domingo, 25 de novembro de 2007

Um espirito no enterro de seu corpo


Um Espírito no enterro de seu
Corpo

Estado da alma no momento da morte.
Os Espíritos sempre nos disseram que a separação da alma e do corpo não se faz
instantaneamente; ela começa, algumas vezes, antes da morte real, durante a agonia,
quando a última pulsação se faz sentir, o desligamento não está ainda completo; ele se opera
mais ou menos lentamente segundo as circunstâncias, e até a sua inteira liberdade a alma
experimenta uma perturbação, uma confusão que não lhe permite tomar consciência de sua
situação; está no estado de uma pessoa que desperta e cujas ideias são confusas. Esse
estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem muito se explicar do
que vê, é calmo e espera sem medo o despertar completo; ao contrário, é cheio de angústias
e de terror para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é
variável; é muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou seus pensamentos e
purificou sua alma; dois ou três dias lhe bastam, ao passo que, em outros, é preciso,
algumas vezes, oito ou mais. Frequentemente, assistimos a esse momento solene, e sempre
vimos a mesma coisa; isso não é, pois, uma teoria, mas um resultado da observação, uma
vez que é o Espírito quem fala e quem pinta sua própria situação. Eis aqui um exemplo mais
característico e tanto mais interessante para o observador, que não se trata mais de um
Espírito invisível escrevendo por um médium, mas bem de um Espírito visto e ouvido na
presença de seu corpo, seja na câmara mortuária, seja na igreja durante o serviço fúnebre.

O senhor X... vinha de ser atingido por um ataque de apoplexia; algumas horas depois de sua
morte, o senhor Adrien, um de seus amigos, se encontrava em seu quarto com a mulher do
defunto; ele viu distintamente o Espírito deste passear em todos os sentidos, olhar
alternativamente seu corpo e as pessoas presentes, depois sentar-se numa poltrona; tinha
exactamente a mesma aparência de quando vivo; estava vestido do mesmo modo, sobrecasaca
preta, calça preta; tinha as mãos nos bolsos e o ar preocupado.
Durante esse tempo, a mulher procurava um papel na escrivaninha, seu marido a olha e diz:
Procuras inutilmente, não encontrarás nada. Ela não desconfiava nada do que se passava,
porque o senhor X... não era visível senão para o senhor Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o senhor Adrien viu de novo o Espírito de seu
amigo preambular ao lado do caixão, mas não tinha mais o vestuário da véspera; estava
envolvido com uma espécie de roupagem. A conversação seguinte se iniciou entre eles.
Notemos, de passagem, que o senhor Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como
no dia precedente, estava perfeitamente desperto, e que o Espírito lhe aparecia como se
fosse um dos assistentes do enterro.

- P. Diga um pouco, caro Espírito, que sentes agora?
- R. Do bem e do sofrimento.
- P. Não compreendo isso.
- R. Sinto que estou vivo, com minha verdadeira vida e, entretanto, sinto
que vivo, que existo: sou, pois, dois seres? Ah! deixai-me sair desta noite, tenho pesadelo.

Referencia: Revista espírita Dezembro 1958

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

O ponto de vista


O ponto de vista

5. A ideia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no
porvir, fé que acarreta enormes consequências sobre a moralização dos homens, porque muda
completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca,
pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples
passagem, breve estada num pai ingrato. As vicissitudes e tribulações dessa vida não passam
de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-
lhes um estado mais ditoso. A morte nada mais restará de aterrador; deixa de ser a porta
que se abre para o nada e torna-se a que dá para a libertação, pela qual entra o exilado numa
mansão de bem-aventurança e de paz. Sabendo temporária e não definitiva a sua estada no
lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma
calma de espírito que tira àquela muito do seu amargor.
Pelo simples facto de duvidar da vida futura, o homem dirige todos os seus
pensamentos para a vida terrestre. Sem nenhuma certeza quanto ao porvir, dá tudo ao
presente. Nenhum bem divisando mais precioso do que os da Terra, torna-se qual a criança
que nada mais vê além de seus brinquedos. E não há o que não faça para conseguir os únicos
bens que se lhe afiguram reais. A perda do menor deles lhe ocasiona causticante pesar; um
engano, uma decepção, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que seja vítima, o orgulho
ou a vaidade feridos são outros tantos tormentos, que lhe transformam a existência numa
perene angústia, infligindo-se ele, desse modo, a si próprio, verdadeira tortura de todos os
instantes. Colocando o ponto de vista, de onde considera a vida corpórea,
no lugar mesmo em que ele aí se encontra, vastas proporções assume tudo o que o rodeia. O
mal que o atinja, como o bem que toque aos outros, grande importância adquire aos seus
olhos. Aquele que se acha no interior de uma cidade, tudo lhe parece grande: assim os
homens que ocupem as altas posições, como os monumentos. Suba ele, porém, a uma
montanha, e logo bem pequenos lhe parecerão homens e coisas.
É o que sucede ao que encara a vida terrestre do ponto de vista da vida futura; a
Humanidade, tanto quanto as estrelas do firmamento, perde-se na imensidade. Percebe então
que grandes e pequenos estão confundidos, como formigas sobre um montículo de terra; que
proletários e potentados são da mesma estatura, e lamenta que essas criaturas efémeras a
tantas canseiras se entreguem para conquistar um lugar que tão pouco as elevará e que por tão
pouco tempo conservarão. Daí se segue que a importância dada aos bens terrenos está sempre
em razão inversa da fé na vida futura.

