domingo, 12 de agosto de 2007

O inferno cristão imita o pagão


O Inferno Cristão Imita o Pagão


3 — O inferno dos pagãos, descrito e dramatizado pelos poetas, é o modelo mais grandioso do género e se perpetuou, projectando-se como o dos cristãos, que teve também os seus poetas. Comparando-os podemos encontrar, salvo os nomes e algumas variações de detalhes, numerosas analogias entre eles. Num e noutro o fogo material é o elemento básico das torturas porque simboliza os mais cruéis sofrimentos. Mas, coisa estranha, os cristãos conseguiram, em diversos sentidos, exagerar o inferno dos pagãos. Se estes últimos tinham no seu o tonel das Donaides, a roda de Íxion, o rochedo de Sísifo, esses eram suplícios individuais. O inferno cristão tem por toda parte caldeiras ferventes, cujas tampas os anjos erguem para verem as contorções dos condenados. Deus ouve sem piedade os gemidos desses últimos pela eternidade. Jamais os pagãos figuraram aos habitantes dos Campos Elísios inspeccionando os suplícios do Tártaro.


4 — À semelhança dos pagãos, os cristãos têm o seu rei dos infernos que é Satanás, com a diferença de que Plutão se limitava a governar o império sombrio que havia recebido, mas sem praticar maldades. Ele retinha nesse império os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não procurava induzir os homens ao mal pelo prazer de os submeter ao sofrimento. Satanás entretanto recruta as suas vítimas por toda parte e se alegra de fazê-las atormentar por legiões de demónios armados de tridentes para revolvê-los nas chamas. Tem-se mesmo discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima sem cessar os condenados, sem jamais os consumir, chegando-se a perguntar se seria um fogo de betume. O inferno cristão não permite, pois, que o inferno pagão o exceda em nada.


5 — As mesmas razões que fizeram os antigos localizar a morada da felicidade, determinaram também que se localizasse a dos suplícios. Tendo localizado a primeira nas regiões superiores, era natural que colocassem a segunda nos inferiores, no centro da Terra, para o qual, segundo se acredita, certas cavernas sombrias e de aspecto assustador serviam de entrada.
Foi assim também que os cristãos, durante longo tempo localizaram o lugar dos condenados. Notemos ainda a esse respeito, outra analogia.
O inferno dos pagãos tinha de um lado os Campos Elísios e de outro o Tártaro. O Olimpo, morada dos deuses, dos homens divinizados, ficava nas regiões superiores. Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, ou seja, nos lugares baixos para tirar dali as almas dos justos que esperavam a sua vinda. Os infernos não eram, portanto, apenas um lugar de suplício. À semelhança do que acontecia entre os pagãos eles estavam também nas regiões inferiores. Assim como o Olimpo, a morada dos anjos e dos santos estava nas regiões elevadas, colocada para lá do céu das estrelas, que se considerava limitado.


6 — Essa mistura das ideias pagãs com as cristãs nada tem que nos deva surpreender. Jesus não podia destruir de repente as crenças enraizadas. Os homens não dispunham dos conhecimentos necessários para conceber o espaço como infinito e povoado de mundos em número infinito. A Terra era para eles o centro do universo. Não conheciam a sua forma nem a sua estrutura interior. Tudo lhes parecia limitado segundo a sua compreensão: as noções referentes ao futuro não poderiam exceder os limites dos seus conhecimentos.
Jesus se encontrava, pois, na impossibilidade de iniciá-los no verdadeiro conhecimento da realidade. Mas, de outro lado, não querendo sancionar com a sua autoridade os prejuízos dominantes, preferiu abster-se, deixando ao tempo o trabalho de rectificar as ideias erróneas. Limitou-se a falar vagamente da vida de bem-aventurança e dos castigos que esperavam os culpados. Mas em parte alguma, nos seus ensinos, encontra-se o quadro dos suplícios corporais que os cristãos transformaram em artigo de fé.


Eis como a idéia do inferno pagão perpetuou-se até os nossos dias. Era necessária a difusão dos conhecimentos nos tempos modernos e o desenvolvimento geral da inteligência humana para lhe dar a justa medida. Mas como nada de positivo pode ser colocado em lugar dessas velhas concepções, ao longo período dominado por uma crença cega sucedeu, como fase de transição, o período da incredulidade ao qual a nova revelação vem pôr um fim. Era necessário demolir para depois reconstruir, porque é mais fácil fazer aceitar as idéias justas pelos que em nada acreditam, em virtude de sentirem que apesar disso alguma coisa lhes falta, do que aos que já possuem uma fé robusta, embora absurda.


