Mostrando postagens com marcador revista espirita 1858. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador revista espirita 1858. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Obsedados e subjugados


Obsedados e subjugados

Frequentemente, se tem falado dos perigos do Espiritismo, e é de notar-se que aqueles que
mais protestam a esse respeito são precisamente os que o conhecem pouco, quase só de
nome. Já refutamos os principais argumentos que lhe são opostos, e não voltaremos a eles;
acrescentaremos somente que querendo-se proscrever da sociedade tudo o que pode
oferecer perigo e dar lugar a abusos, não sabemos o que restaria, mesmo das coisas de
primeira necessidade, a começar pelo fogo, causa de tantas infelicidades, depois as estradas
de ferro, etc., etc. Crendo-se que as vantagens compensam os inconvenientes, deve ser a
mesma coisa em tudo; a experiência indica, sucessivamente, as precauções a tomar para se
garantir quanto ao perigo das coisas que não se podem evitar.

O Espiritismo apresenta, com efeito, um perigo real, mas não é aquele que se crê, é preciso
estar iniciado nos princípios da ciência para bem compreender. Não é somente àqueles que
lhe são estranhos que nos dirigimos; é aos próprios adeptos, aqueles que o praticam, porque
o perigo é para eles. Importa que o conheçam, a fim que se mantenham em guarda: perigo
previsto, sabe-se, é a metade evitada. Diremos mais: aqui, para quem está bem
compenetrado da ciência, ele não existe; não existe senão para aqueles que crêem saber e
não sabem; quer dizer, como em todas as coisas, para aqueles a quem falta a experiência
necessária.

Um desejo bem natural, em todos aqueles que começam a se ocupar do Espiritismo, é de ser
médium, mas sobretudo, médium escrevente. Com efeito, é o género que oferece mais
atractivo pela facilidade das comunicações, e que pode melhor se desenvolver pelo exercício.
Compreende-se a satisfação que deve experimentar aquele que, pela primeira vez, vê serem
formadas, sob sua mão, as letras, depois as palavras, depois as frases que respondem ao seu
pensamento.

Essas respostas que traça maquinalmente, sem saber o que faz, que estão, o mais
frequentemente, fora de todas as suas ideias pessoais, não podem deixar-lhe nenhuma
dúvida sobre a intervenção de uma inteligência oculta; também sua alegria é grande em
poder conversar com os seres de além-túmulo, com esses seres misteriosos e invisíveis que
povoam os espaços; seus parentes e seus amigos não estão mais ausentes; se não os vê
pelos olhos, não deixam de estar ali; falam com ele, os vê pelo pensamento; pode saber se
são felizes, o que fazem, o que desejam, trocar com eles boas palavras; compreende que sua
separação não é eterna, e acelera com seus votos o instante em que poderá reunir-se a eles
num mundo melhor. Isso não é tudo; quanto não vai saber por meio dos Espíritos que se
comunicam por ele! Não vão levantar o véu de todas as coisas? Desde logo, nada mais de
mistérios; não tem senão de interrogar, vai tudo conhecer. Já vê a antiguidade sacudir,
diante dele, a poeira dos tempos, remexer as ruínas, interpretar as escrituras simbólicas e
fazer reviver, aos seus olhos, os séculos passados. Este, mais prosaico, e pouco cuidadoso
em sondar o infinito onde seu pensamento se perde, sonha, muito simplesmente, explorar os
Espíritos para fazer fortuna. Os Espíritos que devem tudo ver, tudo saber, não podem recusar
fazer-lhe descobrir algum tesouro oculto ou algum segredo maravilhoso. Quem se deu ao
trabalho de estudar a ciência espírita, jamais se deixará seduzir por esses belos sonhos; sabe
a que se prender sobre o poder dos Espíritos, sobre sua natureza e sobre o objectivo das
relações que o homem pode estabelecer com eles. Lembraremos, primeiro, em poucas
palavras, os pontos principais que não é preciso jamais perder de vista, porque são como a
chave da abóbada do edifício.

1º Os Espíritos não são iguais nem em poder, nem em saber, nem em sabedoria. Não sendo
outra coisa senão as almas humanas desembaraçadas de seu envoltório corpóreo,
apresentam ainda mais variedade do que não as encontramos entre os homens na Terra,
porque vêm de todos os mundos; e que entre os mundos, a Terra não é nem o mais atrasado
nem o mais avançado. Há, pois, Espíritos muito superiores, e outros muito inferiores; muito
bons e muito maus, muito sábios e muito ignorantes; há levianos, malignos, mentirosos,
velhacos, hipócritas, engraçados, espirituosos, zombadores, etc.

2º Estamos, sem cessar, cercados de um enxame de Espíritos que, por estarem invisíveis aos
nossos olhos materiais, não deixam de estar no espaço, ao redor de nós, ao nosso lado,
espiando nossas acções, lendo em nossos pensamentos, uns para nos fazerem o bem, outros
para nos fazerem o mal, segundo sejam mais ou menos bons.

3º Pela inferioridade, física e moral, de nosso globo na hierarquia dos mundos, os Espíritos
inferiores neles são mais numerosos que os Espíritos superiores.

4º Entre os Espíritos que nos cercam, há os que se ligam a nós, que agem mais
particularmente sobre o nosso pensamento, nos aconselham, e dos quais seguimos o
impulso, com o nosso desconhecimento; felizes se escutamos a voz daqueles que são bons.

5º Os Espíritos inferiores não se ligam senão àqueles que os escutam, junto aos quais têm
acesso, e aos quais se prendem. Se chegam a imperar sobre alguém, se identificam com o
seu próprio Espírito, o fascinam, o obsedam, o subjugam e o conduzem como uma verdadeira
criança.

6º A obsessão jamais se dá senão pelos Espíritos inferiores. Os bons Espíritos não fazem
experimentar nenhum constrangimento; eles aconselham, combatem a influência dos maus,
e se não são escutados, afastam-se.

7º O grau do constrangimento e a natureza dos efeitos que ela produz marcam a diferença
entre a obsessão, a subjugação e a fascinação.

A obsessão é a acção, quase que permanente, de um Espírito estranho que faz que se seja
solicitado, por uma necessidade incessante, a agir em tal ou tal sentido, a fazer tal ou tal
coisa.

A subjugação é uma ligação moral que paralisa a vontade daquele que a sofre, e o impele aos
actos mais insensatos e, frequentemente, mais contrários aos seus interesses.

A fascinação é uma espécie de ilusão produzida, seja pela acção directa de um Espírito
estranho, seja por seus raciocínios capciosos, ilusão que engana sobre as coisas morais,
falseia o julgamento e faz tomar o mal pelo bem.

8º O homem pode sempre, pela sua vontade, sacudir o jugo dos Espíritos imperfeitos,
porque, em virtude de seu livre arbítrio, tem a escolha entre o bem e o mal. Se o
constrangimento chegou ao ponto de paralisar sua vontade, e se a fascinação é muito grande
para obliterar o seu julgamento, a vontade de uma outra pessoa pode substituí-la.

Dava-se, outrora, o nome de possessão ao império exercido pelo maus Espíritos, quando sua
influência ia até à aberração das faculdades; mas a ignorância e os preconceitos,
frequentemente, fizeram tomar por uma possessão o que não era senão o resultado de um
estado patológico. A possessão seria, para nós, sinónimo da subjugação. Se não adoptamos
esse termo, foi por dois motivos: o primeiro porque implica a crença em seres criados para o
mal e perpetuamente votados ao mal, ao passo que não há senão seres mais ou menos
imperfeitos, que todos podem melhorar-se; o segundo porque implica, igualmente, a ideia de
uma presa de possessão do corpo por um Espírito estranho, de uma espécie de coabitação,
ao passo que não há senão constrangimento. A palavra subjugação reflecte perfeitamente o
pensamento. Assim, para nós, não há possessos no sentido vulgar da palavra, não há senão
obsedados, subjugados e fascinados.

Foi por um motivo semelhante que não adoptamos a palavra demónio para designar os
Espíritos imperfeitos, embora esses Espíritos, frequentemente, não valham mais que aqueles
que se chamam demónios; foi unicamente por causa da ideia de especialidade e de
perpetuidade que se liga a essa palavra. Assim, quando dizemos que não há demónios, não
pretendemos dizer que não há senão bons Espíritos, longe disso; convenientemente,
sabemos que há maus e muito maus, que nos solicitam para o mal, nos estendem
armadilhas, e isso nada tem de admirar, uma vez que foram homens; queremos dizer que
não formam uma classe à parte, na ordem da criação, e que Deus deixa a todas as suas
criaturas o poder de se melhorarem.

Isto estando bem entendido, voltemos aos médiuns. Em alguns, os progressos são lentos,
muito lentos mesmo, e, frequentemente, colocam a paciência em uma rude prova. Em outros
são rápidos, e, em pouco tempo, o médium chega a escrever com tanta facilidade e, algumas
vezes, mais prontidão do que não o faria em seu estado comum. É então que ele pode se
tomar de entusiasmo, e aí está o perigo, porque o entusiasmo enfraquece, e com os Espíritos
é preciso ser forte. Dizer que o entusiasmo enfraquece, parece um paradoxo; e, todavia,
nada de mais verdadeiro. O entusiasmo, dir-se-á, caminha com uma convicção e uma
confiança que o faz superar todos os obstáculos, tem, pois, mais força. Sem dúvida; mas
entusiasma-se pelo falso tão bem quanto pelo verdadeiro; aferrai-vos às mais absurdas
ideias do entusiasta e delas fareis tudo o que quiserdes; o objecto de seu entusiasmo tem,
pois, seu lado fraco, e por aí podereis sempre dominá-lo. O homem frio e impassível, ao
contrário, vê as coisas sem brilho; combina-as, pesa-as, amadurece-a e não é seduzido por
nenhum subterfúgio: é o que lhe dá a força. Os Espíritos malignos, que sabem disso tão bem
e melhor do que nós, sabem também aproveitá-lo para subjugar aqueles que querem ter sob
sua dependência, e a faculdade de escrever como médium lhes serve maravilhosamente,
porque é um meio poderoso de captar a confiança, também não se lhes falta se o médium
não souber colocar-se em guarda contra eles; felizmente, como veremos mais tarde, o mal
traz em si o remédio.

Seja entusiasmo, seja fascinação dos Espíritos, seja amor próprio, o médium psicógrafo,
geralmente, é levado a crer que os Espíritos que se comunicam consigo são Espíritos
superiores, e isso tanto melhor que esses Espíritos vendo sua propensão não deixam de se
enfeitar com títulos pomposos, se for preciso e segundo as circunstâncias, tomam nomes de
santos, de sábios, de anjos, da Virgem Maria mesmo e desempenham seu papel, como
comediantes vestidos com as roupas dos personagens que representam; arrancai-lhes a
máscara e eles se tornarão Gros-Jean como antes; é aí que é preciso saber fazer com os
Espíritos como com os homens.

Da crença cega e irreflectida na superioridade dos Espíritos que se comunicam, à confiança em
suas palavras, não há senão um passo, sempre como entre os homens. Se chegam a inspirar
essa confiança, a conservam pelos sofismas e os mais capciosos raciocínios, os quais,
frequentemente, são aceitos sem reflectir. Os Espíritos grosseiros são menos perigosos; são
reconhecidos logo e não inspiram senão a repugnância; aqueles que são os mais temíveis,
em seu mundo como no nosso, são os Espíritos hipócritas; não falam jamais senão com
doçura, lisonjeiam as inclinações; são carinhosos, insinuantes, pródigos de palavras e de
ternura, de protestos de devotamente. É preciso ser verdadeiramente forte para resistir a
semelhantes seduções. Mas onde está o perigo, dir-se-á, com Espíritos impalpáveis? O perigo
está nos conselhos perniciosos que dão, sob a aparência da benevolência, nas providências
ridículas, intempestivas ou funestas que fazem empreender. Vimo-los fazer, certos
indivíduos, correrem de país em país à procura das mais fantásticas coisas, com risco de
comprometerem a saúde, a fortuna e a própria vida. Vimo-los ditarem, com todas as
aparências da gravidade, as coisas mais burlescas, as máximas mais estranhas. Como é bom
colocar o exemplo ao lado da teoria, vamos narrar a história de uma pessoa, de nosso
conhecimento, que se achou sob o império de uma fascinação semelhante.

O senhor F..., jovem instruído, de esmerada educação, de um carácter doce e benevolente,
mas um pouco fraco e sem resolução pronunciada, havia se tornado, prontamente, médium
escrevente muito hábil. Obsedado pelo Espírito que se apossou dele e não lhe dava nenhum
repouso, ele escrevia sem cessar, desde que uma caneta, um lápis lhe caísse na mão, os
tomava por um movimento convulsivo e se punha a encher páginas inteiras, em alguns
minutos. Na falta do instrumento, simulava escrever com o dedo, por toda a parte que se
encontrasse, nas ruas, nas paredes, nas portas, etc., entre outras coisas que lhe ditava, esta
era uma: "O homem é composto de três coisas: o homem, o mau Espírito e o bom Espírito.
Tendes todos vosso mau Espírito que está ligado ao corpo por laços materiais. Para expulsar
o mau Espírito, é preciso quebrar esses laços, e para isso é preciso enfraquecer o corpo.
Quando o corpo está suficientemente enfraquecido, o laço se rompe, o mau Espírito se vai, e
não fica senão o bom." Em consequência dessa bela teoria, fizeram-no jejuar durante cinco
dias consecutivos e vigiar à noite. Quando estava extenuado, disseram-lhe: "Agora o negócio
está feito, o laço está rompido; teu mau Espírito partiu, não resta mais senão nós, que é
preciso acreditar sem reservas." E ele, persuadido de que seu mau Espírito havia fugido,
acrescentava uma fé cega a todas as suas palavras. A subjugação chegada a esse ponto, que
se lhe tivesse dito para lançar-se às águas ou partir para os antípodas, tê-lo-ia feito. Quando
queriam levá-lo a fazer alguma coisa que lhe repugnava, sentia-se empurrado por uma força
invisível. Damos uma amostra de sua moral; por ela se julgará o resto.