6. Se toda a gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria,
porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas. Não; o homem,
instintivamente, procura o seu bem-estar e, embora certo de que só por pouco tempo
permanecerá no lugar em que se encontra, cuida de estar aí o melhor ou o menos mal que lhe
seja possível. Ninguém há que, dando com um espinho debaixo de sua mão, não a retire, para
se não picar. Ora, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo
instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Ele, pois, trabalha por
necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência
que, para tal fim, o pôs na Terra. Simplesmente, aquele que se preocupa com o futuro não liga
ao presente mais do que relativa importância e facilmente se consola dos seus insucessos,
pensando no destino que o aguarda.
Deus, consequentemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso
desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.
Aquele que se identifica com a vida futura assemelha-se ao rico que perde sem
emoção uma pequena soma. Aquele cujos pensamentos se concentram na vida terrestre
assemelha-se ao pobre que perde tudo o que possui e se desespera.

7. O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa
visão, acanhada e mesquinha, que o concentra na vida actual, que faz do instante que vivemos
na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não
passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador. Mostra a
solidariedade que conjuga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um
mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Faculta assim uma base e uma razão de ser à
fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma por ocasião do nascimento de
cada corpo torna estranhos uns aos outros todos os seres. Essa solidariedade entre as partes de
um mesmo todo explica o que inexplicável se apresenta, desde que se considere apenas um
ponto. Esse conjunto, ao tempo do Cristo, os homens não o teriam podido compreender,
motivo por que ele reservou para outros tempos o fazê-lo conhecido.

Referencia: O evangelho segundo o espiritismo

Provas da existência de Deus


Provas da existência de Deus

4. Onde se pode encontrar a prova da existência de Deus?
“Num axioma que aplicais às vossas ciências. Não há efeito sem causa. Procurai a
causa de tudo o que não é obra do homem e a vossa razão responderá.”
Para crer-se em Deus, basta se lance o olhar sobre as obras da Criação. O Universo
existe, logo tem uma causa. Duvidar da existência de Deus é negar que todo efeito tem uma causa e avançar que o nada pôde fazer alguma coisa.

5. Que dedução se pode tirar do sentimento instintivo, que todos os homens trazem
em si, da existência de Deus?
“A de que Deus existe; pois, donde lhes viria esse sentimento, se não tivesse uma
base? É ainda uma consequência do princípio - não há efeito sem causa.”

6. O sentimento íntimo que temos da existência de Deus não poderia ser fruto da
educação, resultado de ideias adquiridas?
“Se assim fosse, por que existiria nos vossos selvagens esse sentimento?”
Se o sentimento da existência de um ser supremo fosse tão-somente produto de um
ensino, não seria universal e não existiria senão nos que houvessem podido receber esse
ensino, conforme se dá com as noções científicas.

7. Poder-se-ia achar nas propriedades íntimas da matéria a causa primária da
formação das coisas?
“Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É indispensável sempre uma
causa primária.”
Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria
tomar o efeito pela causa, porquanto essas propriedades são, também elas, um efeito que há de ter uma causa.

8. Que se deve pensar da opinião dos que atribuem a formação primária a uma
combinação fortuita da matéria, ou, por outra, ao acaso?
“Outro absurdo! Que homem de bom-senso pode considerar o acaso um ser
inteligente? E, demais, que é o acaso? Nada.”
A harmonia existente no mecanismo do Universo patenteia combinações e desígnios
determinados e, por isso mesmo, revela um poder inteligente. Atribuir a formação primária ao acaso é insensatez, pois que o acaso é cego e não pode produzir os efeitos que a inteligência produz. Um acaso inteligente já não seria acaso.