7 — Pela localização do céu e do inferno as seitas cristãs foram levadas a admitir que só existiam para as almas duas situações extremas: a perfeita felicidade e o sofrimento absoluto. O purgatório é apenas uma posição intermediária e passageira, da qual elas passam sem transição para a região dos bem-aventurados. Nem poderia ser de outra maneira, dada a crença no destino definitivo da alma após a morte. Havendo apenas duas regiões, a dos eleitos e a dos condenados, não se pode admitir variedade de graus em cada uma delas sem aceitar a possibilidade de as franquear, o que levaria como conseqüência ao progresso. Ora, se houvesse progresso não haveria sorte definitiva. Havendo sorte definitiva não há progresso. Jesus resolveu a questão quando disse: "Há muitas moradas na casa de meu Pai".


referência: O céu e o inferno

Os limbos


Os Limbos


8 — É verdade que a Igreja admite para certos casos particulares uma situação especial. As crianças mortas em tenra idade, não tendo praticado o mal, não podem ser condenadas ao fogo eterno. De outro lado, não tendo praticado o bem, não possuem nenhum direito à felicidade suprema. São então, diz ela, enviadas aos limbos, situação mista e jamais definida, na qual, embora não sofrendo não gozam também da felicidade perfeita. Mas desde que a sua sorte já está irrevogavelmente fixada, elas estão privadas da felicidade por toda a eternidade.
Essa privação, desde que não dependeu delas, equivale a um suplício eterno imerecido. Acontece o mesmo com o selvagem, que não tendo recebido a graça do baptismo e as luzes da religião, pecam por ignorância, abandonando-se aos instintos naturais e não podem ter culpa nem mérito como os que agem em conhecimento de causa.


A simples lógica repele semelhante doutrina em nome da justiça de Deus. Porque esta justiça encontra-se toda nestas palavras do Cristo: "A cada qual segundo suas obras". Mas é necessário entender por isso as boas ou más obras que se praticam livremente, voluntariamente, pois são as únicas que acarretam responsabilidade. Não é esse o caso da criança, nem do selvagem ou qualquer outro cujo esclarecimento não tenha dependido da sua própria vontade.
Referência: O céu e o inferno

Intuições das penas futuras


Intuição das Penas Futuras


1 — Em todos os tempos o homem acreditou, por intuição, que a vida futura devia ser feliz ou infeliz segundo o bem ou o mal que se tivesse feito neste mundo. Mas a ideia que ele fez a respeito estava em relação com o desenvolvimento do seu senso moral e com as noções mais ou menos justas que possuía do bem e do mal. As penas e as recompensas são reflexos dos instintos que nele predominavam.
Foi assim que os povos guerreiros colocaram as suas supremas felicidades nas honrarias tributadas à bravura; os povos caçadores na abundância da caça; os povos sensuais nos prazeres da voluptuosidade. Enquanto dominado pela matéria o homem só pode compreender imperfeitamente a espiritualidade. Foi por isso que ele fez das penas e dos gozos futuros um quadro mais material do que espiritual. Imaginou que se deve beber e comer no outro mundo, mas de maneira melhor do que na Terra e servindo-se de coisas melhores.
Mais tarde vamos encontrar nas crenças sobre o futuro uma mistura de espiritualidade e materialidade. É assim que ao lado da bem-aventurança contemplativa ele coloca um inferno de torturas físicas.


2 — Não podendo conceber se não o que via, o homem primitivo decalcou naturalmente o seu futuro da vida presente. Para compreender coisas diferentes das que tinha sob os olhos faltava-lhe o desenvolvimento intelectual que só devia realizar-se com o tempo. Da mesma maneira, o quadro que compôs dos castigos da vida futura é o reflexo das maldades humanas, mas em maior proporção. Reuniu todas as torturas, todos os suplícios, todas as aflições que encontrou na Terra. É assim que nas regiões de clima quente imaginou um inferno de fogo e nas regiões boreais um inferno de gelo. Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde lhe permitiria compreender o mundo espiritual, ele só podia conceber penalidades materiais. Eis porque, com algumas pequenas diferenças formais, o inferno é semelhante em todas as religiões.
Referência: O céu e o inferno

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Manifestações visuais


Manifestações Visuais


100. De todas as manifestações espíritas, as mais interessantes são sem dúvida aquelas pelas quais os Espíritos podem se tornar mais visíveis. Pela explicação desse fenómeno veremos que ele, como os outros, nada tem de sobrenatural. Damos inicialmente as respostas dos Espíritos a respeito do assunto.


1. Os Espíritos podem se tornar visíveis?
— Sim, sobretudo durante o sono. Entretanto, certas pessoas os vêem também no estado de vigília, mas isso é mais raro.
Nota - Enquanto o corpo repousa o Espírito se desprende dos laços materiais, fica mais livre e pode mais facilmente ver os outros Espíritos e entrar em comunicação com eles. O sonho é uma recordação desse estado. Quando não nos lembramos de nada, dizemos que não sonhamos, mas a alma não deixou de ver e de gozar da sua liberdade. Tratamos aqui mais particularmente das aparições no estado de vigília. — Sobre o estado do Espírito durante o sono ver o nº 409 de O Livro dos Espíritos.


2. Os Espíritos que se manifestam pela visão pertencem a uma determinada categoria?
— Não; podem pertencer a todas as categorias, das mais elevadas às mais inferiores.


3. É permitido a todos os Espíritos manifestarem-se visivelmente?
— Todos o podem, mas nem sempre têm a permissão nem o desejo de fazê-lo.


