo é dos mais simples: consiste unicamente em a pessoa tomar de um lápis e de papel e colocar-se na posição de quem escreve, sem qualquer outro preparativo. Entretanto, para que
alcance bom êxito, muitas recomendações se fazem indispensáveis.

201. No tocante às condições material, recomendamos evitar-se tudo o que possa impedir o movimento da mão. É mesmo preferível que esta não se apoie no papel. A ponta do lápis deve manter o contacto necessário para escrever, mas não tanto
que ofereça resistência. Todas essas precauções se tornam inúteis quando se começa a escrever correctamente, porque então nenhum obstáculo detém mais a mão. Essas são apenas preliminares para o aprendizado.

202. É indiferente que se use da pena ou do lápis. Alguns médiuns preferem a pena que, todavia, só pode servir para os que estejam formados e escrevem pausadamente. Outros, porém, escrevem com tal velocidade, que o uso da pena seria quase impossível, ou, pelo menos, muito incómodo. O mesmo sucede, quando a escrita
é feita às arrancadas e irregularmente, ou quando se manifestam Espíritos violentos, que batem com a ponta do lápis e a quebram, rasgando o papel.

203. O desejo natural de todo aspirante a médium é o de poder conversar com os Espíritos das pessoas que lhe são caras; deve, porém, moderara sua impaciência, porque a comunicação com determinado Espírito apresenta muitas vezes dificuldades
materiais que a tornam impossível ao principiante. Para que um Espírito possa comunicar-se,é preciso que haja entre ele e o médium relações fluídicas, que nem sempre se estabelecem instantaneamente. Só à medida que a faculdade se desenvolve, é
que o médium adquire pouco a pouco a aptidão necessária para pôr-se em comunicação com o Espírito que se apresente. Pode dar-se, pois, que aquele com quem o médium deseje comunicar-se, não esteja em condições propícias a fazê-lo, embora se ache
presente, como também pode acontecer que não tenha possibilidade, nem permissão para acudir ao chamado que lhe é dirigido. Convém, por isso, que no começo ninguém
se obstine em chamar determinado Espírito, com exclusão de qualquer outro, pois amiúde sucede não ser com esse que as relações fluídicas se estabelecem mais facilmente, por maior que seja a simpatia que lhe vote o encarnado. Antes, pois, de
pensar em obter comunicações de tal ou tal Espírito, importa que o aspirante leve a efeito o desenvolvimento da sua faculdade, para o que deve fazer um apelo geral e dirigir-se principalmente ao seu anjo guardião.
Não há, para esse fim, nenhuma fórmula sacramental. Quem quer que pretenda indicar alguma pode ser tachado, sem receio, de impostor, visto que para os Espíritos a forma nada vale. Contudo, a evocação deve sempre ser feita em nome de Deus. Pode-se fazê-la nos termos seguintes, ou outros equivalentes: Rogo a Deus Todo-Poderoso que permita venha um bom Espírito comunicar-se comigo e fazer-me escrever; peço também ao meu anjo de guarda se digne de me assistir e de afastar os maus Espíritos.
Formulada a súplica, é esperar que um Espírito se manifeste, fazendo escrever alguma
coisa. Pode acontecer que venha aquele que se deseja, como pode ocorrer também venha um Espírito desconhecido ou o anjo de guarda. Qualquer que ele seja, geralmente, dar-se-á conhecer, escrevendo o seu nome. Mas, então apresenta-se a questão da identidade, uma das que mais experiência requerem, por isso que poucos principiantes haverá que não estejam expostos a ser enganados. Dela trataremos adiante, em capítulo especial.
Quando queira chamar determinados Espíritos, é essencial que o médium comece por se dirigir somente aos que ele sabe serem bons e simpáticos e que podem ter motivo para acudir ao apelo, como parentes, ou amigos.
Neste caso, a evocação pode ser formulada assim: Em nome de Deus Todo-Poderoso peço que tal Espírito se comunique comigo, ou então: Peço a Deus Todo-Poderoso permita que tal Espírito se comunique comigo; ou qualquer outra fórmula que corresponda ao mesmo pensamento.
Não é menos necessário que as primeiras perguntas sejam concebidas de tal sorte que as respostas possam ser dadas por um sim ou um não, como por exemplo: Estas aí? Queres responder-me? Podes fazer-me escrever? etc. Mais tarde essa precaução se torna inútil. No princípio, trata-se de estabelecer assim uma relação. O essencial é que a pergunta não seja fútil, não diga
respeito a coisas de interesse particular e, sobretudo, seja a expressão de um sentimento de benevolência e simpatia para com o Espírito a quem é dirigida. (Veja-se adiante o capítulo especial sobre as Evocações.)

