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quinta-feira, 9 de julho de 2009

Revolução do globo


REVOLUÇÕES DO GLOBO

Revoluções gerais ou parciais. - Idade das montanhas. - Dilúvio bíblico. - Revoluções periódicas. - Cataclismos futuros. - Aumento ou diminuição do volume da Terra.


Revoluções gerais ou parciais


1. - Os períodos geológicos marcam as fases do aspecto geral do globo, em consequência das suas transformações. Mas, com excepção do período diluviano, que se caracterizou por uma subversão repentina, todos os demais transcorreram lentamente, sem transições bruscas. Durante todo o tempo que os elementos constitutivos do globo levaram para tomar suas posições

definitivas, as mutações houveram de ser gerais. Uma vez consolidada a base, só se devem ter produzido modificações parciais, na superfície.


2. - Além das revoluções gerais, a Terra experimentou grande número de perturbações locais, que mudaram o aspecto de certas regiões. Como no tocante às outras duas causas contribuíram para essas perturbações: o fogo e a água.

O fogo actuou produzindo: ou erupções vulcânicas que sepultaram, sob espessas camadas de cinzas e lavas, os terrenos circunjacentes, fazendo desaparecer cidades com seus habitantes; ou terramotos; ou levantamentos da crosta sólida, que impeliam as águas para as regiões mais baixas; ou o afundamento, em maior ou menor extensão, dessa mesma crosta, nalguns lugares, para onde as águas se precipitaram, deixando em seco outros lugares. Foi assim que surgiram ilhas no meio do oceano, enquanto que outras desapareceram; que porções de continentes se separaram e formaram ilhas; que braços de mar, secados, ligaram ilhas e continentes.

Quanto à água, essa actuou, produzindo: ou a irrupção ou a retirada do mar nalgumas costas; ou desmoronamentos que, interceptando as correntes líquidas, formaram lagos; quer pelas cheias e inundações; ou, enfim, aterros nas embocaduras dos rios. Esses aterros, rechaçando o mar, criaram novos territórios. Tal a origem do delta do Nilo, ou Baixo Egipto; do delta do Ródano, ou

Camarga.


Idade das montanhas


3. - Examinando-se os terrenos dilacerados pela elevação das montanhas e das camadas que lhes formam os contrafortes, possível se torna determinar-lhes a idade geológica. Por idade geológica das montanhas, não se deve entender o número de anos que elas contam de existência, mas o período em que se formaram e, portanto, a relativa antiguidade que apresentam. Fora erróneo acreditar-se que semelhante antiguidade corresponde à elevação que

lhes é própria, ou à natureza exclusivamente granítica que revelem, uma vez que a massa de granito, ao dar-se o seu levantamento, pode ter perfurado e separado as camadas sobrepostas.

Comprovou-se assim, por meio da observação, que as montanhas dos Vosges, da Bretanha e da Côte-d'Or, na França, que não são muito elevadas, pertencem às mais antigas formações. Datam do período de transição, senão anteriores aos depósitos de hulha. O Jura se formou no meado do período secundário; é contemporâneo dos repteis gigantes. Os Pirinéus se formaram mais tarde, no começo do período terciário. O Monte Branco e o grupo dos Alpes ocidentais são posteriores aos Pirinéus e datam da metade do período terciário. Os Alpes orientais, que compreendem as montanhas do Tirol, são ainda mais recentes, porquanto só se formaram pelos fins desse mesmo período. Algumas montanhas da Ásia são mesmo posteriores ao período diluviano, ou lhe são contemporâneas.

Esses levantamentos hão de ter ocasionado grandes perturbações locais e inundações mais ou menos consideráveis, pelo deslocamento das águas, pela interrupção e mudança do curso dos rios. (1)


Dilúvio bíblico


4. - O dilúvio bíblico, também conhecido pela denominação de «grande dilúvio asiático», é facto cuja realidade não se pode contestar. Deve tê-lo ocasionado o levantamento de uma parte das montanhas daquela região, como o do México. Corrobora esta opinião a existência de um mar interior, que ia outrora do mar Negro ao oceano Boreal, comprovada pelas observações geológicas. O mar de Azov, o mar Cáspío, cujas águas são salgadas, embora nenhuma comunicação tenham com nenhum outro mar; o lago Aral e os inúmeros lagos espalhados pelas imensas planícies da Tartália e as estepes da Rússia parecem restos daquele antigo mar. Por ocasião do levantamento das montanhas do Cáucaso, posterior ao dilúvio universal, parte daquelas águas foi recalcada para o norte, na direcção do oceano Boreal; outra parte, para o sul, em direcção ao oceano Índico. Estas inundaram e devastaram precisamente a Mesopotâmia e toda a região em que habitaram os antepassados do povo hebreu. Embora esse dilúvio se tenha estendido por uma superfície muito grande, é actualmente ponto averiguado que ele foi apenas local; que não pode ter sido causado pela chuva, pois, por muito copiosa que esta fosse e ainda que se prolongasse por quarenta dias, o cálculo prova que a quantidade da água caída das nuvens não podia bastar para cobrir toda a terra, até acima das mais altas montanhas.

Para os homens de então, que não conheciam mais do que uma extensão muito limitada da superfície do globo e que nenhuma ideia tinham da sua configuração, desde que a inundação invadiu os países conhecidos, invadida fora, para eles, a Terra inteira. Se a essa crença aditarmos a forma imaginosa e hiperbólica da descrição, forma peculiar ao estilo oriental, já não

nos surpreenderá o exagero da narração bíblica.


(1) O século passado registrou notável exemplo de um fenómeno desse género. A seis dias de marcha da cidade de México, existia, em 1750, uma região fértil e bem cultivada, onde davam em abundância arroz, milho e bananas. No mês de Junho, pavorosos tremores de terra abalaram o solo, renovando-se continuamente durante dois meses inteiros. Na noite de 28 para 29 de Setembro, violenta convulsão se produziu; um território de muitas léguas de extensão entrou a erguer-se pouco a pouco e acabou por alcançar a altitude de 500 pés, numa superfíciede 10 léguas quadradas. O terreno ondulava, como as vagas do mar ao sopro da tempestade, milhares de montículos se elevavam e afundavam alternativamente; afinal, abriu-se um abismo de perto de 3 léguas, donde eram lançados a prodigiosa altura fumo, rogo, pedras em brasa e cinzas. Seis montanhas surgiram desse abismo hiante, entre as quais o vulcão a que foi dado o nome de Jorullo, que agora se eleva a 550 metros acima da antiga planície. No momento em que principiaram os abalos do solo, os dois rios Cuitimba e San Pedro, refluindo, inundaram

toda a planície hoje ocupada pelo Jorullo; no terreno, porém, que sem cessar se elevava, outro sorvedouro se abriu e os absorveu. Os dois reapareceram mais tarde, a oeste, num ponto muito afastado de seus antigos leitos. (Luiz Figuier, A Terra antes do dilúvio, pág. 370.)


5. - O dilúvio asiático foi evidentemente posterior ao aparecimento do homem na Terra, visto que a lembrança dele se conservou pela tradição em todos os povos daquela parte do mundo, os quais o consagraram em suas teogonias. (1)

É igualmente posterior ao grande dilúvio universal que assinalou o início do actual período geológico. Quando se fala de homens e de animais antediluvianos, a referência é àquele primeiro cataclismo.


(1) A lenda indiana sobre o dilúvio refere, segundo o livro dos vedas, que Brama, transformado em peixe, se dirigiu ao piedoso monarca Vaivaswata e lhe disse: "Chegou o momento da dissolução do Universo; em breve estará destruído tudo o que existe na Terra. Tens que construir um navio em que embarcarás, depois de teres embarcado sementes de todos os vegetais. Esperar-me-ás nesse navio e eu virei ter contigo, trazendo à Revoluções periódicas


6. - Além do seu movimento anual em torno do Sol, origem das estações, do seu movimento de rotação sobre si mesma em 24 horas, origem do dia e da noite, tem a Terra um terceiro movimento que se completa em cerca de 25.000 anos, ou, mais exactamente, em 25.868 anos, e que produz o fenómeno denominado, em astronomia, precessão dos equinócios (Cap. V, nº 11). Este movimento, que não se pode explicar em poucas palavras, sem o auxílio de figuras e sem uma demonstração geométrica, consiste numa espécie de oscilação circular, que se há comparado à de um pião a morrer, e por virtude da qual o eixo da Terra, mudando de inclinação, descreve um duplo cone cujo vértice está no centro do planeta, abrangendo as bases desses cones a superfície circunscrita pelos círculos polares, isto é, uma amplitude de 23 e 1/2

graus de raio.


7. - O equinócio é o instante em que o Sol, passando de um hemisfério a outro, se encontra perpendicular ao equador, o que acontece duas vezes por ano, a 21 de Março, quando o Sol passa para o hemisfério boreal, e a 22 de Setembro, quando volta ao hemisfério austral.

Mas, em consequência da gradual mudança na obliquidade do eixo, o que acarreta outra mudança na obliquidade do equador sobre a elíptica, o momento do equinócio avança cada ano de alguns minutos (25 minutos e 7 segundos). A esse avanço é que se deu o nome de precessão dos equinócios (do latim «proecedere», caminhar para diante, composto de «proe», adiante e

«cedere», ir-se).

Com o tempo, esses poucos minutos fazem horas, dias, meses e anos, resultando daí que o equinócio da primavera, que agora se verifica no mês de Março, em dado tempo se verificará em Fevereiro, depois em Janeiro, depois em Dezembro. Então o mês de Dezembro terá a temperatura de Março e Março a de Junho e assim por diante, até que, voltando ao mês de Março, as coisas se encontrarão de novo no estado actual, o que se dará ao cabo de 25.868 anos, para recomeçar indefinidamente a mesma revolução. (1)

cabeça um chifre pelo qual me reconhecerás. "O santo obedeceu; construiu um navio, embarcou nele e o atou por um cabo muito forte ao chifre do peixe. O navio foi rebocado durante muitos anos com extrema rapidez, por entre as trevas de uma tremenda tempestade, abordando, afinal, ao cume do monte Himawat (Himalaia). Brama ordenou em seguida a Vaivaswata que criasse todos os seres e com eles povoasse a Terra.

É flagrante a analogia desta lenda com a narrativa bíblica de Noé. Da Índia ela passara ao Egipto, como uma multidão de outras crenças. Ora, sendo o livro dos Vedas anteriores ao de Moisés, a narração que naquele se encontra, do dilúvio, não pode ser uma cópia da deste último.

O que é provável é que Moisés, que aprendera as doutrinas dos sacerdotes egípcios, haja tomado a estes a sua descrição.