4. Com que fim os Espíritos se manifestam visivelmente?
— Isso depende; segundo sua natureza, o fim pode ser bom ou mau.


5. Como pode ser permitido, quando o fim é mau?
— É então para pôr à prova aqueles que os vêem. A intenção do Espírito pode ser má, mas o resultado pode ser bom.


6. Qual o objectivo dos Espíritos que se fazem ver com má intenção?
— Assustar e muitas vezes vingar-se.


7. Qual o objectivo dos Espíritos que aparecem com boa intenção?
— Consolar os que lamentam a sua partida; provar-lhes que continuam a existir e estão perto deles; dar conselhos e algumas vezes pedir assistência para si mesmos.


8. Que inconveniente haveria em ser permanente e geral a possibilidade de ver os Espíritos? Não seria essa uma forma de tirar a dúvida aos mais incrédulos?
— Estando o homem constantemente cercado de Espíritos, o facto de vê-los sem cessar o perturbaria, constrangendo-o nas suas actividades, e lhe tiraria a iniciativa na maioria dos casos, enquanto que, julgando-se só, pode agir com mais liberdade. Quanto aos incrédulos, dispõem de muitos meios para se convencerem, caso queiram aproveitá-los e se não estiverem cegos pelo orgulho. Sabes de pessoas que viram e nem por isso acreditam, pois dizem que se trata de ilusões. Não te inquietes por essa gente, de que Deus se encarrega.


Nota - Haveria tanto inconveniente de estarmos sempre na presença dos Espíritos, como em vermos o ar que nos cerca ou as miríades de animais microscópicos que pululam ao nosso redor. Do que devemos concluir que o que Deus faz é bem feito e que Ele sabe melhor do que nós o que nos convém.


9. Se a visão dos Espíritos tem inconvenientes, porque é permitida em alguns casos?
— Para dar uma prova de que nem tudo morre com o corpo e de que a alma conserva a sua individualidade após a morte. Essa visão passageira é suficiente para dar a prova e atestar a presença dos amigos ao vosso lado, não tendo os inconvenientes da visão incessante.


10. Nos mundos mais adiantados que o nosso a visão dos Espíritos é mais frequente?
— Quanto mais o homem se aproxima da natureza espiritual, mais facilmente entra em relação com os Espíritos. É a grosseria do vosso corpo que torna mais difícil e mais rara a percepção dos seres etéreos.


11. É racional assustar-se com a aparição de um Espírito?
— Aquele que reflectir a respeito há de compreender que um Espírito, seja qual for, é menos perigoso que um vivo. Os Espíritos, aliás, estão por toda parte e não tens a necessidade de vê-los para saber que podem estar ao teu lado. O Espírito que desejar prejudicar alguém pode fazê-lo sem ser visto, e até com mais segurança. Ele não é perigoso por ser Espírito, mas pela influência que pode exercer no pensamento do homem, desviando-o do bem e impelindo-o ao mal.


Nota - As pessoas que têm medo da solidão e do escuro, raramente compreendem a causa do seu pavor. Elas não saberiam dizer do que têm medo, mas certamente deviam recear-se mais de encontrar homens do que Espíritos, porque um malfeitor é mais perigoso em vida do que após a morte. Uma senhora de nosso conhecimento teve uma noite, em seu quarto, uma aparição tão bem definida que acreditou estar na presença de alguém e sua primeira sensação foi de pavor. Certificando-se de que ali não havia nenhuma pessoa, disse a si mesma: parece que se trata apenas de um Espírito; posso dormir tranquila.


12. Aquele que vê um Espírito poderia conversar com ele?
— Perfeitamente. E é justamente o que se deve fazer nesse caso, perguntando quem é o Espírito, o que deseja e o que se pode fazer por ele. Se o Espírito for infeliz e sofredor, o testemunho de comiseração o aliviará. Se for um Espírito benévolo, pode acontecer que tenha a intenção de dar bons conselhos.


13. Como o Espírito poderia responder?
— Às vezes falando, como uma pessoa viva; a maioria das vezes por uma transmissão de pensamentos.


14. Os Espíritos que aparecem com asas realmente as têm, ou essas asas são apenas uma aparência simbólica?
— Os Espíritos não têm asas. Não precisam delas, pois podem transportar-se por toda parte como Espíritos. Aparecem dessa forma porque querem impressionar a pessoa a que se mostram. Uns aparecerão com suas roupas habituais, outros envolvidos em panos, alguns com asas, como atributo da categoria espiritual que representam.


15. As pessoas que vemos em sonho são sempre as que aparentam ser?
— São quase sempre as mesmas pessoas que o teu Espírito vai encontrar ou que te vêm encontrar.


16. Os Espíritos zombadores não poderiam tomar a aparência das pessoas que nos são caras e nos iludirem?
— Tomam aparências fantasiosas para se divertirem a vossa custa, mas há coisas com as quais não lhes é permitido brincar.