204. Coisa ainda mais importante a ser observada, do que o modo da evocação, são a calma e o recolhimento, juntas ao desejo ardente e à firme vontade de conseguir-se o intuito. Por vontade, não entendemos aqui uma vontade efémera, que age com
intermitências e que outras preocupações interrompem a cada momento; mas, uma vontade séria, perseverante, contínua, sem impaciência, sem ansiedade. O recolhimento é favorecido pela solidão, o silêncio e o afastamento de tudo o que possa ser causa de distracção. Então, uma só coisa resta a fazer: renovar todos os dias a tentativa, por dez minutos, ou um quarto de hora, no máximo, de cada vez, durante quinze dias, um mês, dois meses e mais, se for preciso. Conhecemos médiuns que só se formaram depois de seis meses de exercício, ao passo que outros escrevem correntemente logo da primeira vez.

205. Para se evitarem tentativas inúteis, pode consultar-se, por outro médium, um Espírito sério e adiantado. Mas é bom lembrar que, quando alguém inquire aos Espíritos se é médium ou não, eles quase sempre respondem afirmativamente, o que não
impede que os ensaios resultem infrutíferos. Isso se explica naturalmente. Desde que se faça ao Espírito uma pergunta de ordem geral, ele responde de modo geral. Ora, como se sabe, nada é mais elástico do que a faculdade mediúnica, pois que pode apresentar-se sob as mais variadas formas e em graus muito diferentes. Pode, portanto, uma pessoa ser médium, sem dar por isso, e num sentido diverso daquele que imagina. A esta
pergunta vaga: Sou médium? O Espírito pode responder - Sim. A esta outra mais precisa: Sou médium escrevente? Pode responder - Não.
Deve também levar-se em conta a natureza do Espírito a quem é feita a pergunta. Há-os tão levianos e ignorantes, que respondem a torto e a direito, como verdadeiros estúrdios. Por isso aconselhamos se dirija o interrogante a Espíritos esclarecidos, que, geralmente, respondem de boa-vontade a essas perguntas e indicam o melhor caminho a seguir-se, desde que haja possibilidade de bom êxito.

206. Um meio que muito frequentemente dá bom resultado consiste em empregar-se, como auxiliar de ocasião, um bom médium escrevente, maleável, já formado. Pondo ele a mão, ou os dedos, sobre a mão do que deseja escrever, raro é que este último não o faça imediatamente. Compreende-se o que em tal circunstância se passa: a mão que segura ó lápis se torna, de certo modo, um apêndice da mão do médium, como o seria uma cesta, ou uma prancheta. Isto, porém, não impede que esse exercício seja muito útil, quando é possível empregá-lo, visto que, repetido amiúde e regularmente, ajuda a vencer o obstáculo material e provoca o desenvolvimento da faculdade. Algumas vezes, basta mesmo que o médium magnetize, com essa intenção, a
mão e o braço daquele que quer escrever. Não raro até limitando-se o magnetizador a colocar a mão no ombro daquele, temo-lo visto escrever prontamente sob essa influência. Idêntico
efeito pode também produzir-se sem nenhum contacto, apenas por acto da vontade do auxiliar. Concebe-se facilmente que a confiança do magnetizador no seu poder, para produzir tal resultado, há de aí desempenhar papel importante e que um magnetizador incrédulo fraca acção ou nenhuma, exercerá.
O concurso de um guia experimentado é, além disso, muito útil, às vezes, para apontar ao principiante uma porção de precauções que ele frequentemente despreza, em detrimento da rapidez de seus progressos. Sobretudo o é para esclarecê-lo sobre a natureza das primeiras questões e sobre a maneira de propô-las. Seu papel é o de um professor, que o aprendiz dispensará logo que esteja bem habilitado.

207. Outro meio, que também pode contribuir fortemente para desenvolver a faculdade, consiste em reunir-se certo número de pessoas, todas animadas do mesmo desejo e comungando na mesma intenção. Feito isso, todas simultaneamente, guardando
absoluto silêncio e num recolhimento religioso, tentem escrever, apelando cada um para o seu anjo de guarda, ou para qualquer Espírito simpático. Ou, então, uma delas poderá dirigir, sem designação especial e por todos os presentes, um apelo aos bons Espíritos em geral, dizendo por exemplo: Em nome de Deus Todo-Poderoso, pedimos aos bons Espíritos que se dignem de comunicar-se por intermédio das pessoas aqui presentes. E
raro que entre estas não haja algumas que dêem prontos sinais de mediunidade, ou que até escrevam correntemente em pouco tempo. Compreende-se o que em tal caso ocorre. Os que se reúnem com um intento comum formam um todo colectivo, cuja força e sensibilidade se encontram acrescidas por uma espécie de influência magnética, que auxilia o desenvolvimento da faculdade. Entre os Espíritos atraídos por esse concurso de vontades estarão, provavelmente, alguns que descobrirão nos assistentes o instrumento que lhes convenha. Se não for este, será
outro e eles se aproveitarão desse.
Este meio deve sobretudo ser empregado nos grupos espíritas a que faltam médiuns, ou que não os possuam em número suficiente.