" Para ter as melhores comunicações, é preciso: 1º Orar e jejuar durante vários dias, uns
mais, outros menos; esse jejum relaxa os laços que existem entre o eu e um demónio
particular ligado a cada eu humano. Esse demónio está ligado a cada pessoa pelo envoltório
que une o corpo e a alma. Esse envoltório, enfraquecido pela falta de alimentação, permite
aos Espíritos arrancar esse demónio. Jesus desce, então, no coração da pessoa possuída, .no
lugar do mau Espírito. Esse estado de possuir Jesus em si é único meio de chegar a toda a
verdade, e muitas outras coisas.

" Quando a pessoa conseguiu substituir o demónio por Jesus, não tem ainda a verdade. Para
ter a verdade, é preciso crer, Deus não dá jamais a verdade àqueles que duvidam: seria fazer
alguma coisa de inútil, e Deus não faz nada em vão. Como a maioria dos médiuns novos
duvida do que diz ou escreve, os bons Espíritos são forçados, com seu pesar, pela ordem
formal de Deus, a mentir, e não podem senão mentir enquanto o médium não está
convencido', mas vindo a crer firmemente numa destas mentiras, logo os Espíritos elevados
se apressam em lhe revelar os segredos do céu: a verdade completa dissipa, num instante,
essa nuvem de erros da qual foram forçados para cobrir seu protegido.

" O médium chegado a esse ponto nada tem mais a temer, os bons Espíritos jamais o
deixarão. Que não creia, entretanto, ter sempre a verdade, e nada senão a verdade. Os bons
Espíritos, seja para prová-lo, seja para puni-lo por suas faltas passadas, seja para castigar
questões egoísticas ou curiosas, lhe infligem correcções físicas e morais, vêm atormentá-lo da
parte de Deus. Esses Espíritos elevados, frequentemente, se lamentam pela triste missão que
cumprem: um pai persegue seu filho semanas inteiras, um amigo seu amigo, tudo para
maior felicidade do médium. Os nobres Espíritos, então, dizem loucuras, blasfémias e mesmo
torpezas. E preciso que o médium se firme e diga: Vós me tentais; sei que estou nas mãos
caridosas de Espíritos bons e afectuosos; que os maus não podem mais se aproximar de mim.
Boas almas que me atormentais, não me impedireis de crer no que me dissestes e no que me
direis ainda.

" Os católicos expulsam mais facilmente o demónio (esse jovem era protestante), porque
afastam um instante o dia do baptismo. Os católicos são julgados pelo Cristo, e os outros por
Deus; vale mais ser julgado pelo Cristo. Os protestantes erram em não admitir isso: também
é preciso fazer-te católico o mais cedo possível; à espera disso vai tomar água benta: esse
será teu baptismo."

Nota. - O jovem em questão, estando curado mais tarde da obsessão da qual era objecto,
pelos meios que relataremos, lhe havíamos pedido para nos escrever a história e dar-nos os
próprios textos dos preceitos que lhe foram ditados. Transcrevendo-os, acrescentou na cópia
que nos remeteu: eu me pergunto se não ofendo a Deus e os bons Espíritos transcrevendo
semelhantes tolices. A isso nós lhe respondemos: Não, não ofendeis a Deus; longe disso,
uma vez que reconheceis agora a armadilha na qual havíeis caído. Se vos pedi a cópia dessas
máximas perversas, foi para desonrá-las como o merecem, desmascarar os Espíritos
hipócritas, e colocar em guarda quem receber semelhante coisa.

Um dia lhe fizeram escrever Morrerás esta noite; a que ele respondeu: Estou muito entediado
deste mundo; morramos se for preciso, não peço nada melhor; que eu não sofra mais, é tudo
o que desejo. - À noite adormeceu, crendo firmemente não mais despertar na Terra. No dia
seguinte, ficou todo surpreso, e mesmo desapontado, em se encontrar em seu leito
costumeiro. Durante o dia, escreveu: "Agora que passaste pela prova da morte, que creste
firmemente morrer, estás como morto para nós; podemos dizer-te toda a verdade; saberás
tudo; não há nada oculto para nós; não haverá nada mais oculto para ti. Tu és Shakespeare
reencarnado. Shakespeare não é tua bíblia para ti?" (O senhor F... sabia perfeitamente o
inglês, e se comprazia na leitura das obras-primas dessa língua).

No dia seguinte escreveu: Tu és Satã. - Isto começa a ficar muito forte, respondeu o senhor
F... - Não fizeste... Não, devoraste o paraíso perdido? Aprisionaste a Filha do diabo de
Bérangen sabias que Satã se converteria: Não o acreditaste sempre, dito sempre, escrito
sempre? Para se converter ele se reencarna. Eu gostaria de ter sido um anjo rebelde
qualquer; mas o rei dos anjos...! - Sim, eras o anjo da nobreza; não eras mau, confiaste eu
teu coração; é essa altivez que é preciso abater; eras o anjo do orgulho, e os homens o
chamam Satã, que importa o nome! Tu foste o mau génio da Terra... Eis-te humilhado... Os
homens vão progredir... Verás maravilhas. Enganaste os homens; enganaste a mulher na
personificação de Eva, a mulher pecadora. Está dito que Maria, a personificação da mulher
sem mácula, esmagar-te-á a cabeça; Maria virá. - Um instante depois ele escreveu
lentamente e com doçura: "Maria vem te ver; Maria, que foi te procurar no fundo de teu
reino de trevas, não te abandonará Eleva-te, Satã, e Deus está pronto a te estender os
braços. Leia o Filho pródigo. Adeus."

Numa outra vez escreveu: "A serpente disse a Eva: Vossos olhos estarão abertos e sereis
como deuses. O demónio disse a Jesus: Eu te darei todo o poder. A ti o disse uma vez que
creste em nossas palavras: Nós te amamos; saberás tudo... Tu serás rei da Polónia."

"Perseverarás nas boas disposições onde te colocamos. Esta lição dá um grande passo à
ciência espírita. Ver-se-á que os bons Espíritos podem dizer futilidades e mentiras para se
divertirem com os sábios. Allan Kardec disse que esse era um meio mau para reconhecer os
Espíritos, em fazê-los confessar Jesus em carne. Eu digo que só os bons Espíritos confessam
Jesus em carne e eu o confesso. Diga isso a Kardec."

Todavia o Espírito teve o pudor de não aconselhar o senhor F... para imprimir essas belas
máximas; se o tivesse dito tê-lo-ia feito, sem nenhuma dúvida e seria uma ação má, porque
deu-as como uma coisa séria.

Encheríamos um volume com todas as tolices que lhe foram ditadas e com todas as
circunstâncias que a seguiram. Fizeram-no, entre outras coisas, desenhar um edifício cujas
dimensões eram tais que as folhas de papel necessárias, coladas em conjunto, ocuparam a
altura de dois andares.

Notar-se-á que, em tudo isso, não há nada de grosseiro, nada de trivial; é uma sequência de
raciocínios sofísticos que se encadeiam com uma aparência de lógica. Há, nos meios
empregados para enganar, uma arte verdadeiramente infernal e se pudéssemos narrar todas
essas conversas, ver-se-ia até que ponto se estendia a astúcia e com que agilidade as
palavras melosas eram prodigalizadas oportunamente. O Espírito que desempenhava o
principal papel, nesse assunto, tomava o nome de François Dillois, quando não se cobria com
a máscara de um nome respeitado. Soubemos mais tarde o que esse Dillois fora quando vivo,
e então nada nos admirou mais em sua linguagem. Mas, no meio de todas essas
extravagâncias, era fácil reconhecer um bom Espírito que lutava por fazer ouvir, de tempo
em tempo, algumas boas palavras para desmentir os absurdos dos outros; havia um combate
evidente, mas a luta era desigual; o jovem estava de tal modo subjugado, que a voz da razão
era impotente sobre ele. O Espírito de seu pai, particularmente, fê-lo escrever isto: "Sim,
meu filho, coragem! Sofres uma rude prova, que é para o teu bem futuro; infelizmente nada
posso, neste momento, para dela te livrar, isso me custa muito. Vai ver Allan Kardec; escuta-o
e ele te salvará."

O senhor F..., com efeito, veio me procurar contou-me sua história; fi-lo escrever em minha
presença, e, desde o início, reconheci, sem dificuldade, a influência perniciosa sob a qual se
encontrava, seja pelas palavras, seja por certos sinais materiais que a experiência faz
reconhecer e que não podem enganar. Retornou várias vezes; empreguei toda a força de
minha vontade para chamar os bons Espíritos por seu intermédio, toda a minha retórica, para
provar-lhe que era o joguete de Espíritos detestáveis; o que ele escrevia não tinha o senso
comum, e além disso era profundamente imoral; associei-me, para esta obra caridosa, a um
dos meus colegas mais devotados, o senhor T..., e, por nós dois, pouco a pouco, chegamos a
fazê-lo escrever coisas sensatas. Tomou aversão pelo seu mau génio, repelia-o, por sua
vontade, cada vez que tentava se manifestar, e, pouco a pouco, só os bons Espíritos
sobressaíam. Para desviar suas idéias, se entregava, da manhã à noite, segundo o conselho
dos Espíritos, a um trabalho rude que não lhe deixava tempo para escutar as más sugestões.
O próprio Dillois acabou por se confessar vencido e por exprimir o desejo de se melhorar em
uma nova existência; confessou o mal que havia querido fazer, e disso testemunhou seu
arrependimento. A luta foi longa, penosa, e ofereceu particularidades verdadeiramente
curiosas para o observador. Hoje que o senhor F... se sente livre, está feliz; parece-lhe estar
aliviado de um fardo; retomou sua alegria, e nos agradece pelo serviço que lhe prestamos.

Certas pessoas deploram que haja Espíritos maus. Com efeito, não é sem um certo
desencantamento que se encontra a perversidade nesse mundo, onde não se gostaria de
encontrar senão seres perfeitos. Uma vez que as coisas são assim, nada podemos: é preciso
tomá-las tais como são. É nossa própria inferioridade que faz com que os Espíritos
imperfeitos pululem ao nosso redor; as coisas mudarão quando formos melhores, assim como
ocorre nos mundos mais avançados. À espera disso, enquanto estamos ainda no fundo do
universo moral, somos advertidos: compete a nós colocarmo-nos em guarda e não aceitar,
sem controle, tudo o que se nos diz. A experiência, esclarecendo-nos, deve tornar-nos
circunspectos. Ver e compreender o mal é um meio de se preservar dele. Não haveria cem
vezes mais perigo em se iludir sobre a natureza dos seres invisíveis que nos cercam? Ocorre
o mesmo nesse mundo, onde, cada dia, estamos expostos à malevolência e às sugestões
pérfidas: essas são tantas outras provas às quais nossa razão, nossa consciência e nosso
julgamento nos dão os meios para resistir. Quanto mais a luta for difícil, maior será o mérito
pelo sucesso: "Vencendo sem perigo, triunfa-se sem glória."

Essa história que, infelizmente, não é a única do nosso conhecimento, levanta uma questão
muito grave. Não foi, para esse homem jovem, dir-se-á, uma coisa deplorável ser médium?
Não foi essa faculdade que lhe causou a obsessão da qual era objecto? Em uma palavra, não é
uma prova do perigo das comunicações espíritas?

Nossa resposta é fácil, e pedimos meditá-la com cuidado.

Não foram os médiuns que criaram os Espíritos, estes existem de todos os tempos, e em
todos os tempos exerceram sua influência, salutar ou perniciosa, sobre os homens. Não há,
pois, a necessidade de ser médium para isso. A faculdade medianímica, para eles, não é
senão um meio de se manifestarem; à falta dessa faculdade, fazem-no de mil outras
maneiras. Se esse jovem não fosse médium, não estaria menos sobre a influência desse mau
Espírito que, sem dúvida, tê-lo-ia feito cometer extravagâncias que não se poderiam atribuir
a qualquer outra causa. Felizmente para ele, a sua faculdade de médium, permitindo ao
Espírito se comunicar por palavras, foi por essas palavras que o Espírito se traiu; elas
permitiram conhecer a causa do mal que poderia ter sido, para ele, de consequências
funestas, e que destruímos, como se viu, por meios bem simples, bem racionais, e sem
exorcismo. A faculdade mediúnica permitiu ver o inimigo, se assim se pode dizer, face a face,
e combatê-lo com as suas próprias armas. Pode-se, pois, com inteira certeza, dizer que ela o
salvou; quanto a nós, não fomos senão os médicos que, julgando a causa do mal, aplicamos
o remédio. Seria um grave erro crer que os Espíritos não exercem sua influência senão pelas
comunicações escritas ou verbais; essa influência é de todos os instantes, e aqueles que não
crêem nos Espíritos a ela estão expostos como os outros, e mesmo mais expostos que os
outros, porque não têm contrapeso. A quantos actos não se é compelido, para sua infelicidade,
e que se teria evitado tendo um meio de se esclarecer! Os mais incrédulos não crêem ser tão
verdadeiros quando dizem, de um homem, que se engana com obstinação: São maus génios
que o empurram para a sua perdição.