8. - Desse movimento cónico do eixo, resulta que os pólos da Terra não olham constantemente os mesmos pontos do céu; que a Estrela Polar não será Sempre estrela polar; que os pólos gradualmente se inclinam mais ou menos para o Sol e recebem dele raios mais ou menos directos, donde se segue que a Islândia e a Lapónia, por exemplo, localizadas sob o círculo polar, poderão, em dado tempo, receber raios solares como se estivessem na latitude da Espanha e da Itália e que, na posição do extremo oposto, a Espanha e a Itália poderão ter a temperatura da Islândia e da Lapónia, e assim por diante, a cada renovação do período de 25.000 anos. (1)


(1) A precessão dos equinócios ocasiona outra mudança: a que se opera na posição dos signos do Zodíaco. Girando a Terra a volta do Sol em um ano, à medida que ela avança, o Sol, cada mês, se encontra diante de uma constelação. Estas são em número de doze, a saber: o Carneiro, o Touro, os Gémeos, o Câncer, o Leão, a Virgem, a Balança, o Escorpião, o Sagitário, o Capricórnio, o Aquário, os Peixes. São chamadas constelações zodiacais, ou signos do Zodíaco, e formam um círculo no plano do equador terrestre. Conforme o mês do nascimento de um indivíduo dizia-se que ele nascera sob tal ou tal signo; daí os prognósticos da

Astrologia. Mas, em virtude da precessão dos equinócios, acontece que os meses já não correspondem às mesmas constelações. Um que nasça no mês de Julho já não está no signo do Leão, porém no do Câncer. Cai assim a ideia supersticiosa da influência dos signos. (Cap. V, nº12.)


9. - Ainda não puderam ser determinadas com precisão as consequências deste movimento, porque somente se há podido observar uma pequena parte da sua revolução. A respeito, pois, não há mais do que presunções, algumas das quais com carácter de probabilidade. Essas consequências são:


1ª O aquecimento e o resfriamento alternativos dos pólos e, por conseguinte, a fusão dos gelos polares durante a metade do período de 25.000 anos e a nova formação deles durante a outra metade desse período. Resultaria daí não estarem os pólos condenados a uma perpétua esterilidade, cabendo - lhes gozar a seu turno dos benefícios da fertilidade.


2ª O deslocamento gradativo do mar, fazendo-o invadir pouco a pouco umas terras e pôr a descoberto outras, para de novo as abandonar, voltando ao seu leito anterior. Esse movimento periódico, indefinidamente renovado, constituiria uma verdadeira maré universal de 25.000 anos.


A lentidão com que se opera esse movimento do mar torna-o quase imperceptível para cada geração. Faz-se, porém, sensível ao cabo de alguns séculos. Nenhum cataclismo súbito pode ele causar, porque os homens se retiram, de geração em geração, à proporção que o mar avança, e avançam pelas terras donde o mar se retira.

É a essa causa, mais que provável, que alguns sábios atribuem o afastamento do mar de certas costas e a invasão de outras por ele.


10. - O deslocamento demorado, gradual e periódico do mar é facto que a experiência comprova e numerosos exemplos confirmam, em todos os pontos do globo. Tem por efeito o entretenimento das forças produtivas da Terra. A longa imersão é para os terrenos um tempo de repouso, durante o qual eles recuperam os princípios vitais esgotados por uma não menos longa produção.

Os imensos depósitos de matérias orgânicas, formados pela permanência das águas durante séculos e séculos, são adubações naturais, periodicamente renovadas, e as gerações se sucedem sem se aperceberem de tais mudanças.(1)


(1) O deslocamento gradual das linhas isotérmicas, fenómeno que a Ciência reconhece de modo tão positivo como o do deslocamento do mar, é um fato material que apoia esta teoria.


Cataclismos futuros


11. - As grandes comoções telúricas se têm produzido nas épocas em que a crosta sólida da Terra, pela sua fraca espessura, quase nenhuma resistência oferecia à efervescência das matérias em ignição no seu interior.

Tais comoções foram diminuindo, à proporção que aquela crosta se consolidava. Numerosos vulcões já se acham extintos, outros os terrenos de formação posterior soterraram.

Ainda, certamente, poderão produzir-se perturbações locais, por efeito de erupções vulcânicas, da eclosão de alguns vulcões novos, de inundações repentinas de algumas regiões; poderão do mar surgir ilhas e outras ser por ele tragadas; mas, passou o tempo dos cataclismos gerais, como os queassinalaram os grandes períodos geológicos. A Terra adquiriu uma estabilidade

que, sem ser absolutamente invariável, coloca doravante o género humano ao abrigo de perturbações gerais, a menos que intervenham causas desconhecidas, a ela estranhas e que de modo nenhum se possam prever.


(1) Entre os factos mais recentes que provam o deslocamento do mar, podem citar-se estes: No golfo da Gasconha, entre o velho Soulac e a Torre de Cordouan, quando o mar está calmo, percebe-se no fundo da água trechos de muralha: são os restos da antiga e grande cidade de Naviomagus, invadida pelas ondas em 580. O rochedo de Cordouan, que se achava então ligado à margem, está agora a 12 quilómetros.

No mar da Mancha, sobre a costa do Havre, as águas dia a dia ganham terreno e minam as penedias de Sainte-Adresse, que pouco a pouco desmoronam. A dois quilómetros da costa entre Sainte-Adresse e o cabo de Hève, existe um banco que outrora se achava à vista e ligado à terra firme. Antigos documentos atestam que nesse lugar, por sobre o qual hoje se navega, existia a aldeia de Saint-Denis-chef-de-Caux. Tendo o mar invadido, no décimo quarto século, o terreno, a igreja foi tragada em 1378. Dizem que, com bom tempo, se lhe vêem os restos no

fundo do mar.


12 - Quanto aos cometas, estamos hoje perfeitamente tranquilizados com relação à influência que exercem, mais salutar do que nociva, por parecerem eles destinados a reabastecer os mundos, se assim nos podemos exprimir, trazendo-lhes os princípios vitais que eles armazenam em sua corrida pelo espaço e com o se aproximarem dos sóis. Assim, pois, seriam antes fontes de

prosperidades, do que mensageiros de desgraças.

A natureza fluídica, já bem comprovada (Cap. VI, nos. 28 e seguintes), que lhes é própria afasta todo receio de choques violentos, porquanto, se um deles encontrasse a Terra, esta o atravessaria, como se passasse através de um nevoeiro.

Ainda menos de temer é a cauda que arrastam, visto que essa mais não é do que a reflexão da luz solar na imensa atmosfera que os envolve, tanto assim que se mostra constantemente dirigida para o lado oposto ao Sol, mudando de direcção conformemente à posição deste astro. Essa matéria gasosa também poderia, em virtude da rapidez com que eles caminham, constituir uma espécie de cabeleira, semelhante à esteira deixada por um navio em marcha, ou à fumaça de uma locomotiva. Aliás, muitos cometas já se têm aproximado da Terra, sem lhe causarem qualquer dano. Em virtude das suas respectivas densidades, a Terra exerceria sobre o cometa uma atracão maior do que a dele sobre ela. Somente uns restos de velhos preconceitos podem fazer que a presença de um cometa inspire terror. (1)


Em quase toda a extensão do litoral da Holanda, o mar só é contido a poder de diques, que de tempos a tempos se rompem. O antigo lago de Flevo, que se reuniu ao mar em 1225, forma hoje o golfo de Zuyderzée. Essa irrupção do oceano tragou muitas povoações.

Segundo isto, o território de Paris e da França toda seria de novo ocupado pelo mar, como já o foi muitas vezes, conforme o demonstram as observações geológicas. Então, as partes montanhosas formarão ilhas, como o são agora Jersey, Guernesey e a Inglaterra, outrora contíguas ao continente.

Navegar-se-á por sobre regiões que actualmente se percorrem de caminho de ferro; os navios aportarão a Montmartre, ao monte Valeriano, aos outeiros de Saint-Cloud e de Meudon; os bosques e florestas, agora

lugares de passeio, ficarão sepultados nas águas, cobertos de limo e povoados de peixes, que substituirão as aves.

O dilúvio bíblico não pode ter tido essa causa, pois que foi repentina a invasão das águas e de curta duração a permanência delas, ao passo que, de outro modo, essa permanência houvera sido de muitos milhares de anos e ainda duraria, sem que os homens dessem por isso.


(1) O cometa de 1861 atravessou a órbita da Terra num ponto do qual esta se achava a

uma distância de apenas 20 horas. A Terra esteve, portanto, mergulhada na atmosfera dele, sem

que daí resultasse nenhum acidente.


13. - Deve-se igualmente lançar ao rol das hipóteses quiméricas a possibilidade do encontro da Terra com outro planeta. A regularidade e a invariabilidade das leis que presidem aos movimentos dos corpos celestes tornam carente de toda probabilidade semelhante encontro.

A Terra, no entanto, terá um fim. Como? Isso ainda permanece no domínio das conjecturas; mas, visto estar ela ainda longe da perfeição que pode alcançar e da vetustez que lhe indicaria o declínio, seus habitantes actuais pedem estar certos de que tal não se dará ao tempo deles. (Cap. VI, nos 48 e seguintes.)


14. - Fisicamente, a Terra teve as convulsões da sua infância; entrou agora num período de relativa estabilidade: na do progresso pacífico, que se efectua pelo regular retorno dos mesmos fenómenos físicos e pelo concurso inteligente do homem. Está, porém, ainda, em pleno trabalho de gestação do progresso moral. Aí residirá a causa das suas maiores comoções. Até que a

Humanidade se haja avantajado suficientemente em perfeição, pela inteligência e pela observância das leis divinas, as maiores perturbações ainda serão causadas pelos homens, mais do que pela Natureza, isto é, serão antes morais e sociais do que físicas.


Aumento ou diminuição do volume da Terra


15. - O volume da Terra aumenta, diminui, ou permanece estacionário?

Alguns, para sustentar que o volume da Terra aumenta, se fundam em que as plantas dão ao solo mais do que dele tiram, o que, se num sentido é exacto, noutro não o é. As plantas se nutrem tanto, e até mais, das substâncias gasosas que aurem na atmosfera, quanto das que sugam pelas raízes. Ora, a atmosfera faz parte integrante do globo; os gases que a constituem provêm da decomposição dos corpos sólidos e estes, recompondo-se, retomam o que lhe haviam dado. É uma troca, ou, antes, uma perpétua transformação, de tal sorte que, operando-se o crescimento deles com o auxílio dos elementos constitutivos do globo, os despojos dos vegetais e dos animais, por muito consideráveis que sejam, não lhe aumentam de um átomo a massa. Se, por essa causa, a parte sólida do globo aumentasse de modo permanente, isso se daria à custa da

atmosfera, que diminuiria de outro tanto e acabaria por se tornar imprópria à vida, se não recuperasse, pela decomposição dos corpos sólidos, o que perde pela composição deles.

Na origem da Terra, as primeiras camadas geológicas se formaram das matérias sólidas momentaneamente volatilizadas, por efeito da alta temperatura, e que, condensadas mais tarde pelo resfriamento, se precipitaram. Incontestavelmente, elas elevaram um pouco a superfície do solo, mas sem acrescentarem coisa alguma à massa total, pois que ali apenas havia um deslocamento de matéria.

Quando, expurgada dos elementos que continha em suspensão, a atmosfera se encontrou no estado normal, as coisas tomaram o curso regular em que depois seguiram. Hoje, a menor modificação na constituição da atmosfera acarretaria, forçosamente, a destruição dos actuais habitantes da Terra; mas, também é provável que novas raças se formassem noutras condições.

Considerada desse ponto de vista, a massa do globo, isto é, a soma das moléculas que compõem o conjunto de suas partes sólidas, líquidas e gasosas, é incontestavelmente a mesma, desde a sua origem. Se o globo experimentasse uma dilatação ou uma condensação, seu volume aumentaria ou diminuiria, sem que a massa sofresse qualquer alteração. Portanto, se a Terra aumentasse de massa, o fato seria efeito de uma causa estranha, pois que ela não poderia tirar

de si mesma os elementos necessários ao seu aumento.