208. Têm-se procurado processos para a formação dos médiuns, como se têm procurado diagnósticos; mas, até hoje não conhecemos outro mais eficaz do que os que indicamos. Na persuasão de ser uma resistência de ordem toda material o obstáculo que encontra o desenvolvimento da faculdade, algumas pessoas pretendem vencê-la por meio de uma espécie de ginástica quase capaz de deslocar o braço e da cabeça. Não descrevemos esse processo, que nos vem do outro lado do Atlântico, não só porque nenhuma prova possuímos da sua eficiência, como também pela convicção que nutrimos de que há de oferecer perigo para os de compleição delicada, pelo abalo do sistema
nervoso. Se não existirem rudimentos da faculdade, nada poderá produzi-los, nem mesmo a electrização, que já foi empregada, sem êxito, com o mesmo objectivo.

209. No médium aprendiz, a fé não é a condição rigorosa; sem dúvida lhe secunda os esforços, mas não é indispensável; a pureza de intenção, o desejo e a boa vontade bastam. Têm-se visto pessoas inteiramente incrédulas ficarem espantadas de
escrever a seu mau grado, enquanto que crentes sinceros não o conseguem, o que prova que esta faculdade se prende a uma disposição orgânica.

210. O primeiro indício de disposição para escrever é uma espécie de frêmito no braço e na mão. Pouco a pouco, a mão é arrastada por uma impulsão que ela não logra dominar. Muitas vezes, não traça senão riscos insignificantes; depois, os caracteres se
desenham cada vez mais nitidamente e a escrita acaba por adquirir a rapidez da escrita ordinária. Em todos os casos, deve-se entregar a mão ao seu movimento natural e não oferecer resistência, nem a propelindo.
Alguns médiuns escrevem desde o princípio correntemente com facilidade, às vezes mesmo desde a primeira sessão, o que é muito raro. Outros, durante muito tempo, traçam riscos e fazem verdadeiros exercícios caligráficos. Dizem os Espíritos que é para
lhes soltar a mão. Em se prolongando demasiado esses exercícios, ou degenerando na grafia de sinais ridículos, não há duvidar de que se trata de um Espírito que se diverte, porquanto os bons Espíritos nunca fazem nada que seja inútil. Nesse caso, cumpre
redobrar de fervor no apelo à assistência destes. Se, apesar de tudo, nenhuma alteração houver, deve o médium parar, uma vez reconheça que nada de sério obtém. A tentativa pode ser feita todos os dias, mas convém cesse aos primeiros sinais equívocos, a fim de não ser dada satisfação aos Espíritos zombeteiros.
A estas observações, acrescenta um Espírito: "Há médiuns cuja faculdade não pode produzir senão esses sinais. Quando, ao cabo de alguns meses, nada mais obtém do que coisas insignificantes, ora um sim, ora um não ou letras sem conexão, é inútil
continuarem, será gastar papel em pura perda. São médiuns, mas médiuns improdutivos.
Demais, as primeiras comunicações obtidas devem considerar-se meros exercícios, tarefa que é confiada a Espíritos secundários. Não se lhes deve dar muita importância, visto que procedem de Espíritos empregados, por assim dizer, como mestres de escrita,
para desembaraçarem o médium principiante. Não creiais sejam alguma vez Espíritos elevados os que se aplicam a fazer com o médium esses exercícios preparatórios; acontece, porém, que, se o médium não colima um fim sério, esses Espíritos continuam
e acabam por se lhe ligarem. Quase todos os médiuns passaram por este cadinho, para se desenvolverem; cabe-lhes fazer o que seja preciso a captarem a simpatia dos Espíritos verdadeiramente superiores."