Regra geral. Quem tem más comunicações espíritas, escritas ou verbais, está sob uma
influência má; essa influência se exerce sobre ele, quer escreva ou não escreva, quer dizer,
quer seja ou não médium. A escrita dá um meio de se assegurar da natureza dos Espíritos
que actuam sobre ele, e de combatê-los, o que se faz, ainda, com mais sucesso, quando se
chega a conhecer o motivo que os faz agir. Se é bastante cego para não compreendê-lo,
outros podem abrir-lhe os olhos. Aliás, é necessário ser médium para escrever absurdos? E
quem diz que, entre todas as elocuções ridículas ou perigosas, não há aquelas cujos
autores são impelidos por algum Espírito malevolente? As três quartas partes de nossas más
acções e de nossos maus pensamentos são o fruto dessa sugestão oculta.

Se o senhor F... não fosse médium, perguntar-se-á, poderia ele mesmo fazer essa obsessão
cessar? Seguramente; somente os meios teriam diferido, segundo as circunstâncias; mas,
então, os Espíritos não podendo nos dirigir, como o fizeram, provavelmente, ter-se-ia
desprezado a causa, se não houvera manifestação espírita ostensiva. Todo homem que disso
tem vontade, e que é simpático aos bons Espíritos, pode sempre, com a ajuda destes,
paralisar a influência dos maus. Dizemos que deve ser simpático aos bons Espíritos, porque
se atrai, ele mesmo, inferiores, é evidente que é querer caçar lobos com lobos.
Em resumo, o perigo não está no próprio Espiritismo, uma vez que ele pode, ao contrário,
servir de controle, e preservar daquele que corremos, sem cessar, com o nosso
desconhecimento; está na propensão de certos médiuns crerem-se, muito levianamente, os
instrumentos exclusivos de Espíritos superiores, e na espécie de fascinação que não lhes
permite compreender as tolices das quais são os intérpretes. Aqueles mesmos que não são
médiuns, nisso podem se deixar prender. Terminaremos este capítulo com as considerações
seguintes:

1º Todo médium deve desconfiar do arrastamento irresistível que o leva a escrever sem
cessar e em momentos inoportunos; deve ser senhor de si mesmo, e não escrever senão
quando quiser

2º Não são dominados os Espíritos superiores, nem mesmo aqueles que, sem serem
superiores, são bons e benevolentes, mas podem-se dirigir e domar os Espíritos inferiores.
Quem não é senhor de si mesmo não pode sê-lo dos Espíritos;

3º Não há outro critério para discernir sobre o valor dos Espíritos, senão o bom senso. Toda
fórmula dada, para esse efeito, pelos próprios Espíritos é absurda, e não pode emanar de
Espíritos superiores;

4º Julgam-se os Espíritos, como os homens, pela sua linguagem. Toda expressão, todo
pensamento, toda máxima, toda teoria moral ou científica que se choque com o bom senso,
ou não responde à ideia que se faz de um Espírito puro e elevado, emana de um Espírito mais
ou menos inferior,

5º Os Espíritos superiores têm, sempre, a mesma linguagem com a
mesma pessoa e não se contradizem nunca;

6º Os Espíritos superiores são, sempre, bons e benevolentes; não há jamais, em sua
linguagem, nem acrimónia, nem arrogância, nem amargor, nem fanfarrice, nem tola
presunção. Falam simplesmente, aconselham, e se retiram se não são escutados;

7º Não é preciso julgar os Espíritos quanto à forma material e a correcção de sua linguagem,
mas sondá-la em seu sentido íntimo, escrutar suas palavras, pesá-las friamente,
maduramente e sem prevenção. Todo desvio do bom senso, da razão e da sabedoria, não
podem deixar dúvida quanto à sua origem, qualquer que seja o nome com o qual se vista o
Espírito;

8º Os Espíritos inferiores temem aqueles que escrutam suas palavras, desmascaram suas
torpezas e não se deixam prender pelos seus sofismas. Algumas vezes, podem ensaiar
resistir, mas acabam sempre por deixar a vítima quando se vêem os mais fracos;
9º Quem age, em todas as coisas, tendo em vista o bem, se eleva pelo pensamento acima
das vaidades humanas, expulsa do seu coração o egoísmo, o orgulho, a inveja, o ciúme, o
ódio, perdoa os seus inimigos e põe em prática esta máxima do Cristo: "Fazer aos outros o
que se gostaria que fizessem a si mesmo," simpatiza com os bons Espíritos; os maus o
temem e se afastam dele.
Seguindo esses preceitos, proteger-se-á dás más comunicações, da dominação de Espíritos
impuros, e aproveitando tudo o que nos ensinam os Espíritos verdadeiramente superiores,
contribuir-se-á, cada um por sua parte, para o progresso moral da Humanidade.

Revista Espírita, Outubro de 1858

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Variedades - Aparições do general Marceau


Variedades - Aparições do general Marceau


A Gazette de Cologne publicou a história seguinte, que lhe foi comunicada por seu correspondente em Coblentz, e que é actualmente o assunto de todas as conversações. O facto foi narrado pela Patrie de 10 de Outubro de 1858.
"Sabe-se que, abaixo do forte do Imperador François, perto da estrada de Cologne, encontra-se
um monumento do general francês Marceau, que tombou em Altenkirchen e foi sepultado
em Coblentz, no monte Saint-Pierre, onde se acha agora a parte principal do forte. O monumento do general, que é uma pirâmide mutilada, foi mais tarde tirado quando começaram as fortificações de Coblentz. Todavia, por ordem expressa do brilhante rei Frédéric III, foi reconstruído no lugar onde se acha actualmente.
"O senhor de Stramberg, que em seu Reinischen antiquarius, dá uma biografia muito detalhada de Marceau, conta que pessoas pretendem ter visto o general, à noite, por várias vezes, montado sobre um cavalo branco e levando o casaco branco dos caçadores franceses.
Há algum tempo, dizia-se em Coblentz que Marceau deixava seu túmulo, e que numerosas
pessoas asseguravam tê-lo visto. Há alguns dias, um soldado, de guarda sobre o Petersberg
(o monte Saint-Pierre), viu chegar a ele um cavaleiro branco, montado sobre um cavalo
branco. Ele grita: Quem vêm lá? Não tendo recebido resposta, a três interpelações, ele atira,
e desmaia. Uma patrulha precipita-se ao tiro e encontra o sentinela sem sentidos. Levado ao
hospital, onde caiu perigosamente enfermo, pôde, entretanto, relatar o que vira Uma outra
versão disse que ele morreu em consequência da aventura. Eis a historieta tal qual pode ser
certificada por toda a cidade de Coblentz."

ALLAN KARDEC

Revista Espírita, Novembro de 1858

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza


Uma noite esquecida ou a feiticeira Manouza

Milésima segunda noite dos contos árabes, Ditada pelo Espírito de Frédéric Soulié.

PREFÁCIO DO EDITOR

No correr do ano de 1856, as experiências de manifestações espíritas que se fizeram na casa do senhor B..., rua Lamartine, aí atraíram uma sociedade numerosa e escolhida. Os Espíritos que se comunicavam nesse círculo, eram mais ou menos sérios; alguns aí disseram coisas admiráveis de sabedoria, de uma profundidade notável, o que pode se julgar, pelo O Livro dos Espíritos que aí foi começado e feito em sua maior parte. Outras eram menos graves; seu humor jovial se prestava voluntariamente à distracção, mas a uma distracção de boa companhia que jamais saiu das conveniências. Desse número era Frédéric Soulié, que veio por si mesmo e sem ser convidado, mas cujas visitas inesperadas eram sempre, para a sociedade, um passatempo agradável. Sua conversação era espiritual, fina, mordaz, cheia de oportunidade, e jamais desmentiu o autor de Memórias do Diabo', de resto jamais se lisonjeou, e quando se lhe dirigiam algumas perguntas um pouco árduas de filosofia, ele confessava francamente sua insuficiência para resolvê-las, dizendo que era ainda muito ligado à matéria, e que ele preferia o alegre ao sério.
O médium que lhe servia de intérprete era a senhorita Caroline B..., uma das filhas do senhor da casa, médium do género exclusivamente passivo, não tendo jamais a menor consciência daquilo que escrevia, e podendo rir e conversar à direita ou à esquerda, o que fazia de bom grado, enquanto a sua mão caminhava. O meio mecânico empregado foi, durante muito tempo, a cesta pião, descrita em nossa instrução prática. Mais tarde, o médium serviu-se da psicografia directa.
Perguntar-se-á, sem dúvida, que provas tínhamos que o Espírito que se comunicava era o de Frédéric Soulié, antes que qualquer outro. Não é aqui o caso de tratar a questão da identidade dos Espíritos; diremos somente que o de Soulié se revelou por mil circunstâncias de detalhes que não podem escapar a uma observação atenta; só uma palavra, um chiste, um facto pessoal narrado, vieram nos confirmar que era bem ele; várias vezes deu sua assinatura que foi confrontada com originais. Um dia pediram que desse seu retrato, e o médium, que não sabe desenhar, que nem jamais o viu, traçou um esboço de uma semelhança marcante.
Ninguém, da reunião, tivera relações com ele em sua vida; por que, pois, viera sem ser chamado? Foi porque se ligou a um dos assistentes, sem jamais consentir em dizer o motivo;
ele vinha quando essa pessoa estava presente; entrava com ela e saía com ela; de sorte que, quando ali não estava, ele não mais vinha, e, coisa estranha, era que quando ele lá estava, era muito difícil, senão impossível, haver comunicações com outros Espíritos; o próprio Espírito familiar da casa cedia-lhe o lugar, dizendo que, por polidez, devia fazer as honras da casa.

Um dia, anunciou que nos daria um romance de sua autoria, e, com efeito, algum tempo depois, começou um relato cujo início muito prometia; o assunto era druídico e a cena se passava na Armorique ao tempo da dominação romana; infelizmente, parece que se assustou com a tarefa que empreendeu, porque, é preciso dizê-lo bem, um trabalho assíduo não era seu forte, e ele confessava que se comprazia, com o maior bom grado, na preguiça. Depois de algumas páginas ditadas, aí deixou seu romance, mas anunciou que nos escreveria um outro, que lhe desse menos trabalho: foi então que escreveu o conto do qual começamos a publicação. Mais de trinta pessoas assistiram a essa produção e podem atestar-lhe a origem.
Não a damos como obra de uma alta importância filosófica, mas como uma curiosa amostra de um trabalho de longo fôlego obtido dos Espíritos. Notar-se-á como tudo nele tem sequência, como tudo se encadeia com uma arte admirável. O que há de mais extraordinário,
é que esse relato repetiu-se cinco ou seis vezes diferentes, e frequentemente depois de interrupções de duas a três semanas; ora, a cada recomeço, o relato se seguia como se fora escrito de um golpe, sem riscos, sem retorno e sem que houvesse necessidade de lembrar o que havia precedido. Damo-lo tal como saiu do lápis do médium, sem mudar nada, nem no estilo, nem nas ideias, nem no encadeamento dos factos. Algumas repetições de palavras, e alguns pequenos pecados de ortografia tendo sido assinalados, Soulié nos encarregou pessoalmente de rectificá-los, dizendo que nos assistiria nisso; quando tudo terminou, ele quis rever o conjunto, ao qual não fez senão algumas rectificações sem importância, e dar autorização de publicar como se o entendesse, fazendo, disse ele, de bom grado a renuncia de seus direitos de autor. Todavia, consideramos não dever inseri-lo em nossa Revista sem o consentimento formal de seu amigo póstumo, a quem pertencia o direito, uma vez que em sua presença e por sua solicitação éramos devedores dessa produção de além-túmulo. O título foi dado pelo próprio Espírito de Frédéric Soulié. A.K.

