segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Médium pintor na América


Médium pintor na América

Revista Espírita, Novembro de 1858

(Extraído do Spiritualiste de Nova Orteans.)

Não podendo todo mundo ser convencido pelo mesmo género de manifestações espirituais,
foi preciso se desenvolverem médiuns de muitas espécies. Há, nos Estados Unidos, os que fazem retratos de pessoas mortas há muito tempo, e que jamais conheceram; e como a semelhança é logo constatada, poucas pessoas sensatas, que testemunham esses factos, não deixam de se converterem. O mais notável desses médiuns é talvez o senhor Roger, que já citamos (vol. l, p. 239), e que habitava, então, Columbus, onde exercia sua profissão de alfaiate; poderíamos acrescentar que não teve outra educação, além daquela do seu estado.
Aos homens instruídos que disseram ou repetiram, a propósito da teoria espiritualista: "O recurso aos Espíritos não é senão uma hipótese; um exame atento prova que ela não é nem a mais racional, nem a mais verossímil," a eles, sobretudo, oferecemos a tradução seguinte, que abreviamos, de um artigo escrito em 27 de Julho último, pelo senhor Fayette R. Gridley, de Attica (Indiana), aos editores do Spiritual Age, que o publicou por inteiro em sua folha de 14 de Agosto:

No mês de Maio último, o senhor E. Roger, de Cardington (Ohio), que, como sabeis, é médium pintor e faz retratos de pessoas que não estão mais neste mundo, veio passar alguns dias em minha casa. Durante essa curta estada, foi arrebatado por um artista invisível que se deu por Benjamin West, e ele pintou alguns belos retratos, de tamanho natural, assim como outros menos satisfatórios.
Eis algumas particularidades relativas a dois desses retratos.
Foram pintados pelo dito E. Roger, em um quarto escuro, em minha casa, no curto intervalo de uma hora e trinta minutos, dos quais em torno de uma meia-hora se passou sem que o médium fosse influenciado, e eu a aproveitei para examinar seu trabalho, que não estava ainda acabado. Roger foi arrebatado de novo e terminou esses retratos. Então, e sem nenhuma indicação quanto aos sujeitos assim representados, um dos retratos foi em seguida reconhecido como sendo de meu avô, Elisha Gridley; minha mulher, minha irmã, a senhora Chaney, e depois meu pai e minha mãe, todos foram unânimes em acharem a semelhança
boa; é um fac-símile do velho, com todas as particularidades de sua cabeleira, de seu
colarinho de camisa, etc. Quanto ao outro retrato, nenhum de nós o reconhecendo, pendurei-o
em minha loja, à vista dos passantes, e permaneceu uma semana sem ser reconhecido por
ninguém. Esperávamos que alguém nos dissesse que representava um antigo habitante de Attica. Perdia a esperança em saber quem se quis pintar, quando uma noite, tendo formado um círculo espiritualista em minha casa, um Espírito se manifestou e me fez a comunicação que aqui está:

"Meu nome é Horace Gridley. Há mais de cinco anos deixei meu despojo. Morei vários anos em Natchez (Mississipi), onde ocupei o lugar de xerife. Meu único filho mora lá. Sou primo do vosso pai. Podereis ter outras informações sobre mim, dirigindo-vos ao vosso tio, senhor Gridley, de Brownsville (Tennessee). O retrato que tendes em vossa loja é o meu, à época em que vivia na Terra, pouco tempo antes de passar para esta nova existência, mais elevada, mais feliz e melhor, ele se me assemelha, tanto ao menos quanto pude retomar minha fisionomia de então, porque isso é indispensável quando nos pintam, e o fazemos o melhor que podemos em lembrança e segundo as condições que o momento o permite. O retrato em
questão não está acabado como o teria desejado; há algumas ligeiras imperfeições que o senhor West disse provirem das condições nas quais se achava o médium. Entretanto, enviai esse retrato a Natchez, para que seja examinado; creio que será reconhecido."