211. A dificuldade encontrada pela maioria dos médiuns Principiantes é o de terem de haver-se com Espíritos inferiores e devem dar-se por felizes quando são apenas Espíritos levianos. Toda a sua atenção precisa ser empregada para não os deixar tomar pé, porque uma vez firmados nem sempre é fácil afastá-los.
É ponto este de tal modo capital, sobretudo em começo, que, não sendo tomadas as precauções necessárias, podem perder-se os frutos das mais belas faculdades.
A primeira condição é colocar-se o médium, com fé sincera, sob a protecção de Deus e solicitar a assistência do seu anjo de guarda, que é sempre bom, ao passo que os espíritos familiares, por simpatizarem com as suas boas ou más qualidades, podem ser
levianos ou mesmo maus.
A segunda condição é aplicar-se, com meticuloso cuidado, a reconhecer, por todos os indícios que a experiência faculta, de que natureza são os primeiros Espíritos que se comunicam e dos quais manda a prudência sempre se desconfie. Se forem suspeitos esses indícios, dirigir fervoroso apelo ao seu anjo de guarda e repelir, com todas as forças, o mau Espírito, provando-lhe que não conseguirá enganar, a fim de que ele desanime. Por isso é que indispensável se faz o estudo prévio da teoria, para todo
aquele que queira evitar os inconvenientes peculiares à experiência. A este respeito, instruções muito desenvolvidas se encontram nos capítulos Da obsessão e Da identidade dos Espíritos. Limitar-nos-emos aqui a dizer que, além da linguagem, podem considerar-se provas infalíveis da inferioridade dos Espíritos. todos os sinais, figuras, emblemas inúteis, ou pueris; toda escrita extravagante, irregular, intencionalmente
torturada, de exageradas dimensões, apresentando formas ridículas e desusadas. A escrita pode ser muito má, mesmo pouco legível, sem que isso tenha o que quer que seja de insólito, porquanto é mais questão do médium que do Espírito. Temos visto médiuns de tal maneira enganados, que medem a superioridade dos Espíritos pelas dimensões das letras e que ligam grande importância às letras bem talhadas, como se foram letras de imprensa, puerilidade evidentemente incompatível com uma superioridade real.

212. Se é importante não cair o médium, sem o querer, na dependência dos maus Espíritos, ainda mais importante é que não caia por espontânea vontade. Preciso, pois, se torna que imoderado desejo de escrever não o leve a considerar indiferente
dirigir-se ao primeiro que apareça, salvo para mais tarde se livrar dele, caso não convenha, por isso que ninguém pedirá impunemente, seja para o que for, a assistência de um mau Espírito, o qual pode fazer que o imprudente lhe pague caro os serviços.
Algumas pessoas, na impaciência de verem desenvolver-se em si as faculdades mediúnicas, desenvolvimento que consideram muito demorado, se lembram de buscar o auxílio de um Espírito qualquer, ainda que mau, contando despedi-lo logo. Muitas foram logo atendidos e escrevem imediatamente.. Porém, o Espírito, pouco se incomodando com o ter sido chamado na pior das hipóteses, menos dócil se mostrou em ir-se do que em vir. Conhecemos, que foram punidas na presunção de se julgarem bastante fortes para afastá-los quando o quisessem, por anos de
obsessões de toda espécie, pelas mais ridículas mistificações, por uma fascinação tenaz e, até, por desgraças materiais e pelas mais cruéis decepções. O Espírito se mostrou, a princípio, abertamente mau, depois hipócrita, a fim de fazer crer na sua conversão, ou
no pretendido poder do seu subjugado, para repeli-lo à vontade.

213. A escrita é algumas vezes legível, as palavras e as letras bem destacadas.Mas, com certos médiuns é difícil de decifrar por outras pessoas,sendo necessário habituar-se a ela. É formada, frequentemente, de grandes traços; os Espíritos não costumam economizar papel. Quando uma palavra ou uma frase é quase
de todo ilegível, pede-se ao Espírito que consinta em recomeçar, ao que ele em geral aquiesce de boa-vontade. Quando a escrita é habitualmente ilegível, mesmo para o médium, este chega quase sempre a obtê-la mais nítida, por meio de exercícios frequentes e
demorados, pondo nisso uma vontade forte e rogando com fervor ao Espírito que seja mais correcto. Alguns Espíritos adoptam sinais convencionais, que passam a ser de uso nas reuniões do costume. Para assinalarem que uma pergunta lhes desagrada e que não querem responder a ela, fazem, por exemplo, um risco longo ou coisa equivalente.
Quando o Espírito conclui o que tinha a dizer, ou não quer continuar a responder, a mão fica imóvel e o médium, quaisquer que sejam seu poder e sua vontade, não obtém nem mais uma palavra. Ao contrário, enquanto o Espírito não conclui, o lápis
se move sem que seja possível à mão detê-lo. Se o Espírito quer espontaneamente dizer alguma coisa, a mão toma convulsivamente o lápis e se põe a escrever, sem poder obstar
a isso O médium, aliás, sente quase sempre em si alguma coisa que lhe indica ser momentânea a parada, ou ter o Espírito concluído. É raro que não sinta o afastamento deste último.
Estas as explicações essenciais que temos para ministrar, no tocante ao desenvolvimento da psicografia. A experiência revelará, na prática, alguns pormenores de que seria inútil tratar aqui e a cujo respeito os princípios gerais servirão de guia. Se
muitos forem os que experimentarem, haverá mais médiuns do que em geral se pensa.