UMA NOITE ESQUECIDA

Havia, em Bagdá, uma mulher do tempo de Aladim; é a sua história que vou contar Num dos subúrbios de Bagdá morava, não longe do palácio da sultana Shéhérazad, uma velha mulher chamada Manouza. Essa velha era motivo de terror para toda a cidade, porque
era feiticeira das mais apavorantes. Em sua casa, à noite, se passavam coisas tão assustadoras que, logo que o sol se deitava, ninguém se arriscava passar diante de sua morada, a menos que fosse uma amante à procura de um filtro para uma senhora rebelde,
ou uma mulher abandonada em busca de um bálsamo para colocar sobre a ferida que seu amante lhe fizera, abandonando-a.
Um dia, pois, em que o sultão estava mais triste que de hábito, e que a cidade estava numa grande desolação, porque ele queria que perecesse a sultana favorita, e que a seu exemplo todos os maridos eram infiéis, um jovem deixou uma magnífica habitação situada ao lado do palácio da sultana. Esse jovem trajava uma túnica e um turbante de cor sombria; mas sob essas simples vestes havia um grande ar de distinção. Procurava se esconder ao longo das casas, como gatuno, ou amante temeroso de ser surpreendido. Dirigia seus passos para o lado de Manouza, a feiticeira. Uma viva ansiedade pintava sobre os seus traços, que mostravam a preocupação que o agitava. Atravessou as ruas, as praças com rapidez, e, todavia, com grande precaução. Chegado perto da porta, hesitou alguns minutos, depois decidiu bater. Durante um quarto de hora, teve angústias mortais, porque ouvia ruídos que nenhum ouvido humano havia escutado; uma matilha de cães uivando com ferocidade, gritos lamentáveis, cantos de homens e de mulheres, como ao fim de uma orgia, e, para clarear todo esse tumulto, luzes correndo de alto a baixo da casa, fogos fátuos de todas as cores; depois, como por encantamento, tudo cessou: as luzes se extinguiram e a porta se abriu.
O visitante ficou um instante interdito, não sabendo se devia entrar no corredor sombrio, que se oferecia à visão. Enfim, armando-se de coragem, penetrou audaciosamente. Depois de caminhar, às apalpadelas, o espaço de uns trinta passos, encontrou-se em face de uma porta dando para uma sala, clareada somente por uma lâmpada de cobre de três bicos, suspensa no meio do tecto.
A casa que, depois do ruído que ouvira da rua, parecia dever ser muito habitada, tinha agora o ar deserto; essa sala que era imensa, e devia, pela sua construção, ser a base do edifício, estava vazia, exceptuando-se os animais empalhados, de todas as espécies, com os quais estava guarnecida.
No meio dessa sala, havia uma pequena mesa coberta de livros de mágicos, e, diante dessa mesa, numa grande poltrona, estava sentada uma pequena velha, alta apenas dois côvados, e de tal modo embrulhada de xailes e de turbantes, que era impossível ver seus traços. À aproximação do estranho, ela levantou a cabeça e mostrou, aos seus olhos, o mais terrível rosto que ele podia imaginar.
Eis-te aqui, senhor Noureddin, disse ela, fixando seus olhos de hiena sobre o jovem que entrara; aproxime-se! Faz vários dias que meu crocodilo, de olhos de rubis, me anuncia tua visita. Diz se é um filtro o de que precisas; diz se é uma fortuna. "Mas, que digo eu, uma fortuna! Não a tens que faz inveja ao próprio sultão? Não és o mais rico como és o mais belo?
É provavelmente um filtro que vens procurar. Qual é, pois, a mulher que ousa ser-te cruel?
Enfim, não devo nada dizer, eu não sei nada, estou pronta para escutar tuas dificuldades e para dar-lhes os remédios necessários, se, todavia, minha ciência tiver o poder de ser útil a ti. Mas que fazes, pois, a me olhar assim sem avançares? Terias medo? Talvez eu te apavore?
Tal como me vês, antigamente era bela; mais bela que todas as mulheres hoje existentes em Bagdá; foram os desgostos que me tornaram tão feia. Mas que te causam meus sofrimentos?
Aproxima-te; eu te escuto; somente não posso dar-te senão dez minutos, assim, despacha-te. Noureddin não estava muito tranquilo; entretanto, não queria mostrar aos olhos de uma velha mulher a perturbação que o agitava, avançou e lhe disse: Mulher, vim por uma coisa grave; de tua resposta depende a sorte de minha vida; vais decidir de minha felicidade ou de minha morte. Eis do que se trata O sultão quer matar Nazara; eu a amo; vou contar-te de onde vem esse amor, e venho pedir-te um remédio, não a minha dor, mas a sua infeliz posição, porque eu não quero que ela morra. Sabes que meu palácio é vizinho daquele do sultão; nossos jardins se tocam. Há mais ou menos seis luas que, uma tarde, passeando nesses jardins, ouvi uma encantadora música acompanhada da mais deliciosa voz de mulher que jamais ouvi. Querendo saber de onde isso provinha, aproximei-me dos jardins vizinhos, e reconheci que era de um quarto de verdura habitado pela sultana favorita. Fiquei vários dias absorvido por esses sons melodiosos; noite e dia, revia a bela desconhecida cuja voz me seduzia; porque é preciso dizer-te que, em meu pensamento, ela não podia ser senão bela. Passeava, cada tarde, nas mesmas alamedas onde ouvira essa encantadora harmonia; durante cinco dias, isso foi em vão; enfim, no sexto dia a música se fez ouvir de novo; então, não podendo mais conter-me, aproximei-me do muro e vi que era preciso pouco esforço para escalá-lo.
Depois de alguns momentos de hesitação, tomei uma grande decisão: passei do meu para o jardim vizinho; ali, vi, não uma mulher mas uma huri, a huri favorita de Maomé, uma maravilha enfim! À minha visão, ela assustou-se um pouco, mas, lançando-me aos seus pés, pedi-lhe que não tivesse nenhum temor em ouvir-me; disse-lhe que seu canto me atraíra e assegurei-lhe que não encontraria em minhas acções senão o mais profundo respeito; ela teve a bondade de me ouvir.
A primeira noite se passou falando de música. Também cantei, e me ofereci para em acompanhá-la; ela nisso consentiu, e marcamos encontro para o dia seguinte, à mesma hora Nessa hora, ela estava mais tranquila; o sultão estava com seu conselho e a vigilância menor. As duas ou três primeiras noites se passaram inteiramente com a música; mas a música é a voz dos amantes, e desde o quarto dia não estávamos mais estranhos um ao outro. Nós nos amamos. Que bela estava! Como sua alma era bela também! Fizemos, muitas vezes, o projecto de fugirmos. Ai! por que não o executamos? Seria menos infeliz, e ela não estaria prestes a sucumbir. Essa bela flor não estaria no momento de ser colhida pela foice que vai arrebatá-la à luz.

(continua no próximo número)
Revista Espírita, Novembro de 1858

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Independência sonambúlica


Independência sonambúlica
Factos notáveis de lucidez


Muitas pessoas, que hoje aceitam perfeitamente o magnetismo, contestaram durante muito tempo a lucidez sonambúlica; é que, com efeito, essa faculdade veio confundir todas as noções que tínhamos sobre a percepção das coisas do mundo exterior, e, todavia, desde há muito tempo tinha-se o exemplo dos sonâmbulos naturais, que gozam de faculdades análogas e que, por um contraste bizarro, jamais se procurou aprofundar. Hoje, a clarividência sonambúlica é um facto adquirido, e, se ainda é contestado por algumas pessoas, é porque as ideias novas demoram para se enraizar, sobretudo quando é preciso renunciar àquelas por longo tempo nutridas; é também porque muitas pessoas acreditaram, como
ocorre ainda com as manifestações espíritas, que o sonambulismo podia ser experimentado como máquina, sem levar em conta as condições especiais do fenómeno; foi por isso que, não tendo obtido à vontade, e a propósito resultados sempre satisfatórios, disso se concluiu
pela negativa. Fenómenos tão delicados exigem uma observação longa, assídua e perseverante, a fim de apreender-lhes as nuances frequentemente fugitivas. É igualmente em consequência de uma observação incompleta dos factos que certas pessoas, mesmo
admitindo a clarividência dos sonâmbulos, contestam sua independência; segundo elas, sua visão não se estende além do pensamento daquele que os interroga; alguns pretendem mesmo que não há visão, mas simplesmente intuição e transmissão de pensamento, e citam exemplos em apoio. Ninguém duvida que o sonâmbulo, vendo o pensamento, algumas vezes pode traduzi-lo e ser dele o eco; não contestamos mesmo que não possa, em certos casos, influenciá-lo: não ocorresse senão isso no fenómeno, já não seria um facto bem curioso e bem digno de observação? A questão, portanto, não é saber se o sonâmbulo é ou pode ser influenciado por um pensamento estranho, isso não é duvidoso, mas bem saber se é sempre
influenciado: isso é um resultado da experiência. Se o sonâmbulo não diz jamais senão o que sabeis, é incontestável que é o vosso pensamento que ele traduz; mas se, em certos casos, ele diz o que não sabeis, se contradiz vossa opinião, vossa maneira de ver, é evidente que é independente e não segue senão seu próprio impulso. Um único facto desse género, bem caracterizado, bastaria para provar que a sujeição do sonâmbulo ao pensamento de outrem não é uma coisa absoluta; ora, eles existem aos milhares; entre os que são de nosso conhecimento pessoal, citaremos os dois seguintes:
O senhor Marillon, morando em Bercy, rua de Charenton, n9 43, havia desaparecido no dia 13 de Janeiro último. Todas as pesquisas para descobrir seus vestígios foram infrutíferas, nenhuma das pessoas na casa das quais estavam habituado ir, não o haviam visto; nenhum
negócio podia motivar uma ausência prolongada; por outro lado, seu carácter, sua posição pecuniária, seu estado mental descartavam toda ideia de suicídio. Estava-se reduzido a pensar que ele perecera vítima de um crime ou de um acidente; mas, nesta última hipótese, poderia ser facilmente reconhecido e conduzido ao seu domicílio, ou, pelo menos, levado ao Necrotério. Todas as possibilidades eram, pois, para o crime; foi nesse pensamento que se
fixou, tanto melhor porque se pensou que saíra para fazer um pagamento; mas onde e como o crime havia sido cometido? Era o que se ignorava. Sua filha, então, recorreu a uma sonâmbula, a senhora Roger, que em muitas outras circunstâncias semelhantes dera provas de uma lucidez notável, que pudemos constatar por nós mesmos. A senhora Roger seguiu o senhor Morillon desde a sua saída, de sua casa, às 3 horas depois de meio-dia, até lá pelas 7
horas da tarde, no momento em que se dispunha a reentrar, vi-o, então, descer pela margem do Sena por um motivo premente; ali, disse ela, teve um ataque de apoplexia, e o vejo cair sobre uma pedra, fazer-se uma fenda na testa, depois deslizar na água; portanto, isso não foi nem suicídio, nem crime; vejo ainda seu dinheiro e uma chave no bolso de seu paletó. Ela indica o lugar do acidente, mas, acrescenta ela, não é ali que ele está agora, foi facilmente arrastado pela corrente e será encontrado em tal lugar. Foi, com efeito, o que ocorreu; ele tinha a ferida indicada na fronte; a chave e o dinheiro estavam em seu bolso e a posição de suas vestes indicavam, suficientemente, que a sonâmbula não se enganara sobre o motivo que o conduzira às margens do rio. Perguntamos onde, com todos esses detalhes, pode-se ver a transmissão de um pensamento qualquer. Eis um outro facto onde a independência sonambúlica não é menos evidente.

O senhor e a senhora Belhomme, agricultores em Rueil, rua Saint-Denis, nº 19, tinham reservado uma soma ao redor de 8 a 900 francos. Para maior segurança, a senhora
Belhomme colocou-a em um armário, do qual uma parte estava reservada para roupa branca velha, a outra para roupa branca nova, e foi nesta última que o dinheiro foi colocado; nesse momento alguém entrou e a senhora Belhomme se apressou em fechar o armário. Algum
tempo depois, tendo necessidade do dinheiro, ela se persuadiu de tê-lo colocado na roupa velha, porque essa fora sua intenção, na ideia de que o velho tentaria menos os ladrões; mas, em sua precipitação, com a chegada do visitante, ela o havia colocado no outro compartimento. Estava de tal modo convencida de tê-lo colocado na roupa branca velha, que a ideia de procurá-lo alhures não lhe ocorreu; encontrando o lugar vazio, e lembrando-se da visita, ela acreditou ter sido notada e roubada, e nessa persuasão, suas suposições, naturalmente, se dirigiam sobre o visitante.

A senhora Belhomme conhecia a senhorita Marillon, da qual falamos mais acima, e lhe contou sua desventura. Esta tendo-lhe ensinado o meio pelo qual seu pai fora encontrado, a exortou dirigir-se à mesma sonâmbula, antes de tomar alguma providência. O senhor e a senhora
Belhomme seguiram para a casa da senhora Roger, bem convencidos de terem sido roubados, e na esperança de que se indicaria o ladrão que, em sua opinião, não podia ser senão o visitante. Tal era, pois, seu pensamento exclusivo; ora, a sonâmbula, depois de uma descrição minuciosa do local, lhes disse: não fostes roubados; vosso dinheiro está intacto em vosso outro armário, somente credes tê-lo colocado no de roupa velha, ao passo que o
colocastes no de nova; retornai para vossa casa e aí o encontrareis; com efeito, foi o que ocorreu.

Nosso objectivo, narrando esses dois factos, e poderíamos deles citar muitos outros também concludentes, foi de provar que a clarividência sonambúlica não é sempre o reflexo de um pensamento estranho; que o sonâmbulo pode ter, assim, uma lucidez própria, inteiramente
independente. Disso resulta consequências de alta gravidade do ponto de vista psicológico; aí encontramos a chave de mais de um problema, que examinaremos ulteriormente, tratando das relações que existem entre o sonambulismo e o Espiritismo, relações que lançam uma luz toda nova sobre a questão.

Revista Espírita, Novembro de 1858

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Médium pintor na América


Médium pintor na América

Revista Espírita, Novembro de 1858

(Extraído do Spiritualiste de Nova Orteans.)