Os factos mencionados nessa comunicação eram perfeitamente ignorados por mim, tanto quanto de todos os habitantes de nosso lugar. Entretanto, uma vez, há alguns anos, ouvi dizer que meu pai tinha um parente em algum local dessa parte do vale do Mississipi; mas nenhum de nós sabia o nome desse parente, nem o lugar onde vivera, nem mesmo se estava morto, e não foi senão vários dias depois que tomei com meu pai (que habitava Delphi, a
quarenta milhas daqui), qual havia sido o lugar de residência de seu primo, do qual não ouvira falar quase nada há sessenta anos. Não havíamos pensado em pedir os retratos de família; eu tinha simplesmente colocado, diante do médium, uma nota escrita contendo os nomes de uma vintena de antigos habitantes de Attica, partidos deste mundo, e desejamos obter o retrato de algum dentre eles. Penso, pois, que todas as pessoas racionais admitirão que o retrato, nem a comunicação de Horace Gridley, não puderam resultar de uma
transmissão de pensamento de nós para o médium; aliás, é certo que o senhor Roger jamais conheceu nenhum dos dois homens, dos quais fez os retratos, e muito provavelmente, deles, jamais ouviu falar, porque é Inglês de nascimento; ele veio para a América, há dez anos, e nunca foi mais ao sul que Cincinnati, ao passo que Horace Gridley, pelo que sei, não veio jamais mais norte que Memphis (Tenn), nos últimos trinta ou trinta e cinco anos de sua vida terrestre. Ignoro se jamais visitou a Inglaterra; mas isso não poderia ter sido senão antes do nascimento de Roger, porque este não tem mais que vinte e oito a trinta anos. Quanto ao
meu avô, morto há mais ou menos dezanove anos, jamais saiu dos Estados Unidos, e jamais fizera seu retrato, de qualquer maneira desde que recebi a comunicação que transcrevi mais acima, escrevi ao senhor Gridley, de Brownsville, e sua resposta veio corroborar o que ensinara a comunicação do Espírito; além do mais, com ele encontrei o nome do único filho de Horace Gridley, que é a senhora L. M. Patterson, ainda residente em Natchez, onde seu pai morou muito tempo, e que morreu, ao
que pensa meu tio, há mais ou menos seis anos, em Houston (Texas).

Escrevi, então, à senhora Patterson, minha prima recém-descoberta, e lhe enviei uma cópia daguerreotipada do retrato, que nos disseram ser de seu pai. Em minha carta ao meu tio, de
Brownsville, não havia dito nada do objectivo principal de minhas pesquisas, e dai nada
disse mais à senhora Patterson; nem por que enviava esse retrato, nem como o havia adquirido, nem qual era a pessoa que ele representava; perguntei simplesmente à minha prima se ela nele reconhecia alguém. Ela me respondeu que não podia certamente dizer de quem era esse retrato, porém ela me assegurava que se assemelhava a seu pai à época de sua morte. Escrevi-lhe em seguida que o tomáramos também pelo retrato de seu pai, mas sem lhe dizer como o havia obtido. A réplica de minha prima trazia, em substância, que no ambrotipo que eu lhe enviara, todos haviam reconhecido seu pai, antes que eu lhe dissesse
que era ele o representado. Minha prima testemunhou muita surpresa de que eu tivesse um
retrato de seu pai, quando ela mesma jamais tivera, e que seu pai jamais dissera que fizera seu retrato, não importa por quem. Não acreditava que dele existisse algum. Mostrou-se bem satisfeita com a minha remessa, sobretudo por causa de seus filhos, que têm muita veneração pela memória de seu pai.
Então enviei-lhe o retrato original, autorizando-a a guardá-lo, se lhe aprouvesse; mas ainda não lhe disse como o havia obtido. As principais passagens do que ela me escreveu, em retorno, são as seguintes:

"Recebi vossa carta, assim como o retrato de meu pai, que me permitis guardar, se for assaz semelhante. É o certamente muito; e como jamais tive outro retrato dele, guardo-o, uma vez que com isso consentis; aceito-o com muito reconhecimento, embora me pareça que meu pai foi melhor que isso, quando se achava com boa saúde."
Antes do recebimento das duas últimas cartas da senhora Patterson, o acaso quis que o senhor Hedges, hoje de Delphi, mas outrora de Natchez, e o senhor Ewing, vindo recentemente de Vicksburg (Mississipi), vissem o retrato em questão e o reconhecessem como sendo de Horace Gridley, com quem ambos tiveram relações.
Acho que esses factos têm muita significação para passarem em silêncio, e acreditei dever comunicar-lhes para serem publicados. Asseguro-vos que, escrevendo este artigo, tomei muito cuidado para que tudo nele esteja correcto.

Nota. Já conhecemos os médiuns desenhistas; além dos notáveis desenhos, dos quais demos um espécime, mas que nos retratam coisas das quais não podemos verificar a exactidão, vimos executar, sob nossos olhos, por médiuns inteiramente estranhos a essa arte, esboços muito reconhecíveis de pessoas mortas, que jamais haviam conhecido; mas daí para um retrato pintado dentro das regras, há uma distância. Essa faculdade se liga a um fenómeno muito curioso do qual somos testemunhas neste momento, e de que falaremos
proximamente.

Revista Espírita, Novembro de 1858

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