quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Da natureza divina


Da natureza divina

8. - Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Para compreendê-lo, ainda nos falta o sentido próprio, que só se adquire por
meio da completa depuração do Espírito. Mas, se não pode penetrar na
essência de Deus, o homem, desde que aceite como premissa a sua existência, pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos necessários,
porquanto, vendo o que ele absolutamente não pode ser, sem deixar de ser
Deus, deduz daí o que ele deve ser.
Sem o conhecimento dos atributos de Deus, impossível seria compreender-se a obra da criação. Esse o ponto de partida de todas as crenças religiosas e é por não se terem reportado a isso, como ao farol capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a omnipotência imaginaram muitos deuses; as que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um Deus cioso, colérico, parcial e vingativo.

9. - Deus é a suprema e soberana inteligência. É limitada a inteligência
do homem, pois que não pode fazer, nem compreender tudo o que existe. A de
Deus abrangendo o infinito, tem que ser infinita. Se a supuséssemos limitada
num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inteligente, capaz de
compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim por diante, até ao
infinito.

10. - Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse
tido princípio, houvera saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma,
coisa nenhuma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior
e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se lhe supuséssemos um começo ou
fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes dele e capaz de lhe
sobreviver, e assim por diante, ao infinito.

11. - Deus é imutável. Se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma estabilidade teriam as leis que regem o Universo.

12. - Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que chamamos matéria. De outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito ás transformações da matéria.
Deus carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem o que seria
matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o
homem, nada mais conhecendo além de si mesmo, toma a si próprio por termo
de comparação para tudo o que não compreende. São ridículas essas imagens
em que Deus é representado pela figura de um ancião de longas barbas e
envolto num manto. Têm o inconveniente de rebaixar o Ente supremo até às
mesquinhas proporções da Humanidade. Daí a lhe emprestarem as paixões
humanas e a fazerem-no um Deus colérico e cioso não vai mais que um passo.

13. - Deus é omnipotente. Se não possuísse o poder supremo, sempre se
poderia conceber uma entidade mais poderosa e assim por diante, até chegar-se ao ser cuja potencialidade nenhum outro ultrapassasse. Esse então é que
seria Deus.

14. - Deus é soberanamente justo e bom. A providencial sabedoria das
leis divinas se revela nas mais pequeninas coisas, como nas maiores, não
permitindo essa sabedoria que se duvide da sua justiça, nem da sua bondade.
O facto do ser infinita uma qualidade, exclui a possibilidade de uma qualidade contrária, porque esta a apoucaria ou anularia. Um ser infinitamente bom não poderia conter a mais insignificante parcela de malignidade, nem o ser infinitamente mau conter a mais insignificante parcela de bondade, do mesmo
modo que um objecto não pode ser de um negro absoluto, com a mais ligeira
nuance de branco, nem de um branco absoluto com a mais pequenina mancha
preta.
Deus, pois, não poderia ser simultaneamente bom e mau, porque então,
não possuindo qualquer dessas duas qualidades no grau supremo, não seria
Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e para nenhuma
haveria estabilidade. Não poderia ele, por conseguinte, deixar de ser ou
infinitamente bom ou infinitamente mau. Ora, como suas obras dão testemunho
da sua sabedoria, da sua bondade e da sua solicitude, concluir-se-á que, não
podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele necessariamente tem de ser infinitamente bom.
A soberana bondade implica a soberana justiça, porquanto, se ele
procedesse injustamente ou com parcialidade numa só circunstância que fosse, ou com relação a uma só de suas criaturas, já não seria soberanamente justo e, em consequência, já não seria soberanamente bom.

15. - Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber-se Deus sem
o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia
conceber um ser que possuísse o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa
ultrapassá-lo, faz-se mister que ele seja infinito em tudo.
Sendo infinitos, os atributos de Deus não são susceptíveis nem de
aumento, nem de diminuição, visto que do contrário não seriam infinitos e Deus
não seria perfeito. Se lhe tirassem a qualquer dos atributos a mais mínima
parcela, já não haveria Deus, pois que poderia existir um ser mais perfeito.

16. - Deus é único. A unicidade de Deus é consequência do facto de
serem infinitas as suas perfeições. Não poderia existir outro Deus, salvo sob a
condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, visto que, se houvesse
entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao
poder desse outro e, então, não seria Deus. Se houvesse entre ambos igualdade absoluta, isso equivaleria a existir, de toda eternidade, um mesmo
pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder. Confundidos assim,
quanto à identidade, não haveria, em realidade, mais que um único Deus. Se
cada um tivesse atribuições especiais, um não faria o que o outro fizesse; mas,
então, não existiria igualdade perfeita entre eles, pois que nenhum possuiria a
autoridade soberana.

17. - A ignorância do princípio de que são infinitas as perfeições de Deus
foi que gerou o politeísmo, culto adoptado por todos os povos primitivos, que
davam o atributo de divindade a todo poder que lhes parecia acima dos poderes inerentes à Humanidade. Mais tarde, a razão os levou a reunir essas diversas potências numa só. Depois, à proporção que os homens foram compreendendo a essência dos atributos divinos, retiraram dos símbolos, que haviam criado, a crença que implicava a negação desses atributos.

18. - Em resumo, Deus não pode ser Deus, senão sob a condição de que
nenhum outro o ultrapasse, porquanto o ser que o excedesse no que quer que
fosse, ainda que apenas na grossura de um cabelo, é que seria o verdadeiro
Deus. Para que tal não se dê, indispensável se torna que ele seja infinito em
tudo.
É assim que, comprovada pelas suas obras a existência de Deus, por
simples dedução lógica se chega a determinar os atributos que o caracterizam.


19. - Deus é, pois, a inteligência suprema e soberana, é único, eterno,
imutável, imaterial, omnipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as perfeições, e não pode ser diverso disso.
Tal o eixo sobre que repousa o edifício universal. Esse o farol cujos raios
se estendem por sobre o Universo inteiro, única luz capaz de guiar o homem na pesquisa da verdade. Orientando-se por essa luz, ele nunca se transviará. Se, portanto, o homem há errado tantas vezes, é unicamente por não ter seguido o roteiro que lhe estava indicado.
Tal também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas. Para apreciá-las, dispõe o homem de uma medida rigorosamente exacta nos atributos de Deus e pode afirmar a si mesmo que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que estiver em contradição com
um só que seja desses atributos, que tenda não tanto a anulá-lo, mas simplesmente a diminuí-lo, não pode estar com a verdade.
Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, só há de verdadeiro o
que não se afaste, nem um til, das qualidades essenciais da Divindade. A
religião perfeita será aquela de cujos artigos de fé nenhum esteja em oposição
àquelas qualidades; aquela cujos dogmas todos suportem a prova dessa
verificação sem nada sofrerem.

Referencia: A génese

Há muitas moradas na casa de meu pai



HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

Diferentes estados da alma na erraticidade. - Diferentes categorias de mundos habitados. - Destinação da Terra. Causas das misérias terrenas. - Instruções dos Espíritos: Mundos superiores e mundos inferiores. - Mundos de expiações e de provas. – Mundos regeneradores. - Progressão dos mundos.

1. Não se turbe o vosso coração. - Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. - Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirarei para mim, a fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais. ( S. JOÃO, Cap. XIV, vv. 1 a 3.)

Diferentes estados da alma na erraticidade

2. A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos.
Independente da diversidade dos mundos, essas palavras de Jesus também podem referir-se ao estado venturoso ou desgraçado do Espírito na erraticidade. Conforme se ache este mais ou menos depurado e desprendido dos laços materiais, variarão ao infinito o meio em que ele se encontre, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que tenha. Enquanto uns não se podem afastar da esfera onde viveram, outros se elevam e percorrem o espaço e os mundos; enquanto alguns Espíritos culpados erram nas trevas, os bem-aventurados gozam de resplendente claridade e do espectáculo sublime do Infinito; finalmente, enquanto o mau, atormentado de remorsos e pesares, muitas vezes insulado, sem consolação, separado dos que constituíam objecto de suas afeições, pena sob o guante dos sofrimentos morais, o justo, em convívio com aqueles a quem ama, frui as delícias de uma felicidade indizível. Também nisso, portanto, há muitas moradas, embora não circunscritas, nem localizadas.

Diferentes categorias de mundos habitados

3. Do ensino dado pelos Espíritos, resulta que muito diferentes umas das outras são as condições dos mundos, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes. Entre eles há-os em que estes últimos são ainda inferiores aos da Terra, física e moralmente; outros, da mesma categoria que o nosso; e outros que lhe são mais ou menos superiores a todos os respeitos. Nos mundos inferiores, a existência é toda material, reinam soberanas as paixões, sendo quase nula a vida moral. A medida que esta se desenvolve, diminui a influência da matéria, de tal maneira que, nos mundos mais adiantados, a vida é, por assim dizer, toda espiritual.

4. Nos mundos intermédios, misturam-se o bem e o mal, predominando um ou outro, segundo o grau de adiantamento da maioria dos que os habitam. Embora se não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se contudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando por base os matizes mais salientes, dividi-los, de modo geral, como segue: mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana; mundos de expiação e provas, onde domina o mal; mundos de regeneração, nos quais as almas que ainda têm o que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas da luta; mundos ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; mundos celestes ou divinos, habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem. A Terra pertence à categoria dos mundos de expiação e provas, razão por que aí vive o homem a braços com tantas misérias.

5. Os Espíritos que encarnam em um mundo não se acham a ele presos indefinidamente, nem nele atravessam todas as fases do progresso que lhes cumpre realizar, para atingir a perfeição. Quando, em um mundo, eles alcançam o grau de adiantamento que esse mundo comporta, passam para outro mais adiantado, e assim por diante, até que cheguem ao estado de puros Espíritos. São outras tantas estações, em cada uma das quais se lhes deparam elementos de progresso apropriados ao adiantamento que já conquistaram. É lhes uma recompensa ascenderem a um mundo de ordem mais elevada, como é um castigo o prolongarem a sua permanência em um mundo desgraçado, ou serem relegados para outro ainda mais infeliz do que aquele a que se vêem impedidos de voltar quando se obstinaram no mal.

Destinação da Terra. - Causas das misérias humanas

6. Muitos se admiram de que na Terra haja tanta maldade e tantas paixões grosseiras, tantas misérias e enfermidades de toda natureza, e daí concluem que a espécie humana bem triste coisa é. Provém esse juízo do acanhado ponto de vista cm que se colocam os que o emitem e que lhes dá uma falsa ideia do conjunto. Deve-se considerar que na Terra não está a Humanidade toda, mas apenas uma pequena fracção da Humanidade. Com efeito, a espécie humana abrange todos os seres dotados de razão que povoam os inúmeros orbes do Universo.
Ora, que é a população da Terra, em face da população total desses mundos? Muito menos que a de uma aldeia, em confronto com a de um grande império. A situação material e moral da Humanidade terrena nada tem que espante, desde que se leve em conta a destinação da Terra e a natureza dos que a habitam.

7. Faria dos habitantes de uma grande cidade falsíssima ideia quem os julgasse pela população dos seus quarteirões mais íntimos e sórdidos. Num hospital, ninguém vê senão doentes e estropiados; numa penitenciária, vêem-se reunidas todas as torpezas, todos os vícios; nas regiões insalubres, os habitantes, em sua maioria são pálidos, franzinos e enfermiços. Pois bem: figure-se a Terra como um subúrbio, um hospital, uma penitenciaria, um sítio malsão, e ela é simultaneamente tudo isso, e compreender-se-á por que as aflições sobrelevam aos gozos, porquanto não se mandam para o hospital os que se acham com saúde, nem para as casas de correcção os que nenhum mal praticaram; nem os hospitais e as casas de correcção se podem ter por lugares de deleite.
Ora, assim como, numa cidade, a população não se encontra toda nos hospitais ou nas prisões, também na Terra não está a Humanidade inteira. E, do mesmo modo que do hospital saem os que se curaram e da prisão os que cumpriram suas penas, o homem deixa a Terra, quando está curado de suas enfermidades morais.

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
Mundos Interiores e mundos superiores

8. A qualificação de mundos inferiores e mundos superiores nada tem de absoluta; é, antes, muito relativa. Tal inundo é inferior ou superior com referência aos que lhe estão acima ou abaixo, na escala progressiva.
Tomada a Terra por termo de comparação, pode-se fazer ideia do estado de um mundo inferior, supondo os seus habitantes na condição das raças selvagens ou das nações bárbaras que ainda entre nós se encontram, restos do estado primitivo do nosso orbe. Nos mais atrasados, são de certo modo rudimentares os seres que os habitam.
Revestem a forma humana, mas sem nenhuma beleza. Seus instintos não têm a abrandá-los qualquer sentimento de delicadeza ou de benevolência, nem as noções do justo e do injusto.
A força bruta é, entre eles, a única lei. Carentes de indústrias e de invenções, passam a vida na conquista de alimentos. Deus, entretanto, a nenhuma de suas criaturas abandona; no fundo das trevas da inteligência jaz, latente, a vaga intuição, mais ou menos desenvolvida, de um Ente supremo. Esse instinto basta para torná-los superiores uns aos outros e para lhes preparar a ascensão a uma vida mais completa, porquanto eles não são seres degradados, mas crianças que estão a crescer.
Entre os degraus inferiores e os mais elevados, inúmeros outros há, e difícil é reconhecer-se nos Espíritos puros, desmaterializados e resplandecentes de glória, os que foram esses seres primitivos, do mesmo modo que no homem adulto se custa a reconhecer o embrião.