Não podendo todo mundo ser convencido pelo mesmo género de manifestações espirituais,
foi preciso se desenvolverem médiuns de muitas espécies. Há, nos Estados Unidos, os que fazem retratos de pessoas mortas há muito tempo, e que jamais conheceram; e como a semelhança é logo constatada, poucas pessoas sensatas, que testemunham esses factos, não deixam de se converterem. O mais notável desses médiuns é talvez o senhor Roger, que já citamos (vol. l, p. 239), e que habitava, então, Columbus, onde exercia sua profissão de alfaiate; poderíamos acrescentar que não teve outra educação, além daquela do seu estado.
Aos homens instruídos que disseram ou repetiram, a propósito da teoria espiritualista: "O recurso aos Espíritos não é senão uma hipótese; um exame atento prova que ela não é nem a mais racional, nem a mais verossímil," a eles, sobretudo, oferecemos a tradução seguinte, que abreviamos, de um artigo escrito em 27 de Julho último, pelo senhor Fayette R. Gridley, de Attica (Indiana), aos editores do Spiritual Age, que o publicou por inteiro em sua folha de 14 de Agosto:

No mês de Maio último, o senhor E. Roger, de Cardington (Ohio), que, como sabeis, é médium pintor e faz retratos de pessoas que não estão mais neste mundo, veio passar alguns dias em minha casa. Durante essa curta estada, foi arrebatado por um artista invisível que se deu por Benjamin West, e ele pintou alguns belos retratos, de tamanho natural, assim como outros menos satisfatórios.
Eis algumas particularidades relativas a dois desses retratos.
Foram pintados pelo dito E. Roger, em um quarto escuro, em minha casa, no curto intervalo de uma hora e trinta minutos, dos quais em torno de uma meia-hora se passou sem que o médium fosse influenciado, e eu a aproveitei para examinar seu trabalho, que não estava ainda acabado. Roger foi arrebatado de novo e terminou esses retratos. Então, e sem nenhuma indicação quanto aos sujeitos assim representados, um dos retratos foi em seguida reconhecido como sendo de meu avô, Elisha Gridley; minha mulher, minha irmã, a senhora Chaney, e depois meu pai e minha mãe, todos foram unânimes em acharem a semelhança
boa; é um fac-símile do velho, com todas as particularidades de sua cabeleira, de seu
colarinho de camisa, etc. Quanto ao outro retrato, nenhum de nós o reconhecendo, pendurei-o
em minha loja, à vista dos passantes, e permaneceu uma semana sem ser reconhecido por
ninguém. Esperávamos que alguém nos dissesse que representava um antigo habitante de Attica. Perdia a esperança em saber quem se quis pintar, quando uma noite, tendo formado um círculo espiritualista em minha casa, um Espírito se manifestou e me fez a comunicação que aqui está:

"Meu nome é Horace Gridley. Há mais de cinco anos deixei meu despojo. Morei vários anos em Natchez (Mississipi), onde ocupei o lugar de xerife. Meu único filho mora lá. Sou primo do vosso pai. Podereis ter outras informações sobre mim, dirigindo-vos ao vosso tio, senhor Gridley, de Brownsville (Tennessee). O retrato que tendes em vossa loja é o meu, à época em que vivia na Terra, pouco tempo antes de passar para esta nova existência, mais elevada, mais feliz e melhor, ele se me assemelha, tanto ao menos quanto pude retomar minha fisionomia de então, porque isso é indispensável quando nos pintam, e o fazemos o melhor que podemos em lembrança e segundo as condições que o momento o permite. O retrato em
questão não está acabado como o teria desejado; há algumas ligeiras imperfeições que o senhor West disse provirem das condições nas quais se achava o médium. Entretanto, enviai esse retrato a Natchez, para que seja examinado; creio que será reconhecido."

Os factos mencionados nessa comunicação eram perfeitamente ignorados por mim, tanto quanto de todos os habitantes de nosso lugar. Entretanto, uma vez, há alguns anos, ouvi dizer que meu pai tinha um parente em algum local dessa parte do vale do Mississipi; mas nenhum de nós sabia o nome desse parente, nem o lugar onde vivera, nem mesmo se estava morto, e não foi senão vários dias depois que tomei com meu pai (que habitava Delphi, a
quarenta milhas daqui), qual havia sido o lugar de residência de seu primo, do qual não ouvira falar quase nada há sessenta anos. Não havíamos pensado em pedir os retratos de família; eu tinha simplesmente colocado, diante do médium, uma nota escrita contendo os nomes de uma vintena de antigos habitantes de Attica, partidos deste mundo, e desejamos obter o retrato de algum dentre eles. Penso, pois, que todas as pessoas racionais admitirão que o retrato, nem a comunicação de Horace Gridley, não puderam resultar de uma
transmissão de pensamento de nós para o médium; aliás, é certo que o senhor Roger jamais conheceu nenhum dos dois homens, dos quais fez os retratos, e muito provavelmente, deles, jamais ouviu falar, porque é Inglês de nascimento; ele veio para a América, há dez anos, e nunca foi mais ao sul que Cincinnati, ao passo que Horace Gridley, pelo que sei, não veio jamais mais norte que Memphis (Tenn), nos últimos trinta ou trinta e cinco anos de sua vida terrestre. Ignoro se jamais visitou a Inglaterra; mas isso não poderia ter sido senão antes do nascimento de Roger, porque este não tem mais que vinte e oito a trinta anos. Quanto ao
meu avô, morto há mais ou menos dezanove anos, jamais saiu dos Estados Unidos, e jamais fizera seu retrato, de qualquer maneira desde que recebi a comunicação que transcrevi mais acima, escrevi ao senhor Gridley, de Brownsville, e sua resposta veio corroborar o que ensinara a comunicação do Espírito; além do mais, com ele encontrei o nome do único filho de Horace Gridley, que é a senhora L. M. Patterson, ainda residente em Natchez, onde seu pai morou muito tempo, e que morreu, ao
que pensa meu tio, há mais ou menos seis anos, em Houston (Texas).

Escrevi, então, à senhora Patterson, minha prima recém-descoberta, e lhe enviei uma cópia daguerreotipada do retrato, que nos disseram ser de seu pai. Em minha carta ao meu tio, de
Brownsville, não havia dito nada do objectivo principal de minhas pesquisas, e dai nada
disse mais à senhora Patterson; nem por que enviava esse retrato, nem como o havia adquirido, nem qual era a pessoa que ele representava; perguntei simplesmente à minha prima se ela nele reconhecia alguém. Ela me respondeu que não podia certamente dizer de quem era esse retrato, porém ela me assegurava que se assemelhava a seu pai à época de sua morte. Escrevi-lhe em seguida que o tomáramos também pelo retrato de seu pai, mas sem lhe dizer como o havia obtido. A réplica de minha prima trazia, em substância, que no ambrotipo que eu lhe enviara, todos haviam reconhecido seu pai, antes que eu lhe dissesse
que era ele o representado. Minha prima testemunhou muita surpresa de que eu tivesse um
retrato de seu pai, quando ela mesma jamais tivera, e que seu pai jamais dissera que fizera seu retrato, não importa por quem. Não acreditava que dele existisse algum. Mostrou-se bem satisfeita com a minha remessa, sobretudo por causa de seus filhos, que têm muita veneração pela memória de seu pai.
Então enviei-lhe o retrato original, autorizando-a a guardá-lo, se lhe aprouvesse; mas ainda não lhe disse como o havia obtido. As principais passagens do que ela me escreveu, em retorno, são as seguintes:

"Recebi vossa carta, assim como o retrato de meu pai, que me permitis guardar, se for assaz semelhante. É o certamente muito; e como jamais tive outro retrato dele, guardo-o, uma vez que com isso consentis; aceito-o com muito reconhecimento, embora me pareça que meu pai foi melhor que isso, quando se achava com boa saúde."
Antes do recebimento das duas últimas cartas da senhora Patterson, o acaso quis que o senhor Hedges, hoje de Delphi, mas outrora de Natchez, e o senhor Ewing, vindo recentemente de Vicksburg (Mississipi), vissem o retrato em questão e o reconhecessem como sendo de Horace Gridley, com quem ambos tiveram relações.
Acho que esses factos têm muita significação para passarem em silêncio, e acreditei dever comunicar-lhes para serem publicados. Asseguro-vos que, escrevendo este artigo, tomei muito cuidado para que tudo nele esteja correcto.

Nota. Já conhecemos os médiuns desenhistas; além dos notáveis desenhos, dos quais demos um espécime, mas que nos retratam coisas das quais não podemos verificar a exactidão, vimos executar, sob nossos olhos, por médiuns inteiramente estranhos a essa arte, esboços muito reconhecíveis de pessoas mortas, que jamais haviam conhecido; mas daí para um retrato pintado dentro das regras, há uma distância. Essa faculdade se liga a um fenómeno muito curioso do qual somos testemunhas neste momento, e de que falaremos
proximamente.

Revista Espírita, Novembro de 1858

sábado, 26 de julho de 2008

A senhora de Stael


A senhora de Staël

Na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 28 de Setembro de 1858, o
Espírito da senhora de Staël se comunica espontaneamente e sem ser chamado, sob a mão
da senhorita E..., médium escrevente; dita a passagem seguinte:
Viver é sofrer; sim, mas a esperança não segue o sofrimento? Deus não colocou no coração
dos mais infelizes a maior dose de esperança? Criança, o desgosto e a decepção seguem o
nascimento; mas diante dele marcha a esperança que lhe diz: Avance, o objectivo é a
felicidade: Deus é clemente.
Por que, dizem os espíritos fortes, vir-nos ensinar uma nova religião, quando o Cristo pôs as
bases de uma caridade tão grandiosa, de uma felicidade tão certa? Não temos a intenção de
mudar o que o grande reformador ensinou. Não: somente viemos reafirmar nossa confiança,
aumentar nossas esperanças. Quanto mais o mundo se civilize, mais deverá ter confiança, e
mais também teremos necessidade de sustentá-lo. Não queremos mudar a face do Universo,
viemos ajudar a tomá-lo melhor; e se, neste século, não se vier em ajuda ao homem, será
muito infeliz pela falta de confiança e de esperança. Sim, homem sábio que lês nos outros,
que procuras conhecer o que pouco te importa, e atiras longe de ti o que te concerne, abre os
olhos, não desesperes; não digas mais: O nada pode ser possível, quando, em teu coração,
deveria sentir o contrário. Vem assentar-te a esta mesa e espera: tu te instruirás de teu
futuro, serás feliz. Aqui, há pão para todo o mundo: espíritos, vos desenvolvereis; corpos,
vos nutrireis; sofrimentos, vos acalmareis; esperanças, florireis e embelezareis a vida para
fazê-la suportar.

Staël.

Nota. O Espírito faz alusão à mesa onde estavam os médiuns.

Perguntai-me, responderei às vossas perguntas.

1. Não estando prevenidos de vossa visita, não preparamos nada do assunto.

- R. Sei muito bem que perguntas particulares não podem ser resolvidas por mim; mas de coisas gerais
pode-se perguntar, mesmo a uma mulher que teve um pouco de espírito e tem agora muito de coração!

Nesse momento, uma senhora que assistia à sessão, pareceu desfalecer; mas não era senão
uma espécie de êxtase que, longe de ser penoso, lhe era antes agradável. Oferece-se para
magnetizá-la: então o Espírito da senhora Staël disse espontaneamente: Não, deixai-a
tranquila, é preciso deixar a influência agir. - Depois, dirigindo-se à senhora: Tende
confiança, um coração vela junto de vós; quer vos falar; um dia virá... Não precipitemos as
emoções.

O Espírito que se comunicava com essa senhora, e que era o de sua irmã, escreveu então
espontaneamente: Eu retornarei

A senhora de Staël, dirigindo-se de novo, ela mesma, a essa senhora, escreveu: Uma palavra
de consolação a um coração sofredor. Por que essas lágrimas de mulher para a irmã? Esses
retornos ao passado, quando todos os vossos pensamentos, não deveriam ir .senão para o
futuro? Vosso coração sofre, vossa alma tem necessidade de se dilatar. Pois bem! que essas
lágrimas sejam um alívio e não produzidas pelos remorsos! Aquela que vos ama e que
chorais está feliz com a sua felicidade! E esperai reencontrá-la um dia: não a vedes; mas
para ela não há separação, porque constantemente pode estar junto de vós.

2. Gostaríeis de nos dizer o que pensais actualmente de vossos escritos?

- R. Uma única palavra esclarecer-vos-á. Se eu voltasse e pudesse recomeçar, mudaria as duas terças partes e não guardaria senão a outra terça parte.

3. Poderíeis assinalar as coisas que desaprovais?

- R. Não é muita exigência, porque o que não está justo, outros escritores o mudarão: fui muito homem para uma mulher.

4. Qual era a causa primeira do carácter viril que mostrastes durante a vida?

- R. Isso depende da fase da existência em que se está Na sessão seguinte, em 12 de Outubro, se lhe dirigem as perguntas seguintes, por intermédio do senhor D..., médium escrevente.

5. Outro dia, viestes espontaneamente entre nós, por intermédia da senhorita E... Teríeis a
bondade de nos dizer qual motivo pôde vos levar a nos favorecer com vossa presença, sem
que vos tivéssemos chamado?

- R. A simpatia que tenho por todos; ao mesmo tempo, o cumprimento de um dever que me impus em minha existência actual, ou antes em minha existência passageira, uma vez que estou chamada a reviver: de resto, é o destino de todos os Espíritos.

6. Como vos é mais agradável: vir espontaneamente ou ser evocada?

- R. Gosto mais de ser evocada, porque é uma prova que se pensa em mim; mas sabeis, também, que é agradável para o Espírito livre poder conversar com o Espírito do homem; por isso, não deveis vos
admirar ao me verdes chegar, de repente, entre vós.

7. Há vantagem em evocar os Espíritos antes que esperar a seu bel-prazer?

- R. Evocando, tem-se um objectivo; deixando-os vir, corre-se grande risco de ter comunicações imperfeitas, sob muitos pontos de vista, porque os maus vêm tão bem quanto os bons.