17. Como o pensamento é uma espécie de evocação, compreende-se que possa atrair o Espírito. Mas por que, quase sempre, as pessoas em que mais pensamos, que ardentemente desejamos rever, jamais aparecem nos sonhos, enquanto vemos outras que não nos interessam e nas quais nunca pensamos?
— Os Espíritos nem sempre têm a possibilidade de manifestar-se visivelmente, mesmo em sonhos e apesar do desejo que tenhamos de vê-los. Causas independentes da sua vontade podem impedi-los. Quase sempre é também uma prova que o mais ardente desejo não pode afastar. Quanto às pessoas que não interessam, embora não penseis nelas, é possível que pensem em vós. Aliás, não podeis fazer uma ideia das relações no Mundo dos Espíritos, onde reencontrais uma multidão de conhecidos íntimos, antigos e novos, dos quais nem tendes a menor ideia quando acordados.


Nota - Quando não há nenhum meio de controlar as visões ou aparições, podemos sem dúvida levá-las à conta de alucinações, mas quando elas são confirmadas pelos acontecimentos não poderíamos atribui-las à imaginação. Essas são, por exemplo, as aparições do momento da morte, em sonho ou no estado de vigília, de pessoas em quem não pensávamos e que, por diversos sinais, revelam as circunstâncias absolutamente inesperadas do seu falecimento. Viram-se tantas vezes cavalos empinarem e empancarem diante de aparições que assustavam os cavaleiros. Se a imaginação é alguma coisa entre os homens, seguramente nada é para os animais. Aliás, se as imagens que vemos em sonho fossem sempre consequência das preocupações de vigília, nada explicaria o facto, tão frequente, de jamais sonharmos com as coisas em que mais pensamos.


18. Por que certas visões são mais frequentes nas doenças?
— Elas ocorrem igualmente no estado de perfeita saúde, mas na doença os laços materiais se afrouxam e a fraqueza do corpo deixa mais livre o Espírito, que entra mais facilmente em comunicação com outros Espíritos.


19. As aparições espontâneas parecem mais frequentes em certas regiões. Alguns povos são melhor dotados que outros para essas manifestações?
— Fizeste um relatório geral das aparições? As aparições, os ruídos e todas as manifestações expandem-se igualmente por toda a Terra, mas apresentam características próprias segundo os povos em que se verificam. Entre alguns, por exemplo, a escrita é pouco desenvolvida e não há médiuns escreventes; entre outros eles abundam; além disso há mais frequência de manifestações ruidosas e de movimento de objectos que de comunicações inteligentes, porque estas são menos apreciadas e procuradas.


20. Por que as aparições se verificam mais à noite?
— Pela mesma razão que vês as estrelas à noite e não em pleno dia. A claridade intensa pode ofuscar uma aparição delicada. Mas é erróneo supor que a noite tenha algo de especial para isso. Interpela todos os que as viram, e constatarás que a maioria ocorre de dia.


Nota - Os fenómenos de aparição são muito mais frequentes e gerais do que se pensa, mas muitas pessoas não os revelam por medo do ridículo e outras os atribuem à ilusão. Se parecem mais abundantes em certos povos é porque esses conservam mais cuidadosamente as tradições verdadeiras ou falsas, quase ampliadas pelo fascínio do maravilhoso, a que o aspecto das localidades se presta mais ou menos. A credulidade faz ver, então, efeitos sobrenaturais nos fenómenos mais vulgares: o silêncio da solidão, o escarpamento dos caminhos, o rumorejar das florestas, o estrépito das tempestades, o eco das montanhas, a forma fantástica das nuvens, as sombras, as miragens, tudo enfim se presta à ilusão das imaginações simples e ingénuas, que propagam de boa fé aquilo que viram ou que acreditam ter visto. Mas ao lado da ficção há o real, que o estudo sério do Espiritismo consegue livrar dos acessórios ridículos da superstição.


21. A visão dos Espíritos ocorre no estado normal ou somente durante o êxtase?
— Pode ocorrer em condições perfeitamente normais; entretanto, as pessoas que os vêem estão quase sempre num estado especial, próximo do êxtase que lhes dá uma espécie de dupla vista. (ver O Livro dos Espíritos, nº 447).


22. Os que vêem os Espíritos o fazem com os olhos?
— Eles pensam que sim, mas na realidade é a alma que vê. A prova é que podem vê-los de olhos fechados.


23. Como o Espírito pode tornar-se visível?
— O princípio é o mesmo de todas as manifestações e está nas propriedades do perispírito, que pode sofrer diversas modificações, à vontade do Espírito.


24. O Espírito propriamente dito pode fazer-se visível ou só o faz com a ajuda do perispírito?
— Na vossa situação material o Espírito só pode manifestar-se com a ajuda do seu invólucro semi-material. É este o intermediário pelo qual eles agem sobre os vossos sentidos. Graças a esse invólucro é que eles aparecem algumas vezes com a forma humana ou outra qualquer, seja nos sonhos ou no estado de vigília, assim a plena luz como na obscuridade.


25. Poderíamos dizer que é pela condensação do fluido do perispírito que o Espírito se torna visível?
— Condensação não é o termo. Trata-se apenas de uma comparação que pode ajudar a compreender o fenómeno, pois não há realmente uma condensação. Pela combinação dos fluidos produz-se no perispírito uma disposição especial, sem possibilidade de analogia para vós, e que o torna perceptível.