214. Tudo o que acabamos de dizer se aplica à escrita mecânica. E a que todos os médiuns procuram, com razão, conseguir. Porém, raríssimo é o mecanismo puro; a ele se acha frequentemente associada, mais ou menos, a intuição. Tendo consciência do que escreve, o médium é naturalmente levado a duvidar da sua faculdade; não sabe se o que lhe sai do lápis vem do seu próprio, ou de outro Espírito. Não tem absolutamente
que se preocupar com isso e, nada obstante, deve prosseguir. Se se observar a si mesmo com atenção, facilmente descobrirá no que escreve uma porção de coisas que lhe não passavam pela mente e que até são contrárias às suas ideias, prova evidente de que tais coisas não provêm do seu Espírito. Continue, portanto, e, com a experiência, a dúvida se dissipará.

215. Se ao médium não foi concedido ser exclusivamente mecânico, todas as tentativas para chegar a esse resultado serão infrutíferas; erro seu, no entanto, se por isso se julgasse deserdado. Se apenas é dotado de mediunidade intuitiva, cumpre que com isso se contente e ela não deixará de lhe prestar grandes
serviços, se a souber aproveitar e não a repelir. Desde que, após inúteis experimentações, efectuadas seguidamente durante algum
tempo, nenhum indício de movimento involuntário se produz, ou os que se produzem são por demais fracos para dar resultados, não deve ele hesitar em escrever o primeiro pensamento que lhe for sugerido, sem se preocupar com o saber se esse pensamento
provem do seu Espírito ou de uma fonte diversa: a experiência lhe ensinará a distinguir.
Aliás, é frequente acontecer que o movimento mecânico se desenvolva ulteriormente.
Dissemos acima haver casos em que é indiferente saber o médium se o pensamento vem de si próprio, ou de outro Espírito. Isso ocorre quando, sendo ele puramente intuitivo ou inspirado, executa por si mesmo um trabalho de imaginação.
Pouco importa atribua a si próprio um pensamento que lhe foi sugerido; se lhe acodem boas ideias, agradeça ao seu bom génio, que não deixará de lhe sugerir outros. Tal é a inspiração dos poetas, dos filósofos e dos sábios.

216. Suponhamos agora que a faculdade mediúnica esteja completamente desenvolvida; que o médium escreva com facilidade; que seja, em suma, o que se chama um médium feito. Grande erro de sua parte fora crer-se dispensado de qualquer
instrução mais, porquanto apenas terá vencido uma resistência material. Do ponto a que chegou é que começam as verdadeiras dificuldades, é que ele mais do que nunca precisa dos conselhos da prudência e da experiência, se não quiser cair nas mil armadilhas que lhe vão ser preparadas. Se pretender muito cedo voar com suas próprias asas, não tardará em ser vítima de
Espíritos mentirosos, que não se descuidarão de lhe explorar a presunção.

217. Uma vez desenvolvida a faculdade, é essencial que o médium não abuse dela. O contentamento que daí advém a alguns principiantes lhes provoca um entusiasmo, que muito importa moderar. Devem lembrar-se de que ela lhes foi dada para
o bem e não para satisfação de vã curiosidade. Convém, portanto, que só se utilizem dela nas ocasiões oportunas e não a todo momento. Não lhes estando os Espíritos ao dispor a toda hora, correm o risco de ser enganados por mistificadores. Bom é que, para evitarem esse mal, adoptem o sistema de só trabalhar em dias e horas determinados, porque assim se entregarão ao trabalho em condições de maior recolhimento e os Espíritos que os queiram auxiliar, estando prevenidos, se disporão melhor a prestar esse
auxílio.

218. Se, apesar de todas as tentativas, a mediunidade não se revelar de modo algum, deverá o aspirante renunciar a ser médium, como renuncia ao canto quem reconhece não ter voz. Do mesmo modo que aquele que ignora uma língua se vale de
um tradutor, o recurso para o dito aspirante será servir-se de outro médium. Mas, se não puder, à falta de médiuns, recorrer a nenhum, nem por isso deverá considerar-se privado da assistência dos Espíritos. Para estes, a mediunidade constitui um meio de se
exprimirem, porém, não um meio exclusivo de serem atraídos. Os que nos consagram afeição se acham ao nosso lado, sejamos ou não médiuns. Um pai não abandona um filho porque, surdo e cego, não o pode ouvir nem ver; cerca-o, ao contrário, de toda a
solicitude. O mesmo fazem connosco os bons Espíritos. Se não podem transmitir-nos materialmente seus pensamentos, auxiliam-nos por meio da inspiração.