8. Já vos comunicastes em outros círculos?

- R. Sim; mas, frequentemente, têm-me feito aparecer mais que eu não teria querido; quer dizer: frequentemente, tomaram meu nome.

9. Teríeis a bondade de vir, algumas vezes, entre nós, para nos ditar alguns dos vossos belos
pensamentos, que estaremos felizes em reproduzir para a instrução geral?

- R. Bem voluntariamente: vou com prazer entre aqueles que trabalham seriamente para se
instruírem: minha chegada de outro dia, disso é uma prova.

Revista Espírita, Novembro de 1858

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Doutor Muhr


O doutor Muhr


Morto do Cairo, em 4 de Junho de 1857. - Evocado a pedido do senhor Jobard. Era, disse ele, um Espírito muito elevado em sua vida; médico homeopata; um verdadeiro apóstolo espírita; deve estar pelo menos em Júpiter.

1. Evocação. - R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos dizer onde estais?

- R. Eu estou errante.

3. Foi no dia 4 de Junho deste ano que morrestes?

- R. Foi no ano passado.

4. Lembrai-vos do vosso amigo, o senhor Jobard?

- R. Sim, estou frequentemente perto dele.

5. Quando eu lhe transmitir essa resposta, isso o fará feliz,
porque ele tem sempre uma grande afeição por vós?

- R. Eu o sei; esse Espírito me é dos mais simpáticos.

6. Que entendeis, em vossa vida, pelos gnomos?

- R. Entendia por seres que podiam se materializar e tomar formas fantásticas.

7. Credes nisso sempre?
- R. Mais do que nunca; disso tenho agora a certeza; mas gnomo é uma palavra que pode parecer ter muito da magia; gosto melhor de dizer agora Espírito em
vez de gnomo.

Nota. - Durante a sua vida, ele acreditava nos Espíritos e em suas manifestações; somente que os designava sob o nome de gnomos, ao passo que agora ele se serve da expressão mais genérica de Espírito.

8. Credes ainda que esses Espíritos, que chamáveis gnomos durante vossa vida, possam tomar formas materiais fantásticas?

-R. Sim, mas sei que isso não se faz frequentemente,
porque há pessoas que poderiam se tornar loucas se vissem as aparências que esses Espíritos podem tomar.

9. Quais aparências podem tomar?

- R. Animais: diabos.

10. É uma aparência material tangível, ou uma pura aparência como nos sonhos ou nas visões?

- R. Um pouco mais material do que nos sonhos; as aparições que poderiam muito amedrontar não podem ser tangíveis; Deus não o permite.

11. A aparição do Espírito de Bergzabem, sob forma de homem ou de animal, era dessa natureza?

- R. Sim, e desse género.

Nota. - Não sabemos se, em sua vida, ele acreditava que os Espíritos podiam tomar uma forma tangível; mas é evidente que agora ele entende falar da forma vaporosa e impalpável das aparições.

12. Credes que quando reencarnardes, ireis a Júpiter?

- R. Irei para um mundo que não se iguala ainda com Júpiter.

13. Será por vossa própria escolha que ireis para um mundo inferior a Júpiter, ou por que não mereceis ainda ir para esse planeta?

- R. Prefiro acreditar não merecê-lo, e cumprir uma
missão em um mundo menos avançado. Sei que chegarei à perfeição, é o que faz com que eu goste mais de ser modesto.

Nota. - Essa resposta é uma prova da superioridade desse Espírito; ela concorda com que nos disse o padre Ambroise: que há mais mérito em pedir uma missão num mundo inferior, que querer avançar muito depressa num mundo superior.

14. O senhor Jobard nos pede vos perguntar se estais satisfeito com o artigo necrológico que escreveu sobre vós?

- R. Jobard me deu uma nova prova de simpatia, escrevendo isso; eu lhe agradeço muito, e desejo que o quadro, um pouco exagerado de virtudes e de talentos
que ele fez, possa servir de exemplo àqueles que, dentre vós, seguem o rastro do progresso.

15. Uma vez que, em vossa vida, eras homeopata, que pensais agora da homeopatia?

- R. Homeopatia é o começo das descobertas de fluidos latentes. Muitas outras descobertas tão preciosas se farão e formarão um todo harmonioso, que conduzirá vosso globo à perfeição.

16. Que mérito dais ao vosso livro intitulado: O Médium c/o povo?

- R. E a pedra do obreiro que dei à obra.

Nota. - A resposta desse Espírito sobre a homeopatia vem em apoio da ideia dos fluidos latentes que já nos foi dada pelo Espírito do senhor Badel, com respeito à sua imagem
fotografada. Disso resulta que há fluidos cujas propriedades nos são desconhecidas ou passam desapercebidas, porque sua acção não é ostensiva, mas nem por isso menos real; a
Humanidade se enriquece de conhecimentos novos, à medida que as circunstâncias lhe fazem conhecer suas propriedades.

Revista Espírita, Novembro de 1858

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Méhémet-Ali


Méhémet-Ali, antigo paxá do Egipto

(16 de Março de 1858).

1. Que vos animou a atender o nosso apelo?
- R. Para vos instruir.

2. Estais contrariado por estar vindo entre nós, e responder às perguntas que desejamos vos endereçar?
- R. Não; as que tiverem por objectivo a vossa instrução, eu consinto.

3. Que prova podeis nos dar da vossa identidade, e como poderemos saber que não é um outro Espírito que toma vosso nome?
- R. De que isso serviria?

4. Sabemos por experiência que Espíritos inferiores, frequentemente, ostentam nomes supostos, e foi por isso que fizemos esse pedido.
- R. Eles ostentam também as provas; mas o Espírito que toma uma máscara se revela, também ele mesmo, por suas palavras.

5. Sob qual forma e em qual lugar estais entre nós?
- R. Sob a que leva o nome de Méhémet- Ali, perto de Ermance.

6. Estaríeis satisfeito se vos cedêssemos um lugar especial?
- R. Sobre a cadeira vazia.

Nota. Havia, perto dali, uma cadeira vazia à qual não se havia prestado atenção.

7. Tendes uma lembrança precisa da vossa última existência corporal?
- R. Não a tenho ainda precisa; a morte deixou-me a sua perturbação.

8. Sois feliz?
- R. Não; infeliz.

9. Sois errante ou reencarnado?
- R. Errante.

10. Lembrai-vos o que foste antes de vossa última existência?
- R. Era pobre na Terra; invejei as grandezas terrestres; subi para sofrer.

11. Se pudésseis renascer na Terra, que condições escolheríeis de preferência?
- R. Obscura; os deveres são menores.

12. Que pensais agora da posição que ocupastes em último lugar na Terra?
- R. Vaidade do nada! Quis conduzir homens; soubesse eu conduzir a mim mesmo!

13. Diz-se que a vossa razão esteve alterada, desde há algum tempo; isso é verdade?
- R. Não.

14. A opinião pública aprecia o que fizestes pela civilização do Egipto, e vos coloca na posição dos maiores príncipes. Com isso, experimentais satisfação?
- R. Que me importa! A opinião dos homens é o vento do deserto que levanta a poeira.

15. Vedes com prazer vossos descendentes caminharem na mesma senda, e vos interessais por seus esforços?
- R. Sim, uma vez que têm por objectivo o bem comum.

16. Reprovam-se-vos, no entanto, actos de uma grande crueldade: deles vos arrependeis agora?
- R. Eu os expio.

17. Vedes aqueles que haveis feito massacrar?
- R. Sim.

18. Que sentimentos experimentam por vós?
- R. O ódio e a piedade.

19. Desde que haveis deixado esta vida, revistes o sultão Mahmoud?
- R. Sim; em vão fugimos um do outro.

20. Qual sentimento experimentais, um pelo outro, agora?
- R. A aversão.

21. Qual é a vossa posição actual sobre as penas e as recompensas que nos esperam depois da morte?
- R. A expiação é justa.

22. Qual foi o maior obstáculo que tivestes de combater para o cumprimento dos vossos objectivos progressistas?
- R. Eu reinava sobre escravos.

23. Pensais que se o povo que governastes fosse cristão, teria sido menos rebelde à civilização?
- R. Sim; a religião cristã eleva a alma; a religião muçulmana não fala senão à matéria.

24. Quando vivo, vossa fé na religião muçulmana era absoluta?
- R. Não; eu acreditava num Deus maior.

25. Que pensais disso agora?
- R. Ela não faz os homens.

26. Maomé tinha, segundo vós, uma missão divina?
- R. Sim, mas que a prejudicou.

27. Em que a prejudicou?
- R. Quis reinar.

28. Que pensais de Jesus?
- R. Este veio de Deus.

29. Qual dos dois, Jesus ou Maomé, que, segundo vós, tem feito mais para a felicidade da Humanidade?
- R. Por que o perguntais? Que povo Maomé regenerou? A religião cristã saiu pura das mãos de Deus; a religião maometana é a obra de um homem.

30. Credes uma dessas duas religiões destinada a se apagar de sobre a Terra?
- R. O homem progride sempre; a melhor permanecerá.

31. Que pensais da poligamia, consagrada pela religião maometana?
- R. É um dos laços que retêm na barbárie os povos que a professam.

32. Credes que a submissão da mulher esteja segundo os objectivos de Deus?
- R. Não; a mulher é igual ao homem, uma vez que o Espírito não tem sexo.

33. Diz-se que o povo árabe não pode ser conduzido senão com rigor, não credes que os maus tratos o embrutecem mais do que o submetem?
- R. Sim; é o destino do homem; ele se avilta quando é escravo.

34. Poderíeis nos reportar aos tempos da antiguidade, quando o antigo Egipto estava florescente, e nos dizer quais foram as causas da sua decadência moral?
- R. A corrupção dos costumes.

35. Parece que fazeis pouco caso dos monumentos históricos que cobrem o solo do Egipto; não compreendemos essa indiferença da parte de um príncipe amigo do progresso.
- R. Que importa o passado! O presente não o substituiria.

36. Consentiríeis em vos explicar mais claramente?
- R. Sim; não seria preciso lembrar ao antigo Egipto degradado um passado muito brilhante: não o teria compreendido. Desdenhei o que me pareceu inútil; não poderia me enganar?

37. Os sacerdotes do antigo Egipto tinham conhecimento da Doutrina Espírita?
- R. Era a deles.

38. Recebiam manifestações?
- R. Sim.

39. As manifestações que obtinham os sacerdotes egípcios tinham a mesma fonte das que Moisés obtinha?
- R. Sim, ele foi iniciado por aqueles.

40. Por que as manifestações de Moisés eram mais poderosas o que as dos sacerdotes egípcios?
- R. Moisés queria revelar; os sacerdotes egípcios não tendiam senão a ocultar.

41. Pensais que a doutrina dos sacerdotes Egípcios tinha qualquer relação com a dos Indianos?
- R. Sim; todas as religiões mães estão ligadas entre si por laços quase invisíveis; decorrem de uma mesma fonte.

42. Qual é, das duas religiões, a dos Egípcios e a dos Indianos, que é a mãe da outra?
- R. Elas são irmãs.

43. Como ocorre que vós, em vossa vida tão pouco esclarecido sobre estas questões, possa respondê-las com tanta profundidade?
- R. Em outras existências as aprendi.

44. No estado errante, em que estais agora, tendes, pois, pleno conhecimento das vossas existências anteriores?
- R. Sim, salvo da última.

45. Haveis, pois, vivido no tempo dos Faraós?
- R. Sim; três vezes vivi sobre o solo egípcio: sacerdote, mendigo e príncipe.

46. Sob qual reinado fostes sacerdote?
- R. É tão antigo! O príncipe era vosso Sesostris.

47. Pareceria, segundo isso, que não progredistes, uma vez que expiais, agora, os erros da vossa última existência?
- R. Sim, progredi lentamente; era eu perfeito para ser sacerdote?

48. Foi porque fostes sacerdote naquele tempo, que pudestes nos falar, com conhecimento de causa, da antiga religião dos Egípcios?
- R. Sim; mas não sou bastante perfeito para tudo
saber; outros lêem no livro do passado como num livro aberto.

49. Poderíeis nos dar uma explicação sobre o motivo da construção das pirâmides?
- R. É muito tarde.

(nota - Eram quase onze horas da noite.)

50. Não vos faremos mais do que essa pergunta; consenti em respondê-la, eu vos peço.
- R. Não, é muito tarde, essa pergunta conduzirá a outras.

51. Teríeis a bondade de nos responder numa outra ocasião?
-R. Eu não me comprometo.

52. Nós vos agradecemos, nada obstante, pela complacência com a qual consentistes em
responder às nossas perguntas.
- R. Bem! Eu voltarei.

Revista Espírita, Abril de 1858

Conversa além túmulo - Méhémet Ali


Conversas familiares de além túmulo
- Méhémet Ali


(SEGUNDA CONVERSA)

1. Em nome de Deus Todo-poderoso, peço ao Espírito de Méhémet-Ali consentir em se comunicar connosco.

- R. Sim; eu sei por quê.

2. Prometestes voltar entre nós para nos instruir; sereis bastante bom para nos escutar e nos responder?
- R. Não prometi; não estou comprometido.

3. Seja; em lugar de prometi, coloquemos que nos fizestes esperar.
- R. Quer dizer, para contentar vossa curiosidade; não importa! a isso me prestarei um pouco.

4. Uma vez que vivestes ao tempo dos Faraós, poderíeis nos dizer com que objectivo foram construídas as Pirâmides - R. São sepulcros; sepulcros e templos: ali ocorriam as grandes manifestações.