26. Os Espíritos que aparecem são sempre inacessíveis ao facto e não podemos pegá-los?
— No estado normal de Espíritos não podemos pegá-los, como não pegamos os sonhos. Não obstante, podem impressionar o nosso tacto e deixar sinais de sua presença. Podem mesmo, em alguns casos, tornar-se momentaneamente tangíveis, o que prova a existência de matéria entre eles e vós.


27. Todos são aptos a ver os Espíritos?
— Durante o sono, todos. Mas não quando estão acordados. No sono, a alma vê directamente; quando estais acordados ela sofre em maior ou menor grau a influência dos órgãos. Eis porque as condições não são as mesmas nos dois casos.


28. Como podemos ver os Espíritos em estado de vigília?
— Isso depende do organismo, da facilidade maior ou menor do fluido do vidente de se combinar com o do Espírito. Assim, não basta o Espírito querer mostrar-se; é também necessário que a pessoa a quem se quer mostrar tenha a aptidão para vê-lo.


29. Essa faculdade pode desenvolver-se pelo exercício?
— Pode, como todas as outras faculdades. Mas é daquelas cujo desenvolvimento natural é melhor do que o provocado, quando corremos o risco de super- excitar a imaginação. A visão geral e permanente dos Espíritos é excepcional e não pertence às condições normais do homem. (1)


30. Pode-se provocar a aparição dos Espíritos?
— Pode-se algumas vezes, mas muito raramente. Ela é quase sempre espontânea. Para provocá-la é necessário que se possua uma faculdade especial.


31. Os Espíritos podem fazer-se visíveis com outra aparência, além da humana?
— A forma humana é a sua forma normal. O Espírito pode variá-la na aparência, mas conservando sempre o tipo humano.


32. Não podem manifestar-se com a forma de chamas?
— Podem produzir chamas, clarões, como qualquer outro efeito para demonstrar a sua presença, mas essas coisas não são o próprio Espírito. A chama é quase sempre apenas um efeito óptico ou uma emanação do perispírito. Em todos os casos é somente uma parte do perispírito, que só aparece inteiramente nas visões. (2)


33. Que pensar da crença que os fogos-fátuos são almas ou Espíritos?
— Superstição produzida pela ignorância. A causa física dos fogos-fátuos é bem conhecida.


34. A chama azul que apareceu sobre a cabeça de Servius Tullius, na infância, foi real ou apenas uma lenda?
— Era real, produzida pelo Espírito Familiar que desejava advertir a mãe. Esta, médium vidente, percebeu uma irradiação do Espírito protector de seu filho. Os médiuns videntes variam de grau no tocante à percepção, como os médiuns escreventes variam na escrita. Enquanto essa mãe via uma chama outro médium poderia ver o próprio Espírito. (3)


(1) O respeito às leis naturais é um dos princípios espíritas. A mediunidade, como todas as faculdades humanas, deve desenvolver-se normalmente, nunca de maneira forçada. (N. do T.)


(2) O perispírito só aparece integral nas visões, compreendendo-se o termo visões como manifestações visuais do Espírito em corpo inteiro. Nas outras formas de manifestação ele apenas projecta as imagens que deseja, como nesse caso das chamas. (N. do T.)


(3) Servius Tullius, sexto rei de Roma (578-534 a.C.) nasceu escravo de Tarquínio Prisco, que o fez educar, e sucedeu a ele no trono por decisão popular. Ampliou Roma, aumentou suas muralhas, estruturou as classes e realizou grandes obras. Era um predestinado. (N. do T.)


35. Os Espíritos poderiam se apresentar com a forma de animais?
— Isto pode acontecer, mas são sempre Espíritos inferiores os que tomam essas aparências. Mas seriam sempre, em todos os casos, aparências passageiras, pois seria absurdo acreditar que um animal pudesse ser a encarnação de um Espírito. Os animais são sempre animais e nada mais do que isso. (4)


(4) Essa afirmação não contraria o princípio espírita da evolução. Pelo contrário, o endossa, mostrando apenas que o Espírito (a palavra escrita assim, com "E" maiúsculo, representa o ser espiritual do homem) não pode encarnar no reino animal. Ver Metempsicose, nº 611 a 613 de O Livro dos Espíritos. (N. do T.)


Nota - Somente a superstição pode levar a crer que certos animais são encarnações de Espíritos. É necessário ter uma imaginação muito condescendente ou muito impressionável para ver algo de sobrenatural nas atitudes às vezes um pouco estranhas que eles tomam, mas o medo frequentemente faz ver aquilo que não existe. Alias o temor nem sempre é a fonte dessa ideia. Conhecemos uma senhora, por sinal muito inteligente, que estimava demais um gato preto, acreditando que ele possuía uma natureza super-animal. Nunca, entretanto ouvira falar de Espiritismo. Se o tivesse conhecido, compreenderia o ridículo da causa de sua predilecção, pois a doutrina lhe provaria a impossibilidade dessa metamorfose.


