segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Das aparições



Das aparições
Revista Espírita, Dezembro de 1858

O fenómeno das aparições se apresenta hoje sob um aspecto de alguma sorte novo, e que
lança uma luz viva sobre os mistérios da vida além-túmulo. Antes de abordarmos os factos
estranhos que vamos relatar, cremos dever retornar sobre a explicação que deles foi dada, e
completá-la.
Não se pode perder de vista que, durante a vida, o Espírito está unido ao corpo por uma
substância semi-material que designamos sob o nome de perispírito. O Espírito tem, pois,
dois envoltórios: um grosseiro, pesado e destrutível: é o corpo; o outro etéreo, vaporoso e
indestrutível: é o perispírito. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro, é a
veste de cima usada que se deixa; o envoltório semi-material persiste, e constitui, por assim
dizer, um novo corpo para o Espírito. Essa matéria etérea não ó a alma, anotemos bem, não
é senão o primeiro envoltório da alma. A natureza íntima dessa substância, ainda, não nos é
perfeitamente conhecida, mas a observação nos colocou no caminho de algumas dessas
propriedades. Sabemos que ela desempenha um papel capital em todos os fenómenos
espíritas; depois da morte ó o agente intermediário entre o Espírito e a matéria, como o
corpo durante a vida. Por aí se explicam uma multidão de problemas até agora insolúveis.
Ver-se-á, num artigo subsequente, o papel que ela desempenha nas sensações do Espírito.
Também a descoberta, se assim se pode exprimir, do perispírito, fez dar um passo imenso à
ciência espírita; fê-la entrar num caminho todo novo. Mas esse perispírito, direis, não é uma
criação fantástica da imaginação? Não é uma dessas suposições como, frequentemente, faz-se
na ciência para explicar certos efeitos? Não, não é uma obra de imaginação, porque foram
os próprios Espíritos que o revelaram; não é uma ideia fantástica, porque pode ser
constatada pelos sentidos, porque se pode vê-lo e tocá-lo. A coisa existe, só a palavra é
nossa. São necessárias palavras novas para exprimirem coisas novas. Os próprios Espíritos a
adoptaram nas comunicações que temos com eles.
Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é indivisível para nós, mas pode
sofrer modificações que o tomem perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação,
seja por uma mudança na disposição molecular é então que nos aparece sob forma vaporosa.
A condensação (não é preciso tomar essa palavra pela letra, empregamo-la na falta de uma
outra), a condensação, dizíamos, pode ser tal que o perispírito adquire as propriedades de
um corpo sólido e tangível; mas ele pode, instantaneamente, retomar seu estado etéreo e
invisível. Podemos entender esse efeito pelo do vapor, que pode passar da invisibilidade ao
estado brumoso, depois líquido, depois sólido, e vice-versa. Esses diferentes estados do
perispírito são o produto da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior. Quando
nos aparece, é que dá ao seu perispírito a propriedade necessária para torná-lo visível, e essa
propriedade ele pode estender, restringi-la, fazê-la cessar à sua vontade.
Uma outra propriedade da substância do perispírito é a da penetrabilidade. Nenhuma matéria
lhe faz obstáculo: atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.
O perispírito, separado do corpo, afecta uma forma determinada e limitada, e essa forma
normal é a do corpo humano, mas não é constante; o Espírito pode dar-lhe, à sua vontade,
as aparências mais variadas e até a de um animal ou de uma chama. De resto, isto se
concebe muito facilmente. Não se vêem homens darem, ao seu rosto, as expressões mais diversas, imitarem, ao ponto de enganarem, a voz, o rosto de outras pessoas, parecerem
corcundas, coxos, etc.? Quem reconheceria na cidade certos actores que não se vira senão
caracterizado no palco? Se, pois, o homem pode assim dar ao seu corpo material e rígido
aparências tão contrárias, com mais forte razão o Espírito pode fazê-lo com um envoltório