9. Nos mundos que chegaram a um grau superior, as condições da vida moral e material são muitíssimo diversas das da vida na Terra. Como por toda parte, a forma corpórea aí é sempre a humana, mas embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo, purificada. O corpo nada tem da materialidade terrestre e não está, consequentemente, sujeito às necessidades, nem às doenças ou deteriorações que a predominância da matéria provoca. Mais apurados, os sentidos são aptos a percepções a que neste mundo a grosseria da matéria obsta. A leveza específica do corpo permite locomoção rápida e fácil: em vez de se arrastar penosamente pelo solo, desliza, a bem dizer, pela superfície, ou plana na atmosfera, sem qualquer outro esforço além do da vontade, conforme se representam os anjos, ou como os antigos imaginavam os manes nos Campos Elíseos. Os homens conservam, a seu grado, os traços de suas passadas migrações e se mostram a seus amigos tais quais estes os conheceram, porém, irradiando uma luz divina, transfigurados pelas impressões interiores, então sempre elevadas. Em lugar de semblantes descorados, abatidos pelos sofrimentos e paixões, a inteligência e a vida cintilam com o fulgor que os pintores hão figurado no nimbo ou auréola dos santos.
A pouca resistência que a matéria oferece a Espíritos já muito adiantados torna rápido o desenvolvimento dos corpos e curta ou quase nula a infância. Isenta de cuidados e angústias, a vida é proporcionalmente muito mais longa do que na Terra. Em princípio, a longevidade guarda proporção com o grau de adiantamento dos mundos. A morte de modo algum acarreta os horrores da decomposição; longe de causar pavor, é considerada uma transformação feliz, por isso que lá não existe a dúvida sobre o porvir. Durante a vida, a alma, já não tendo a constringi-la a matéria compacta, expande-se e goza de uma lucidez que a coloca em estado quase permanente de emancipação e lhe consente a livre transmissão do pensamento.

10. Nesses mundos venturosos, as relações, sempre amistosas entre os povos, jamais são perturbadas pela ambição, da parte de qualquer deles, de escravizar o seu vizinho, nem pela guerra que daí decorre. Não há senhores, nem escravos, nem privilegiados pelo nascimento; só a superioridade moral e intelectual estabelece diferença entre as condições e dá a supremacia. A autoridade merece o respeito de todos, porque somente ao mérito é conferida e se exerce sempre com justiça. O homem não procura elevar-se acima do homem, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se. Seu objectivo é galgar a categoria dos Espíritos puros, não lhe constituindo um tormento esse desejo, porem, uma ambição nobre, que o induz a estudar com ardor para os igualar. Lá, todos os sentimentos delicados e elevados da natureza humana se acham engrandecidos e purificados; desconhecem-se os ódios, os mesquinhos ciúmes, as baixas cobiças da inveja; uni laço de amor e fraternidade prende uns aos outros todos os homens, ajudando os mais fortes aos mais fracos. Possuem bens, em maior ou menor quantidade, conforme os tenham adquirido, mais ou menos por meio da inteligência; ninguém, todavia, sofre, por lhe faltar o necessário, uma vez que ninguém se acha em expiação. Numa palavra: o mal, nesses mundos, não existe.

11. No vosso, precisais do mal para sentirdes o bem; da noite, para admirardes a luz; da doença, para apreciardes a saúde. Naqueles outros não há necessidade desses contrastes. A eterna luz, a eterna beleza e a eterna serenidade da alma proporcionam uma alegria eterna, livre de ser perturbada pelas angústias da vida material, ou pelo contacto dos maus, que lá não têm acesso. Isso o que o espírito humano maior dificuldade encontra para compreender. Ele foi bastante engenhoso para pintar os tormentos do inferno, mas nunca pôde imaginar as alegrias do céu. Por quê? Porque, sendo inferior, só há experimentado dores e misérias, jamais entreviu as claridades celestes; não pode, pois, falar do que não conhece. A medida, porém, que se eleva e depura, o horizonte se lhe dilata e ele compreende o bem que está diante de si, como compreendeu o mal que lhe está atrás.

12. Entretanto, os mundos felizes não são orbes privilegiados, visto que Deus não é parcial para qualquer de seus filhos; a todos dá os mesmos direitos e as mesmas facilidades para chegarem a tais mundos. Fá-los partir todos do mesmo ponto e a nenhum dota melhor do que aos outros; a todos são acessíveis as mais altas categorias: apenas lhes cumpre a eles conquistá-las pelo seu trabalho, alcançá-las mais depressa, ou permanecer inactivos por séculos de séculos no lodaçal da Humanidade. (Resumo do ensino de todos os Espíritos superiores.)

Mundos de expiações e de provas

13. Que vos direi dos mundos de expiações que já não saibais, pois basta observeis o em que habitais? A superioridade da inteligência, em grande número dos seus habitantes, indica que a Terra não é um mundo primitivo, destinado à encarnação dos Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. As qualidades inatas que eles trazem consigo constituem a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas, também, os numerosos vícios a que se mostram propensos constituem o índice de grande imperfeição moral. Por isso os colocou [)eus num mundo ingrato, para expiarem aí suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso.

14. Entretanto, nem todos os Espíritos que encarnam na Terra vão para aí em expiação. As raças a que chamais selvagens são formadas de Espíritos que apenas saíram da infância e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso de educação, para se desenvolverem pelo contacto com Espíritos mais adiantados. Vêm depois as raças semi-civilizadas, constituídas desses mesmos os Espíritos em via de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da Terra, que aí se elevaram pouco a pouco em longos períodos seculares, algumas das quais hão podido chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos povos mais esclarecidos.
Os Espíritos em expiação, se nos podemos exprimir dessa forma, são exóticos, na Terra; já tiveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal e por se haverem constituído, em tais mundos, causa de perturbação para os bons.
Tiveram de ser degradados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí vem que os Espíritos em punição se encontram no seio das raças mais inteligentes. Por isso mesmo, para essas raças é que de mais amargor se revestem os infortúnios da vida. E que há nelas mais sensibilidade,
sendo, portanto, mais provadas pelas contrariedades e desgostos do que as raças primitivas, cujo senso moral se acha mais embotado.

15. A Terra, consequentemente, oferece um dos tipos de mundos expiatórios, cuja variedade é infinita, mas revelando todos, como carácter comum, o servirem de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos tem aí de lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza, duplo e árduo trabalho que simultaneamente desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. E assim que Deus, em sua bondade, faz que o próprio castigo redunde em proveito do progresso do Espírito. - Santo Agostinho. Paris, 1862.)

Mundos regeneradores


16. Entre as estrelas que cintilam na abóbada azul do firmamento, quantos mundos não haverá como o vosso, destinados pelo Senhor à expiação e à provação! Mas, também os há mais miseráveis e melhores, como os há de transição, que se podem denominar de regeneradores. Cada turbilhão planetário, a deslocar-se no espaço em torno de um centro comum, arrasta consigo seus mundos primitivos, de exílio, de provas, de regeneração e de felicidade. Já se vos há falado de mundos onde a alma recém-nascida é colocada, quando ainda ignorante do bem e do mal, mas com a possibilidade de caminhar para Deus, senhora de si mesma, na posse do livre-arbítrio. Já também se vos revelou de que amplas faculdades é dotada a alma para praticar o bem. Mas, ah! Há as que sucumbem, e Deus, que não as quer aniquiladas, lhes permite irem para esses mundos onde, de encarnação em encarnação, elas se depuram, regeneram e voltam dignas da glória que lhes fora destinada.

17. Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e os mundos felizes. A alma penitente encontra neles a calma e o repouso e acaba por depurar-se.
Sem dúvida, em tais mundos o homem ainda se acha sujeito às leis que regem a matéria; a Humanidade experimenta as vossas sensações e desejos, mas liberta das paixões desordenadas de que sois escravos, isenta do orgulho que impõe silêncio ao coração, da inveja que a tortura, do ódio que a sufoca. Em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita equidade preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para Ele, cumprindo-lhe as leis.
Nesses mundos, todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas a aurora da felicidade. O homem lá é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados. Ainda tem de suportar provas, porém, sem as pungentes angústias da expiação. Comparados à Terra, esses mundos são bastante ditosos e muitos dentre vós se alegrariam de habitá-los, pois que eles representam a calma após a tempestade, a convalescença após a moléstia cruel. Contudo, menos absorvido pelas coisas materiais, o homem divisa, melhor do que vós, o futuro; compreende a existência de outros gozos prometidos pelo Senhor aos que deles se mostrem dignos, quando a morte lhes houver de novo ceifado os corpos, a fim de lhes outorgar a verdadeira vida. Então, liberta, a alma pairará acima de todos os horizontes. Não mais sentidos materiais e grosseiros; somente os sentidos de um perispírito puro e celeste, a aspirar as emanações do próprio Deus, nos aromas de amor e de caridade que do seu seio emanam.

18. Mas, ah! Nesses mundos, ainda falível é o homem e o Espírito do mal não há perdido completamente o seu império. Não avançar é recuar, e, se o homem não se houver firmado bastante na senda do bem, pode recair nos mundos de expiação, onde, então, novas e mais terríveis provas o aguardam.
Contemplai, pois, à noite, à hora do repouso e da prece, a abóbada azulada e, das inúmeras esferas que brilham sobre as vossas cabeças, indagai de vós mesmos quais as que conduzem a Deus e pedi-lhe que uni mundo regenerador vos abra seu seio, após a expiação na Terra. - Santo Agostinho. (Paris, 1862.)

Progressão dos mundos

19. O progresso é lei da Natureza. A essa lei todos os seres da Criação, animados e inanimados, foram submetidos pela bondade de Deus, que quer que tudo se engrandeça e prospere. A própria destruição, que aos homens parece o termo final de todas as coisas, é apenas uni meio de se chegar, pela transformação, a um estado mais perfeito, visto que tudo morre para renascer e nada sofre o aniquilamento.
Ao mesmo tempo que todos os seres vivos progridem moralmente, progridem materialmente os mundos em que eles habitam. Quem pudesse acompanhar um mundo em suas diferentes fases, desde o instante em que se aglomeraram os primeiros átomos destinados e constituí-lo, vê-lo-ia a percorrer uma escala incessantemente progressiva, mas de degraus imperceptíveis para cada geração, e a oferecer aos seus habitantes uma morada cada vez mais agradável, à medida que eles próprios avançam na senda do progresso. Marcham assim, paralelamente, o progresso do homem, o dos animais, seus auxiliares, o dos vegetais e o da habitação, porquanto nada em a Natureza permanece estacionário. Quão grandiosa é essa ideia e digna da majestade do Criador! Quanto, ao contrário, é mesquinha e indigna do seu poder a que concentra a sua solicitude e a sua providência no imperceptível grão de areia, que é a Terra, e restringe a Humanidade aos poucos homens que a habitam!
Segundo aquela lei, este mundo esteve material e moralmente num estado inferior ao em que hoje se acha e se alçará sob esse duplo aspecto a um grau mais elevado. Ele há chegado a um dos seus períodos de transformação, em que, de orbe expiatório, mudar-se-á em planeta de regeneração, onde os homens serão ditosos, porque nele imperará a lei de Deus. - Santo Agostinho. (Paris, 1862.)

Referencia: O evangelho segundo o espiritismo

Poesia espírita


Poesia espírita - O despertar de um Espírito


NOTA. - Estes versos foram escritos, espontaneamente, por meio de uma cesta sustentada por uma jovem senhora e uma criança. Pensamos que mais de um poeta poderia honrar-se com eles. Foram-nos comunicados por um de nossos assinantes.

Quanto a Natureza é bela e quanto o ar é ameno!

Senhor! Rendo graças e te admiro, de joelhos.

Possa o hino de alegria de meu reconhecimento

Subir, como o incenso, até a tua omnipotência.

Assim, diante dos olhos de suas duas irmãs em luto,

Fizeste sair outrora Lázaro de seu sepulcro;

De Jairo desvairado, a filha bem-amada

Foi em seu leito de morte por tua voz reanimada.

Do mesmo modo, Deus poderoso! Me estendeste a mão;

Levanta-te! Tu me disseste: não o disseste em vão.

Por que não sou, ai, senão um vil montão de lama?

Gostaria de te louvar com a voz de um anjo;

Tua obra jamais me pareceu tão bela!

É àquele que sai da noite do túmulo

Que o dia parece puro, a luz brilhante,

O sol radioso e a vida embriagadora.

Então o ar é mais doce que o leite e o mel;

Cada som parece uma palavra nos concertos do céu.

A voz surda dos ventos exala uma harmonia

Que aumenta no vago e se torna infinita.

O que o Espírito concebe, o que fere os olhos,

É que se pode adivinhar no livro dos céus,

No espaço dos mares, sob as vagas profundas,

Em todos os oceanos, os abismos, os mundos,

Tudo se arredonda em esfera, e sente-se que no meio

Esses raios convergentes conduzem a Deus.