5. Tinham elas também um fim científico?
- R. Não; o interesse religioso absorvia tudo.

6. Era preciso que os Egípcios, desde aquele tempo, fossem bem avançados nas artes mecânicas para cumprirem trabalhos que exigiam forcas tão consideráveis. Poderíeis nos dar uma ideia dos meios que empregavam?
- R. Massas de homens gemeram sob o peso dessas pedras que atravessaram séculos: o homem era a máquina.

7. Que classe de homens se ocupavam com esses grandes trabalhos?
- R. A que chamais o povo.

8. O povo estava no estado de escravidão, ou recebia um salário?
- R. A força.

9. De onde vinha, aos Egípcios, o gosto de coisas colossais antes que das coisas graciosas que distinguiam os Gregos, embora tendo a mesma origem?
- R. O Egípcio estava ferido com a grandeza de Deus; procurava igualar-lhe ultrapassando suas forças. Sempre o homem!

10. Uma vez que fostes sacerdote nessa época, gostaríeis de nos dizer alguma coisa da religião dos antigos Egípcios. Qual era a crença do povo com respeito à Divindade?
- R. Corrompidos, acreditavam em seus sacerdotes; eram deuses para eles, estes que os mantinham curvados.

11. Que pensavam do estado da alma depois da morte?

- R. Criam naquilo que lhe diziam os sacerdotes.

12. Os sacerdotes, sob o duplo ponto de vista de Deus e da alma, tinham ideias mais sadias que o povo?
- R. Sim, tinham a luz nas mãos; ocultando-a aos outros, ainda a viam.

13. Os grandes do Estado partilhavam as crenças do povo ou a dos sacerdotes?
- R. Entre os dois.

14. Qual era a origem do culto prestado aos animais?
- R. Queriam desviar o homem de Deus, rebaixando-o sob ele mesmo, dando-lhe por deuses seres inferiores.

15. Concebe-se, até um certo ponto, o culto aos animais úteis, mas não se compreende o de animais imundos e nocivos, tais como as serpentes, os crocodilos, etc.!
- R. O homem adora o que teme. Era um jugo para o povo. Os sacerdotes podiam crer em deuses feitos por suas mãos!

16. Por qual bizarria adoravam, ao mesmo tempo, o crocodilo assim como os répteis, e o mangusto e o íbis que os destruíssem?
- R. Aberração do Espírito; o homem procura, por toda parte, deuses para ocultar-se aquilo que é.

17. Por que Osiris era representado com uma cabeça de gavião, e Anubis como uma cabeça de cão?
- R. O Egípcio gostava de personificar sobre claros emblemas: "Anubis era bom; o gavião, que dilacera, representava o cruel Osiris.

18. Como conciliar o respeito dos Egípcios pelos mortos, com o desprezo e o horror que tinham por aqueles que os enterrassem e os mumificassem?
- R. O cadáver era um instrumento de manifestação: o Espírito, segundo eles, voltava no corpo que havia animado.
O cadáver, um dos instrumentos do culto, era sagrado, e o desprezo perseguia aquele que ousasse violar a santidade da morte.

19. A conservação de corpos dava lugar a manifestações mais numerosas?
- R. Mais longas; quer dizer que o Espírito voltava por mais longo tempo, tanto quanto o instrumento fosse mais dócil.

20. A conservação de corpos não tinha também uma causa de salubridade, em razão dos trasbordamentos do Nilo?
- R. Sim, para aqueles do povo.

21. A iniciação nos mistérios se fazia, no Egipto, com práticas tão rigorosas quanto da Grécia?
- R. Mais rigorosas.

22. Com qual objectivo impunha aos iniciados condições tão difíceis de serem cumpridas?
- R. Para não ter senão almas superiores: aquelas sabiam compreender e se calar.

23. O ensino dado nos mistérios tinha por objectivo unicamente a revelação de coisas extra humanas,
ou também ali se ensinavam os preceitos da moral e do amor ao próximo?
- R. Tudo isso era bem corrompido. O objectivo dos sacerdotes era dominar: não era de instruir.

Revista Espírita, Novembro de 1858

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Problemas morais sobre o suicídio


Problemas morais sobre o suicídio

Questões dirigidas a São Luís, por intermédio do senhor C..., médium falante e vidente, na
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sessão do dia 12 de Outubro de 1858.

1. Por que o homem que tem a firme intenção de se destruir, se revolta com a ideia de ser
morto por um outro, e se defenderia contra os ataques no próprio momento em que vai
cumprir seu desígnio?

- R. Porque o homem tem sempre medo da morte; quando se a dá a si mesmo, está super-excitado e tem a cabeça desarranjada, e cumpre esse acto sem coragem e medo, e sem, por assim dizer, ter o conhecimento do que faz, ao passo que, se tivesse a escolha, não veríeis tantos suicidas. O instinto do homem leva-o a defender a sua vida, e, durante o tempo que se escoa entre o instante que seu semelhante se aproxima para matá-lo e aquele no qual o acto é cometido, ele tem sempre um movimento de repulsão instintiva da morte que o leva a repelir esse fantasma, que não é apavorante senão para o Espírito culpado. O homem que se suicida não experimenta esse sentimento, porque está cercado de Espíritos que o impelem, que o ajudam em seus desejos, e lhe fazem perder completamente a lembrança do que não é ele, quer dizer, de seus parentes e daqueles que o amam, e de uma outra existência. O homem nesse momento é todo egoísmo.

2. Aquele que, desgostoso da vida, mas não quer suicidar-se e quer que sua morte sirva para
alguma coisa, é culpável por procurá-la num campo de batalha, defendendo o seu país?

- R.Sempre. O homem deve seguir o impulso que lhe é dado; qualquer que seja a carreira que
abrace, qualquer que seja a vida que conduza, está sempre assistido por Espíritos que o
conduzem e o dirigem com o seu desconhecimento; ora, procurar ir contra os seus conselhos
é um crime, uma vez que aí estão colocados para nos dirigir, e que esses bons Espíritos,
quando queremos agir por nós mesmos, aí estão para nos ajudar. Entretanto, se o homem
conduzido por seu próprio Espírito, quer deixar esta vida, abandona-o, e reconhece sua falta
mais tarde, quando se acha obrigado a recomeçar uma outra existência O homem deve ser
provado para se elevar; deter seus actos, por entrave ao seu livre arbítrio, seria ir contra
Deus, e as provas, nesse caso, se tomariam inúteis, uma vez que os Espíritos não
cometeriam faltas. O Espírito foi criado simples e ignorante; é preciso, pois, para chegar às
esferas felizes, que progrida, se eleve em ciência e em sabedoria, e não é senão na
adversidade que o Espírito colhe sua elevação do coração e compreende melhor a grandeza
de Deus.

3. Um dos assistentes observou que crê ver uma contradição entre essas últimas palavras de
São Luís e as precedentes, quando disse que o homem pode ser levado ao suicídio por certos
Espíritos que a isso o excitam. Nesse caso, cederia a um impulso que lhe seria estranho.

- R.Não há contradição. Quando eu disse que o homem impelido ao suicídio, estava cercado de
Espíritos que o solicitavam a isso, não falei dos bons Espíritos que fazem todos os esforços
para disso desviá-lo; deveria estar subentendido; todos sabemos que temos um Anjo
guardião, ou, se preferis, um guia familiar. Ora, o homem tem seu livre arbítrio; se, apesar
dos bons conselhos que lhe são dados, persevera nessa ideia que é um crime, ele a cumpre e
é ajudado nisso pelos Espíritos levianos e impuros que o cercam, que ficam felizes em verem
que ao homem, ou Espírito encarnado, também lhe falta coragem para seguir os conselhos de
seu bom guia, e, frequentemente, do Espírito de seus parentes mortos que o cercam,
sobretudo em circunstâncias semelhantes.

Revista Espírita, Novembro de 1858

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Pluralidade das existências



Da pluralidade das existências

(PRIMEIRO ARTIGO)

Das diversas doutrinas professadas pelo Espiritismo, a mais controvertida, sem contradita, é a da pluralidade das existências corpóreas, dita de outro modo, da reencarnação. Se bem que
essa opinião esteja agora partilhada por um número muito grande de pessoas, e que já tratamos a questão por várias vezes, cremos dever, em razão de sua extrema gravidade, examiná-la aqui de um modo mais aprofundado, a fim de respondermos às diversas objecções
que ela tem suscitado. Antes de entrarmos no fundo da questão, algumas observações preliminares nos parecem indispensáveis.

O dogma da reencarnação, dizem certas pessoas, não é novo; foi ressuscitado de Pitágoras.
Nunca dissemos que a Doutrina Espírita foi invenção moderna; sendo o Espiritismo uma lei da Natureza, deveu existir desde a origem dos tempos, e sempre nos esforçamos por provar que dele se encontram traços na mais alta antiguidade. Pitágoras, como se sabe, não foi o autor do sistema da metempsicose; ele a auriu dos filósofos indianos e entre os Egípcios, onde existia desde tempos imemoriais. A ideia da transmigração das almas era, pois, uma crença vulgar, admitida pelos homens mais eminentes. Por que caminho lhes veio ela? Pela
revelação ou pela intuição? Não o sabemos; mas, qualquer que seja, uma ideia não atravessa as idades e não é aceita por inteligências de elite, sem ter um lado sério. A antiguidade dessa doutrina seria, pois, antes uma prova do que uma objecção. Entretanto, como se sabe
igualmente, entre a metempsicose dos Antigos e a doutrina moderna da reencarnação, há esta grande diferença que os Espíritos rejeitam da maneira mais absoluta: a transmigração do homem para os animais e reciprocamente.

Vós estáveis, sem dúvida, dizem também alguns contraditores, imbuídos dessas ideias, e eis porque os Espíritos se aterraram à vossa maneira de ver. Aí está um erro que prova, uma vez
mais, o perigo dos julgamentos apressados e sem exame. Se essas pessoas tivessem se dado ao trabalho de lerem o que escrevemos sobre o Espiritismo, teriam se poupado apenas de uma objecção feita muito levianamente. Repetiremos, pois, o que dissemos a esse respeito, saber que, quando a doutrina da reencarnação nos foi ensinada pelos Espíritos, ela estava tão longe do nosso pensamento, que tínhamos feito, sobre os antecedentes da alma um sistema
diferente, de resto, partilhado por muitas pessoas. A doutrina dos Espíritos, sob esse assunto, portanto, nos surpreendeu; diremos mais, contrariou, porque derrubou as nossas próprias ideias; ela estava longe, como se vê, de ser-lhe o reflexo. Isso não é tudo; não cedemos ao primeiro choque; combatemos, defendemos a nossa opinião, levantamos objecções, e não nos rendemos senão à evidência, e quando vimos a insuficiência do nosso sistema para resolver todas as questões que esse assunto levanta.

Aos olhos de algumas pessoas, a palavra evidência, sem duvida, parecerá singular em semelhante matéria; mas não parecerá imprópria para aqueles que estão habituados a perscrutar os fenómenos espíritas. Para o observador atento, há factos que, se bem que não sejam de uma natureza absolutamente material, não constituem menos uma verdadeira evidência, ou pelo menos uma evidência moral. Aqui não é lugar para explicar esses factos; só
um estudo continuado e perseverante pode fazer compreendê-los; nosso objectivo é unicamente refutar a ideia de que essa doutrina não é senão a tradução do nosso pensamento. Temos ainda uma outra refutação a opor é de que não foi ensinada somente a nós; ela o foi em muitos outros lugares, em França e no estrangeiro; na Alemanha, na Holanda, na Rússia, etc. e isso antes mesmo da publicação de O Livro dos Espíritos.
Acrescentamos ainda que, desde que nos entregamos ao estudo do Espiritismo, tivemos comunicações por mais de cinquenta médiuns, escreventes, falantes, videntes, etc., mais ou menos esclarecidos, de uma inteligência normal ou menos limitada, alguns mesmo completamente iletrados, e por consequência inteiramente estranhos às matérias filosóficas, e que, em nenhum caso, os Espíritos foram desmentidos sobre essa questão; ocorre o mesmo em todos os círculos que conhecemos, onde o mesmo princípio foi professado. Esse argumento não é sem réplica, nós o sabemos, por isso nele não insistiremos mais que o razoável.

Examinemos a coisa sob um outro ponto de vista, e abstracção feita de toda intervenção dos Espíritos; deixemos estes de lado por um instante; suponhamos que essa teoria não seja deles; suponhamos mesmo que jamais foi questão de Espíritos. Coloquemo-nos, pois,
momentaneamente, sobre um terreno neutro, admitindo o mesmo grau de probabilidade para uma e outra hipótese, a saber a pluralidade e a unicidade das existências corpóreas, e vejamos de qual lado nos levará a razão e nosso próprio interesse.