Referencia: O livro dos médiuns

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Senhor Adrien,médium vidente



Senhor Adrien, médium vidente
Revista Espírita, Dezembro de 1858

Toda pessoa que pode ver os Espíritos sem auxílio de terceiro é, por isso mesmo, médium
vidente; mas, em geral, as aparições são fortuitas, acidentais. Não conhecemos, ainda,
ninguém apto a vê-los de modo permanente, e à vontade. É dessa notável faculdade que
está dotado o senhor Adrien, um dos membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Ele é, ao mesmo tempo, médium vidente, escrevente, audiente e sensitivo. Como médium
escrevente, ele escreve sob o ditado dos Espíritos, mas raramente de modo mecânico, como
os médiuns puramente passivos; quer dizer que, embora escreva coisas estranhas ao seu
pensamento, tem consciência do que escreve. Como médium audiente, ouve as vozes ocultas
que lhe falam. Temos, na Sociedade, dois outros médiuns que gozam dessa última faculdade
em muito alto grau. São, ao mesmo tempo, muito bons médiuns escreventes. Enfim, como
médium sensitivo, sente os toques dos Espíritos e a pressão que exercem sobre ele; sente-lhes
mesmo comoções eléctricas muito violentas, que se comunicam às pessoas presentes.
Quando magnetiza alguém, pode, à vontade, quando isso é necessário à saúde, produzir
sobre ele os abalos da pilha voltaica.
Uma nova faculdade acaba de se revelar nele, a da dupla vista; sem ser sonâmbulo, e
embora esteja perfeitamente desperto, vê à vontade, a uma distância ilimitada, mesmo além
dos mares, o que se passa em uma localidade; vê as pessoas e o que elas fazem; descreve
os lugares e os factos com uma precisão cuja exactidão foi verificada. Apressamo-nos em dizer
que o senhor Adrien não é um desses homens fracos e crédulos que se deixam ir pela
imaginação; ao contrário, é um homem de carácter muito frio, muito calmo, e que vê tudo
isso com o mais absoluto sangue frio, não dizemos com indiferença, longe disso, porque ele
toma suas faculdades a sério, e as considera como um dom da Providência, que lhe foi
concedido para o bem, também não se serve deles senão para as coisas úteis, e jamais para
satisfazer uma vã curiosidade. É um homem jovem, de uma família distinta, muito honrada,
de um carácter ameno e benevolente, e cuja educação cuida de se revelar em sua linguagem
e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar, percorreu uma parte da
África, da índia, e de nossas colónias.
De todas suas faculdades como médium, a mais notável, e em nossa opinião a mais preciosa,
é a de médium vidente. Os Espíritos lhe aparecem sob a forma que descrevemos em nosso
artigo precedente sobre as aparições; ele os vê com uma precisão da qual pode-se julgar
pelos retratos, que damos adiante, da viúva de Malabar e da Belle Cordière de Lyon. Mas, dir-se-
á, o que prova que ele vê bem e que não é o joguete de uma ilusão? O que o prova, é que
quando uma pessoa, que ele não conhece, evoca por seu intermédio um parente, um amigo
que ele jamais viu, e dele faz um retrato surpreendente de semelhança e que pudemos
mesmo constatar; não há, pois, para nós nenhuma dúvida sobre essa faculdade que ele goza
no estado de vigília, e não como sonâmbulo.
O que há de mais notável ainda, talvez, é que não vê só os Espíritos evocados; ao mesmo
tempo, vê todos aqueles que estão presentes, evocados ou não; ele os vê entrarem, saírem,
irem, virem escutarem o que se diz, rirem ou levarem a sério, segundo seu carácter; em uns
há gravidade; em outros, um ar zombeteiro e sardónico; algumas vezes um deles avança até
um dos assistentes, lhe coloca a mão sobre a espádua ou se coloca ao seu lado, alguns se
mantêm afastado; em uma palavra, em toda reunião, há sempre uma assembleia oculta Senhor Adrien, médium vidente
composta de Espíritos atraídos por sua simpatia pelas pessoas, e pelas coisas pelas quais se
ocupem. Nas ruas vê uma multidão, porque além dos Espíritos familiares que acompanham
seus protegidos, há ali, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos vadios. Em sua casa,
disse-nos, não está jamais só, e não se entedia nunca; tem sempre uma sociedade com a
qual ele conversa.
Sua faculdade se estende não somente aos Espíritos dos mortos, mas aos dos vivos; quando
vê uma pessoa, pode fazer abstracção do corpo; então o Espírito lhe aparece como se
estivesse separado dele, e pode conversar com ele: Em uma criança, por exemplo, pode ver
o Espírito que está encarnado nela, apreciar a sua natureza, e saber o que era antes de sua
encarnação.
Essa faculdade, estendida a esse grau, nos inicia melhor, que todas as comunicações escritas,
na natureza do mundo dos Espíritos; no-lo mostra tal qual é, e se não o vemos pelos nossos
olhos, a descrição que dele nos dá fá-lo ver pelo pensamento; os Espíritos não são mais seres
abstractos, são seres reais, que estão ali ao nosso lado, que nos acotovelam sem cessar, e
como sabemos agora que seu contacto pode ser material, compreendemos a causa de uma
multidão de impressões que sentimos sem delas nos rendermos conta. Também colocamos o
senhor Adrien no número dos mais notáveis médiuns, e na primeira classe daqueles que
forneceram os elementos mais preciosos para o conhecimento do mundo espírita. Sobretudo,
o colocamos na primeira classe por suas qualidades pessoais, que são as de um homem de
bem por excelência, e que o tornam eminentemente simpático aos Espíritos da mais elevada
ordem, o que não ocorre sempre entre os médiuns de influências puramente físicas. Sem
dúvida, entre estes últimos, aos que farão mais sensação, cativarão melhor a curiosidade;
mas para o observador, para aquele que quer sondar os mistérios desse mundo maravilhoso,
o senhor Adrien é o mais poderoso auxiliar que já vimos. Também colocamos sua faculdade,
e sua complacência, em proveito de nossa instrução pessoal, seja na intimidade, seja nas
sessões da Sociedade, seja, enfim, na visita de diversos lugares de reunião. Estivemos juntos
no teatro, nos bailes, nos passeios, nos hospitais, nos cemitérios, nas igrejas; assistimos a
enterros, a casamentos, a baptismos, a sermões: por toda parte observamos a natureza dos
Espíritos que ali vinham se agrupar, entabulamos conversação com alguns, os interrogamos e
aprendemos muitas coisas das quais aproveitaremos aos nossos leitores, porque nosso
objectivo é fazê-los penetrarem, como nós, nesse mundo tão novo para nós. O microscópio
nos revelou um mundo dos infinitamente pequenos que não supúnhamos, embora estivesse
sob nossos dedos; o telescópio nos revelou a infinidade de mundos celestes, que não
supúnhamos mais; o Espiritismo nos descobre o mundo dos Espíritos que está por toda parte,
ao nosso lado como nos espaços; mundo real que reage incessantemente sobre nós.

