domingo, 12 de agosto de 2007

O inferno cristão imita o pagão


O Inferno Cristão Imita o Pagão


3 — O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, é o modelo mais grandioso do género e se perpetuou, projectando-se como o dos cristãos, que teve também os seus poetas. Comparando-os podemos encontrar, salvo os nomes e algumas variações de detalhes, numerosas analogias entre eles. Num e noutro o fogo material é o elemento básico das torturas porque simboliza os mais cruéis sofrimentos. Mas, coisa estranha, os cristãos conseguiram, em diversos sentidos, exagerar o inferno dos pagãos. Se estes últimos tinham no seu o tonel das Donaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, esses eram suplícios individuais. O inferno cristão tem por toda parte caldeiras ferventes, cujas tampas os anjos erguem para verem as contorções dos condenados. Deus ouve sem piedade os gemidos desses últimos pela eternidade. Jamais os pagãos figuraram aos habitantes dos Campos Elísios inspeccionando os suplícios do Tártaro.


4 — À semelhança dos pagãos, os cristãos têm o seu rei dos infernos que é Satanás, com a diferença de que Plutão se limitava a governar o império sombrio que havia recebido, mas sem praticar maldades. Ele retinha nesse império os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não procurava induzir os homens ao mal pelo prazer de os submeter ao sofrimento. Satanás entretanto recruta as suas vítimas por toda parte e se alegra de fazê-las atormentar por legiões de demónios armados de tridentes para revolvê-los nas chamas. Tem-se mesmo discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima sem cessar os condenados, sem jamais os consumir, chegando-se a perguntar se seria um fogo de betume. O inferno cristão não permite, pois, que o inferno pagão o exceda em nada.


5 — As mesmas razões que fizeram os antigos localizar a morada da felicidade, determinaram também que se localizasse a dos suplícios. Tendo localizado a primeira nas regiões superiores, era natural que colocassem a segunda nos inferiores, no centro da Terra, para o qual, segundo se acredita, certas cavernas sombrias e de aspecto assustador serviam de entrada.
Foi assim também que os cristãos, durante longo tempo localizaram o lugar dos condenados. Notemos ainda a esse respeito, outra analogia.
O inferno dos pagãos tinha de um lado os Campos Elísios e de outro o Tártaro. O Olimpo, morada dos deuses, dos homens divinizados, ficava nas regiões superiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, ou seja, nos lugares baixos para tirar dali as almas dos justos que esperavam a sua vinda. Os infernos não eram, portanto, apenas um lugar de suplício. À semelhança do que acontecia entre os pagãos eles estavam também nas regiões inferiores. Assim como o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos estava nas regiões elevadas, colocada para lá do céu das estrelas, que se considerava limitado.


6 — Essa mistura das ideias pagãs com as cristãs nada tem que nos deva surpreender. Jesus não podia destruir de repente as crenças enraizadas. Os homens não dispunham dos conhecimentos necessários para conceber o espaço como infinito e povoado de mundos em número infinito. A Terra era para eles o centro do universo. Não conheciam a sua forma nem a sua estrutura interior. Tudo lhes parecia limitado segundo a sua compreensão: as noções referentes ao futuro não poderiam exceder os limites dos seus conhecimentos.
Jesus se encontrava, pois, na impossibilidade de iniciá-los no verdadeiro conhecimento da realidade. Mas, de outro lado, não querendo sancionar com a sua autoridade os prejuízos dominantes, preferiu abster-se, deixando ao tempo o trabalho de rectificar as ideias erróneas. Limitou-se a falar vagamente da vida de bem-aventurança e dos castigos que esperavam os culpados. Mas em parte alguma, nos seus ensinos, encontra-se o quadro dos suplícios corporais que os cristãos transformaram em artigo de fé.