E tu, cujo olhar plana sobre as estrelas,

Que te ocultas no céu como um rei sob seus véus,

Qual é, pois, tua grandeza, se esse vasto universo

Não é senão um ponto aos seus olhos, e o espaço dos mares

Não é mesmo um espelho para teu esplendor imenso?

Qual é, pois, tua grandeza, qual é, pois, tua essência?

Que palácio tão vasto construíste, ó Rei!

Os astros não saberiam nos separar de ti.

O sol a teus pés, poder sem medida,

Parece o ônix que um príncipe amarra ao seu sapato.

O que admiro em ti, sobretudo, 6 majestade!

É bem menos tua grandeza que a imensa bondade

Que se revela em tudo, assim como a luz,

E de um ser impotente atende a prece.

JODELLE.

Referencia: Revista espírita, Dezembro de 1858

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Obsessão e Psiquiatria

Noticias de Portugal


1 – LISBOA: SORTEIO DA REVISTA ESPÍRITA NO CEPC

2 – CALDAS DA RAINHA: CONFERÊNCIA SOBRE “O CARNAVAL NA ÓPTICA ESPÍRITA”

3 – FESTIVAL DE MÚSICA ESPÍRITA
4 – PORTO: CECA ABRE INSCRIÇÕES PARA CURSO BÁSICO DE DIALOGADORES

5 – SETÚBAL: CALENDÁRIO DE PALESTRAS NA AELA

6 ACE: ESPIRITISMO EM AVEIRO



1 - LISBOA: SORTEIO DA REVISTA ESPÍRITA NO CEPC

Decorreu no passado dia 12 de Janeiro o sorteio da Revista Espírita que o CEPC - Centro Espírita Perdão e Caridade organizou em homenagem aos 150 anos da Doutrina Espírita.


Após a devida análise e selecção dos respostas ao questionário, passamos a informar:

Concorrentes aptos ao sorteio: 30Vencedor: Sr. Joaquim Macias Vilão, do Centro Espírita Eurípedes Barsanulfo, em Vila Fria.

CEPC – Centro Espírita Perdão e CaridadeRua Presidente Arriaga, 125 (ás Janelas Verdes) 1200 - 774 Lisboa(Telefone: 21/3975219)
Fonte: M Elisa Viegas



2 - CALDAS DA RAINHA: CONFERÊNCIA SOBRE “O CARNAVAL NA ÓPTICA ESPÍRITA”


Na sexta-feira, dia 1 de Fevereiro, pelas 21H00, vai decorrer uma conferência subordinada ao tema “O Carnaval na Óptica Espírita”.

Hábito social bem longínquo, o Carnaval pode ser fonte de alegria ou de desmandos para a vida. O que pensa o Espiritismo da diversão, da alegria?


O evento terá lugar na sede do Centro de Cultura Espírita, no Bairro das Morenas, em Caldas da Rainha, na Rua Francisco Ramos, nº 34, r/c. Este centro tem página na Internet em http://www.caldasrainha.net/ccee e-mail cce@caldasrainha.net


As entradas são livres e gratuitas.
Fonte: Centro de Cultura Espírita (Caldas da Rainha)



3 - FESTIVAL DE MÚSICA ESPÍRITA


Numa organização conjunta da Associação Cultural e Beneficente Mudança Interior (Vale de Cambra), da Associação Cultural Cristã Espírita (Oliveira de Azeméis) e do Centro Espírita Cristão de Fiães (Santa. Maria da Feira), vai realizar-se, no dia 27 de Setembro de 2008, um Festival de Música Espírita.


As inscrições para o evento terminam no próximo dia 31 de Maio de 2008.O Regulamento para participação neste concurso, bem como a respectiva Ficha de Inscrição, foram já enviados às Associações federadas, podendo também ser consultado em: http://www.festivalmusicaespirita.blogspot.com/


Contactos:(E-mail: fesmusesp@gmail.com )(Tel.: 256 403 021 – ACBMI - 936 437 299)


Associação Cultural e Beneficente Mudança InteriorApartado 2483731-901 VALE DE CAMBRA(Tel: 256 403 021 – E-mail: mudanca.interior@gmail.com )António Augusto Silva Tel. 256465923 - Fax 256465935


Fonte: Pinho Silva (Vale de Cambra)



4 - PORTO: CECA ABRE INSCRIÇÕES PARA CURSO BÁSICO DE DIALOGADORES


O CECA - Centro Espírita Caridade por Amor vai levar a cabo mais uma edição do “Curso Básico de Dialogadores”. O curso inicia-se a 4 de Março de 2008 e termina a 24 de Junho de 2008, tendo a duração de 4 meses. As aulas semanais decorrerão às terças-feiras, das 21H30 às 22H30.O Curso Básico de Dialogadores tem como objectivo permitir ao formando conhecer a orgânica da reunião mediúnica, com especial incidência na função do dialogador. Pretende-se formar dialogadores responsáveis e com gosto pela tarefa de orientar aqueles que se apresentem necessitados de apoio no mundo espiritual.


O curso é gratuito e está disponível para aqueles que tenham concluído, com sucesso, o “Curso Básico de Espiritismo”, o “Curso Básico de Passes”, o “Curso Básico de Atendimento Fraterno” e o “Curso Básico de Expositores” do CECA (ou similar).


Para se inscrever, contacte-nos directamente na associação ou via e-mail.

Centro Espírita Caridade por AmorRua da Picaria, 59 - 1º frente 4050-478 PortoPortugalhttp://www.ceca-porto.com/mailto:PortoPortugalwww.ceca-porto.comceca@ceca-porto.com


Fonte: Direcção do CECA



5 - SETÚBAL: CALENDÁRIO DE PALESTRAS NA AELA


A AELA - Associação Espírita Luz e Amor, de Setúbal, leva a efeito, no mês de Janeiro e Fevereiro, às segundas-feiras, pelas 21H00, um ciclo de palestras de acordo com o seguinte calendário:


Dia 28/01 – Tema: “Fórum Espírita na Internet”Dia 04/02 – Tema: “Sexo e Destino” – de André Luís (Espírito e Chico Xavier (Médium) – Divulgação de Literatura EspíritaDia 11/02 – Tema: “Parábolas de Jesus”Dia 18/02 – Tema: “Nos Domínios da Mediunidade” – de André Luís (Espírito e Chico Xavier (Médium) – Divulgação de Literatura EspíritaDia 25/02 – Tema: “Reencarnação – Justiça de Deus”


AELA Associação Espírita Luz e AmorRua dos Bombeiros de Setúbal nº 312900 - 112 SETÚBAL(Junto ao Estabelecimento Prisional de Setúbal)(E-mail aela@aela.pt - Página na Internet em http://www.aela.pt/)Contacto: AELA - 918434185 - Mª Luisa


Fonte: Mª. Luísa (Setúbal)



6 - ACE: ESPIRITISMO EM AVEIRO


A Associação Cultural Espírita, de Aveiro, leva a efeito, no próximo mês de Fevereiro, as seguintes iniciativas:


Dia 01 – sexta-feira – 21H00 – Estudo da Doutrina – Livro dos Espíritos


Dia 04 – 2ª feira

-20H00 – Atendimento fraterno

- 21H00 – Palestra – Tema: “Estrada de felicidade” – por Manuel Santos

- 22H00 – Passe- 22H15 – Atendimento espiritual


Dia 08 – sexta-feira

– 21H00 – Estudo da Doutrina – Curso de Mediunidade


Dia 11 – 2ª feira

- 20H00 – Atendimento fraterno

- 21H00 – Palestra – Tema: “Conquista da Verdade” – por Paulo Fonseca

- 22H00 – Passe

- 22H15 – Atendimento espiritual


Dia 15 – sexta-feira

– 21H00 – Estudo da Doutrina – Livro dos Espíritos


Dia 18 – 2ª feira

- 20H00 – Atendimento fraterno

- 21H00 – Palestra – Tema livre – por Manuel Santos

- 22H00 – Passe

- 22H15 – Atendimento espiritual


Dia 22 Fevereiro – sexta-feira

– 21H00 – Estudo da Doutrina – Curso de Mediunidade


Dia 25 – 2ª feira

- 20H00 – Atendimento fraterno
- 21H00 – Palestra – Tema livre – por Paulo Fonseca

- 22H00 – Passe

- 22H15 – Atendimento espiritual


Dia 29 – sexta-feira

– 21H00 – Estudo da Doutrina – Livro dos Espíritos


Associação Cultural Espírita de AveiroRua Ciudad Rodrigo, nº 12 r/c, (Bairro do Liceu)3810 – 083 AVEIRO(Tel. 96 271 4000)(E-mail: aceaveiro@mail.com e msantuz@mail.telepac.pt )


Fonte: Manuel Santos (Aveiro)


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Do papel dos médiuns nas comunicações espíritas



DO PAPEL DOS MÉDIUNS NAS COMUNICAÇÕES ESPÍRITAS

Influência do Espírito pessoal do médium. - Sistema dos médiuns inertes. -
Aptidão de certos médiuns para coisas de que nada conhecem: línguas, música, desenho. - Dissertação de um Espírito sobre o papel dos médiuns.

223. 1ª No momento em que exerce a sua faculdade, está o médium em estado perfeitamente normal?

"Está, às vezes, num estado, mais ou menos acentuado, de crise. E o que o
fadiga e é por isso que necessita de repouso. Porém, habitualmente, seu estado não difere de modo sensível do estado normal, sobretudo se se trata de médiuns escreventes."

2ª As comunicações escritas ou verbais também podem emanar do próprio
Espírito encarnado no médium?

"A alma do médium pode comunicar-se, como a de qualquer outro. Se goza de certo grau de liberdade, recobra suas qualidades de Espírito. Tendes a prova disso nas visitas que vos fazem as almas de pessoas vivas, as quais muitas vezes se comunicam convosco pela escrita, sem que as chameis. Porque, ficai sabendo, entre os Espíritos que evocais, alguns há que estão encarnados na Terra. Eles, então, vos falam como Espíritos e não como homens. Por que não se havia de dar o mesmo com o médium?"

a) Não parece que esta explicação confirma a opinião dos que entendem que todas as comunicações provêm do Espírito do médium e não de Espírito estranho?

"Os que assim pensam só erram em darem carácter absoluto à opinião que sustentam, porquanto é fora de dúvida que o Espírito do médium pode agir por si mesmo. Isso, porém, não é razão para que outros não actuem igualmente, por seu intermédio."

3ª Como distinguir se o Espírito que responde é o do médium, ou outro?

"Pela natureza das comunicações. Estuda as circunstâncias e a linguagem e distinguirás. No estado de sonambulismo, ou de êxtase, é que, principalmente, o Espírito do médium se manifesta, porque então se encontra mais livre. No estado normal é mais difícil. Aliás, há respostas que se lhe não podem atribuir de modo algum. Por isso é que
te digo: estuda e observa."
NOTA. Quando uma pessoa nos fala, distinguimos facilmente o que vem dela daquilo de que ela é apenas o eco. O mesmo se verifica com os médiuns.

4ª Desde que o Espírito do médium há podido, em existências anteriores,
adquirir conhecimentos que esqueceu debaixo do envoltório corporal, mas de que se lembra como Espírito, não poderá ele aurir nas profundezas do seu próprio eu as ideias que parecem fora do alcance da sua instrução?

"Isso acontece frequentemente, no estado de crise sonambúlica, ou extática, porém, ainda uma vez repito, há circunstâncias que não permitem dúvida. Estuda longamente e medita."

5ª As comunicações que provêm do Espírito do médium, são sempre inferiores às que possam ser dadas por outros Espíritos?

"Sempre, não; pois um Espírito, que não o do médium, pode ser de ordem inferior à deste e, então, falar menos sensatamente. E o que se vê no sonambulismo. Aí, as mais das vezes, quem se manifesta é o Espírito do sonâmbulo, o qual não raro diz coisas muito boas."

6ª O Espírito, que se comunica por um médium, transmite directamente seu pensamento, ou este tem por intermediário o Espírito encarnado no médium?

"O Espírito do médium é o intérprete, porque está ligado ao corpo que serve para falar e por ser necessária uma cadeia entre vós e os Espíritos que se comunicam, como é preciso um fio eléctrico para comunicar à grande distância uma notícia e, na extremidade do fio, uma pessoa inteligente, que a receba e transmita."

7ª O Espírito encarnado no médium exerce alguma influência sobre as comunicações que deva transmitir, provindas de outros Espíritos?

"Exerce, porquanto, se estes não lhe são simpáticos, pode ele alterar-lhes as respostas e assimilá-las às suas próprias ideias e a seus pendores; não influencia, porém, os próprios Espíritos, autores das respostas; constitui-se apenas em mau intérprete."

8ª Será essa a causa da preferência dos Espíritos por certos médiuns?

"Não há outra. Os Espíritos procuram o intérprete que mais simpatize com eles e que lhes exprima com mais exactidão os pensamentos. Não havendo entre eles simpatia, o Espírito do médium é um antagonista que oferece certa resistência e se toma, um intérprete de má qualidade e muitas vezes infiel. E o que se dá entre vós, quando a opinião de um sábio é transmitida por intermédio de um estonteado, ou de uma pessoa de má-fé."