Revista espirita 1858 Dezembro

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Das aparições



Das aparições
Revista Espírita, Dezembro de 1858

O fenómeno das aparições se apresenta hoje sob um aspecto de alguma sorte novo, e que
lança uma luz viva sobre os mistérios da vida além-túmulo. Antes de abordarmos os factos
estranhos que vamos relatar, cremos dever retornar sobre a explicação que deles foi dada, e
completá-la.
Não se pode perder de vista que, durante a vida, o Espírito está unido ao corpo por uma
substância semi-material que designamos sob o nome de perispírito. O Espírito tem, pois,
dois envoltórios: um grosseiro, pesado e destrutível: é o corpo; o outro etéreo, vaporoso e
indestrutível: é o perispírito. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro, é a
veste de cima usada que se deixa; o envoltório semi-material persiste, e constitui, por assim
dizer, um novo corpo para o Espírito. Essa matéria etérea não ó a alma, anotemos bem, não
é senão o primeiro envoltório da alma. A natureza íntima dessa substância, ainda, não nos é
perfeitamente conhecida, mas a observação nos colocou no caminho de algumas dessas
propriedades. Sabemos que ela desempenha um papel capital em todos os fenómenos
espíritas; depois da morte ó o agente intermediário entre o Espírito e a matéria, como o
corpo durante a vida. Por aí se explicam uma multidão de problemas até agora insolúveis.
Ver-se-á, num artigo subsequente, o papel que ela desempenha nas sensações do Espírito.
Também a descoberta, se assim se pode exprimir, do perispírito, fez dar um passo imenso à
ciência espírita; fê-la entrar num caminho todo novo. Mas esse perispírito, direis, não é uma
criação fantástica da imaginação? Não é uma dessas suposições como, frequentemente, faz-se
na ciência para explicar certos efeitos? Não, não é uma obra de imaginação, porque foram
os próprios Espíritos que o revelaram; não é uma ideia fantástica, porque pode ser
constatada pelos sentidos, porque se pode vê-lo e tocá-lo. A coisa existe, só a palavra é
nossa. São necessárias palavras novas para exprimirem coisas novas. Os próprios Espíritos a
adoptaram nas comunicações que temos com eles.
Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é indivisível para nós, mas pode
sofrer modificações que o tomem perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação,
seja por uma mudança na disposição molecular é então que nos aparece sob forma vaporosa.
A condensação (não é preciso tomar essa palavra pela letra, empregamo-la na falta de uma
outra), a condensação, dizíamos, pode ser tal que o perispírito adquire as propriedades de
um corpo sólido e tangível; mas ele pode, instantaneamente, retomar seu estado etéreo e
invisível. Podemos entender esse efeito pelo do vapor, que pode passar da invisibilidade ao
estado brumoso, depois líquido, depois sólido, e vice-versa. Esses diferentes estados do
perispírito são o produto da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior. Quando
nos aparece, é que dá ao seu perispírito a propriedade necessária para torná-lo visível, e essa
propriedade ele pode estender, restringi-la, fazê-la cessar à sua vontade.
Uma outra propriedade da substância do perispírito é a da penetrabilidade. Nenhuma matéria
lhe faz obstáculo: atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.
O perispírito, separado do corpo, afecta uma forma determinada e limitada, e essa forma
normal é a do corpo humano, mas não é constante; o Espírito pode dar-lhe, à sua vontade,
as aparências mais variadas e até a de um animal ou de uma chama. De resto, isto se
concebe muito facilmente. Não se vêem homens darem, ao seu rosto, as expressões mais diversas, imitarem, ao ponto de enganarem, a voz, o rosto de outras pessoas, parecerem
corcundas, coxos, etc.? Quem reconheceria na cidade certos actores que não se vira senão
caracterizado no palco? Se, pois, o homem pode assim dar ao seu corpo material e rígido