Referência: O livro dos médiuns

Fenómeno de transporte


O Fenómeno de Transporte


96. Este fenómeno só difere dos que tratamos abaixo pela intenção benévola do Espírito que o produz, pela natureza dos objectos quase sempre graciosos e pela maneira suave e quase sempre delicada porque são transportados. Consiste no transporte espontâneo de objectos que não existem no lugar da reunião. Trata-se geralmente de flores, algumas vezes de frutos, de confeitos, de jóias etc.


97. Digamos logo que esse fenómeno é dos que mais se prestam à imitação e portanto é necessário estar prevenido contra o embuste. Sabe-se até onde pode chegar a arte da prestidigitação ante experiências desse género. Mesmo, porém, que não tenhamos de enfrentar um profissional, poderíamos ser facilmente enganados por uma manobra hábil e interessada. A melhor de todas as garantias é o carácter, a honestidade notória, o desinteresse absoluto da pessoa que obtém esses efeitos. Em segundo lugar, no exame atento de toda as circunstâncias em que os factos se produzem. Por fim, no conhecimento esclarecido do Espiritismo, único meio de se descobrir o que houvesse de suspeito.


98. A teoria do fenómeno de transporte e das manifestações físicas em geral foi resumida, de maneira notável, na seguinte dissertação de um Espírito, cujas comunicações trazem o cunho incontestável da profundeza e da lógica. Muitas delas aparecerão no curso desta obra. Ele se dá a conhecer com o nome de Erasto, discípulo de São Paulo, e como Espírito protector do médium que lhe serve de intérprete:


É indispensável, para obter fenómenos dessa ordem, dispor de médiuns que chamarei de sensitivos, ou seja, dotados no mais alto grau de faculdades medianímicas de expansão e de penetrabilidade. Porque o sistema nervoso desses médiuns, facilmente excitável, por meio de certas vibrações, projecta profusamente ao seu redor o fluido animalizado.
As naturezas impressionáveis, as pessoas cujos nervos vibram à menor emoção, à mais leve sensação que a influência moral ou física, interna ou externa, sensibiliza, são as mais aptas a se tornarem excelentes médiuns de efeitos físicos de tangibilidade e de transporte. Com efeito, seu sistema nervoso, quase inteiramente desprovido do invólucro refractário que isola esse sistema na maioria dos encarnados, torna-as apropriadas ao desenvolvimento desses diversos fenómenos. Assim, com um sujeito dessa natureza, e cujas demais faculdades não sejam hostis à mediunização, mais facilmente se obterão os fenómenos de tangibilidade, os golpes nas paredes e nos móveis, os movimentos inteligentes, e até mesmo a suspensão no espaço da mais pesada matéria inerte. Com maior razão, os mesmos resultados serão obtidos se, em vez de um médium, se dispuser de numerosos e igualmente bem dotados.


Mas da obtenção desses fenómenos à obtenção dos chamados transportes há todo um abismo. Porque, neste caso, não só o trabalho do Espírito é mais complexo, mais difícil, como ainda o Espírito só pode operar com um único aparelho medianímico. Isso quer dizer que muitos médiuns não podem contribuir simultaneamente para a produção do mesmo fenómeno. Acontece mesmo, ao contrário, que a presença de certas pessoas antipáticas ao Espírito operador entrava radicalmente a sua acção. A esses motivos que, como se vê, são importantes, acrescentemos que os transportes exigem sempre maior concentração, e ao mesmo tempo maior difusão de certos fluidos que só podem ser obtidos com médiuns muito bem dotados, médiuns, numa palavra, cujo aparelho eletromedianímico seja bem condicionado.


Em geral, os fenómenos de transporte são e continuarão a ser excessivamente raros. Não preciso demonstrar porque eles são e serão menos frequentes que os demais fenómenos de tangibilidade; do que já ficou dito podeis deduzi-lo. Aliás, esses fenómenos são de tal natureza que além de nem todos os médiuns servirem para produzi-los, nem todos os Espíritos podem também realizá-los. É necessário que exista entre o Espírito e o médium uma certa afinidade, uma certa analogia, numa palavra, uma determinada semelhança que permita à parte expansível do fluido perispirítico (9) do encarnado misturar-se, unir-se, combinar-se com o do Espírito que deseja fazer o transporte. Essa fusão deve ser de tal maneira que a força dela resultante se torne por assim dizer una: da mesma maneira que uma corrente eléctrica, agindo sobre o carvão produz um foco, uma claridade única. Por que essa união, essa fusão, perguntareis? É que, para a produção desses fenómenos, é necessário que as propriedades essenciais do Espírito agente sejam aumentadas com algumas das propriedades do mediunizado. Porque o fluido vital, apanágio exclusivo do encarnado, deve obrigatoriamente impregnar o Espírito agente. Só então ele pode, por meio de algumas propriedades do vosso ambiente, desconhecidas para vós, isolar, tornar invisíveis e movimentar alguns objectos materiais e mesmo os encarnados.