9ª Compreende-se que seja assim, tratando-se dos médiuns intuitivos, porém, não, relativamente aos médiuns mecânicos.
"É que ainda não percebeste bem o papel que desempenha o médium. Há aí uma lei que ainda não apanhaste. Lembra-te de que, para produzir o movimento de um corpo inerte, o Espírito precisa utilizar-se de uma parcela de fluido animalizado, que toma ao médium, para animar momentaneamente a mesa, a fim de que esta lhe obedeça à vontade. Pois bem compreende igualmente que, para uma comunicação inteligente, ele precisa de um intermediário inteligente e que esse intermediário é o Espírito do médium."

a) Isto parece que não tem aplicação ao que se chama mesas falantes, visto que, quando objectos inertes, como as mesas, pranchetas e cestas dão respostas inteligentes, o Espírito do médium, ao que se nos afigura, nenhuma parte toma no facto.

"É um erro; o Espírito pode dar ao corpo inerte uma vida fictícia momentânea, mas não lhe pode dar, inteligência. Jamais um corpo inerte foi inteligente. E, pois, o Espírito do médium quem recebe, a seu mau grado, o pensamento e o transmite, sucessivamente, com o auxílio de diversos intermediários."

10ª Dessas explicações resulta, ao que parece, que o Espírito do médium nunca é completamente passivo?

"É passivo, quando não mistura suas próprias ideias com as do Espírito que se comunica, mas nunca é inteiramente nulo. Seu concurso é sempre indispensável, como o de um intermediário, embora se trate dos que chamais médiuns mecânicos."

11ª Não haverá maior garantia de independência no médium mecânico, do que no médium intuitivo?

"Sem dúvida alguma e, para certas comunicações, é preferível um médium mecânico; mas, quando se conhecem as faculdades de um médium intuitivo, torna-se indiferente, conforme as circunstâncias. Quero dizer que há comunicações que exigem menos precisão."

12ª Entre os diferentes sistemas, que se hão concebido para explicar os fenómenos espíritas, há um que proclama estar a verdadeira mediunidade num corpo completamente inerte, na cesta, ou no papelão, por exemplo, que serve de instrumento; que o Espírito manifestante se identifica com esse objecto e o toma, além de vivo, inteligente, donde o nome de médiuns inertes dado a esses objectos. Que pensais desse sistema?

"Pouco há que dizer a tal respeito e é que, se o Espírito transmitisse inteligência ao papelão, ao mesmo tempo que a vida, aquele escreveria sozinho, sem o concurso do médium. Fora singular que o homem inteligente se mudasse em máquina e que um objecto inerte se tornasse inteligente. Esse é um dos muitos sistemas oriundos de ideias preconcebidas e que caem, como tantos outros, ante a experiência e a observação."

13ª Uni fenómeno bem conhecido poderia abonar a opinião de que nos corpos inertes animados há mais do que a vida: o dás mesas, cestas, etc. que, pelos seus movimentos, exprimem a cólera, ou a afeição?

"Quando um homem agita colérico um pau, não é o pau que está presa de cólera, nem mesmo a mão que o segura, mas o pensamento que dirige a mão. As mesas e as cestas não são mais inteligentes do que o pau, nenhum sentimento inteligente apresentam; apenas obedecem a uma inteligência. Numa palavra, o Espírito não se transforma em cesta, nem nela se domicilia."

14ª Desde que não é racional atribuir-se inteligência a esses objectos, poder-se-á considerá-los como uma categoria de médiuns, dando-se-lhes o nome de médiuns inertes?

"É uma questão de palavras, que pouco nos importa, contanto que vos entendais. Sois livres de dar a um boneco o nome de homem."

15ª Os Espíritos só têm a linguagem do pensamento; não dispõem da linguagem articulada, pelo que só há para eles uma língua. Assim sendo, poderia um Espírito exprimir-se, por via mediúnica, numa língua que Jamais falou quando vivo? E, nesse caso, de onde tira as palavras de que se serve?

"Acabaste tu mesmo de responder à pergunta que formulaste, dizendo que os Espíritos só têm uma língua, que é a do pensamento. Essa língua todos a compreendem, tanto os homens como os Espíritos. O Espírito errante, quando se dirige ao Espírito encarnado do médium, não lhe fala francês, nem inglês, porém, a língua universal que é a do pensamento. Para exprimir suas ideias numa língua articulada, transmissível, toma as palavras ao vocabulário do médium."

16ª Se é assim, só na língua do médium deveria ser possível ao Espírito exprimir-se.
Entretanto, é sabido que escreve em idiomas que o médium desconhece. Não há aí uma contradição?

"Nota, primeiramente, que nem todos os médiuns são aptos a esse género de exercício e, depois, que os Espíritos só acidentalmente a ele se prestam, quando julgam que isso pode ter alguma utilidade. Para as comunicações usuais e de certa extensão, preferem servir-se de uma língua que seja familiar ao médium, porque lhes apresenta menos dificuldades materiais a vencer."

17ª A aptidão de certos médiuns para escrever numa língua que lhes é estranha não provirá da circunstância de lhes ter sido familiar essa língua em outra existência e de haverem guardado a intuição dela?

"É certo que isto se pode dar, mas não constitui regra. Com algum esforço, o Espírito pode vencer momentaneamente a resistência material que encontra. E o que acontece quando o médium escreve, na língua que lhe é própria, palavras que não conhece."

18ª Poderia uma pessoa analfabeta escrever como médium?
"Sim, mas é fácil de compreender-se que terá de vencer grande dificuldade mecânica, por faltar à mão o hábito do movimento necessário a formar letras. O mesmo sucede com os médiuns desenhistas, que não sabem desenhar."

19ª Poderia um médium, muito pouco inteligente, transmitir comunicações de ordem elevada?

"Sim, pela mesma razão por que um médium pode escrever numa língua que lhe seja desconhecida. A mediunidade propriamente dita independe da inteligência, bem como das qualidades morais.
Em falta de instrumento melhor, pode o Espírito servir-se daquele que tem à mão.
Porém, é natural que, para as comunicações de certa ordem, prefira o médium que lhe ofereça menos obstáculos materiais. Acresce outra consideração: o idiota muitas vezes só o é pela imperfeição de seus órgãos, podendo, entretanto, seu Espírito ser mais adiantado do que o julguem. Tens a prova disso em certas evocações de idiotas, mortos
ou vivos."

NOTA. Este é um facto que a experiência comprova. Por muitas vezes temos evocado idiotas vivos que hão dado patentes provas de identidade e responderam com muita sensatez e mesmo de modo superior. Esse estado é uma punição para o Espírito, que sofre com o constrangimento em que se vê. Um médium idiota pode, pois, oferecer ao Espírito que queira manifestar-se mais recursos de que se supunha. (Veja-se: Revue Spirite, Julho de 1860, artigo sobre a Frenologia e a Fisiognomia.)

20ª Donde vem a aptidão de alguns médiuns para escrever em verso?

"A poesia é uma linguagem. Eles podem escrever em verso, como podem escrever numa língua que desconheçam. Depois, é possível que tenham sido poetas em outra existência e, como já te dissemos, os conhecimentos adquiridos jamais os perde o Espírito, que tem de chegar à perfeição em todas as coisas. Nesse caso, o que eles hão sabido lhes dá uma facilidade de que não dispõem no estado ordinário."

21ª O mesmo ocorre com os que têm aptidão especial para o desenho e a música?

"Sim; o desenho e a música também são maneiras de se exprimirem os
pensamentos. Os Espíritos se servem dos instrumentos que mais facilidade lhes oferecem."

22ª A expressão do pensamento pela poesia, pelo desenho, ou pela música
depende unicamente da aptidão especial do médium, ou também da do Espírito que se comunica?

"Às vezes, do médium; às vezes, do Espírito. Os Espíritos superiores possuem todas as aptidões. Os Espíritos inferiores só dispõem de conhecimentos limitados."

23ª Por que é que um homem de extraordinário talento numa existência já não o tem na existência seguinte?

"Nem sempre assim é, pois que muitas vezes ele aperfeiçoa, numa existência, o que começou na precedente. Mas, pode acontecer que uma faculdade extraordinária dormite durante certo tempo, para deixar que outra se desenvolva. E um gérmen latente, que tornará a ser encontrado mais tarde e do qual alguns traços, ou, pelo menos, uma vaga intuição sempre permanecem."

224. O Espírito que se quer comunicar compreende, sem dúvida, todas as línguas, pois que as línguas são a expressão do pensamento e é pelo pensamento que o Espírito tem a compreensão de tudo; mas, para exprimir esse pensamento, torna-se-lhe necessário um instrumento e este é o médium. A alma do médium, que recebe a comunicação de um terceiro, não a pode transmitir, senão pelos órgãos de seu corpo.
Ora, esses órgãos não podem ter, para uma língua que o médium desconheça, a flexibilidade que apresentam para a que lhe é familiar.
Um médium, que apenas saiba o francês, poderá, acidentalmente, dar uma resposta em inglês, por exemplo, se ao Espírito apraz fazê-lo; porém, os Espíritos, que já acham muito lenta a linguagem humana, em confronto com a rapidez do pensamento, tanto assim que a abreviam quanto podem, se impacientam com a resistência mecânica que encontram; daí, nem sempre o fazerem. Essa também a razão por que um médium novato, que escreve penosa e lentamente, ainda que na sua própria língua, em geral não obtém mais do que respostas breves e sem desenvolvimento. Por isso, os Espíritos recomendam que, com um médium assim, só se lhes dirijam perguntas simples. Para as de grande alcance, faz-se mister um médium desenvolvido, que nenhuma dificuldade mecânica ofereça ao Espírito. Ninguém tomaria para seu ledor um estudante que estivesse aprendendo a soletrar. Um bom operário não gosta de servir-se de maus instrumentos.
Acrescentemos outra consideração de muita gravidade no que concerne às línguas estrangeiras. Os ensaios deste género são sempre feitos por curiosidade e por experiência. Ora, nada mais antipático aos Espíritos do que as provas a que tentem sujeitá-los. A elas jamais se prestam os Espíritos superiores, os quais se afastam, logo que se pretende entrar por esse caminho. Tanto se comprazem nas coisas úteis e sérias, quanto lhes repugna ocuparem-se com coisas fúteis e sem objectivo. E, dirão os incrédulos, para nos convencermos e esse fim é útil, porque pode granjear adeptos para a causa dos Espíritos. A isto respondem os Espíritos: "A nossa causa não precisa dos que têm orgulho bastante para se suporem indispensáveis. Chamamos a nós os que queremos e estes são quase sempre os mais pequeninos e os mais humildes. Fez Jesus os milagres que lhe pediam os escribas? E de que homens se serviu para revolucionar o mundo? Se quiserdes convencer-vos, de outros meios dispondes, que não a força; começai por submeter-vos; não é regular que o discípulo imponha sua vontade ao mestre."

Daí decorre que, salvo algumas excepções, o médium exprime o pensamento dos Espíritos pelos meios mecânicos que lhe estão à disposição e também que a expressão desse pensamento pode e deve mesmo, as mais das vezes, ressentir-se da imperfeição de tais meios. Assim, o homem inculto, o campónio, poderá dizer as mais belas coisas, expressar as mais elevadas e as mais filosóficas ideias, falando como campónio, porquanto, conforme se sabe, para os Espíritos o pensamento a tudo sobrepuja. Isto responde a certas críticas a propósito das incorrecções de estilo e de ortografia, que se imputam aos Espíritos, mas que tanto podem provir deles, como do médium. Apegar-se a tais coisas não passa de futilidade. Não é menos pueril que se atenham a reproduzir essas incorrecções com exactidão minuciosa, conforme o temos visto fazerem algumas vezes.
Lícito é, portanto, corrigi-las, sem o mínimo escrúpulo, a menos que caracterizem o Espírito que se comunica, caso em que é bom conservá-las, como prova de identidade.
Assim é, por exemplo, que temos visto um Espírito escrever constantemente Jule (sem o s), falando de seu neto, porque, quando vivo, escrevia desse modo, muito embora o neto, que lhe servia de médium, soubesse perfeitamente escrever o seu próprio nome.

225. A dissertação que se segue, dada espontaneamente por um Espírito superior, que se revelou mediante comunicações de ordem elevadíssima, resume, de modo claro e completo, a questão do papel do médium:
"Qualquer que seja a natureza dos médiuns escreventes, quer mecânicos ou
Semi-mecânicos, quer simplesmente intuitivos, não variam essencialmente os nossos processos de comunicação com eles. De facto, nós nos comunicamos com os Espíritos encarnados dos médiuns, da mesma forma que com os Espíritos propriamente ditos, tão só pela irradiação do nosso pensamento.

"Os nossos pensamentos não precisam da vestimentas da palavra, para serem compreendidos pelos Espíritos e todos os Espíritos percebem os pensamentos que lhes desejamos transmitir, sendo suficiente que lhes dirijamos esses pensamentos e isto em razão de suas faculdades intelectuais. Quer dizer que tal pensamento tais ou quais Espíritos o podem compreender, em virtude do adiantamento deles, ao passo que, para tais outros, por não despertarem nenhuma lembrança, nenhum conhecimento que lhes dormitem no fundo do coração, ou do cérebro, esses mesmos pensamentos não lhes são perceptíveis. Neste caso, o Espírito encarnado, que nos serve de médium, é mais apto a exprimir o nosso pensamento a outros encarnados, se bem não o compreenda, do que um Espírito desencarnado, mas pouco adiantado, se fôssemos forçado a servir-nos dele, porquanto o ser terreno põe seu corpo, como instrumento, à nossa disposição, o que o Espírito errante não pode fazer.
"Assim, quando encontramos em um médium o cérebro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida actual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes, obtidos em vidas anteriores, de natureza a nos facilitarem as comunicações, dele de preferência nos servimos, porque com ele o fenómeno da comunicação se nos toma muito mais fácil do que com um médium de inteligência limitada e de escassos conhecimentos anteriormente adquiridos. Vamos fazer-nos compreensíveis por meio de algumas explicações claras e precisas.