aparências tão contrárias, com mais forte razão o Espírito pode fazê-lo com um envoltório
eminentemente flexível, e que pode prestar-se a todos os caprichos da vontade.
Os Espíritos nos aparecem, pois, geralmente sob uma forma humana; em seu estado normal,
essa forma nada tem bem característica, nada que os distingue uns dos outros, de um modo
bem marcado; nos bons Espíritos, ela é ordinariamente bela e regular: os longos cabelos
flutuam sobre os ombros, roupagens envolvem o corpo. Mas, se querem dar-se a conhecer,
tomam exactamente todos os traços sob os quais foram conhecidos, e até a aparência das
vestes, se isso for necessário. Assim, Esopo, por exemplo, como Espírito não é disforme, mas
se for evocado, enquanto Esopo, tivesse mesmo várias existências depois, apareceria
disforme e corcunda, com o costume tradicional. Esse vestuário, talvez, é o que mais
espanta; mas considerando-se que faz parte integrante do envoltório semi-material, concebesse
que o Espírito possa dar, a esse envoltório, a aparência de tal ou tal vestuário, como a de
tal ou de tal rosto.
Os Espíritos podem aparecer seja em sonho, seja no estado de vigília. As aparições no estado
de vigília não são nem raras nem novas; houve-as em todos os tempos; delas a história
narra um grande número; mas, sem remontar tão alto, em nossos dias elas são muito
frequentes, em muitas pessoas que as tiveram, à primeira vista, tomaram-nas pelo que se
convencionou chamar de alucinações. São frequentes, sobretudo, nos casos de morte de
pessoas ausentes, que vêm visitar seus parentes ou amigos. Frequentemente, elas não têm
objectivo determinado, mas pode-se dizer que, em geral, os Espíritos que nos aparecem assim
são seres atraídos a nós pela simpatia. Conhecemos uma jovem senhora que via, muito
frequentemente, em sua casa, em seu quarto, com ou sem luz, homens que ali penetravam e
dali se iam apesar das portas fechadas. Com isso estava muito atemorizada, e isso a tornara
de uma pusilanimidade que se achava ridícula. Um dia, ela viu distintamente seu irmão, que
estava na Califórnia, e que não estava morto de todo: prova que o Espírito dos vivos pode
também transpor as distâncias e aparecer em um lugar ao passo que o corpo está algures.
Depois que essa senhora se iniciou no Espiritismo, não tem mais medo, porque tem
consciência de suas visões, e sabe que os Espíritos que vêm visitá-la, não podem fazer-lhe
mal. Quando seu irmão lhe apareceu, provavelmente estava adormecido; se ela entendesse a
sua presença, poderia conversar com ele, e este último, em seu despertar, poderia disso conservar vaga lembrança. É provável, além disso, que nesse momento ele estivesse
sonhando que estava perto de sua irmã. Dissemos que o perispírito pode adquirir a tangibilidade; disso falamos a propósito das
manifestações produzidas pelo senhor Home. Sabe-se que, várias vezes, fez aparecer mãos que se podiam apalpar, como mãos vivas, e que, de repente, se esvaneciam como uma sombra; mas não se vira, ainda, corpo inteiro sob essa forma tangível; isso não é todavia
uma coisa impossível. Numa família do conhecimento íntimo de um de nossos assinantes, um Espírito se ligou à filha da casa, criança de 10 a 11 anos, sob a forma de um lindo rapaz da mesma idade. Era visível por ela como uma pessoa comum, e se tornava, à vontade, visível ou invisível a outras pessoas; prestou-lhe todas as espécies de bons ofícios, trouxe-lhe brinquedos, bombons, fez serviço da casa, vai comprar o que se tem necessidade, e o que é
mais, lhe paga. Isto não é uma lenda da mística Alemanha, nem é uma história da Idade
Média, é um fato actual, que se passa, no momento em que escrevemos, em uma cidade da
França, e numa família muito honrada. Fomos capazes de fazer, sobre esse facto, estudos
plenos de interesse e que nos forneceram as revelações mais estranhas e as mais
inesperadas. Dele proveremos nossos leitores, de modo mais completo, em um artigo
especial que publicaremos brevemente.

REVISTA ESPIRITA DE 1858 DEZEMBRO