Eis como a idéia do inferno pagão perpetuou-se até os nossos dias. Era necessária a difusão dos conhecimentos nos tempos modernos e o desenvolvimento geral da inteligência humana para lhe dar a justa medida. Mas como nada de positivo pode ser colocado em lugar dessas velhas concepções, ao longo período dominado por uma crença cega sucedeu, como fase de transição, o período da incredulidade ao qual a nova revelação vem pôr um fim. Era necessário demolir para depois reconstruir, porque é mais fácil fazer aceitar as idéias justas pelos que em nada acreditam, em virtude de sentirem que apesar disso alguma coisa lhes falta, do que aos que já possuem uma fé robusta, embora absurda.


7 — Pela localização do céu e do inferno as seitas cristãs foram levadas a admitir que só existiam para as almas duas situações extremas: a perfeita felicidade e o sofrimento absoluto. O purgatório é apenas uma posição intermediária e passageira, da qual elas passam sem transição para a região dos bem-aventurados. Nem poderia ser de outra maneira, dada a crença no destino definitivo da alma após a morte. Havendo apenas duas regiões, a dos eleitos e a dos condenados, não se pode admitir variedade de graus em cada uma delas sem aceitar a possibilidade de as franquear, o que levaria como conseqüência ao progresso. Ora, se houvesse progresso não haveria sorte definitiva. Havendo sorte definitiva não há progresso. Jesus resolveu a questão quando disse: "Há muitas moradas na casa de meu Pai".


referência: O céu e o inferno

2 comentários:

David disse...

O que mais me espanta num espirita � quando ele(a) faz referencias a b�blia.
Apesar de possu�rem suas proprias �escritura� fazem questão de citar a b�blia, um livro primariamente Judaico/Crist�o sem nenhum conhecimento se quer superficial de exegese, ou hermen�utica b�blica, citando vers�culos fora de seu contexto.
Ao fazer uma critica da doutrina do inferno sem nenhum conhecimento das escrituras e se quer fazer distin�o d� catolicismo e protestantismo o que j� seria uma gafe tremenda.
Assim como n�o posso, e nem quero explicar os livros de Allam Kardec um esp�rita n�o tem autoridade de explicar a b�blia por ser este livro totalmente estranho a eles.
Nota zero na sua �pesquisa� sobre o inferno.
Tente de novo sei que pode fazer melhor!

joana disse...

Amigo David

O espiritismo sendo uma doutrina cientifica e filosófica de consequências morais,tem como base as escrituras, tem seus fundamentos na Biblia.A essência de sua doutrina é o evangelho.

É importante distinguir o facto de que os estudos Biblicos se processam em direcções diversas: há o estudo normativo das instituições religiosas, ligados á várias igrejas e que seguem as regras hermenéutica; há o estudo livre dos institutos universitários independentes, que seguem os principios da pesquisa cientifica e da interpretação histórica. O espiritismo não se prende a nenhum dos dois sistemas pois sua posição é intermediária.

Reconhecendo o conteúde espiritual da Biblia, o espiritismo estuda à luz dos seus principios em harmonia com os métodos de antropologia natural e dos estudos históricos.

Segundo JESUS em JOÃO, capitulo 10 " eu e o pai somos um". Desta forma todos os homens possuem uma unidade essencial. Daí a importancia de viver uma religão unitária em essência - o ecumenismo- apesar da variedade das formas em que se expressam.

A comparação do inferno pagão com o inferno cristão é um dos mais eficazes trabalhos de mitologia comparada que se conhece. A mitologia cristã se revela mais grosseira e cruel que a pagã.

Vemos aqui que Kardec tem muito para ensinar , não só aos espiritas, a todos aqueles que querem compreender o sentido da vida humana na Terra.Kardec reafirma o caracter cientifico do espiritismo. Como ciência de observação a nova doutrina enfrenta o problema das penas e recompensas futuras á luz da história, estabelecendo comparações entre as idealizações do céu e do inferno nas religiões anteriores e nas religiões cristãs, revelando as raizes históricas, antropologicas, sociologicas e psicologicas dessas idealizações na formulação dos dogmas cristãos.

É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois seu objectivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espirito cientifico moderno e contemporâneo

espero ter esclarecido o assunto de uma forma utíl

sempre a sua disposição

Joana