Há uma opinião segundo a qual o globo aumentaria de massa e de volume pelo afluxo da matéria cósmica interplanetária. Esta ideia nada tem de irracional, mas é por demais hipotética para ser admitida em princípio. Não passa de um sistema combatido por sistemas contrários, sobre os quais a Ciência ainda nada estabeleceu. Eis aqui, a tal respeito, a opinião do eminente

Espírito que ditou os sábios estudos uranográficos insertos acima, no capítulo VI:

«Os mundos se esgotam pelo envelhecimento e tendem a dissolver-se

para servir de elementos de formação a outros universos. Restituem pouco a pouco ao fluído cósmico universal do espaço o que dele tiraram para formar-se. Além disso, todos os corpos se gastam pelo atrito; o movimento rápido e incessante do globo através do fluido cósmico dá em resultado diminuir-se-lhe constantemente a massa, se bem que de quantidade inapreciável em determinado tempo. (1)

«A existência dos mundos pode, a meu ver, dividir-se em três períodos. - Primeiro período: condensação da matéria, período esse em que o volume do globo diminui consideravelmente, conservando-se a mesma a massa. É o período da infância. - Segundo período: contracção, solidificação da crosta; eclosão dos germens, desenvolvimento da vida até à aparição do tipo mais aperfeiçoado. Nesse momento, o globo está em toda a sua plenitude, é a época

da virilidade; ele perde, mas muito pouco, os seus elementos constitutivos. À

medida que seus habitantes progridem espiritualmente, passa ele ao período de

decrescimento material; sofre perdas, não só em consequência do atrito, mas também pela desagregação das moléculas, como uma pedra dura que, corroída pelo tempo, acaba reduzida a poeira. Em seu duplo movimento de rotação e translação, ele entrega ao espaço parcelas fluidificadas da sua substância, até ao momento em que se completa a sua dissolução.

«Mas, então, como o poder de atracção está na razão directa da massa, não digo do volume, diminuída a massa do globo, modificam-se as suas condições de equilíbrio no espaço. Dominado por planetas mais poderosos, aos quais ele não pode fazer contrapeso, resultam dai desvios nos seus movimentos e, portanto, também profundas mudanças nas condições da vida em sua

superfície. Assim, nascimento, vida e morte; ou infância, virilidade, decrepitude são as três fases por que passa toda aglomeração de matéria orgânica ou inorgânica. Indestrutível, só o Espírito, que não é matéria.» (Galileu, Sociedade de Paris, 1868.)

__________

(1) No seu movimento de translação em torno do Sol, a velocidade da Terra é de 400 léguas por minuto. Sendo de 9.000 léguas a sua circunferência, em seu movimento de rotação ao redor do seu eixo, cada ponto do equador percorre 9.000 léguas em 24 horas, ou 6,3 léguas por minuto.


Referencia: A Génese

sábado, 9 de maio de 2009

Teoria sobre a formação da terra


TEORIAS SOBRE A FORMAÇÃO DA TERRA

Teoria da projecção. - Teoria da condensação. - Teoria da incrustação. -

Alma da Terra.


Teoria da projecção

1. - De todas as teorias concernentes à origem da Terra, a que alcançou maior voga, nestes últimos tempos, é a de Buffon, quer pela posição que ele desfrutava no mundo sábio, quer pela razão de não se saber mais do que ele disse naquela época.

Vendo que todos os planetas se movem na mesma direcção, do ocidente para o oriente, e no mesmo plano, a percorrer órbitas cuja inclinação não passa de 7 graus e meio, concluiu Buffon, dessa uniformidade, que eles hão de ter sido postos em movimento pela mesma causa.

De igual ponto de vista, formulou a suposição de que, sendo o Sol uma massa incandescente em fusão, um cometa se haja chocado com ele e, raspando-lhe a superfície, tenha destacado desta uma porção que, projectada no espaço pela violência do choque, se dividiu em muitos fragmentos, formando esses fragmentos os planetas, que continuaram a mover-se circularmente, pela combinação das forças centrífuga e centrípeta, no sentido dado pela direcção do choque primitivo, isto é, no plano da elíptica.

Os planetas seriam assim partes da substância incandescente do Sol e, por conseguinte, também teriam sido incandescentes, em sua origem. Levaram para se resfriar e consolidar tempo proporcionado aos seus volumes respectivos e, quando a temperatura o permitiu a vida lhes despontou na superfície.

Em virtude do gradual abaixamento do calor central, a Terra chegaria, ao cabo de certo tempo, a um estado de resfriamento completo; a massa líquida se congelaria inteiramente e o ar, cada vez mais condensado, acabaria por desaparecer. o abaixamento da temperatura, tornando impossível a vida, acarretaria a diminuição, depois o desaparecimento de todos os seres

organizados. Tendo começado pelos pólos, o resfriamento ganharia pouco a pouco todas as regiões, até ao Equador.

Tal, segundo Buffon, o estado actual da Lua que, menor do que a Terra, seria hoje um mundo extinto, do qual a vida se acha para sempre excluída. O próprio Sol viria a ter, afinal, a mesma sorte. De acordo com os seus cálculos, a Terra teria gasto cerca de 74.000 anos para chegar à sua temperatura actual e dentro de 93.000 anos veria o termo da existência da Natureza organizada.


2. - A teoria de Buffon, contraditada pelas novas descobertas da Ciência, está presentemente abandonada, quase de todo, pelas razões seguintes:


1º Durante longo tempo, acreditou-se que os cometas eram corpos sólidos, cujo encontro com um planeta podia ocasionar a destruição deste último. Nessa hipótese, a suposição de Buffon nada tinha de improvável. Sabe-se, porém, agora, que os cometas são formados de uma matéria gasosa, bastante rarefeita, entretanto, para que se possam perceber estrelas de grandeza média através de seus núcleos. Nessas condições, oferecendo menos resistência do que o Sol, impossível é que, num choque violento com este, eles sejam capazes de arremessar ao longe qualquer porção da massa solar.


2º A natureza incandescente do Sol é também uma hipótese, que nada, até ao presente, confirma, que, ao contrário, as observações parecem desmentir. Se bem ainda não haja certeza quanto à sua natureza, os poderosos meios de observação de que hoje dispõe a Ciência hão permitido que ele seja melhor estudado, de modo a admitir-se, em geral, que é um globo composto de matéria sólida, cercada de uma atmosfera luminosa, ou fotosfera, que não se acha em contacto com a sua superfície. (1)


3º Ao tempo de Buffon, somente se conheciam os seis planetas de que

os antigos eram conhecedores: Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno. Descobriram-se depois outros em grande número, três dos quais, principalmente, Juno, Ceres e Palas, têm suas órbitas inclinadas de 13, 10 e 34 graus, o que não concorda com um movimento único de projecção. (2)


4º Reconheceram-se absolutamente inexactos os cálculos de Buffon acerca do resfriamento, desde que Fourier descobriu a lei do decrescimento do calor. A Terra não precisou apenas de 74.000 anos para chegar à sua temperatura actual, mas de alguns milhões de anos.


5º Buffon unicamente considerou o calor central da Terra, sem levar em conta o dos raios solares. Ora, é sabido hoje, em presença de dados científicos de rigorosa precisão, obtidos pela experiência, que, em virtude da espessura da crosta terrestre, o calor interno do globo não contribui, de há muito, senão em parcela insignificante, para a temperatura da superfície exterior. São periódicas as variações que essa temperatura sofre e devidas à acção preponderante do calor solar (cap. VII, nº 25). Permanente que é o efeito dessa causa, ao passo que o do calor central é nulo, ou quase nulo, a diminuição deste não pode trazer à superfície da Terra sensíveis modificações. Para que a Terra se tornasse inabitável pelo resfriamento, fora necessária a extinção do Sol. (1)

__________

(1) Completa dissertação, à altura da ciência moderna, sobre a natureza do Sol e dos

cometas, se encontra nos Estudos e leituras sobre a Astronomia, de Camilo Flammarion.

(2) Nota da Editora: Os planetóides Juno, Ceres e Palas, bem como centenas de outros,

estão localizados entre as órbitas de Júpiter e Marte.

Teoria da condensação


3. - A teoria da formação da Terra pela condensação da matéria cósmica é a que hoje prevalece na Ciência, como sendo a que a observação melhor justifica, a que resolve maior número de dificuldades e que se apoia, mais do que todas as outras, no grande princípio da unidade universal. É a que deixamos exposta , no Cap. VI: Uranografia geral.

Estas duas teorias, como se vê, conduzem ao mesmo resultado: estado primitivo, de incandescência, do globo; formação de uma crosta sólida pelo resfriamento; existência do fogo central e aparecimento da vida orgânica, logo que a temperatura a tornou possível. Diferem, no entanto, em pontos essenciais e é provável que, se Buffon vivesse actualmente, adoptaria outras ideias. A Geologia toma a Terra no ponto em que é possível a observação directa. Seu estado anterior, por escapar à observação, só pode ser conjectural. Ora, entre duas hipóteses, o bom-senso diz que se deve preferir a que a lógica sanciona e que mais acorde se mostra com os factos observados.


Teoria da incrustação


4. - Apenas por não deixar de menciona-la, falamos desta teoria, que nada tem de científica, mas, que, entretanto, conseguiu certa repercussão nos últimos tempos e seduziu algumas pessoas. Acha-se resumida na carta seguinte:

«Deus, segundo a Bíblia, criou o mundo em seis dias, quatro mil anos antes da era cristã. Essa afirmativa os geólogos a contestam, firmados no estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de vetustez que transportam a origem da Terra a milhões de anos. Entretanto, a Escritura disse a verdade e também os geólogos. E foi um simples campónio (1) quem os pôs de acordo ensinando que o nosso globo não é mais do que um planeta embutido, muito moderno, composto de materiais muito antigos.

«Após o arrebatamento do planeta desconhecido, que chegara à maturidade, ou de harmonia com o que existiu no lugar que hoje ocupamos, a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites, para formar a Terra actual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro apenas desses astros concordaram com a associação que lhes era proposta. Só a Lua persistiu na sua autonomia, visto que também os globos têm o seu livre-arbítrio. Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu aos satélites um raio magnético atractivo, que pôs em estado cataléptico todo o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles possuíam e que trouxeram para a comunidade. A operação teve por únicas testemunhas a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande obra, abrindo aqueles globos para lhes dar entranhas comuns. Praticada a soldadura, as águas se escoaram para os vazios que a ausência da Lua deixara. As atmosferas se confundiram e começou o despertar ou a ressurreição dos germens que estavam em catalepsia. O homem foi o último a ser tirado do estado de hipnotismo e se viu cercado da luxuriante vegetação do paraíso terrestre e dos animais que pastavam em paz ao seu derredor. Tudo isto se podia fazer em seis dias, com obreiros tão poderosos como os que Deus encarregara da tarefa. O planeta Ásia trouxe a raça amarela, a de civilização mais antiga; o África a raça negra; o Europa a raça branca e o América a raça vermelha.