"Com um médium, cuja inteligência actual, ou anterior, se ache desenvolvida, o nosso pensamento se comunica instantaneamente de Espírito a Espírito, por uma faculdade peculiar à essência mesma do Espírito. Nesse caso, encontramos no cérebro do médium os elementos próprios a dar ao nosso pensamento a vestimenta da palavra que lhe corresponda e isto quer o médium seja intuitivo, quer semi-mecânico, ou inteiramente mecânico. Essa a razão por que, seja qual for a diversidade dos Espíritos que se comunicam com um médium, os ditados que este obtém, embora procedendo de Espíritos diferentes, trazem, quanto à forma e ao colorido, o cunho que lhe é pessoal.
Com efeito, se bem o pensamento lhe seja de todo estranho, se bem o assunto esteja fora do âmbito em que ele habitualmente se move, se bem o que nós queremos dizer não provenha dele, nem por isso deixa o médium de exercer influência, no tocante à forma, pelas qualidades e propriedades inerentes à sua individualidade. E exactamente como quando observais panoramas diversos, com lentes matizadas, verdes, brancas, ou azuis; embora os panoramas, ou objectos observados, sejam inteiramente opostos e independentes, em absoluto, uns dos outros, não deixam por isso de afectar uma tonalidade que provém das cores das lentes. Ou, melhor: comparemos os médiuns a esses bocais cheios de líquidos coloridos e transparentes, que se vêem nos mostruários dos laboratórios farmacêuticos. Pois bem, nós somos como luzes que clareiam certos panoramas morais, filosóficos e internos, através dos médiuns, azuis, verdes, ou vermelhos, de tal sorte que os nossos raios luminosos, obrigados a passar através de
vidros mais ou menos bem facetados, mais ou menos transparentes, isto é, de médiuns mais ou menos inteligentes, só chegam aos objectos que desejamos iluminar, tomando a coloração, ou, melhor, a forma de dizer própria e particular desses médiuns. Enfim, para terminar com uma última comparação: nós os Espíritos somos quais compositores de música, que hão composto, ou querem improvisar uma ária e que só têm à mão ou um piano, um violino,, uma flauta, um fagote ou uma gaita de dez centavos. E incontestável que, com o piano, o violino, ou a flauta, executaremos a nossa composição de modo muito compreensível para os ouvintes. Se bem sejam muito diferentes uns dos outros os sons produzidos pelo piano, pelo fagote ou pelo clarinete, nem por isso ela deixará de ser idêntica em qualquer desses instrumentos, abstracção feita dos matizes do som. Mas, se só tivermos à nossa disposição uma gaita de dez centavos, ai está para nós a dificuldade.
"Efectivamente, quando somos obrigados a servir-nos de médiuns pouco adiantados, muito mais longo e penoso se torna o nosso trabalho, porque nos vemos forçados a lançar mão de formas incompletas, o que é para nós uma complicação, pois somos constrangidos a decompor os nossos pensamentos e a ditar palavra por palavra, letra por letra, constituindo isso uma fadiga e um aborrecimento, assim como um entrave real à presteza e ao desenvolvimento das nossas manifestações.
"Por isso é que gostamos de achar médiuns bem adestrados, bem aparelhados, munidos de materiais prontos a serem utilizados, numa palavra: bons instrumentos, porque então o nosso perispírito, actuando sobre o daquele a quem mediunizamos, nada mais tem que fazer senão impulsionar a mão que nos serve de lapiseira, ou caneta, enquanto que, com os médiuns insuficientes, somos obrigados a um trabalho análogo ao que temos, quando nos comunicamos mediante pancadas, isto é, formando, letra por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que traduzem os pensamentos que vos queiramos transmitir.

"É por estas razões que de preferência nos dirigimos, para a divulgação do Espiritismo e para o desenvolvimento das faculdades mediúnicas escreventes, às classes cultas e instruídas, embora seja nessas classes que se encontram os indivíduos mais incrédulos, mais rebeldes e mais imorais. E que, assim como deixamos hoje, aos Espíritos galhofeiros e pouco adiantados, o exercício das comunicações tangíveis, de pancadas e transportes, assim também os homens pouco sérios preferem o espectáculo dos fenómenos que lhes afectam os olhos ou os ouvidos, aos fenómenos puramente espirituais, puramente psicológicos.

"Quando queremos transmitir ditados espontâneos, actuamos sobre o cérebro, sobre os arquivos do médium e preparamos os nossos materiais com os elementos que ele nos fornece e isto à sua revelia. E como se lhe tomássemos à bolsa as somas que ele aí possa ter e puséssemos as moedas que as formam na ordem que mais conveniente nos parecesse.
"Mas, quando o próprio médium é quem nos quer interrogar, bom é reflicta nisso seriamente, a fim de nos fazer com método as suas perguntas, facilitando-nos assim o trabalho de responder a elas. Porque, como já te dissemos em instrução anterior, o vosso cérebro está frequentemente em inextricável desordem e, não só difícil, como também penoso se nos torna mover-nos no dédalo dos vossos pensamentos. Quando seja um terceiro quem nos haja de interrogar, é bom e conveniente que a série de perguntas seja comunicada de antemão ao médium, para que este se identifique com o Espírito do evocador e dele, por assim dizer, se impregne, porque, então, nós outros teremos mais facilidade para responder, por efeito da afinidade existente entre o nosso perispírito e o do médium que nos serve de intérprete.
"Sem duvida, podemos falar de matemáticas, servindo-nos de um médium a quem estas sejam absolutamente estranhas; porém, quase sempre, o Espírito desse médium possui, em estado latente, conhecimento do assunto, isto é, conhecimento peculiar ao ser fluídico e não ao ser encarnado, por ser o seu corpo actual um instrumento rebelde, ou contrário, a esse conhecimento. O mesmo se dá com a astronomia, com a poesia, com a medicina, com as diversas línguas, assim como com todos os outros conhecimentos peculiares à espécie humana.
"Finalmente, ainda temos como meio penoso de elaboração, para ser usado com médiuns completamente estranhos ao assunto de que se trate, o da reunião das letras e das palavras, uma a uma, como em tipografia.
"Conforme acima dissemos, os Espíritos não precisam vestir seus pensamentos; eles os percebem e transmitem, reciprocamente, pelo só facto de os pensamentos existirem neles. Os seres corpóreos, ao contrário, só podem perceber os pensamentos, quando revestidos. Enquanto que a letra, a palavra, o substantivo, o verbo, a frase, em suma, vos são necessários para perceberdes, mesmo mentalmente, as ideias, nenhuma forma visível ou tangível nos é necessária a nós."

ERASTO e TIMÓTEO

NOTA. Esta análise do papel dos médiuns e dos processos pelos quais os Espíritos se comunicam é tão clara quanto lógica. Dela decorre, como princípio, que o Espírito aure, não as suas ideias, porém, os materiais de que necessita para exprimi-las, no cérebro do médium e que, quanto mais rico em materiais for esse cérebro, tanto mais fácil será a comunicação. Quando o Espírito se exprime num idioma familiar ao médium, encontra neste, inteiramente formadas, as palavras necessárias ao revestimento da ideia; se o faz numa língua estranha ao médium, não encontra neste as palavras, mas apenas as letras. Por isso é que o Espírito se vê obrigado a ditar, por assim dizer, letra a letra, tal qual como quem quisesse fazer que escrevesse alemão uma pessoa que desse idioma não conhecesse uma só palavra. Se o médium é analfabeto, nem mesmo as letras fornece ao Espírito. Preciso se torna a este conduzir-lhe a mão, como se faz a uma
criança que começa a aprender. Ainda maior dificuldade a vencer encontra aí, o Espírito.
Estes fenómenos, pois, são possíveis e há deles numerosos exemplos; compreende-se, no entanto, que semelhante maneira de proceder pouco apropriada se mostra para comunicações extensas e rápidas e que os Espíritos hão de preferir os instrumentos de manejo mais fácil, ou, como eles dizem, os médiuns bem aparelhados do ponto de vista deles.
Se os que reclamam esses fenómenos, como meio de se convencerem, estudassem previamente a teoria, haviam de saber em que condições excepcionais eles se produzem.

Referencia: O livro dos médiuns

O papel da mulher


O papel da mulher

Sendo a mulher mais finamente desenhada que o homem, indica naturalmente uma alma mais delicada; assim é que, nos meios semelhantes, em todos os mundos, a mãe será sempre mais bonita que o pai; porque é ela que a criança vê primeiro; é para a figura
angélica de uma jovem que a criança volve seus olhos sem cessar; é para a mãe que a criança seca seu pranto, apoia seus olhares, ainda fracos e incertos. A criança tem, pois, uma intuição natural do belo.

A mulher, sobretudo, sabe-se fazer notar pela delicadeza de seus pensamentos, a graça de seus gestos, a pureza de suas palavras; tudo o que vem dela deve-se harmonizar com a sua pessoa, que Deus criou bela.
Seus longos cabelos, que ondeiam sobre seu pescoço, são a imagem da doçura, e da facilidade com a qual sua cabeça se dobra sem romper sob as provas. Reflectem a luz dos sóis, como a alma da mulher deve reflectir a mais pura luz de Deus. Jovens, deixai vossos
cabelos flutuarem; Deus os criou para isso: parecereis, ao mesmo tempo, mais naturais e mais ornadas.

A mulher deve ser simples em seu vestuário; ela saiu bastante bela da mão do Criador para não ter necessidade de adornos. Que o branco e o azul se casem sobre os vossos ombros.
Deixai também flutuar vossos vestidos; que vossos vestidos sejam vistos estendendo-se atrás de vós, em um longo traço de gaze, como uma leve nuvem indicando que ainda há pouco estivestes aí. Mas que farão o enfeite, o vestuário, a beleza, os cabelos ondulantes ou flutuantes, amarrados ou apertados, se o sorriso tão doce das mães e das amantes não brilharem sobre os vossos lábios! Se os vossos olhos não semeiam a bondade, a caridade, a esperança nas lágrimas de alegria que deixam correr, nos relâmpagos que jorram desse
braseiro de amor desconhecido!

Mulheres, não temais arrebatar os homens pela vossa beleza, pela vossa graça, pela vossa superioridade; mas que os homens saibam que, para serem dignos de vós, é preciso que sejam tão grandes quantos sois belas, tão sábios quanto sois boas, tão instruídos quanto sois ingénuas e simples. E preciso que ele saibam que devem merecer-vos, que sois o preço da virtude e da honra; não dessa honra que se cobre de um capacete, e de um escudo, e brilha nas lutas e nos torneios, o pé sobre a fronte de um inimigo caído; não, mas a honra segundo Deus.
Homens, sede úteis, e quando os pobres bendizerem vosso nome, as mulheres serão vossas iguais; formareis então um todo; sereis a cabeça e as mulheres serão o coração; sereis o pensamento benfazejo, e as mulheres serão as mãos liberais. Uni-vos, pois, não só pelo amor, mas ainda pelo bem que podereis fazer a dois. Que esses bons pensamentos e essas boas acções, realizadas por dois corações amantes, sejam os anéis dessa cadeia de ouro e de diamante que se chama o casamento e, então, quando os anéis forem bastante numerosos, Deus vos chamará para junto dele, e continuareis a ajuntar, ainda, as argolas precedentes, mas na Terra as argolas eram de um metal pesado e frio, no céu serão de luz e de fogo.


Referencia: Revista Espírita, dezembro de 1858

As flores



As flores


Nota. - Esta comunicação e a seguinte foram obtidas pelo senhor F..., o mesmo do qual falamos no nosso número de Outubro, a propósito dos Obsedados e Subjugados; pode-se julgar, por aí, a diferença que há entre a natureza de suas comunicações actuais e as de outrora. Sua vontade triunfou completamente da obsessão, da qual era objecto, e seu mau Espírito não reapareceu mais. Estas duas dissertações foram-lhe ditadas por Bemard Palissy.

As flores foram criadas, nos mundos, como símbolos da beleza, da pureza e da esperança.

Como o homem que vê as corolas se entreabrirem, todas as primaveras, e as flores fenecerem para darem frutos deliciosos, como o homem não pensa que sua vida florirá também, mas para produzir frutos eternos? Que vos importa, pois, a tempestade e as tormentas? Essas flores não perecerão jamais, nem a mais frágil obra do Criador. Coragem, pois, homens que tombais no caminho, levantai-vos de novo como o lírio depois da tempestade, mais puro e mais radioso. Como as flores, os ventos vos sacodem à direita e à esquerda, os ventos vos derrubam, vos arrastam para a lama, mas quando o sol reaparece, levantais de novo, também, vossas cabeças mais nobres e maiores.