Certas pessoas repelem a ideia da reencarnação só pelo motivo de não lhes convir, dizendo que têm por bastante uma existência e que não querem recomeçar uma semelhante; nós conhecemos as que, tão-só o pensamento de reaparecer na Terra faz saltar de furor. Não
temos senão uma coisa a lhes perguntar, é se elas pensam que Deus deva tomar seus conselhos e consultar seus gostos para regular o Universo. Ora, de duas coisas uma: ou a reencarnação existe, ou ela não existe; se existe, irá contrariá-los, e lhes será necessário suportá-la, e Deus, para isso, não lhes pedirá permissão. Parece-nos ouvir um doente dizer Já sofri bastante hoje, e não quero mais sofrer amanhã. Qualquer que seja seu mau-humor, não lhes será necessário sofrer menos o amanhã e os dias seguintes até que esteja curado;
portanto, se devem reviver corporalmente, reviverão, se reencarnarão; debalde se rebelarão como uma criança que não quer ir à escola, ou um condenado à prisão, é preciso que passem por lá. Semelhantes objecções são muitos pueris para merecerem um exame mais sério.
Diremos, entretanto, para confortá-los, que a Doutrina Espírita sobre a reencarnação não é tão terrível como crêem, e se a tivessem estudado a fundo não estariam tão assustados; saberiam que a condição dessa nova existência depende deles: ela será feliz ou infeliz, segundo o que fizeram neste mundo, e podem desde esta vida se elevarem tão alto, que não terão mais a temer cair no lamaçal.

Supomos que falamos a pessoas que crêem num futuro qualquer depois da morte, e não àquelas que se dão o nada como perspectiva, ou que querem afogar sua alma num todo universal, sem individualidade, como as gotas de chuva no Oceano, o que vem a ser quase o mesmo. Se, pois, credes num futuro qualquer, sem dúvida, não admitis que ele seja o mesmo para todos, de outro modo onde estaria a utilidade do bem? Por que se constranger?
Por que não satisfazer todas as suas paixões, todos os seus desejos, fosse mesmo às expensas de outrem, uma vez que nele não seria nem mais e nem menos? Credes que esse futuro será mais ou menos feliz segundo o que tivermos feito durante a vida; tendes então o
desejo de ser tão feliz como seja possível, uma vez que isso deve ser pela eternidade?
Teríeis, por acaso, a pretensão de ser um dos homens mais perfeitos que tenham existido na Terra, e ter assim direito, de uma só vez, à felicidade suprema dos eleitos? Não. Admitis, assim, que há homens que valem mais que vós e que têm direito a um melhor lugar, sem,
por isso, que estejais entre os condenados. Pois bem! Colocai-vos, um instante pelo pensamento, nessa situação média que será a vossa, uma vez que vindes disso convir, e suponde que alguém venha vos dizer: Sofreis, não sois tão felizes como poderíeis sê-lo, ao
passo que tendes, diante de vós, seres que gozam de uma felicidade sem mácula, quereis trocar a vossa posição com a sua? - Sem dúvida, direis; que é preciso fazer? - Menos que nada, recomeçar o que fizestes mal feito e tratar de fazê-lo melhor. - Hesitaríeis em aceitar, fosse mesmo ao preço de várias existências de provas? Tomemos uma comparação mais prosaica. Se há um homem que, sem estar na última das misérias, entretanto, experimenta privações em consequência da mediocridade de seus recursos, se viesse a dizer Eis uma imensa fortuna, podeis dela gozar, para isso é preciso trabalhar rudemente durante um minuto. Fosse ele o mais preguiçoso da Terra, diria sem hesitar Trabalhemos um minuto, dois minutos, uma hora, um dia se for preciso; o que é isso para acabar a minha vida na abundância? Ora, o que é a duração da vida corpórea com relação à eternidade? "Menos que um minuto, menos que um segundo.

Ouvimos fazer este raciocínio: Deus, que é soberanamente bom, não pode impor ao homem recomeçar uma série de misérias e de tribulações? Achar-se-ia, por acaso, que há mais bondade em condenar o homem a um sofrimento perpétuo por alguns momentos de erro, antes que dar-lhe os meios de reparar as suas faltas? "Dois fabricantes tinham, cada um, um obreiro que podia aspirar a se tornar o sócio do chefe. Ora, ocorreu que esses dois obreiros
empregaram, uma vez, muito mal sua jornada e mereceram ser despedidos. Um dos fabricantes despediu o seu obreiro apesar de suas súplicas, e este não tendo encontrado trabalho, morreu de miséria. O outro disse ao seu: Perdestes um dia, disso me deveis uma compensação; fizestes mal o vosso trabalho, disso me deveis a reparação, eu vos permito recomeçar; tratai de fazer bem e eu vos conservarei, e podereis sempre aspirar à posição superior que vos prometi." Há necessidade de se perguntar qual dos dois fabricantes foi o mais humano? Deus, a própria clemência, seria mais inexorável que um homem? O pensamento que nossa sorte está para sempre fixada, por alguns anos de prova, quando mesmo nem sempre dependeu de nós atingir a perfeição na Terra, tem alguma coisa de
pungente, ao passo que a ideia contrária é eminentemente consoladora; ela nos deixa a esperança. Assim, sem nos pronunciar-nos pró ou contra a pluralidade das existências, sem admitir uma hipótese antes que outra, dizemos que, se tivermos a escolha, não há pessoa que prefira um julgamento sem apelação. Um filósofo disse que se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo para a felicidade do género humano; poder-se-ia dizer outro tanto quanto à pluralidade das existências. Mas, como dissemos, Deus não pede nossa permissão; não consulta o nosso gosto; isso é ou isso não é; vejamos de qual lado estão as probabilidades, e tomemos a coisa sob um outro ponto de vista, sempre abstracção feita do ensino dos
Espíritos, e unicamente como estudo filosófico.

Se não há reencarnação, não há senão, uma existência corpórea, isso é evidente; se nossa existência actual é a única, a alma de cada homem é criada no seu nascimento, a menos que se admita a anterioridade da alma, caso que se perguntaria o que era a alma antes do nascimento, e se esse estado não constituía uma existência sob uma forma qualquer. Não há meio termo: ou a alma existia, ou não existia antes do corpo; se ela existia, qual era a sua situação? Tinha ou não consciência dela mesma; se não tinha consciência, é quase como se não existisse; se tinha sua individualidade, era progressiva ou estacionaria; num e noutro caso, que grau ela alcançou no corpo? Admitindo, segundo a crença vulgar, que a alma nasce com o corpo, ou, que vem a ser o mesmo, que anteriormente à sua encarnação ela não tem senão faculdades negativas, colocamos as perguntas seguintes:

1. Por que a alma mostra aptidões tão diversas e independentes das adquiridas pela educação?

2. De onde vem a aptidão extra normal de certas crianças em tenra idade, por tal ou tal ciência, ao passo que outras permanecem inferiores ou medíocres por toda a sua vida?

3. De onde vêm, nuns, as ideias inatas ou intuitivas que não existem noutros?

4. De onde vêm, em certas crianças, esses instintos precoces de vícios ou de virtudes, esses sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza que contrastam com o meio no qual nasceram?

5. Por que certos homens, abstracção feita da educação, são mais avançados uns do que outros?

6. Por que há selvagens e homens civilizados? Se tomardes uma criança hotentote amamentada, e a levardes aos nossos liceus mais renomeados, jamais fareis dela um Laplace ou um Newton?

Perguntamos qual é a filosofia ou a teosofia que pode resolver esses problemas? Ou as almas, em seu nascimento, são iguais, ou elas são desiguais, isso não é duvidoso. Se são iguais, por que essas aptidões tão diferentes? Dir-se-á que isso depende do organismo? Mas, então, é a doutrina mais monstruosa e mais imoral. O homem não é mais que uma máquina, o joguete da matéria; não tem mais a responsabilidade de seus actos; pode tudo lançar sobre suas imperfeições físicas. Se elas são desiguais, foi porque Deus as criou assim; mas, então, por que essa superioridade inata concedida a alguns? Essa parcialidade está conforme a justiça de Deus e o igual amor que dá a todas as suas criaturas?

Admitamos, ao contrário, uma sucessão de existências anteriores progressivas, e tudo estará explicado. Os homens trazem, ao nascer, a intuição do que adquiriram; são mais ou menos avançados, segundo o número de existências que percorreram, segundo estejam mais ou menos distantes do ponto de partida: absolutamente como, em uma reunião de indivíduos de todas as idades, cada um terá um desenvolvimento proporcional ao número de anos que viveu; as existências sucessivas serão, para a vida da alma, o que os anos são para a vida do corpo. Concentrai, um dia, mil indivíduos, desde um ano até oitenta; suponde que um véu seja lançado sobre todos os dias que precederam, e que, em vossa ignorância, credes assim
todos nascidos no mesmo dia: perguntar-vos-eis, naturalmente, como ocorre que uns sejam grandes e outros pequenos, uns velhos e os outros jovens, uns instruídos e os outros ainda ignorantes; mas se a nuvem que vos esconde o passado vem a se levantar, se aprendeis que todos viveram mais ou menos tempo, tudo vos será explicado. Deus, em sua justiça, não pôde criar almas mais ou menos perfeitas; mas, com a pluralidade das existências, a desigualdade que vedes nada mais tem de contrário à equidade mais rigorosa: é que nós não
vemos senão o presente, e não o passado. Esse raciocínio repousa sobre um sistema, uma suposição gratuita? Não; partimos de um facto patente, incontestável: a desigualdade das aptidões e do desenvolvimento intelectual e moral, e encontramos esse facto inexplicável por todas as teorias em curso, ao passo que a sua explicação é simples, natural, lógica, por uma outra teoria. É racional preferir a que não explica à que explica?

Com respeito à sexta pergunta, sem dúvida, dir-se-á que o Hotentote é de uma raça inferior: então, perguntaremos se o Hotentote é um homem ou não. Se é um homem, por que Deus deserdou, a ele e à sua raça, dos privilégios concedidos à raça caucásica? Se não é um
homem, por que procurar fazê-lo cristão? A Doutrina Espírita é mais ampla que tudo isso; por ela, não há várias espécies de homens, não há senão homens cujo espírito está mais ou menos atrasado, mais susceptível de progredir: isso não está mais conforme à justiça de Deus?

Acabamos de ver a alma em seu passado e em seu presente; se a considerarmos em seu futuro, encontraremos as mesmas dificuldades.

1. Se a nossa existência actual, só ela deve decidir nossa sorte futura, qual é, na vida futura, a posição respectiva do selvagem e do homem civilizado? Estão no mesmo nível, ou estão distantes da soma da felicidade eterna?

2. O homem que trabalhou toda a sua vida, para se melhorar, está no mesmo grau que aquele que ficou inferior, não por sua falta, mas porque não teve nem o tempo, nem a possibilidade de se melhorar?

3. O homem que fez mal, porque não pôde se esclarecer, é passível de um estado de coisas que não dependeu dele?

4. Trabalha-se para esclarecer os homens, moralizá-los, civilizá-los; mas para um que se esclarece, há milhões que morrem cada dia antes que a luz tenha vindo até eles; qual é a sorte destes? São tratados como condenados? Em caso contrário, que fizeram para merecer estarem na mesma classe que os outros?

5. Qual é a sorte das crianças que morrem em tenra idade, antes de terem podido fazer nem bem nem mal? Se estão entre os eleitos, por que esse favor sem nada terem feito para merecê-lo? Por qual privilégio estão isentas das tribulações da vida?

Há uma doutrina que possa resolver essas questões? Admitamos as existências consecutivas, e tudo estará explicado de conformidade com a justiça de Deus. O que não se pôde fazer numa existência, far-se-á numa outra; assim é que ninguém escapa à lei do progresso, que cada um será recompensado segundo o seu mérito real, e que ninguém está excluído da felicidade suprema, à qual pode pretender, quaisquer que sejam os obstáculos que haja encontrado em seu caminho.

Essas questões poderiam ser multiplicadas ao infinito, porque os problemas psicológicos e morais que não encontram sua solução senão na pluralidade das existências, são inumeráveis; limitamo-nos aos mais gerais. Qualquer que seja, dir-se-á talvez, a doutrina da
reencarnação não é admitida pela Igreja; isso seria, pois, o desmoronamento da religião.
Nosso objectivo não é tratar essa questão nesse momento; basta-nos haver demonstrado que ela é eminentemente moral e racional. Mais tarde, mostraremos que a religião, talvez, dela esteja menos distante que se pensa, e que com ela não sofreria mais, do que sofreu com a
descoberta do movimento da Terra e dos períodos geológicos que, à primeira vista, pareceram dar um desmentido aos textos sagrados. O ensino dos Espíritos é eminentemente cristão; apoia-se sobre a imortalidade da alma, as penas e as recompensas futuras, o livre
arbítrio do homem, a moral do Cristo; portanto, não é anti-religiosa.

Raciocinamos, como dissemos, abstracção feita de todo ensino espírita que, para certas pessoas não é uma autoridade. Se nós, e tantos outros, adoptamos a opinião da pluralidade das existências, não foi somente porque ela nos veio dos Espíritos, mas porque nos pareceu a mais lógica, e que só ela resolve as questões até agora insolúveis. Se nos viesse de um simples mortal e a adoptaríamos do mesmo modo, e não hesitaríamos antes em renunciar às nossas próprias ideias; do momento em que um erro é demonstrado, o amor-próprio tem mais a perder do que a ganhar obstinando-se numa ideia falsa. Do mesmo modo, teríamos repelido, embora vinda dos Espíritos, se ela nos parecesse contrária à razão, como as
repelimos muitas outras, porque sabemos, por experiência, que não é preciso aceitar cegamente tudo o que vem de sua parte, não mais do que vem da parte dos homens. Resta-nos, pois, a examinar a questão da pluralidade das existências do ponto de vista do ensino
dos Espíritos, de qual maneira se deve entendê-la, e responder, enfim, às objecções mais sérias que se possa a ela opor; o que faremos em um próximo artigo.

Revista Espírita, Novembro de 1858