«Assim, certos animais, de que apenas os despojos são encontrados, nunca teriam vivido na Terra actual, mas teriam sido transportados de outros mundos desmanchados pela velhice. Os fósseis, que se encontram em climas sob os quais não teriam podido existir neste mundo, viviam sem dúvida em zonas muito diferentes nos globos onde nasceram. Tais despojos na Terra se

encontram nos pólos, ao passo que os animais viviam no Equador dos globos a que pertenciam.»


5. - Esta teoria tem contra si os mais positivos dados da ciência experimental, além de que deixa intacta a questão mesma que ela pretende resolver, a questão da origem. Diz, é certo, como a Terra se teria formado, mas não diz como se formaram os quatro mundos que se reuniram para constituí-la.

Se as coisas se houvessem passado assim, como se explicaria a inexistência absoluta de quaisquer vestígios daquelas imensas soldaduras, não obstante terem ido até às entranhas do globo? Cada um daqueles mundos, o Ásia, o África, o Europa e o América, que se pretende haverem trazido os materiais que lhes eram próprios, teria uma geologia particular, diferente da dos demais, o que não é exacto. Ao contrário, vê-se, primeiramente, que o núcleo granítico é uniforme, de composição homogénea em todas as partes do globo, sem solução de continuidade. Depois, as camadas geológicas se apresentam de formação igual, idênticas quanto à constituição, sobrepostas, em toda parte, na mesma ordem, continuas, sem interrupção, de um lado a outro dos mares, da Europa à Ásia, à África, à América, e reciprocamente. Essas camadas que dão testemunho das transformações do globo, atestam que tais transformações se operaram em toda a sua superfície e não, apenas, numa porção desta; mostram os períodos de aparecimento, existência, e desaparecimento das mesmas espécies animais e vegetais, nas diferentes partes do mundo, igualmente; mostram a fauna e a flora desses períodos recuados a marcharem simultaneamente por toda parte, sob a influência de uma temperatura uniforme, e a mudar por toda parte de carácter, à medida que a temperatura se modifica. Semelhante estado de coisas não se concilia com a formação da Terra por adjunção de muitos mundos diferentes.

Ao demais, é de perguntar-se o que teria sido feito do mar, que ocupa o vazio deixado pela Lua, se esta não se houvesse recusado a reunir-se às suas irmãs. Que aconteceria à Terra actual, se um dia a Lua tivesse a fantasia de vir tomar o seu lugar, expulsando deste o mar?


6. - Semelhante sistema seduziu algumas pessoas, porque parecia explicar a presença das diferentes raças de homens na Terra e a localização delas. Mas, uma vez que essas raças puderam proliferar em mundos distintos, por que não teriam podido desenvolver-se em pontos diversos do mesmo globo? É querer resolver uma dificuldade por meio de outra dificuldade maior.

Efectivamente, quaisquer que fossem a rapidez e a destreza com que a operação se praticasse, aquela junção não se houvera podido realizar sem violentos abalos. Quanto mais rápida ela fosse, tanto mais desastrosos haviam de ser os cataclismos. Parece, pois, impossível que seres apenas mergulhados em sono cataléptico hajam podido resistir-lhes, para, em seguida, despertarem

tranquilamente. Se fossem unicamente germens, em que consistiriam? Como é que seres inteiramente formados se reduziriam ao estado de germens? Restaria sempre a questão de saber-se como esses germens novamente se desenvolveram. Ainda aí, teríamos a Terra a formar-se por processo miraculoso, processo, porém, menos poético e menos grandioso do que o da Génese bíblica, enquanto que as leis naturais dão, da sua formação, uma explicação muito mais completa e, sobretudo, mais racional, deduzida da observação. (1)

__________

(1) Quando tal sistema se liga a toda uma cosmogonia, é de perguntar-se sobre que

base racional pode o resto assentar.

A concordância que, por meio desse sistema, se pretende estabelecer, entre a Gênese

bíblica e a Ciência, é inteiramente ilusória, pois que a própria Ciência o contradiz.

(1) Miguel de Figagnères (Var), autor da Chave da Vida.

(1) Vejam-se, para maiores esclarecimentos sobre este assunto e sobre a lei do

decrescimento do calor: Cartas acerca das revoluções do globo, pelo Dr. Bertrand, ex-aluno

da Escola Politécnica de Paris, carta II. - Esta obra, à altura da ciência moderna, escrita com

simplicidade e sem espírito de sistema, encerra um estudo geológico de grande interesse.


ALMA DA TERRA


7. - A alma da Terra desempenhou papel principal na teoria da incrustação. Vejamos se esta ideia tem melhor fundamento.

O desenvolvimento orgânico está sempre em relação com o desenvolvimento do princípio intelectual. O organismo se completa à medida que se multiplicam as faculdades da alma. A escala orgânica acompanha constantemente, em todos os seres, a progressão da inteligência, desde o pólipo até o homem, e não podia ser de outro modo, pois que a alma precisa de um instrumento apropriado à importância das funções que lhe compete desempenhar. De que serviria à ostra possuir a inteligência do macaco, sem os órgãos necessários à sua manifestação? Se, portanto, a Terra fosse um ser animado, servindo de corpo a uma alma especial, essa alma, por efeito mesmo da sua constituição, teria de ser ainda mais rudimentar do que a do pólipo, visto que a Terra não tem, sequer, a vitalidade da planta, ao passo que, pelo papel que lhe atribuíram à alma, fizeram dela um ser dotado de razão e do mais completo livre-arbítrio, em resumo: um como Espírito superior, o que não é racional, porquanto nunca nenhum Espírito se achou menos bem aquinhoado, nem mais aprisionado. Ampliada neste sentido, a ideia da alma da Terra tem, então, de ser arrolada entre as concepções sistemáticas e quiméricas.

Por alma da Terra, pode entender-se, mais racionalmente, a colectividade dos Espíritos incumbidos da elaboração e da direcção de seus elementos constitutivos, o que já supõe certo grau de desenvolvimento intelectual; ou, melhor ainda: o Espírito a quem esta confiada a alta direcção dos destinos morais e do progresso de seus habitantes, missão que somente pode ser

atribuída a um ser eminentemente superior em saber e em sabedoria. Em tal caso, esse Espírito não é, propriamente falando, a alma da Terra, porquanto não se acha encarnado nela, nem subordinado ao seu estado material. É um chefe nomeado ao seu governo, como um general o é ao comando de um exército.

Um Espírito, incumbido de missão tão importante qual a do governo de um mundo, não poderia ter caprichos, ou, então, teríamos de reconhecer em Deus a imprevidência de confiar a execução de suas leis a seres capazes de as infringir, a seu belo-prazer. Ora, segundo a doutrina da incrustação, a má vontade da alma da Lua é que houvera dado causa a que a Terra ficasse incompleta. Há ideias que a si mesmas se refutam.

O autor da carta acima, homem de grande saber, seduzido, um instante, por essa teoria,

logo lhe descobriu os lados vulneráveis e não tardou a combatê-la com as armas da Ciência.


(Revue de Setembro de1868, pág. 261.)

A Génese

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

ESBOÇO GEOLÓGICO DA TERRA


ESBOÇO GEOLÓGICO DA TERRA

Períodos geológicos. - Estado primitivo do globo. - Período primário. -Período de transição. - Período secundário. - Período terciário. - Período
diluviano. - Período pós-diluviano, ou actual. - Nascimento do homem.

Períodos geológicos

1. - A Terra conserva em si os traços evidentes da sua formação.
Acompanham-se-lhe as fases com precisão matemática, nos diferentes terrenos que lhe constituem o arcabouço. O conjunto desses estudos forma a ciência chamada Geologia, ciência nascida deste século (XIX) e que projectou luz sobre a tão controvertida questão da origem do globo terreno e da dos seres vivos que o habitam. Neste ponto, não há simples hipótese; há o resultado rigoroso da observação dos factos e, diante dos factos, nenhuma dúvida se justifica. A história da formação da Terra está escrita nas camadas geológicas, de maneira bem mais certa do que nos livros preconcebidos, porque é a própria Natureza que fala, que se põe a nu, e não a imaginação dos homens a criar sistemas. Desde que se notem traços de fogo, pode dizer-se com certeza que houve fogo ali; onde se vejam os da água, pode dizer-se que a água ali esteve; desde que se observem os de animais, pode dizer-se que viveram aí animais.
A Geologia é, pois, uma ciência toda de observação; só tira deduções do que vê; sobre os pontos duvidosos, nada afirma; não emite opiniões discutíveis, por esperar de observações mais completas a solução procurada. Sem as descobertas da Geologia, como sem as da Astronomia, a Génese do mundo ainda estaria nas trevas da lenda. Graças a elas, o homem conhece hoje a história da sua habitação, tendo desmoronado, para não mais tornar a erguer-se, a estrutura de fábulas que lhe rodeavam o berço.

2. - Em todos os terrenos onde existam valas, escavações naturais ou praticadas pelo homem, nota-se o a que se chama estratificações, isto é, camadas sobrepostas. Os que apresentam essa disposição se designam pelo nome de terrenos estratificados. Essas camadas, de espessura que varia desde alguns centímetros até 100 metros e mais, se distinguem entre si pela cor e pela
natureza das substâncias de que se compõem. Os trabalhos de arte, a perfuração de poços, a exploração de pedreiras e, sobretudo, de minas facultaram observá-las até grande profundidade.

3. - São em geral homogéneas as camadas, isto e. cada uma constituída da mesma substância, ou de substâncias diversas, mas que existiram juntas e formaram um todo compacto. A linha de separação que as isola umas das outras é sempre nitidamente sulcada, como nas fiadas de uma construção. Em nenhuma parte se apresentam misturadas e sumidas umas nas outras, nos
pontos de seus respectivos limites, como se dá, por exemplo, com as cores do prisma e do arco-íris.
Por esses caracteres, reconhece-se que elas se formaram sucessivamente, depositando-se uma sobre outra, em condições e por causas diferentes. As mais profundas são, naturalmente, as que se formaram em primeiro lugar, tendo-se formado posteriormente as mais superficiais. A última de todas, a que se acha na superfície, é a camada da terra vegetal, que deve suas propriedades aos detritos de matérias orgânicas provenientes das plantas e dos animais.

4. - As camadas inferiores, colocadas abaixo da camada vegetal, receberam em geologia o nome de rochas, palavra que, nessa acepção, nem sempre implica a ideia de uma substância pedrosa, significando antes um leito ou banco feito de uma substância mineral qualquer. Umas são formadas de areia, de argila ou de terra argilosa, de marga, de seixos rolados; outras o são
de pedras propriamente ditas, mais ou menos duras, tais como os grés, os mármores, a cré, os calcários ou pedras calcárias, as pedras molares, ou carvões-de-pedra, os asfaltos, etc. Diz-se que uma rocha é mais ou menos possante, conforme é mais ou menos considerável a sua espessura.
Mediante o exame da natureza dessas rochas ou camadas, reconhece-se, por sinais certos, que umas provêm de matérias fundidas e, às vezes, vitrificadas sob a acção do fogo; outras, de substâncias terrosas depostas pelas águas; algumas de tais substâncias se conservaram desagregadas, como as areias; outras, a princípio em estado pastoso, sob a acção de certos agentes químicos ou por outras causas, endureceram e adquiriram, com o tempo, a consistência da pedra. Os bancos de pedras sobrepostas denunciam depósitos sucessivos. O fogo e a água participaram, pois, da formação dos materiais que compõem o arcabouço sólido do globo terráqueo.