Amai, pois, as flores, elas são os emblemas de vossa vida, e não deveis corar por serdes comparados a elas. Tende-as em vossos jardins, em vossas casas, mesmos em vossos templos, elas estão por toda parte; em todos os lugares elas levam à poesia, elevam a alma
daquele que sabe compreendê-las. Não foi nas flores que Deus ostentou todas as suas magnificências?

Depois onde conheceríeis as cores suaves com as quais o Criador alegrou a natureza sem as flores? Antes que o homem tivesse escavado as entranhas da terra para encontrar os rubis e
os topázios, tinha as flores diante de si, e essa variedade infinita de nuanças já o consolava na monotonia da superfície terrestre. Amai, pois, as flores: sereis mais puros, mais amantes; talvez sereis mais crianças, mas sereis as crianças queridas de Deus, e vossas almas, simples e sem mácula, serão acessíveis a todo seu amor, a toda alegria com a qual abraça vossos corações.

As flores querem ser cuidadas por mãos esclarecidas; a inteligência é necessária para a sua prosperidade; errastes, por muito tempo sobre a Terra, em deixar esse cuidado a mãos inábeis que as mutilam, crendo embelezá-las. Nada é mais triste que as árvores redondas ou
pontiagudas de vossos jardins: pirâmides de verdura que fazem o efeito de pilha de feno.
Deixai a natureza progredir sob mil formas diversas: aí está a graça. Feliz aquele que sabe admirar a beleza de um talo que se balança semeando sua poeira fecundante! Feliz aquele que vê em suas tintas brilhantes um infinito de graça, de delicadeza, de colorido, de nuanças que se afastam e se procuram, se perdem e se reencontram! Feliz aquele que sabe compreender a beleza da gradação dos tons, desde a raiz castanha escura que se casa com a terra, como as cores se fundem, desde o vermelho-escarlate da tulipa e da papoila! (Por que esses nomes rudes e bizarros?) Estudai tudo isso, e notai as folhas que saem, umas das outras, como gerações infinitas até o seu desabrochamento completo sob a cúpula do céu.


As flores não parecem deixar a terra para se lançarem até os outros mundos? Não parecem, frequentemente, baixar a cabeça de dor por não poderem se elevar mais alto ainda? Não as credes, em sua beleza, mais perto de Deus? Imitai-as, pois, e tornai-vos sempre maiores, mais e mais belos.
Vossa maneira de aprender a botânica é também defeituosa; não é tudo saber o nome de uma planta. Convidar-te-ei, quando tiveres tempo, a trabalhar também numa obra desse género. Remeto, pois, para mais tarde as lições que queria dar-te nestes dias; serão mais
úteis quando tiverdes a aplicação sob a mão. Aí falaremos do género de cultura, dos lugares que lhes convém, da arrumação do edifício para o arejamento e a salubridade das habitações.
Se fores imprimir isso, passa os últimos parágrafos; seriam tomados por anúncios.

Referencia: Revista Espírita, Dezembro de 1858

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Intervenção dos demonios nas modernas manifestações


INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MODERNAS MANIFESTAÇÕES

1. - Os modernos fenómenos do Espiritismo têm atraído a atenção sobre factos análogos de todos os tempos, e nunca a História foi tão compulsada neste sentido como ultimamente. Pela semelhança dos efeitos, inferiu-se a unidade da causa. Como sempre acontece relativamente a factos extraordinários que o senso comum desconhece, o vulgo viu nos fenómenos espíritas uma causa sobrenatural, e a superstição completou o erro ajuntando-lhes absurdas crendices. Provém dai uma multidão de lendas que, pela maior parte, são um amálgama de poucas verdades e muitas mentiras.

2. - As doutrinas sobre o demónio, prevalecendo por tanto tempo, haviam de tal maneira exagerado o seu poder, que fizeram, por assim dizer, esquecer Deus; por toda parte surgia o dedo de Satanás, bastando para tanto que o facto observado ultrapassasse os limites do poder humano. Até as coisas melhores, as descobertas mais úteis, sobretudo as que podiam abalar a ignorância e alargar o circulo das ideias -foram tidas muita vez por obras diabólicas. Os fenómenos espíritas de nossos dias, mais generalizados e mais bem observados à luz da razão e com o auxilio da Ciência, confirmaram, é certo, a intervenção de inteligências ocultas, porém agindo dentro de leis naturais e revelando por sua acção uma nova força e leis até então desconhecidas.
A questão reduz-se, portanto, a saber de que ordem são essas inteligências.
Enquanto se não possuía do mundo espiritual noções mais que incertas e sistemáticas, a verdade podia ser desviada; mas hoje que observações rigorosas e estudos experimentais esclareceram a natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como o seu modo de acção e papel no Universo - hoje, dizemos, a questão se resolve por factos. Sabemos, agora, que essas inteligências ocultas são as almas dos que viveram na Terra. Sabemos também que as diversas categorias de bons e maus Espíritos não são seres de espécies diferentes, porém que apenas representam graus diversos de adiantamento. Segundo a posição que ocupam em virtude do desenvolvimento intelectual e moral, os seres que se manifestam apresentam os mais fundos contrastes, sem que por isso possamos supor não tenham saído todos da grande família humana, do mesmo modo que o selvagem, o bárbaro e o homem civilizado.

3. - Sobre este ponto, como sobre muitos outros, a Igreja mantém as velhas crenças a respeito dos demónios. Diz ela: "Há princípios que não variam há dezoito séculos, porque são imutáveis." O seu erro é precisamente esse de não levar em conta o progresso das ideias; é supor Deus insuficientemente sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento das inteligências; é, em suma, falar aos contemporâneos a mesma linguagem do passado. Ora, progredindo a Humanidade enquanto a Igreja se abroquela em velhos erros sistematicamente, tanto em matéria espiritual como na científica, cedo virá a incredulidade, avassalando a própria Igreja.

4. - Eis como esta explica a intervenção exclusiva dos demónios nas manifestações espíritas: (1)
__________
(1) As citações deste capítulo são extraídas da mesma pastoral indicada no precedente, e da qual são corolários. É a mesma fonte e, por conseguinte, a mesma autoridade.
"Nas suas intervenções exteriores os demónios procuram dissimular a sua presença, a fim de afastar suspeitas. Sempre astutos e pérfidos, seduzem o homem com ciladas antes de algemá-lo na opressão e no servilismo.
"Aqui lhe aguçam a curiosidade com fenómenos e partidas pueris; além, despertam-lhe a admiração e subjugam-no pelo encanto do maravilhoso.
"Se o sobrenatural aparece e os desmascara, então, acalmam-se, extinguem quaisquer apreensões, solicitam confiança e provocam familiaridade.
"Ora se apresentam como divindades e bons génios, ora assimilam nomes e mesmo traços de mortos que deixaram uma memória. Com o auxílio de tais fraudes dignas da antiga serpente, falam e são ouvidos; dogmatizam e são acreditados; misturam com suas
mentiras algumas verdades e inculcam o erro debaixo de todas as formas. Eis o que significam as pretensas revelações de além-túmulo. E é para tal resultado que a madeira e a pedra, as florestas e as fontes, o santuário dos ídolos e os pés das mesas e as mãos das crianças se tornam oráculos: é por isso que a pitonisa profetiza em delírio; que o ignorante se torna cientista num sono misterioso. Enganar e perverter, tal é, em toda parte e de todos os tempos, o supremo objectivo dessas manifestações.
"Os resultados surpreendentes dessas práticas ou actos ordinariamente fantásticos e ridículos, não podendo provir da sua virtude intrínseca, nem da ordem estabelecida por Deus, só podem ser atribuídos ao concurso das potências ocultas.
Tais são, notadamente, os fenómenos extraordinários obtidos em nossos dias pelos processos aparentemente inofensivos do magnetismo, como os das mesas falantes.
Por meio das operações da moderna magia, vemos reproduzirem-se no presente as evocações, as consultas, as curas e sortilégios que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas. Como outrora, interroga-se a madeira e esta responde; manda-se e ela obedece; isto em todas as línguas e sobre todos os assuntos; acha-se a gente em presença de seres invisíveis a usurparem nomes de mortos, e cujas pretensas revelações têm o cunho da contradição e da mentira; formas inconsistentes e leves aparecem rápidas e repentinas, patenteando-se dotadas de força sobre-humana.
"Quais são os agentes secretos desses fenómenos, os verdadeiros actores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos, esses não aceitariam tais papéis indignos, como também não se prestariam a todos os caprichos da curiosidade.
"As almas dos mortos, que Deus proíbe evocar, essas demoram no lugar que lhes designa a sua justiça, e não podem, sem sua permissão, colocar-se às ordens dos vivos. Assim, os seres misteriosos que acodem ao primeiro apelo do herege, do ímpio ou do crente - o que importa dizer da inocência ou do crime - não são nem enviados de Deus, nem apóstolos da verdade e da salvação, porém factores do erro e agentes do inferno. Apesar do cuidado com que se ocultam sob os mais veneráveis nomes, eles traem-se pela nulidade das suas doutrinas, pela baixeza dos actos e incoerência das palavras.

"Procuram apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado original, da ressurreição do corpo, da eternidade das penas, como de toda a revelação divina, para subtrair às leis a sua verdadeira sanção e abrir ao vício todas as barreiras. Se as suas sugestões pudessem prevalecer, acabariam por formar uma religião cómoda para uso do socialismo e de todos a quem importuna a noção do dever e da consciência.
"A incredulidade do nosso século facilitou-lhes o caminho. Assim possam as sociedades cristãs, por uma sincera dedicação à fé católica, escapar ao perigo desta nova e terrível invasão!"

5. - Toda esta teoria deriva do princípio de que os anjos e os demónios são seres distintos das almas humanas, sendo estas antes o produto de uma criação especial, aliás inferiores aos demónios em inteligência, em conhecimento e em toda espécie de faculdade. E é assim que opina pela exclusiva intervenção dos maus anjos, nas antigas como nas modernas manifestações dos Espíritos.
A possibilidade da comunicação dos mortos é uma questão de facto, é o resultado de observações e experiências que não vêm ao caso discutir aqui.
Admitamos, porém, como hipótese, a doutrina acima citada, e vejamos se ela se não destrói por si mesma com os seus próprios argumentos.

6. - Das três categorias de anjos segundo a Igreja, a primeira ocupa-se exclusivamente do céu; a segunda do governo do Universo, e a terceira, da Terra. É nesta última que se encontram os anjos de guarda encarregados da protecção de cada indivíduo. Somente uma parte dos anjos, desta última categoria, é que compartilhou da revolta e foi transformada em demónios. Ora, desde que Deus lhes permitira com tanta liberdade, já por sugestões ocultas, já por ostensivas manifestações, induzir os homens em erro, e porque esse Deus é soberanamente justo e bom, devia ao menos, para atenuar os males de tão odiosa concessão, permitir também a manifestação dos bons anjos. Ao menos, assim, os homens teriam a liberdade e o recurso da escolha.
Dar, porém, aos anjos maus o monopólio da tentação, com poderes amplos de simular o bem para melhor seduzir; e vedando ao mesmo tempo toda e qualquer intervenção dos bons, é atribuir a Deus o intuito inconcebível de agravar a fraqueza, a inexperiência e a boa-fé dos homens.
É mais ainda: é supor da parte de Deus um abuso de confiança, pela fé que nos merece. A razão recusa admitir tanta parcialidade em proveito do mal. Vejamos os factos.

7. - Aos demónios concedem-se faculdades transcendentes: nada perderam da natureza angélica; possuem o saber, a perspicácia, a previdência e a penetração dos anjos, tendo ainda, a mais, astúcia, ardil e artifício, tudo em grau mais elevado. O objectivo que os move é desviar os homens do bem, afastá-los de Deus e arrastá- los ao inferno, do qual são provedores e recrutadores. Assim, compreende-se que se dirijam de preferência aos que estão no bom caminho e nele persistem; compreendesse o emprego das seduções e simulacros do bem para atraí-los e perdê-los; mas o que se não compreende é que se dirijam aos que já lhes pertencem de corpo e alma, procurando reconduzi-los a Deus e ao bem.
Quem mais estará nas garras do demónio do que aquele que de Deus blasfema, atido ao vício e à desordem das paixões? Esse não estará no caminho do inferno? Mas então como compreender que a uma tal presa esse demónio exorte a rogar a Deus, a submeter-se à sua vontade, a renunciar ao mal?
Como se compreende que exalte aos seus olhos a vida deliciosa dos bons Espíritos e lhe pinte a horrorosa posição dos maus? Jamais se viu negociante realçar aos seus fregueses a mercadoria do vizinho em detrimento da sua, aconselhando-os a ir à casa dele. Nunca se viu um arrebanhador de soldados depreciar a vida militar, decantando o repouso da vida doméstica! Poderá ele dizer aos recrutas que terão vida de trabalhos e privações com dez probabilidades contra uma de morrerem ou, pelo menos, de ficarem sem braços nem pernas? É este, no entanto, o papel estúpido do demónio, pois é notório - e é um facto - que as instruções emanadas do mundo invisível têm regenerado incrédulos e ateus, insuflando-lhes na alma fervor e crenças nunca havidos.
Ainda por influência dessas manifestações têm-se visto - e vêem-se diariamente - regenerarem-se viciosos contumazes, procurando melhorarem-se a si mesmos. Ora, atribuir ao demónio tão benéfica propaganda e salutar resultado, é conferir-lhe diploma de tolo.
E como não se trata de simples suposição, mas de facto experimental contra o qual não há argumento, havemos de concluir, ou que o demónio é um desasado de primeira ordem, ou que não é tão astuto e mau como se pretende, e, consequentemente, tão temível quanto dizem; ou, então, que todas as manifestações não partem dele.