eminentemente flexível, e que pode prestar-se a todos os caprichos da vontade.
Os Espíritos nos aparecem, pois, geralmente sob uma forma humana; em seu estado normal,
essa forma nada tem bem característica, nada que os distingue uns dos outros, de um modo
bem marcado; nos bons Espíritos, ela é ordinariamente bela e regular: os longos cabelos
flutuam sobre os ombros, roupagens envolvem o corpo. Mas, se querem dar-se a conhecer,
tomam exactamente todos os traços sob os quais foram conhecidos, e até a aparência das
vestes, se isso for necessário. Assim, Esopo, por exemplo, como Espírito não é disforme, mas
se for evocado, enquanto Esopo, tivesse mesmo várias existências depois, apareceria
disforme e corcunda, com o costume tradicional. Esse vestuário, talvez, é o que mais
espanta; mas considerando-se que faz parte integrante do envoltório semi-material, concebesse
que o Espírito possa dar, a esse envoltório, a aparência de tal ou tal vestuário, como a de
tal ou de tal rosto.
Os Espíritos podem aparecer seja em sonho, seja no estado de vigília. As aparições no estado
de vigília não são nem raras nem novas; houve-as em todos os tempos; delas a história
narra um grande número; mas, sem remontar tão alto, em nossos dias elas são muito
frequentes, em muitas pessoas que as tiveram, à primeira vista, tomaram-nas pelo que se
convencionou chamar de alucinações. São frequentes, sobretudo, nos casos de morte de
pessoas ausentes, que vêm visitar seus parentes ou amigos. Frequentemente, elas não têm
objectivo determinado, mas pode-se dizer que, em geral, os Espíritos que nos aparecem assim
são seres atraídos a nós pela simpatia. Conhecemos uma jovem senhora que via, muito
frequentemente, em sua casa, em seu quarto, com ou sem luz, homens que ali penetravam e
dali se iam apesar das portas fechadas. Com isso estava muito atemorizada, e isso a tornara
de uma pusilanimidade que se achava ridícula. Um dia, ela viu distintamente seu irmão, que
estava na Califórnia, e que não estava morto de todo: prova que o Espírito dos vivos pode
também transpor as distâncias e aparecer em um lugar ao passo que o corpo está algures.
Depois que essa senhora se iniciou no Espiritismo, não tem mais medo, porque tem
consciência de suas visões, e sabe que os Espíritos que vêm visitá-la, não podem fazer-lhe
mal. Quando seu irmão lhe apareceu, provavelmente estava adormecido; se ela entendesse a
sua presença, poderia conversar com ele, e este último, em seu despertar, poderia disso conservar vaga lembrança. É provável, além disso, que nesse momento ele estivesse
sonhando que estava perto de sua irmã. Dissemos que o perispírito pode adquirir a tangibilidade; disso falamos a propósito das
manifestações produzidas pelo senhor Home. Sabe-se que, várias vezes, fez aparecer mãos que se podiam apalpar, como mãos vivas, e que, de repente, se esvaneciam como uma sombra; mas não se vira, ainda, corpo inteiro sob essa forma tangível; isso não é todavia
uma coisa impossível. Numa família do conhecimento íntimo de um de nossos assinantes, um Espírito se ligou à filha da casa, criança de 10 a 11 anos, sob a forma de um lindo rapaz da mesma idade. Era visível por ela como uma pessoa comum, e se tornava, à vontade, visível ou invisível a outras pessoas; prestou-lhe todas as espécies de bons ofícios, trouxe-lhe brinquedos, bombons, fez serviço da casa, vai comprar o que se tem necessidade, e o que é
mais, lhe paga. Isto não é uma lenda da mística Alemanha, nem é uma história da Idade
Média, é um fato actual, que se passa, no momento em que escrevemos, em uma cidade da
França, e numa família muito honrada. Fomos capazes de fazer, sobre esse facto, estudos
plenos de interesse e que nos forneceram as revelações mais estranhas e as mais
inesperadas. Dele proveremos nossos leitores, de modo mais completo, em um artigo
especial que publicaremos brevemente.

REVISTA ESPIRITA DE 1858 DEZEMBRO

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