5. - A posição normal das camadas terrosas ou pedregosas, provenientes de depósitos aquosos, é a horizontal. Ao vermos essas planícies imensas, que por vezes se estendem a perder de vista, de perfeita horizontalidade, lisas como se as tivessem nivelado com um rolo compressor, ou esses vales profundos, tão planos como a superfície de um lago, podemos estar certos de que, em época mais ou menos afastada, tais lugares estiveram por longo tempo cobertos de águas tranquilas que, ao se retirarem, deixaram em seco as terras que elas depositaram enquanto ali permaneceram. Retiradas as águas, essas terras se cobriram de vegetação. Se, em vez de terras gordas, limosas, argilosas, ou margosas, próprias a assimilar os princípios nutritivos, as águas apenas depositaram areias silicosas, sem agregação, temos as planícies arenosas que constituem as charnecas e os desertos, dos quais nos podem dar pequena ideia os depósitos que ficam das inundações parciais e os que formam as aluviões na embocadura dos rios.

6. - Conquanto a horizontal seja a posição mais generalizada e a que normalmente assumem as formações aquosas, não é raro verem-se, nos países montanhosos e em extensões bem grandes, rochas duras, cuja natureza indica que foram formadas em posição inclinada e, até por vezes, vertical. Ora, como, segundo as leis de equilíbrio dos líquidos e da gravidade, os depósitos aquosos somente em planos horizontais podem formar-se, pois os que se formam sobre planos inclinados são arrastados pelas correntes e pelo próprio peso para as baixadas, evidente se torna que tais depósitos foram levantados por uma força qualquer, depois de se terem solidificado ou transformado em pedras.
Destas considerações se pode concluir, com certeza, que todas as camadas pedrosas que, provindo de depósitos aquosos, se encontram em posição perfeitamente horizontal, foram formadas, durante séculos, por águas tranquilas e que, todas as vezes que se achem em posição inclinada, o solo foi convulsionado e deslocado posteriormente, por subversões gerais ou parciais, mais ou menos consideráveis.

7. - Um facto característico e da mais alta importância, pelo testemunho irrecusável que oferece, consiste no existirem, em quantidades enormes, despojos fósseis de animais e vegetais, dentro das diferentes camadas. Como esses despojos se encontram até nas mais duras pedras, há de concluir-se que a existência de tais seres é anterior à formação das aludidas pedras. Ora, se
levarmos em conta o prodigioso número de séculos que foram necessários para que se lhes produzisse o endurecimento e para que elas alcançassem o estado em que se acham desde tempos imemoriais, chega-se forçosamente à conclusão de que o aparecimento de seres orgânicos na Terra se perde na noite das idades e é muito anterior, por conseguinte, à data que lhes assina a Génese. (1)

8. - Entre os despojos de vegetais e animais, alguns há que se mostram penetrados em todos os pontos de sua substância, sem que isso lhes alterasse a forma, de matérias silicosas ou calcárias que os transformaram em pedras, algumas das quais apresentam a dureza do mármore. São as petrificações propriamente ditas. Outros foram apenas envolvidos pela matéria no estado de
flacidez; são encontrados intactos e, alguns, inteiros, nas mais duras pedras.
Outros, finalmente, apenas deixaram marcas, mas de uma nitidez e uma delicadeza perfeitas. No interior de certas pedras, encontraram-se até marcas de passos e, pela forma do pé, dos dedos e das unhas, chegou-se a reconhecer a espécie animal a que pertenceram.

9. - Os fósseis de animais absolutamente não contêm, e isso é fácil de conceber-se, senão as partes sólidas e resistentes, isto é, as ossaturas, as escamas e os cornos; são, não raro, esqueletos completos; as mais das vezes,. no entanto, são apenas partes destacadas, mas cuja procedência facilmente se reconhece. Examinando-se uma queixada, um dente, logo se vê se pertence a
um animal herbívoro, ou carnívoro. Como todas as partes do animal guardam necessária correlação, a forma da cabeça, de uma omoplata, de um osso da perna, de um pé, basta para determinar o porte, a forma geral, o género de vida do animal (1). Os animais terrestres têm uma organização que não permite sejam confundidos com os animais aquáticos.
São extremamente numerosos os peixes e os moluscos testáceos fósseis; só estes últimos formam, às vezes, bancos inteiros de grande espessura. Pela natureza deles, verifica-se sem dificuldade se são animais marinhos ou de água doce.

(1) Fóssil, do latim fossilia, fossilis, derivado de fossa, e de fodere, cavar, escavar a terra, é uma palavra que em geologia se emprega designando corpos ou despojos de corpos orgânicos de seres que viveram anteriormente às épocas históricas. Por extensão, diz-se igualmente das substâncias minerais que revelam traços da presença de seres organizados,
quais as marcas deixadas por vegetais ou animais.
O termo petrificado se emprega relativamente aos corpos que se transformaram em pedra, pela infiltração de matérias silicosas ou calcárias nos tecidos orgânicos. Todas as petrificações necessariamente são fósseis, mas nem todos os fósseis são petrificações.
Nos objectos que se revestem de uma camada pedregosa quando mergulhados em certas águas carregadas de substâncias calcárias, como as do regato de Saint Allyre, perto de Clermont, no Auvergne (França), não são petrificações propriamente ditas, porém simples incrustações.
Os monumentos, inscrições e objetos produzidos por fabricação humana, esses pertencem à Arqueologia.

10. - Os seixos rolados, que em certos lugares formam rochas formidáveis, constituem inequívoco indício da origem deles. São arredondados como os calhaus de beira-mar, sinal certo do atrito que sofreram, por efeito das águas. As regiões onde eles se encontram enterrados, em massas consideráveis, foram incontestavelmente ocupadas pelo oceano, ou, durante longo tempo, por outras águas movediças, ou violentamente agitadas.

11. - Além disso, os terrenos das diversas formações se caracterizam pela natureza mesma dos fósseis que encerram. As mais antigas contêm espécies animais ou vegetais que desapareceram inteiramente da superfície do planeta. Também desapareceram algumas espécies mais recentes;
conservaram-se, porém, outras análogas, que apenas diferem daquelas pelo porte e por alguns matizes de forma. Outras, finalmente, cujos últimos representantes ainda vemos, tendem evidentemente a desaparecer em futuro mais ou menos próximo, tais como os elefantes, os rinocerontes, os hipopótamos, etc. Assim à medida que as camadas terrestres se aproximam da nossa época, as espécies animais e vegetais também se aproximam das que hoje existem.
As perturbações, os cataclismos que se produziram na Terra, desde a sua origem, lhe mudaram as condições de aptidão para entretenimento da vida e fizeram desaparecessem gerações inteiras de seres vivos.

(1) No ponto a que Jorge Cuvier levou a ciência paleontológica, um só osso basta frequentemente para determinar o género, a espécie, a forma de um animal, seus habites, e para o reconstruir todo inteiro.

12. - Interrogando-se a natureza das camadas geológicas, vem-se a saber, de modo mais positivo, se, na época de sua formação, a região onde elas se apresentam era ocupada pelo mar, pelos lagos, ou por florestas e planícies povoadas de animais terrestres. Consequentemente, se, numa mesma região, se encontra uma série de camadas sobrepostas, contendo alternativamente fósseis marinhos, terrestres e de água doce, muitas vezes repetidas, constitui esse facto
prova irrecusável de que essa região foi muitas vezes invadida pelo mar, coberta de lagos e posta a seco.
E quantos séculos de séculos, certamente, quantos milhares de séculos, talvez, não foram precisos para que cada período se completasse! Que força poderosa não foi necessária para deslocar e recolocar o oceano, levantar montanhas! Por quantas revoluções físicas, comoções violentas não teve a Terra de passar, antes de ser qual a vemos desde os tempos históricos! E
querer-se que tudo isso fosse obra executada em menos tempo do que o que leva uma planta para germinar!

13. - O estudo das camadas geológicas atesta, como já se disse, formações sucessivas, que mudaram o aspecto do globo e lhe dividem a história em muitas épocas, que constituem os chamados períodos geológicos, cujo conhecimento é essencial para a determinação da Génese. São em número de seis os principais, designados pelos nomes de períodos primário, de transição,
secundário, terciário, diluviano, pós-diluviano ou actual. Os terrenos formados durante cada período também se chamam: terrenos primitivos, de transição, secundários, etc. Diz-se, pois, que tal ou tal camada ou rocha, tal ou tal fóssil se encontram nos terrenos de tal ou tal período.

14. - Cumpre se notar que o número desses períodos não é absoluto, pois depende dos sistemas de classificação. Nos seis principais, mencionados acima, só se compreendem os que estão assinalados por uma mudança notável e geral no estado do planeta; mas, a observação prova que muitas formações sucessivas se operaram, enquanto durou cada um deles. Por isso é que são divididos em seis períodos caracterizados pela natureza dos terrenos e que elevam a vinte e seis o número das formações gerais bem assinaladas, sem contar os que provém de modificações devidas a causas puramente locais.

Estado primitivo do globo

15. - O achatamento dos pólos e outros factos concludentes são indícios certos de que o estado da Terra, na sua origem, deve ter sido o de fluidez ou de flacidez, estado esse oriundo de se achar a matéria ou liquefeita pela acção do fogo, ou diluída pela da água.
Costuma-se dizer, proverbialmente: não há fumaça sem fogo.
Rigorosamente verdadeira, esta sentença constitui uma aplicação do princípio: não há efeito sem causa. Pela mesma razão, pode-se dizer: não há fogo sem um foco. Ora, pelos factos que se passam sob as nossas vistas, não é apenas fumaça o que se produz na Terra, mas fogo bastante real, que há de ter um foco. Vindo esse fogo do interior do planeta e não do alto, o foco lhe há de estar no interior e, como o fogo é permanente, o foco também o há de ser.
O calor, cujo aumento é progressivo à medida que se penetra no interior da Terra e que, a certa profundidade, chega a uma temperatura altíssima; as fontes térmicas, tanto mais quentes, quanto mais profunda lhes está a nascente; os fogos e as massas de matéria fundida e em brasa que se escapa dos vulcões vomitam, como por vastos respiradouros, ou pelas fendas que alguns tremores de terra abrem, não deixam dúvida sobre a existência de um fogo interior.

16. - A experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau a cada 30 metros de profundidade, donde se segue que, a uma profundidade de 300 metros, o aumento é de 10 graus; a 3.000 metros, de 100 graus, temperatura da água a ferver; a 30.000 metros, ou seja, 7 ou 8 léguas, de 1.000 graus; a 25 léguas, de mais de 3.300 graus, temperatura a que nenhuma
matéria conhecida resiste à fusão. Daí ao centro, ainda há um espaço de mais de 1.400 léguas, ou 2.800 léguas em diâmetro, espaço que seria ocupado por matérias fundidas.
Conquanto não haja aí mais do que uma conjectura, julgando da causa pelo efeito, tem ela todos os caracteres da probabilidade e leva à conclusão de que a Terra ainda é uma massa incandescente recoberta de uma crosta sólida da espessura de 25 léguas no máximo, o que é apenas a 120ª parte do seu diâmetro. Proporcionalmente, seria muito menos do que a espessura da mais delgada casca de laranja.
Aliás, é muito variável a espessura da crosta terrestre, porquanto há zonas, sobretudo nos terrenos vulcânicos, onde o calor e a flexibilidade do solo indicam que ela é pouco considerável. A elevada temperatura das águas termais constitui igualmente indício de proximidade do foco central.