8. - "Eles inculcam o erro sob todas as formas, e é para obter esse resultado que a madeira, a pedra, as florestas, as fontes, os santuários dos ídolos, os pés das mesas e as mãos dos meninos se tornam oráculos."
Mas, se assim é, qual o sentido e valor destas palavras do Evangelho: - "Eu repartirei meu Espírito por toda a carne: - vossos filhos e filhas profetizarão; os jovens terão visões e os velhos terão sonhos. Nesses dias repartirei meu Espírito por todos os meus servidores e servidoras, e eles profetizarão." (Atos dos Apóstolos, Cap. II, vv. 17 e 18.)
Não estará nessas palavras a predição tácita da mediunidade dos nossos dias a todos concedida, mesmo às crianças? E essa faculdade foi anatematizada pelos apóstolos? Não; eles a apregoam como graça divina e não como obra do demónio.
Terão os teólogos de hoje mais autoridade que os apóstolos? Por que não ver antes o dedo de Deus na realização daquelas palavras?

9. - "Por meio das operações da moderna magia vemos reproduzirem-se no presente as evocações, as consultas, as curas e os sortilégios que ilustraram os
templos dos ídolos e os antros das sibilas."
Nós perguntamos: que há de comum entre as operações da magia e as evocações espíritas?
Houve tempo em que tais operações faziam fé e acreditava-se na sua eficácia, mas hoje são simplesmente ridículas. Ninguém as toma a sério, e o Espiritismo condena-as. Na época em que florescera a magia, era imperfeita a noção sobre a natureza dos Espíritos, geralmente havidos por seres dotados de poder sobre-humano.
A troco da própria alma, ninguém os evocava que não fosse para obter favores da sorte e da fortuna, achar tesouros, revelar o futuro ou obter filtros. A magia com seus sinais, fórmulas e práticas cabalísticas era suposta fornecer segredos para operar prodígios, constranger Espíritos a ficarem às ordens dos homens e satisfazerem-lhes os desejos. Hoje sabemos que os Espíritos são as almas dos mortos e não os evocamos senão para receber conselhos dos bons, moralizar os maus e continuar relações com seres que nos são caros. Eis o que diz o Espiritismo a tal respeito:

10. Não podereis obrigar nunca a presença de um Espírito vosso igual ou superior em moralidade, por vos faltar autoridade sobre ele; mas, do vosso inferior, e sendo para seu beneficio, consegui-lo-eis, visto como outros Espíritos vos secundam.
(O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)

- A mais essencial de todas as disposições para evocar é o recolhimento, quando desejarmos tratar com Espíritos sérios. Com a fé e o desejo do bem, mais aptos nos tornamos para evocar Espíritos superiores. Elevando nossa alma por alguns instantes de concentração no momento de evocá-los, identificamo-nos com os bons Espíritos, predispondo a sua vinda. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)

- Nenhum objecto, medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou repelir Espíritos, pois a matéria acção alguma exerce sobre eles. Nunca um bom Espírito aconselha tais absurdos. A virtude dos talismãs só pode existir na imaginação de pessoas simplórias. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, cap. XXV.)

- Não há fórmulas sacramentais para evocar Espíritos. Quem quer que pretendesse estabelecer uma fórmula, poderia ser tachado de usar de charlatanismo, visto que para os Espíritos puros a fórmula nada vale. A evocação deve, porém, ser feita sempre em nome de Deus. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XVII.)

- Os Espíritos que prefixam entrevistas em lugares lúgubres, e a horas indevidas, são os que se divertem a custa de quem os ouve. É sempre inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões; inútil, porque nada se ganha além de uma mistificação, e perigoso, não pelo mal que possam fazer os Espíritos, mas pela influência que tais factos podem exercer sobre cérebros fracos. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)

- Não há dias nem horas mais especialmente propícios às evocações: isso, como tudo que é material, é completamente indiferente aos Espíritos, além de ser supersticiosa a crença em tais influências. Os momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador pode abstrair-se melhor das suas preocupações habituais, calmo de corpo e de espírito. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)

- A crítica malévola apraz-se em representar as comunicações espíritas revestidas das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da necromancia.
Entretanto, se os que falam do Espiritismo, sem conhecê-lo, procurassem estudá-lo, poupariam trabalhos de imaginação e alegações que só servem para demonstrar a sua ignorância e má-vontade.
Para conhecimento das pessoas estranhas à ciência, diremos que não há horas mais propícias, umas que outras, como não há dias nem lugares, para comunicar com os Espíritos. Diremos mais: que não há fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas para evocá-los; que não há necessidade alguma de preparo ou iniciação; que é nulo o emprego de quaisquer sinais ou objectos materiais para atraí-los ou repeli-los, bastando para tanto o pensamento; e, finalmente, que os médiuns recebem deles as comunicações sem sair do estado normal, tão simples e naturalmente como se tais comunicações fossem ditadas por uma pessoa vivente. Só o charlatanismo poderia emprestar às comunicações formas excêntricas, enxertando-lhes ridículos acessórios. (O que é o Espiritismo, cap. II, nº 49.)

- O futuro é vedado ao homem por princípio, e só em casos raríssimos e excepcionais é que Deus faculta a sua revelação. Se o homem conhecesse o futuro, por certo que negligenciaria o presente e não agiria com a mesma liberdade.
Absorvidos pela ideia da fatalidade de um acontecimento, ou procuramos conjurá-lo ou não nos preocupamos dele. Deus não permitiu que assim fosse, a fim de que cada qual concorresse para a realização dos acontecimentos mesmos, que porventura desejaria evitar. Ele permite, no entanto, a revelação do futuro, quando o conhecimento prévio de uma coisa não estorva, mas facilita a sua realização, induzindo a procedimento diverso do que se teria sem tal circunstância. (O Livro dos Espíritos, Parte 3ª, cap. X.)

- Os Espíritos não podem guiar descobertas nem investigações científicas. A Ciência é obra do génio e só deve ser adquirida pelo trabalho, pois é por este que o homem progride. Que mérito teríamos nós se, para tudo saber, apenas bastasse interrogar os Espíritos? Por esse preço, todo imbecil poderia tornar-se sábio. O mesmo se dá relativamente aos inventos e descobertas da indústria. Chegado que seja o tempo de uma descoberta, os Espíritos encarregados da sua marcha procuram o homem capaz de levá-la a bom termo e inspiram-lhe as ideias necessárias, isto de molde a não lhe tirar o respectivo mérito, que está na elaboração e execução dessas ideias. Assim tem sido com todos os grandes trabalhos da inteligência humana. Os
Espíritos deixam cada indivíduo na sua esfera: do homem apenas apto para lavrar a terra não fazem depositários dos segredos de Deus, mas sabem arrancar da obscuridade aquele que se mostra capaz de secundar-lhes os desígnios. Não vos deixeis, por conseguinte, dominar pela ambição e pela curiosidade, em terreno alheio ao do Espiritismo, que tais fitos não tem, pois com eles só conseguireis as mais ridículas mistificações. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXVI.)

- Os Espíritos não podem concorrer para a descoberta de tesouros ocultos. Os superiores não se ocupam de tais coisas e só os zombeteiros podem entreter-se com elas, já indicando tesouros que o mais das vezes não existem, já apontando sítios diametralmente opostos àqueles em que realmente existem. Esta circunstância tem, contudo, uma utilidade, qual a de mostrar que a verdadeira fortuna reside no trabalho. Quando a Providência tem destinado a alguém quaisquer
riquezas ocultas, esse alguém as encontrará naturalmente; do contrário não, nunca. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXVI.)

- Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos - agentes e meios de acção do mundo invisível constituindo uma das forças e potências da Natureza o Espiritismo nos dá a chave de inúmeros factos e coisas inexplicadas e inexplicáveis de outro modo, factos e coisas que passaram por prodígios, em outras eras. Do mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, senão desconhecida, pelo menos incompreendida, ou então, para melhor dizer, efeitos de todos os tempos conhecidos, pois que de todos os tempos se produziram, mas cuja lei se ignorava e de cuja
ignorância brotava a superstição. Conhecida essa lei, desaparece o maravilhoso e os fenómenos entram para a ordem das coisas naturais. Eis por que os Espíritos não produzem milagres, fazendo girar as mesas ou escrever os mortos, como milagre não faz o médico em restituir à vida o moribundo, e o físico provocando a queda do raio.
Quem pretendesse fazer milagres pelo Espiritismo não passaria de ignorante, ou então de mero prestidigitador. (O Livro dos Médiuns, 1ª Parte, Cap. II.)
Pessoas há que fazem das evocações uma ideia muito falsa: há mesmo quem acredite que os mortos evocados se apresentam com todo o aparelho lúgubre do túmulo. Tais suposições podem ser atribuídas ao que vemos nos teatros ou lemos nos romances e contos fantásticos, onde os mortos aparecem amortalhados com o chocalhar dos ossos.
O Espiritismo, que nunca fez milagres, também não faz esse, pois que jamais fez reviver um corpo morto. O Espírito, fluídico, inteligente, esse não baixa à campa com o grosseiro invólucro, que lá fica definitivamente. Separa-se dele no momento da morte, e nada mais têm de comum entre si. (O que é o Espiritismo, Cap. II, n.º 48.)

11 - Ampliamos estas citações para mostrar que os princípios do Espiritismo não têm relação alguma com os da magia. Assim, nem Espíritos às ordens dos homens; nem meios de os constranger; nem sinais ou fórmulas cabalísticas; nem descobertas de tesouros; nem processos para enriquecer, e tampouco milagres ou prodígios, adivinhações e aparições fantásticas: nada, enfim, do que constitui o fim e os elementos essenciais da magia. O Espiritismo não só reprova tais coisas como demonstra a impossibilidade e ineficácia delas. Não há, afirmamo-lo ainda uma vez, analogia alguma entre os processos e fins da magia e os do Espiritismo; só a ignorância e a má-fé poderão confundi-los. Dessa forma, tal erro não pode prevalecer, uma vez que os princípios espíritas não se furtam ao exame, e aí estão formulados inequívoca e claramente para todos.
Quanto às curas, reconhecidas como reais na pastoral pré-citada, o exemplo está mal seleccionado como meio de evitar relações com os Espíritos. Efectivamente, essas curas são outros tantos benefícios que levam à gratidão e que todos podem experimentar. Pouca gente estará disposta a renunciar a elas, mormente depois de haver esgotado outros recursos antes de recorrer ao diabo. Depois, se o diabo cura, força é confessar que faz uma boa e meritória acção. (1)

12. - "Quais são os agentes secretos de tais fenómenos, os verdadeiros autores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos, esses não aceitariam papéis indignos, como também não se prestariam aos caprichos todos da curiosidade."
O autor quer falar das manifestações físicas dos Espíritos, no número das quais algumas há evidentemente pouco dignas de Espíritos superiores. Nós lhe pediremos, contudo, que substitua o vocábulo anjo pelo de espíritos puros ou espíritos superiores, pois que assim teremos exactamente o que diz o Espiritismo. Indignas, porém, dos bons Espíritos, não se pode considerar uma multidão de comunicações dadas pela escrita, pela palavra, pela audição, etc., pois que tais comunicações seriam e são dignas dos homens mais eminentes da Terra. O mesmo poderemos dizer quanto às curas, aparições e um sem-número de factos que os livros santos citam em profusão como obra de anjos ou de santos. Se, pois, os anjos e os santos produziram outrora fenómenos semelhantes, por que não os produzirão hoje? Por que serem idênticos factos julgados bruxaria nas mãos de uns, enquanto nas mãos de outros se reputam santos milagres?
Sustentar semelhante tese é abdicar toda a lógica.
O autor da Pastoral labora em erro quando afirma que tais fenómenos são inexplicáveis. O que se dá é justamente o contrário, isto é, hoje esses fenómenos são perfeitamente explicados, tanto que se não consideram mais como maravilhosos e sobrenaturais. Dado, porém, de barato que assim não fora, tão lógico seria atribuí-los ao diabo, quanto era lógico noutros tempos dar a este as honras de todos os fenómenos naturais, cuja causa então se desconhecia.
Por papéis indignos devemos entender os que visam o mal e o ridículo, a menos que queiramos qualificar de tal a obra salutar dos bons Espíritos, que promovem o bem, encaminhando os homens para Deus, pela virtude.
Ora, o Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não cabem aos Espíritos superiores, como se infere dos seguintes preceitos:

(1) Querendo persuadir as pessoas curadas pelo Espiritismo que o foram pelo diabo, grande numero delas se há separado da Igreja, sem que jamais pensassem fazê-lo.