Não me é permitido, por agora, desvendar-vos as leis particulares que regem os gases e fluidos que nos envolvem. Mas antes que os anos se escoem, antes que uma existência do homem seja concluída, a explicação dessas leis e desses fenómenos ser-vos-á revelada. E vereis surgir e se desenvolver uma nova variedade de médiuns, que cairão num estado cataléptico particular ao serem mediunizados.
Vede de quantas dificuldades está cercada a produção dos transportes. Podeis logicamente concluir que os fenómenos dessa espécie são bastante raros, como já disse, e com mais razão que os Espíritos se prestam muito pouco a produzi-los, porque isso exige de sua parte um trabalho quase material, que Lhes causa aborrecimento e fadiga. Além disso, acontece que muito frequentemente, malgrado sua energia e sua vontade, o estado do próprio médium Lhes opõe uma barreira intransponível.


(8) A palavra aporte também serve para designar esse tipo de fenómeno. A tradição espírita incorporou o termo francês "apport" à língua portuguesa, como aconteceu no inglês, para designar também essa forma especial de transporte de objetos a recintos fechados. (N. do T.)


(9) Vemos que quando se trata de exprimir uma ideia nova, para a qual a língua não possui termo, os Espíritos podem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletromedianímico, perispirítico, não são nossas. Aqueles que nos criticam por havermos criado as palavras espírita, espiritismo, perispírito, que não tinham termos análogos, poderão agora fazer a mesma crítica aos Espíritos. (Nota de Kardec)


É portanto evidente, e não tenho dúvida que o aceitais, que os fenómenos sensíveis de golpes, movimentos e levitação são de natureza simples, realizando-se pela concentração e a dilatação de certos fluidos, e podem ser provocados e obtidos pela vontade e o trabalho de médiuns aptos, quando secundados por Espíritos amigos e benevolentes, enquanto os fenómenos de transporte são complexos, de natureza múltipla, exigindo a existência de condições especiais. Esses fenómenos só podem ser realizados por um só Espírito e um único médium e necessitam, além dos recursos para a produção da tangibilidade, uma combinação muito especial para isolar e tornar invisíveis o objecto ou os objectos a serem transportados.(10)


Todos vós, espíritas, compreendeis as minhas explicações e percebeis perfeitamente o que seja essa concentração de fluidos especiais para produzir a mobilidade e a tactilidade da matéria inerte. Aceitais isso, como aceitais os fenómenos da electricidade e do magnetismo, tão análogos aos mediúnicos, que são por assim dizer, a confirmação e o desenvolvimento daqueles. Quanto aos incrédulos e aos sábios, estes piores que aqueles, nada tenho para convencê-los e nem me interessam. Serão convencidos um dia pela evidência dos factos, porque terão de se curvar ante o testemunho unânime dos fenómenos espíritas, como já tiveram de fazer em relação a outros fenómenos que a princípio rejeitaram.
Para resumir: se os fenómenos de tangibilidade são frequentes, os de transporte são muito raros, porque as condições para a sua produção são bastante difíceis. Em consequência, nenhum médium pode dizer: em tal hora ou em tal momento obterei um transporte, porque muitas vezes o próprio Espírito se encontra impedido de fazê-lo. Devo acrescentar que esses fenómenos se tornam duplamente difíceis em público, onde quase sempre se encontram os elementos energeticamente refractários que paralisam os esforços dos Espíritos e com mais forte razão a acção do médium.


Sabei que, pelo contrário, esses fenómenos quase sempre se produzem espontaneamente nas reuniões particulares, no mais das vezes à revelia dos médiuns e sem que se espere, dando-se muito raramente quando aqueles estão prevenidos. Disso deveis concluir que há motivo legítimo de suspeita todas as vezes que um médium se vangloria de obtê-los à vontade ou de dar ordens aos Espíritos como se fossem seus empregados, o que é simplesmente absurdo. Tende ainda por regra que os fenómenos espíritas não servem para espectáculos e para divertir os curiosos. Se alguns Espíritos se prestam a isso, só pode ser através de fenómenos simples e não dos que, como o transporte, exigem condições excepcionais.
Lembrai-vos, espíritas, que se é absurdo repelir sistematicamente todos os fenómenos de além-túmulo, também não é prudente aceitá-los a todos de olhos fechados. Quando um fenómeno de tangibilidade, de aparição, de transporte se verifica espontaneamente e de improviso, aceitai-o. Mas nunca será demasiado repetir: não aceiteis nada cegamente. Que cada facto seja submetido a um exame minucioso, aprofundado e severo. Porque, acreditai-me, o Espiritismo, tão rico de fenómenos sublimes e grandiosos, nada tem a ganhar com essas insignificantes manifestações que hábeis prestidigitadores podem imitar.(11)


Bem sei o que ireis me dizer: que esses fenómenos são úteis para convencer os incrédulos. Mas sabei que, se não tivésseis outros meios de convicção, não teríeis hoje a centésima parte de espíritas com que podeis contar. Falai aos corações: é esse o caminho da maioria das conversões sérias. Se achais conveniente, para certas pessoas, utilizar-vos dos fenómenos materiais, pelo menos apresentai-os de tal maneira que não possam dar motivo a falsas interpretações. E, sobretudo, observai as condições normais desses fenómenos, porque apresentados de maneira imprópria eles servem de argumentos para os incrédulos, em vez de convencê-los. - ERASTO.
99. Esse fenómeno apresenta uma particularidade bem característica: a de que alguns médiuns só o obtêm em estado sonambulico, o que facilmente se explica. O sonâmbulo apresenta um desprendimento natural, uma espécie de isolamento do Espírito e seu perispírito em relação ao corpo, que deve facilitar a combinação dos fluidos necessários. É o caso dos transportes que presenciamos.