17. - Assim sendo, evidente se torna que o primitivo estado de fluidez ou de flacidez da Terra há de ter tido como causa a acção do calor e não a da água.
Em sua origem., pois, a Terra era uma massa incandescente. Em virtude da irradiação do calórico, deu-se o que se dá com toda matéria em fusão: ela esfriou pouco a pouco, principiando o resfriamento, como era natural, pela superfície, que então endureceu, ao passo que o interior se conservou fluido.
Pode-se assim comparar a Terra a um bloco de carvão ao sair ígneo da fornalha e cuja superfície se apaga e resfria, ao contacto do ar, mantendo-se-lhe o interior em estado de ignição, conforme se verificará, quebrando-o.

18. - Na época em que o globo terrestre era uma massa incandescente, não continha nenhum átomo a mais, nem a menos do que hoje (1); apenas, sob a influência da alta temperatura, a maior parte das substâncias que a compõem e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos, de terras, de pedras, de metais e de cristais se achavam em estado muito diferente. Sofreram
unicamente uma transformação. Em consequência do resfriamento, os elementos formaram novas combinações. O ar, enormemente dilatado, decerto se estendia a uma distância imensa; toda a água, forçosamente transformada em vapor, se encontrava misturada com o ar; todas as matérias susceptíveis de se volatilizarem, tais como os metais, o enxofre, o carbono, se achavam em estado de gás. O da atmosfera nada tinha, portanto, de comparável ao que é hoje; a densidade de todos esses vapores lhe dava uma opacidade que nenhum raio de sol podia atravessar. Se nessa época um ser vivo pudesse existir na superfície do planeta, apenas seria iluminado pelos reverberes sinistros da fornalha que lhe estava sob os pés e da atmosfera em brasa; ele nem sequer suspeitaria da existência do Sol.

Período primário

19. - O primeiro efeito do resfriamento foi a solidificação da superfície exterior da massa em fusão e a formação aí de uma crosta resistente que, delgada a princípio, gradativamente se espessou. Essa crosta constitui a pedra chamada granito, de extrema dureza, assim denominada pelo seu aspecto granuloso. Nela se distinguem três substâncias principais: o feldspato, o quartzo
ou cristal de rocha e a mica. Esta última tem brilho metálico, embora não seja um metal.
A camada granítica foi, pois, a primeira que se formou no globo, é a que o envolve por completo, constituindo de certo modo o seu arcabouço ósseo. É o produto directo da consolidação da matéria fundida. Sobre ela e nas cavidades que apresentava a sua superfície torturada foi que se depositaram sucessivamente as camadas dos outros terrenos, posteriormente formados. O
que a distingue destes últimos é a ausência de toda e qualquer estratificação; quer dizer: ela forma uma massa compacta e uniforme em toda a sua espessura, que não é disposta em camadas. A efervescência da matéria incandescente havia de produzir nela numerosas e profundas fendas, pelas quais essa mesma matéria extravasava.

(1) Nota da Editora: Parece-nos que Kardec se referia apenas à Terra propriamente
dita, não levando em conta os aerólitos e a poeira cósmica que a ela se vêm juntando.

20. - O efeito seguinte do resfriamento foi a liquefacção de algumas matérias contidas no ar em estado de vapor, as quais se precipitaram na superfície do solo. Houve então chuvas e lagos de enxofre e de betume, verdadeiros regatos de ferro, cobre, chumbe e outros metais fundidos.
Infiltrando-se pelas fissuras, essas matérias constituíram os veios e filões metálicos.
Sob o influxo desses diversos agentes, a superfície granítica experimentou alternativas decomposições. Produziram-se misturas, que formaram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos da rocha granítica, mas em massas confusas e sem estratificação regular.
Vieram, a seguir, as águas que, caindo sobre um solo ardente, se vaporizavam de novo, recaíam em chuvas torrenciais e assim sucessivamente, até que a temperatura lhes facultou permanecerem no solo em estado líquido.
É a formação dos terrenos graníticos que dá começo à série dos períodos geológicos, aos quais conviria se acrescentasse o do estado primitivo, de incandescência do globo.

21. - Tal o aspecto do primeiro período, verdadeiro caos de todos os elementos confundidos, à procura de estabilização, período em que nenhum ser vivo podia existir. Por isso mesmo, um de seus caracteres distintivos, em geologia, é a ausência de qualquer vestígio de vida vegetal ou animal.
Impossível se torna assinar duração determinada a esse período, do mesmo modo que aos que se lhe seguiram. Mas, dado o tempo que se faz mister para que uma bala de determinado volume, aquecida até ao branco, se resfrie na superfície, ao ponto de permitir que uma gota d água possa sobre ela permanecer em estado liquido, calculou-se que, se essa bala tivesse o tamanho da Terra, necessários seriam mais de um milhão de anos.

Período de transição

22. - No começo do período de transição, ainda pequena era a espessura da sólida crosta granítica, que, portento, resistência muito fraca oferecia à efervescência das matérias incandescentes que ela cobria e comprimia. Produziam-se, pois, intumescências, despedaçamentos numerosos, por onde se escapava a lava interior. O solo apresentava desigualdades pouco consideráveis.
As águas, pouco profundas, cobriam quase toda a superfície do globo, com excepção das partes soerguidas, que, formando terrenos baixos, eram frequentemente alagados.
O ar gradativamente se purgara das matérias mais pesadas, temporariamente em estado gasoso, as quais, condensando-se por efeito do resfriamento, se haviam precipitado na superfície do solo, sendo depois arrastadas e dissolvidas pelas águas.
Quando se fala de resfriamento naquela época, deve-se entender essa palavra em sentido relativo, isto é, em relação ao estado primitivo, porquanto a temperatura ainda havia de ser ardente.
Os espessos vapores aquosos que se elevavam de todos os lados da imensa superfície líquida, recaíam em chuvas copiosas e quentes, que obscureciam o ar. Entretanto, os ralos do Sol começavam a aparecer, através dessa atmosfera brumosa.
Uma das últimas substâncias de que o ar teve de expurgar-se, por ser gasoso o seu estado natural, foi o ácido carbónico, então um dos seus componentes.

23. - Por essa época, entraram a formar-se as camadas de terrenos de sedimento, depositadas pelas águas carregadas de limo e de matérias diversas, apropriadas à vida orgânica.
Surgem aí os primeiros seres vivos do reino vegetal e do reino animal. Deles se encontram vestígios, a princípio em número reduzido, porém, depois, cada vez mais frequentes, à medida que se vai passando às camadas mais elevadas dessa formação. É digno de nota que por toda parte a vida se manifesta, logo que lhe são propícias as condições, nascendo cada espécie
desde que se realizam as condições próprias à sua existência.

24. - Os primeiros seres orgânicos que apareceram na Terra foram os vegetais de organização menos complicada, designados em botânica sob os nomes de criptogâmicas, acotiledóneos, monocotiledóneos, isto é, líquenes, cogumelos, musgos, fetos e plantas herbáceas. Absolutamente, ainda se não vêem árvores de tronco lenhoso, mas, apenas, as do género palmeira, cuja haste esponjosa é análoga à das ervas.
Os animais desse período, que apareceram em seguida aos primeiros vegetais, eram exclusivamente marinhos: primeiramente, polipeiros, raiados, zoófilos, animais cuja organização simples e, por assim dizer, rudimentar, se aproxima, no máximo grau, da dos vegetais. Mais tarde, aparecem crustáceos e peixes de espécies que já não existem.

25. - Sob o império do calor e da humidade e em virtude do excesso de ácido carbónico espalhado no ar, gás impróprio à respiração dos animais terrestres, mas necessário às plantas, os terrenos expostos se cobriram rapidamente de uma vegetação pujante, ao mesmo tempo que as plantas aquáticas se multiplicavam no seio dos pântanos. Plantas que, nos dias actuais, são simples ervas de alguns centímetros, atingiam altura e grossura prodigiosas.
Assim é que havia florestas de fetos arborescentes de 8 a 10 metros de altura e de proporcional grossura. Licopódios (marroio, género de musgo), do mesmo porte; cavalinhas (1), de 4 a 5 metros, e cuja altura não passa hoje de um metro, e uma infinidade de espécies que não mais existem. Pelos fins do período, começam a aparecer algumas árvores do género conífero ou pinheiros.

26. - Em consequência do deslocamento das águas, os terrenos que produziam essas massas de vegetais foram submergidos, cobertos de novos sedimentos terrosos, enquanto os que se achavam emersos se adornavam, a seu turno, de vegetação semelhante. Houve assim muitas gerações de vegetais alternativamente aniquiladas e renovadas. O mesmo não se deu com os animais que, sendo todos aquáticos, não estavam sujeitos a essas alternativas.
Acumulados durante longa série de séculos, esses destroços formaram camadas de grande espessura. Sob a acção do calor, da humidade, da pressão exercida, pelos posteriores depósitos terrosos e, sem dúvida, de diversos agentes químicos, dos gases, dos ácidos e dos sais produzidos pela combinação dos elementos primitivos, aquelas matérias vegetais sofreram uma
fermentação que as converteu em hulha ou carvão-de-pedra. As minas de hulha são, pois, produto directo da decomposição dos acervos de vegetais acumulados durante o período de transição. É por isso que são encontrados em, quase todas as regiões. (1)

(1) Planta dos pauis, vulgarmente chamada cavalinha ou cauda de cavalo.

27. - Os restos fósseis da pujante vegetação dessa época, achando-se hoje sob os gelos das terras polares, tanto quanto na zona tórrida, segue-se que, uma vez que a vegetação era uniforme, também a temperatura o havia de ser. Os pólos, portanto, não se achavam cobertos de gelo, como agora. É que, então, a Terra tirava de si mesma o calor, do fogo central que aquecia de igual modo toda a camada sólida, ainda pouco espessa. Esse calor era superior de
muito ao que podia provir dos raios solares, enfraquecidos, ao demais, pela densidade da atmosfera. Só mais tarde, quando a acção do calor central se tornou muito fraca ou nula sobre a superfície exterior do globo, a do Sol passou a preponderar e as regiões polares, que apenas recebiam raios oblíquos, portadores de pequena quantidade de calor, se cobriram de gelo. Compreende-se que na época de que falamos e ainda muito tempo depois, o gelo era desconhecido na Terra.
Deve ter sido muito longo esse período, a julgar pelo número e pela espessura das camadas de hulha. (2)

Período secundário

28. - Com o período de transição desaparecem a vegetação colossal e os animais que caracterizavam a época, ou porque as condições atmosféricas já não fossem as mesmas, ou
porque uma série de cataclismos haja aniquilado tudo o que tinha vida na Terra.
É provável que as duas causas tenham contribuído para essa mudança, por isso que, de um lado, o estudo dos terrenos que assinalam o fim desse período comprova a ocorrência de grandes subversões oriundas de levantamentos e erupções que derramaram sobre o solo grandes quantidades de lavas, e, de outro lado, porque grandes mudanças se operaram nos trás reinos.