13. - A categoria do Espírito se reconhece por sua linguagem: os verdadeiramente bons e superiores têm-na sempre digna, nobre, lógica, imune de qualquer contradição; respiram sabedoria, modéstia, benevolência e a mais pura moral.
Além disso é concisa, clara, sem redundâncias inúteis. Os Espíritos inferiores, ignorantes ou orgulhosos, é que suprem a vacuidade das ideias com abundância de frases. Todo pensamento implicitamente falso, toda máxima contrária à sã moral, todo conselho ridículo, toda expressão grosseira, trivial ou simplesmente frívola, qualquer sinal de malevolência, de presunção ou de arrogância, são indícios incontestáveis da inferioridade de um Espírito.

- Os Espíritos superiores só se ocupam de comunicações inteligentes, visando
instruir-nos.
As manifestações físicas ou puramente materiais competem aos Espíritos inferiores, vulgarmente designados por Espíritos batedores, pela mesma razão por que entre nós os torneios de força e agilidade são próprios de saltimbancos e não de sábios. Absurdo seria supor que um Espírito, por pouco elevado que sela, goste do alarde e do reclamo. (O que é o Espiritismo, Cap. II, ns. 37, 38, 39, 40 e 60.
Vede também O Livro dos Espíritos, Parte 2ª, Cap. I - Diferentes ordens de Espíritos; Escala espírita, e O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXIV - Identidade dos Espíritos; Distinção dos bons e maus Espíritos.)
Qual é o homem de boa-fé que pode lobrigar nestes preceitos atribuições incompatíveis com Espíritos elevados? Não, o Espiritismo não confunde os Espíritos, antes, pelo contrário, distingue-os. A Igreja, sim, atribui aos demónios uma inteligência igual à dos anjos, ao passo que o Espiritismo afirma e confirma, baseado na observação dos factos, que os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes, tendo muito limitados o seu horizonte moral e perspicácia, de feição a terem das coisas uma ideia muita vez falsa e incompleta, incapazes de resolver certas questões e,
consequentemente, de fazer tudo quanto se atribui aos demónios.

14. - "As almas dos mortos, que Deus proíbe evocar, essas demoram no lugar que lhes designa a sua justiça, e não podem, sem sua permissão, colocar-se à
disposição dos vivos."
O Espiritismo vai além, é mais rigoroso: não admite manifestação de quaisquer Espíritos, bons ou maus, sem a permissão de Deus, ao passo que a Igreja de tal não cogita relativamente aos demónios, os quais, segundo a sua teoria, se dispensam de tal permissão.
O Espiritismo diz mais que, mediante tal permissão e correspondendo ao apelo dos vivos, os Espíritos não se põem à disposição destes.
O Espírito evocado vem voluntariamente, ou é constrangido a manifestar-se?
Obedecendo à vontade de Deus, isto é, à lei que rege o Universo, ele julga da utilidade ou inutilidade da sua manifestação, o que constitui uma prerrogativa do seu livre arbítrio.
O Espírito superior não deixa de vir sempre que é evocado para um fim útil, só se recusando a responder quando em reunião de pessoas pouco sérias que levem a coisa em ar de gracejo. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)

- Pode o Espírito evocado recusar-se a vir pela evocação que lhe fazem?
Perfeitamente, visto como tem o seu livre-arbítrio. Podeis acaso acreditar que todos os seres do Universo estejam à vossa disposição? E vós mesmos vos julgais obrigados a responder a todos quantos pronunciam o vosso nome? Mas quando digo que o Espírito pode recusar-se, subordino essa negativa ao pedido do evocador, por isso que um Espírito inferior pode ser constrangido por um superior a manifestar-se. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XXV.)
Tanto os espíritas estão convencidos de que nada podem sobre os Espíritos directamente, sem a permissão de Deus, que dizem, quando evocam: "Rogamos a Deus todo-poderoso permitir que um bom Espírito se comunique connosco, bem como aos nossos anjos de guarda assistir-nos e afastarem os maus Espíritos." E em se tratando de evocação de um Espírito determinado: - "Rogamos a Deus todo-poderoso permitir que tal Espírito se comunique connosco", etc. (O Livro dos Médiuns, 2ª Parte, Cap. XVII, n° 203.)

15. - As acusações formuladas pela Igreja, contra as evocações, não atingem, portanto, o Espiritismo, porém as práticas da magia, com a qual este nada tem de comum. O Espiritismo condena tanto quanto a Igreja as referidas práticas, ao mesmo tempo que não confere aos Espíritos superiores um papel indigno deles, nem algo pergunta ou pretende obter sem a permissão de Deus.
Certo, pode haver quem abuse das evocações, quem delas faça um jogo, quem lhes desnature o carácter providencial em proveito de interesses pessoais, ou ainda quem por ignorância, leviandade, orgulho ou ambição se afaste dos verdadeiros princípios da Doutrina; o verdadeiro Espiritismo, o Espiritismo sério os condena porém, tanto quanto a verdadeira religião condena os crentes hipócritas e os fanáticos.
Portanto, não é lógico nem razoável imputar ao Espiritismo abusos que ele é o primeiro a condenar, e os erros daqueles que o não compreendem. Antes de formular qualquer acusação, convém saber se é justa. Assim, diremos: A censura da Igreja recai nos charlatães, nos especuladores, nos praticantes de magia e sortilégio, e com razão.
Quando a crítica religiosa ou céptica, dissecando abusos, estigmatiza o charlatanismo, não faz mais que realçar a pureza da sã doutrina, auxiliando-a no expurgo de maus elementos e facilitando-nos a tarefa. O erro da critica está no confundir o bom e o mau, o que muitas vezes sucede pela má-fé de alguns e pela ignorância do maior número.
Mas a distinção que uma tal crítica não faz, outros a fazem. Finalmente, a censura aplicada ao mal e à qual todo espírita sincero e recto se associa, essa nem prejudica nem afecta a Doutrina.

16. - "Assim, os seres misteriosos que acodem ao primeiro apelo do herege, do ímpio ou do crente - o que importa dizer: - da inocência ou do crime - não são nem enviados de Deus, nem apóstolos da verdade e da salvação, mas factores do erro e agentes do inferno."
Estas palavras persuadem que Deus não permite a manifestação de bons Espíritos que possam esclarecer e salvar da eterna perdição o herege, o ímpio e o criminoso! Somente os propostos do inferno se lhes envia, para mais mergulhá-los no lodaçal. Pesa dizê-lo, mas, segundo a Igreja, Deus não envia à Inocência senão seres perversos para seduzi-la!
Essa Igreja não admite entre os anjos, entre as criaturas privilegiadas de Deus, um ser bastante compassivo que venha em socorro das almas transviadas! Para que servem, pois, as brilhantes qualidades que exornam tais seres? Acaso e tão-somente para seu gozo pessoal? E serão eles realmente bons, quando, extasiados pelas delícias da contemplação, vêem tantas almas no caminho do inferno sem que procurem desviá-las? Mas isso é precisamente a imagem do egoísmo desses potentados que, impiedosos na farta opulência, deixam morrer à fome o mendigo que lhes bate à porta!
É mais ainda: É o próprio egoísmo arvorado em virtude e colocado aos pés do Criador!
Mas vós vos admirais que bons Espíritos venham ao herege e ao ímpio, certamente porque vos esquecestes desta parábola do Cristo: - "Não é o homem são que precisa de médico." Então não tendes um ponto de vista mais elevado que o dos fariseus daquele tempo? E vós mesmos, vós vos recusareis mostrar o bom caminho ao descrente que vos chamasse? Pois bem: os bons Espíritos fazem o que faríeis; dirigem-se ao ímpio para dar-lhe bons conselhos. Oh! em lugar de anatematizardes as comunicações de além-túmulo, melhor fora bendissésseis os decretos do Senhor, admirando-lhe a omnipotência e bondade infinitas.

17. - Dizem que há anjos de guarda; mas quando não podem insinuar-se pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração, por que não empregarem meios de acção mais directos e materiais de modo a chocar os sentidos, uma vez que tais meios existem? E pois que tudo provém de Deus e nada ocorre sem a sua permissão, podemos admitir que Ele faculte tais meios aos maus Espíritos e os recuse aos bons?
Nesse caso é preciso confessar que Deus facilita mais poderes ao demónio, para perder aos homens, do que aos anjos de guarda para salvá-los! Pois bem! o que os anjos de guarda, segundo a Igreja, não podem fazer, fazem por si os demónios: servindo-se de tais comunicações, ditas infernais, reconduzem a Deus os que o renegavam e ao bem os escravizados ao mal. Esses demónios fazem mais: dão-nos o espectáculo de milhões de homens acreditando em Deus por intercessão da sua potência diabólica, ao passo que a Igreja era impotente para convertê-los. Homens
que jamais oraram, fazem-no hoje com fervor, graças às instruções desses demónios!
Quantos orgulhosos, egoístas e devassos se tornaram humildes, caridosos e recatados?!
E tudo por obra do diabo! Ah! mas se assim for, claro é que a toda essa gente o demónio tem prestado melhor serviço e guarda que os próprios anjos. É necessário, porém, formar uma triste opinião do senso humano dos nossos tempos.
para crer que os homens aceitem cegamente tais ideias. Uma religião, porém, que faz pedra angular de tal doutrina, uma religião que se destrói pela base, em se lhe tirando os seus demónios, o seu inferno, as suas penas eternas e o seu deus impiedoso; uma religião tal, dizemos, é uma religião que se suicida.

18. - Dizem que Deus enviou o Cristo, seu filho, para salvar os homens, provando-lhes com isso o seu amor. Como se explica, entretanto, que os deixasse depois em abandono?
Não há dúvida de que Jesus é o mensageiro divino enviado aos homens para ensinar-lhes a verdade, e, por ela, o caminho da salvação; mas contai - e somente após a sua vinda - quantos não puderam ouvir-lhe a palavra da verdade, quantos morreram e morrerão sem conhecê-la, quantos, finalmente, dos que a conhecem, a põem em prática. Então, por que não lhes enviar Deus, sempre solícito na salvação de suas criaturas, outros mensageiros, que, baixando a todas as terras, entre grandes e pequenos, ignorantes e sábios, crédulos e cépticos, venham ensinar a verdade aos que a desconhecem, torná-la compreensível aos que não a compreendem, e suprir, enfim, pelo seu ensino direito e múltiplo, a insuficiência na propagação do Evangelho, abreviando o evento do reinado divino? Mas eis que chegam esses mensageiros em hostes inumeráveis, abrindo os olhos aos cegos, convertendo os ímpios, curando os enfermos, consolando os aflitos, a exemplo de Jesus! Que fazeis vós, e como os recebeis vós? Ah! vós os repudiais, repelis o bem que fazem e clamais: são demónios!
Outra não era a linguagem dos fariseus relativamente ao Cristo, que, diziam, fazia o bem por artes do diabo! E o Nazareno respondeu-lhes: "Reconhecei a árvore por seu fruto: a má árvore não pode dar bons frutos."
Para os fariseus eram maus os frutos de Jesus, porque ele vinha destruir o abuso e proclamar a liberdade que lhes arruinaria a autoridade. Se ao invés disso Jesus tivesse vindo lisonjear-lhes o orgulho, sancionar os seus erros e sustentar-lhes o poder, então, sim, ele seria o esperado Messias dos judeus. Mas o Cristo era só, pobre e fraco: decretaram-lhe a morte julgando extinguir-lhe a palavra, e a palavra sobreviveu-lhe porque era divina. Importa contudo dizer que essa palavra só lentamente se Propagou, e, após dezoito séculos, apenas é conhecida de uma décima parte do género humano. Além disso, em que pese a tais razões, numerosos cismas rebentaram já do seio da cristandade. Pois bem: agora, Deus, em sua misericórdia, envia os Espíritos a confirmá-la, a completá-la, a difundi-la por todos e em toda a Terra
a santa palavra de Jesus. E o grande caso é que os Espíritos não estão encarnados num só homem cuja voz fora limitada: eles são inumeráveis, andam por toda parte e não podem ser tolhidos. Também por isso, o seu ensino se amplia com a rapidez do raio; e porque falam ao coração e à razão, são pelos humildes mais compreendidos.

19. - Não é indigno de celestes mensageiros - dizeis - o transmitirem suas instruções por meio tão vulgar qual o das mesas? Não será ultrajá-los o supor que se divertem com frivolidades deixando a sua mansão de luz para se porem à disposição do primeiro curioso?
Jesus também deixou a mansão do Pai para nascer num estábulo. E quem vos disse que o Espiritismo atribui triviais aos Espíritos superiores? Não; o Espiritismo afirma positivamente o contrário, isto é, que as coisas vulgares são próprias de Espíritos vulgares. Não obstante, dessas vulgaridades resulta um benefício, qual o de abalar muitas imaginações, provando a existência do mundo espiritual e demonstrando à saciedade que esse mundo não é tal, porém muito diferente do que se julgava. Essas manifestações iniciais eram porventura simples como tudo que começa, mas nem por germinar de minúscula semente a árvore deixa um dia de estender a sua folhagem ao longe.
Quem acreditaria que da misérrima manjedoura de Belém pudesse sair a palavra que havia de transformar o mundo?
Sim! O Cristo é bem o Messias divino. A sua palavra é bem a palavra da verdade, fundada na qual a religião se torna inabalável, mas sob condição de praticar os sublimes ensinamentos que ela contém, e não de fazer do Deus justo e bom, que nela reconhecemos, um Deus faccioso, vingativo e cruel.

Referencia: O céu e o inferno