9. Em que é que, na causa primária, se revela uma inteligência suprema e superior
a todas as inteligências?
“Tendes um provérbio que diz: Pela obra se reconhece o autor. Pois bem! Vede a
obra e procurai o autor. O orgulho é que gera a incredulidade. O homem orgulhoso nada
admite acima de si. Por isso é que ele se denomina a si mesmo de espírito forte. Pobre ser, que um sopro de Deus pode abater!”
Do poder de uma inteligência se julga pelas obras. Não podendo nenhum ser
humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é, consequentemente, uma
inteligência superior à Humanidade.
Quaisquer que sejam os prodígios que a inteligência humana tenha operado, ela
própria tem uma causa e, quanto maior for o que opere, tanto maior há de ser a causa
primária. Aquela inteligência superior é que é a causa primária de todas as coisas, seja qual for o nome que lhe dêem.

Referencia: O livro dos espíritos

sábado, 17 de novembro de 2007

Código penal da vida futura


Código penal da vida futura

O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do facto, pode resumir-se nos seguintes pontos:

1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.

2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.

3º - Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis consequências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.
A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.
De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.

4º - Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prémio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito.
O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.
6º - O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez
como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.

7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.

8º - Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só acção, um só pensamento mau que não tenha consequências fatais, como não na uma única acção meritória. um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais
acções um começo de progresso.

9º - Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em urna existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.

10º - O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a
consequência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.

11º - A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.

12º - Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo acto meritório, segundo o seu valor.

13º - A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efectivo, sincero, de volta ao bem.
Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.
Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa
de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este
durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

14º - Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.

15º - Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)

16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.

17º - O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.
Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes, seja na vida actual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.
A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal.
Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições
voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo directo e efectivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi
descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se tem sido orgulhoso, amável se foi austero, caridoso se tem sido egoísta, benigno se tem sido perverso, laborioso se tem sido ocioso, útil se tem sido inútil,
frugal se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado.

18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em
mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas
existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.

19º - Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.
Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.

20º - Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.

O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, por conseguinte, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.
Persistindo no mal, sofrerá as consequências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

OBSERVAÇÃO - Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não
se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será
infinito se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas consequências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre
interdita qualquer ideia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converter-se ao bem, para ele sem proveito.
Diante dessa lei, cai também a objecção extraída da presciência divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efectivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

21º - A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.
Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.

22º - Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas consequências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.
A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na consequente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.
Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a perturbação de um pacífico despertar.

23º - Um fenómeno muito frequente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e
perplexidades da vida.

24º - Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.

25º - Espíritos hão mergulhados em densa treva; outros se encontram em absoluto isolamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição,como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.
Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passamcom intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.

26º - Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e
lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as consequências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos dúplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.
27º - O único meio de evitar ou atenuar as consequências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas consequências.

28º - A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.
Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, pagá-la-ão muito caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bem aventurados
os aflitos, porque serão consolados.

29º - Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a consequência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.

30º - Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente
observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.

31º - As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são consequentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. É na vida
corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a
perfectibilidade. (1)

32º - Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez
é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o facto existe, devemos
aceitá-lo. Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei. injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais
pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva
se facilite por excepção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.
Isto posto, nada mais justo que a liberdade de acção a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prémio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.
Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.
O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.

33º - Em que pese à diversidade de géneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1º - O sofrimento é inerente à imperfeição.

2º - Toda imperfeição, assim como todo o erro proveniente dela, traz consigo o próprio castigo nas consequências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade
nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.

3º - Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da
vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.

A cada um segundo as suas obras tanto no Céu como na Terra: - tal é a lei da Justiça Divina.

O céu e o inferno

Principio da doutrina espírita sobre as penas futuras


Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras

A Doutrina Espírita, no que respeita às penas futuras, não se baseia numa teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se apoia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições;
são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto.

Preciso é afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto, ainda dominado por terrenos prejuízos. Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou de uma visão extática susceptível de ilusões, e não passando muitas vezes de reflexo de
uma imaginação exaltada. (1)
Trata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala, por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns)
disseminados pelo mundo, de sorte que a revelação deixa de ser privilégio de alguém, pois todos podem prová-la, observando-a, sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.

O céu e o inferno