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(1) A turfa se formou da mesma maneira, pela decomposição dos amontoados de vegetais, em terrenos pantanosos; mas, com a diferença de que, sendo de formação muito mais recente e sem duvida noutras condições, ela não teve tempo de se carbonizar,
(2) Na baía de Fundy (Nova Escócia), o Sr, Lyell encontrou, numa camada de hulha de
espessura de 400 metros, 68 níveis diferentes, apresentando traços evidentes de muitos solos de florestas, de cujas arvores os troncos ainda estavam guarnecidos de suas raízes. (L. Figuier)
Não dando mais de mil anos para a formação de cada um desses níveis, já teríamos 68.000 anos só para essa camada de hulha.

29. - O período secundário se caracteriza, sob o aspecto mineral, por numerosas e fortes camadas que atestam uma formação lenta no seio das águas e marcam diferentes épocas bem caracterizadas.
A vegetação é menos rápida e menos colossal que no período precedente, sem dúvida em virtude da diminuição do calor e da humidade e de modificações sobrevindas aos elementos constitutivos da atmosfera. Às plantas herbáceas e carnudas, juntam-se as de caule lenhoso e as primeiras árvores propriamente ditas.

30. - Ainda são aquáticos os animais, ou, quando nada, anfíbios, a vida vegetal progride pouco na terra seca. Desenvolve-se no seio dos mares uma prodigiosa quantidade de animais de conchas, devido à formação das matérias calcárias. Nascem novos peixes, de organização mais aperfeiçoada do que no período anterior. Aparecem os primeiros cetáceos. Os mais característicos animais dessa época são os repteis monstruosos, entre os quais se notam:
O ictiossáuro, espécie de peixe-lagarto que chegava a ter 10 metros de comprido e cujas mandíbulas, prodigiosamente alongadas, eram armadas de 180 dentes. Sua forma geral lembra um pouco a do crocodilo, mas sem couraça escamosa. Seus olhos tinham o volume da cabeça de um homem; possuía barbatanas como a baleia e, como esta, expelia água por aberturas próprias
para isso.
O plesiossáuro, outro réptil marinho, tão grande quanto o ictiossáuro, e cujo pescoço, excessivamente longo, se dobrava, como o do cisne, e lhe dava a aparência de enorme serpente ligada a um corpo de tartaruga. Tinha a cabeça do lagarto e os dentes do crocodilo. Sua pele devia ser lisa, qual a do precedente, porquanto não se lhe descobriu nenhum vestígio de escamas ou de concha. (1)
O teleossáuro, que mais se aproxima dos crocodilos actuais, parecendo estes um seu diminutivo. Como os últimos, tinha uma couraça escamosa e vivia, ao mesmo tempo, na água e em terra Seu talhe era de cerca de 10 metros, dos quais 3 ou 4 só para a cabeça. A boca tinha de abertura 2 metros.
O megalossáuro, grande lagarto, espécie de crocodilo, de 14 a 15 metros de comprimento. Essencialmente carnívoro, nutria-se de repteis, de pequenos crocodilos e de tartarugas. Sua formidável mandíbula era armada de dentes em forma de lâmina de podadeira, de gume duplo, recurvados para trás, de tal jeito que, uma vez enterrados na presa, impossível se tornaria a esta desprender-se.
O iguanodonte, o maior dos lagartos que já apareceram na Terra. Tinha de 20 a 25 metros da cabeça à extremidade da cauda e sobre o focinho um chifre ósseo, semelhante ao do iguano da actualidade, do qual parece que não diferia senão pelo tamanho. O último tem apenas 1 metro de comprido. A forma dos dentes prova que ele era herbívoro e a dos pés que era animal terrestre.
(2) O pterodáctilo, animal estranho, do tamanho de um cisne, participando, simultaneamente, do réptil pelo corpo, do pássaro pela cabeça e do morcego pela membrana carnuda que lhe unia os dedos prodigiosamente longos.
Essa membrana lhe servia de pára-quedas quando se precipitava sobre a presa do alto de uma árvore ou de um rochedo. Não possuía bico córneo, como os pássaros, mas os ossos das mandíbulas, do comprimento da metade do corpo e guarnecidos de dentes, terminavam em ponta como um bico.

(1) O primeiro fóssil deste animal foi descoberto, na Inglaterra, em 1823. Depois,
encontraram-se outros na França e na Alemanha.
(2) Nota da Editora, à 16ª edição, de 1973: Somente após a desencarnação do autor,
ocorrida em 1869, foram descobertos, na Inglaterra, fragmentos suficientes à montagem de um
exemplar completo, pelos paleontólogos, permitindo melhor elucidar detalhes da descrição desse
dinossauro. Ficou, então, claro que ele tinha uma calosidade óssea sobre o focinho, como os
iguanídeos

31. - Durante esse período, que há de ter sido muito longo, como o atestam o número e a pujança das camadas geológicas, a vida animal tomou enorme desenvolvimento no seio das águas, tal qual se dera com a vegetação no período que findara. Mais depurado e mais favorável à respiração, o ar começou a permitir que alguns animais vivessem em terra. O mar se deslocou
muitas vezes, mas sem abalos violentos. Com esse período, desaparecem, por sua vez, aquelas raças de gigantescos animais aquáticos, substituídos mais tarde por espécies análogas, de formas menos desproporcionadas e de menor porte.

32. - O orgulho levou o homem a dizer que todos os animais foram criados por sua causa e para satisfação de suas necessidades. Mas, qual o número dos que lhe servem directamente, dos que lhe foi possível submeter, comparado ao número incalculável daqueles com os quais nunca teve ele, nem nunca terá, quaisquer relações? Como se pode sustentar semelhante tese, em face das inumeráveis espécies que exclusivamente povoaram a Terra por milhares e milhares de séculos, antes que ele aí surgisse, e que afinal desapareceram? Poder-se-á afirmar que elas foram criadas em seu proveito?
Entretanto, tinham todas a sua razão de ser, a sua utilidade. Deus, decerto, não as criou por simples capricho da sua vontade, para dar a si mesmo, em seguida, o prazer de as aniquilar, pois que todas tinham vida, instintos, sensação de dor e de bem-estar. Com que fim ele o fez? Com um fim que há de ter sido soberanamente sábio, embora ainda o não compreendamos.
Certamente, um dia será dado ao homem conhecê-lo, para confusão do seu orgulho; mas, enquanto isso não se verifica, como se lhe ampliam as ideias ante os novos horizontes em que lhe é permitido, agora, mergulhar a vista, em presença do imponente espectáculo dessa criação, tão majestosa no seu lento caminhar, tão admirável na sua previdência, tão pontual, tão precisa e tão invariável nos seus resultados!
uma crista espinhosa no dorso, inexistindo chifres, que, no entanto, eram bastante evidentes em
outros monstros, como nos saurópodos.

Período terciário

33. - Com o período terciário nova ordem de coisas começa para a Terra.
O estado da sua superfície muda completamente de aspecto; modificam-se profundamente as condições de vitalidade e se aproximam do estado actual. Os primeiros tempos desse período se assinalam por uma interrupção da produção vegetal e animal; tudo revela traços de uma destruição quase geral dos seres vivos, depois do que aparecem sucessivamente novas espécies, cuja organização, mais perfeita, se adapta à natureza do meio onde são chamados a viver.

34. - Durante os períodos anteriores, a crosta sólida do globo, em virtude da sua pequena espessura, apresentava, como já se disse, bem fraca resistência à acção do fogo interior. Facilmente despedaçado, esse envoltório permitia que as matérias em fusão se derramassem livremente pela superfície do solo. Outro tanto já não se deu quando este ganhou certa espessura. Então, comprimidas de todos os lados, as matérias em brasas, como a água em
ebulição num vaso fechado, acabaram por produzir uma espécie de explosão.
Violentamente quebrada num sem-número de pontos, a massa granítica ficou crivada de fendas, como um vaso rachado. Ao longo dessas fendas, a crosta sólida, levantada e deprimida, formou os picos, as cadeias de montanhas e suas ramificações. Certas partes do envoltório não chegaram a ser despedaçadas, foram apenas soerguidas, enquanto que, noutros pontos, recalcamentos e escavações se produziram.
A superfície do solo tornou-se então muito desigual; as águas que, até aquele momento, a cobriam de maneira quase uniforme na maior parte da sua extensão, foram impelidas para os lugares mais baixos, deixando em seco vastos continentes, ou cumes isolados de montanhas, formando ilhas.
Tal o grande fenómeno que se operou no período terciário e que transformou o aspecto do globo. Ele não se produziu instantânea, nem simultaneamente em todos os pontos, mas sucessivamente e em épocas mais ou menos distanciadas.

35. - Uma das primeiras consequências desses levantamentos foi, como já ficou dito, a inclinação das camadas de sedimento, primitivamente horizontais e assim conservadas onde quer que o solo não sofreu subversões. Foi, portanto, nos flancos e nas proximidades das montanhas que essas inclinações mais se pronunciaram.

36. - Nas regiões onde as camadas de sedimento conservaram a horizontalidade, para se chegar às de formação primária tem-se que atravessar todas as outras, até considerável profundidade, ao cabo da qual se encontra inevitavelmente a rocha granítica. Quando, porém, se ergueram em montanhas, aquelas camadas foram levadas acima do seu nível normal, indo às vezes até a
grande altura, de tal sorte que, feito um corte vertical no flanco da montanha, elas se mostram em toda a sua espessura e sobrepostas como as fiadas de uma construção.
É assim que a grandes elevações se encontram enormes bancos de conchas, primitivamente formados no fundo dos mares. Está hoje perfeitamente comprovado que em nenhuma época o mar há podido alcançar semelhantes alturas, visto que para tanto não bastariam todas as águas existentes na Terra, ainda mesmo que fossem em quantidade cem vezes maior.
Ter-se-ia, pois, de supor que a quantidade de água diminuiu e, então, caberia perguntar o que fora feito da porção que desapareceu. Os levantamentos, facto hoje incontestável, explicam de maneira lógica e rigorosa os depósitos marinhos que se encontram em certas montanhas. (1)

37. - Nos lugares onde o levantamento da rocha primitiva produziu completa rasgadura do solo, quer pela rapidez do fenómeno, quer pela forma, altura e volume da massa levantada, o granito foi posto a nu, qual um dente que irrompeu da gengiva. Levantadas, quebradas e arrumadas, as camadas que o revestiam ficaram a descoberto. É assim que terrenos pertencentes às mais
antigas formações e que, na posição primitiva, se achavam a grande profundidade, compõem hoje o solo de certas regiões.

38. – A massa granítica, deslocada devido aos levantamentos, deixou nalguns sítios fendas por onde se escapa o fogo interior e se escoam as matérias em fusão; os vulcões, que são como que chaminés da imensa fornalha, ou, melhor, válvulas de segurança que, dando saída ao excesso das
matérias ígneas, preservam o globo de comoções muito mais terríveis. Daí o poder dizer-se que os vulcões em actividade são uma segurança para o conjunto da superfície do solo.
Da intensidade desse fogo é possível fazer-se ideia, ponderando-se que no seio mesmo dos mares se abrem vulcões e que a massa da água que os recobre e neles penetra não consegue extingui-los.
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(1) Camadas de calcário conchífero foram encontradas nos Andes, América, a 5.000
metros acima do nível do oceano.

39. - Os levantamentos operados na massa sólida necessariamente deslocaram as águas, sendo estas impelidas para as partes côncavas, que ao mesmo tempo se haviam tornado mais profundas pela elevação dos terrenos emergidos e pela depressão de outros. Mas, esses terrenos tornados baixos, levantados por sua vez ora num ponto, ora noutro, expulsaram as águas, que
refluíram para outros lugares e assim por diante, até que houvessem podido tomar um leito mais estável.
Os sucessivos deslocamentos dessa massa líquida forçosamente trabalharam e torturaram a superfície do solo. As águas, escoando-se, arrastaram consigo uma parte dos terrenos de formações anteriores, postos a descoberto pelos levantamentos, desnudaram algumas montanhas que eles cobriam e lhes deixaram à mostra a base granítica ou calcária. Profundos vales foram cavados, enquanto outros eram aterrados.
Há, pois, montanhas directamente formadas pelo fogo central: principalmente as graníticas; outras, devidas à acção das águas que, arrastando as terras móveis e as matérias solúveis, cavaram vales em torno de uma base resistente, calcária, ou de outra natureza.
As matérias arrastadas pelas correntes da água formaram as camadas do período terciário, que facilmente se distinguem das dos precedentes, menos pela composição, que é quase a mesma, do que pela disposição. As camadas dos períodos primário, de transição e secundário, formadas
sobre uma superfície pouco acidentada, são mais ou menos uniformes na Terra toda; as do período terciário, formadas, ao invés, sobre base muito desigual e pelo arrastamento das águas, apresentam carácter mais local. Por toda parte, fazendo-se escavações de certa profundidade, encontram-se todas as camadas anteriores, na ordem em que se formaram, ao passo que não se encontra por toda parte o terreno terciário, nem todas as suas camadas.

40. - Durante os convulsões do solo, ocorridos no princípio deste período, a vida orgânica, como é fácil de conceber-se, teve que ficar estacionária por algum tempo, o que se reconhece examinando terrenos privados de fósseis. Desde, porém, que sobreveio um estado mais calmo, reapareceram os vegetais e os animais.
Estando mudadas as condições de vitalidade, mais depurada a atmosfera, formaram-se novas espécies, com organização mais perfeita. As plantas, sob o ponto de vista da estrutura, diferem pouco das de hoje.

41. - No correr dos dois períodos precedentes, eram pouco extensos os terrenos que as águas não cobriam; eram, ainda assim, pantanosos e com frequência ficavam submersos. Essa a razão por que só havia animais aquáticos ou anfíbios. O período terciário, em o qual vários continentes se
formaram, caracterizou-se pelo aparecimento dos animais terrestres.
Assim como o período de transição assistiu ao nascimento de uma vegetação colossal, o período secundário ao de repteis monstruosos, também o terciário presenciou o de gigantescos mamíferos, quais o elefante, o rinoceronte, o hipopótamo, o paleotérico, o megatério, o dinotério, o mastodonte, o mamute, etc. Estes dois últimos, variedades do elefante, tinham de 5 a 6 metros de altura e suas defesas chegavam a 4 metros de comprimento. Também assistiu, esse
período, ao nascimento dos pássaros, bem como à maioria das espécies animais que ainda hoje existem. Algumas, das dessa época, sobreviveram aos cataclismos posteriores; outras, qualificadas genericamente de animais antediluvianos, desapareceram completamente, ou foram substituídas por espécies análogas, de formas menos pesadas e menos maciças, cujos
primeiros tipos foram como que esboços. Tais o «felis speloea», animal carnívoro do tamanho de um touro, com os caracteres anatómicos do tigre e do leão; o «cervus megaceron», variedade do cervo, cujos chifres, compridos de 3 metros, eram espaçados de 3 a 4 nas extremidades.

Período diluviano

42. - Este período teve a assinalá-lo um dos maiores cataclismos que revolveram o globo, cuja superfície ele mudou mais uma vez de aspecto, destruindo uma imensidade de espécies vivas, das quais apenas restam despojos. Por toda a parte deixou traços que atestam a sua generalidade. As águas, violentamente arremessadas fora dos respectivos leitos, invadiram os
continentes, arrastando consigo as terras e os rochedos, desnudando as montanhas, desenraizando florestas seculares. Os novos depósitos que elas formaram são designados, em Geologia, pelo nome de terrenos diluvianos.

43. - Um dos vestígios mais significativos desse grande desastre são os penedos chamados blocos erráticos. Dá-se essa denominação a rochedos de granito que se encontram isolados nas planícies, repousando sobre terrenos terciários e no meio de terrenos diluvianos, algumas vezes a muitas centenas de léguas das montanhas donde foram arrancados. É claro que só a violência das
correntes há podido transportá-los a tão grandes distâncias. (1)

44. - Outro facto não menos característico e cuja causa se não descobriu ainda é que só nos terrenos diluvianos se encontram os primeiros aerólitos. Pois que somente nessa época eles começaram a cair, segue-se que anteriormente não existia a causa que os produz.

45. - Foi também por essa época que os pólos começaram a cobrir-se de gelo e que se formaram as geleiras das montanhas, o que indica notável mudança na temperatura da Terra, mudança que deve ter sido súbita, porquanto, se houvesse operado gradualmente, os animais, como os
elefantes, que hoje só vivem nos climas quentes e que são encontrados em tão grande número no estado fóssil nas terras polares, teriam tido de retirar-se pouco a pouco para as regiões mais
temperadas. Tudo denota, ao contrário, que eles provavelmente foram colhidos
de surpresa por um grande frio e sitiados pelos gelos. (1)

(1) Um desses blocos, evidentemente provindo, pela sua composição, das montanhas da
Noruega, serve de pedestal à estátua de Pedro, o Grande, em S. Petersburgo.

46. - Esse foi, pois, o verdadeiro dilúvio universal. Dividem-se as opiniões relativamente às causas que devam tê-lo produzido. Quaisquer, porém, que elas sejam, o que é certo é que o facto se deu. A suposição mais generalizada é a de que uma brusca mudança sofreu a posição do eixo e dos pólos da Terra; daí uma projecção geral das águas sobre a superfície. Se a mudança se houvesse processado lentamente, a retirada das águas teria sido gradual, sem abalos, no passo que tudo indica uma comoção violenta e inopinada. Ignorando qual a verdadeira causa, temos que ficar no campo das hipóteses.
O deslocamento repentino das águas também pode ter ocasionado o levantamento de certas partes da crosta sólida e a formação de novas montanhas dentro dos mares, conforme se verificou em começo do período terciário. Mas, além de que, então, o cataclismo não teria sido geral, isso não explicaria a mudança súbita da temperatura dos pólos.
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(1) Em 1771, o naturalista russo Pallas encontrou nos gelos do Norte o corpo inteiro de
um mamute revestido da pele e conservando parte das suas carnes. Em 1799, descobriu-se
outro, igualmente encerrado num enorme bloco de gelo, na embocadura do Lena, na Sibéria, e
que foi descrito pelo naturalista Adams. Os iacutos das circunvizinhanças lhe despedaçaram as
carnes para alimentar seus cães. A pele se achava coberta de pêlos negros e o pescoço
guarnecia-o espessa crina. A cabeça sem as defesas, que mediam mais de 4 metros, pesava
mais de 200 quilos. Seu esqueleto está no museu de S. Petersburgo. Nas ilhas e nas bordas do
mar glacial encontra-se tão grande quantidade de defesas, que elas fazem objecto de
considerável comércio, sob o nome de marfim fóssil ou da Sibéria.

47. - Na tormenta determinada pelo deslocamento das águas, pereceram muitos animais; outros, a fim de escaparem à inundação, se retiraram para os lugares altos, para as cavernas e fendas, onde sucumbiram em massa, ou de fome, ou devorando-se, ou, ainda, talvez, pela irrupção das águas nos sítios onde se tinham refugiado e donde não puderam fugir. Assim se explica a
grande quantidade de ossadas de animais diversos, carnívoros e outros, que são encontrados de mistura em certas cavernas, que por essa razão foram chamadas brechas ou cavernas de ossos. São encontradas as mais das vezes sob as estalagmites. Nalgumas, as ossadas parecem ter sido arrastadas para ali pela correnteza das águas. (1)

Período pós-diluviano, ou actual. - Nascimento do homem

48. - Uma vez restabelecido o equilíbrio na superfície do planeta, prontamente a vida vegetal e animal retomou o seu curso. Consolidado, o solo assumiu uma colocação mais estável; o ar, purificado, se tornara apropriado a órgãos mais delicados. O Sol, brilhando em todo o seu esplendor através de uma atmosfera límpida, difundia, com a luz, um calor menos sufocante e mais vivificador do que o da fornalha interna. A Terra se povoava de animais menos
ferozes e mais sociáveis; mais suculentos, os vegetais proporcionavam alimentação menos grosseira; tudo, enfim, se achava preparado no planeta para o novo hóspede que o viria habitar. Apareceu então o homem, último ser da criação, aquele cuja inteligência concorreria, dali em diante, para o progresso geral, progredindo ele próprio.
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(1) Conhece-se grande número de cavernas semelhantes, algumas de enorme extensão.
Várias existem, no México, de multas léguas. A de Aldesberg, em Carniola (Áustria), tem nada
menos de três léguas. Uma das mais notáveis é a de Gailenreuth, no Würtemberg. Há muitas
delas na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália (Sicília) e outros países da Europa.

49. - O homem só terá existido na Terra depois do período diluviano, ou terá surgido antes dessa época? Questão é esta muito controvertida hoje, mas cuja solução, seja qual for, nada mudará no conjunto dos fatos verificados, nem fará que o aparecimento da espécie humana não seja anterior, de muitos milhares de anos, à data que lhe assina a Génese bíblica.
O que fez se supusesse que o advento dos homens ocorreu posteriormente ao dilúvio foi o facto de se não ter achado vestígio autêntico da sua existência no período anterior. As ossadas descobertas em diversos lugares e que geraram a crença na existência de uma raça de gigantes antediluvianos foram reconhecidas como de elefantes.
O que está fora de dúvida é que não existia o homem, nem no período primário, nem no de transição, nem no secundário, não só porque nenhum traço
dele se descobriu, como também porque não havia para ele condições de vitalidade. Se o seu aparecimento se deu no terciário, só pode ter sido no fim do período e bem pouco então se há de ele ter multiplicado. Ao demais, por haver sido curto, o período antediluviano não determinou
mudanças notáveis nas condições atmosféricas, tanto que eram os mesmos os animais, antes e depois dele; não é, pois, impossível que o aparecimento do homem tenha precedido esse grande cataclismo; está hoje comprovada a existência do macaco naquela época e recentes descobertas parecem confirmar a do homem. (1)
Como quer que seja, tenha o homem aparecido ou não antes do grande dilúvio universal, o que é certo é que o seu papel humanitário somente no período pós-diluviano começou a esboçar-se. Pode-se, portanto, considerar caracterizado pela sua presença esse período.
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(1) Veja-se: O homem antediluviano, por Boucher de Perthes. - Os instrumentos de
pedra, Idem - Discurso sobre as revoluções do globo, por Jorge Cuvier, anotado pelo Dr.
Hoefer.
Referencia: A génese