As questões seguintes foram apresentadas ao Espírito que os produzia, mas suas respostas às vezes se ressentem da sua falta de conhecimentos. Submetemo-las ao Espírito Erasto, muito mais esclarecido do ponto de vista teórico, que as completou com anotações bastante judiciosas. Um é o artesão, outro é o sábio. A própria comparação dessas duas inteligências é um estudo instrutivo, pois demonstra que não basta ser Espírito para tudo compreender.


(10) O problema da tangibilidade refere-se ao Espírito, que através da combinação de seus fluidos com os do médium consegue o grau de materialização necessária para tocar e sentir os objecto. Estes são naturalmente tangíveis, mas o Espírito não tem o censório físico para senti-los. Por isso necessita, como diz Erasto, impregnar-se do fluido vital do médium, que lhe dá a tangibilidade ou a possibilidade de agir sobre os objectos materiais e movimentá-los. (N. do T.)


(11) Nada aceitar cegamente nem fazer alarde de fenómenos corriqueiros ou de natureza duvidosa, susceptíveis de ser imitados por trapaceiros, é uma condição de boa divulgação da Doutrina. Erasto adverte contra as infracções dessa regra, que até hoje se verificam por toda parte. O Espiritismo, que se funda na verdade, não precisa de recursos fúteis. (N. do T.)


1. Queres dizer-nos por que os transportes que produzes só se realizam durante o sono magnético do médium?
— Por causa da natureza do médium. Os factos que produzo quando ele dorme, poderia igualmente produzir no estado de vigília de outro médium.


2. Por que demoras tanto a trazer os objectos, e por que excitas a cobiça do médium, excitando-lhe o desejo de obter o objecto prometido?
— Necessito de tempo para preparar os fluidos que servem ao transporte. Quanto à excitação, muitas vezes tem apenas o fim de divertir os presentes e a sonâmbula.


Nota de Erasto - O Espírito que respondeu sabe apenas isso. Não tem consciência do motivo dessa excitação da cobiça, que provoca instintivamente e sem compreender-lhe o efeito. Ele pensa divertir, quando na verdade estimula, sem o saber, maior emissão de fluido. É uma decorrência das dificuldades que o fenómeno apresenta, dificuldades maiores quando ele não é espontâneo, e particularmente com outros médiuns.


3. A produção do fenómeno depende da natureza especial do médium, e seria possível obtê-lo com mais facilidade e presteza por outro médium?
— A produção do fenómeno depende da natureza do médium, e só se pode produzi-lo por meio de médiuns dessa natureza. Para a presteza, vale-nos muito o hábito adquirido no trato frequente do mesmo médium.


4. A influência das pessoas presentes pode embaraçá-lo de alguma maneira?
— Quando há incredulidade, oposição, da parte delas, podem criar-nos sérias dificuldades. Preferimos realizar nossas experiências com pessoas crentes e versadas no Espiritismo. Mas não quero dizer, com isso, que a má vontade nos pudesse paralisar por completo.


5. Onde pegaste as flores e os bombons que trouxeste?
— As flores, nos jardins, onde elas me agradem.


6. E os bombons? O confeiteiro deve ter percebido a sua falta?
— Tomo-os onde quero. O confeiteiro não percebeu nada, porque pus outros no lugar.


7. Mas os anéis têm preço; onde os tomaste? Não ficou prejudicado aquele de quem os tiraste?
— Tirei-os de lugares que ninguém conhece, e o fiz de maneira que não prejudicará a ninguém.


Nota de Erasto - Creio que o facto foi explicado de maneira incompleta, por falta de conhecimento do Espírito que respondeu. Sim, pode ter havido no caso um prejuízo real, mas o Espírito não quis passar por haver desviado alguma coisa. Um objecto só pode ser substituído por outro idêntico, da mesma forma e do mesmo valor. Assim, se um Espírito tivesse a possibilidade de substituir um objecto tirado, não haveria razão para o tirar, pois poderia dar o que serve de substituto.


8. É possível transportar flores de outro planeta?
— Não, para mim isso não é possível.
— (A Erasto) Outros Espíritos teriam esse poder?
— Não, isso não é possível em razão das diferenças de meio ambiente.


9. Podereis transportar flores de outro hemisfério; dos trópicos por exemplo?
— Desde que seja da Terra, posso.


10. Os objectos que trouxeste podereis fazê-los desaparecer e devolvê-los?
— Tão bem como os trouxe; posso devolvê-los, se quiser.


11. A produção do fenómeno de transporte não te exige um sacrifício, não te causa dificuldades?
— Não nos causa nenhuma dificuldade quando temos a devida permissão. Poderia causar-nos muitas se quiséssemos produzi-los sem estar autorizados.
Nota de Erasto - Ele não quer dizer que é penosa embora o seja, pois é forçado a realizar uma operação por assim dizer material.


12. Quais as dificuldades que encontras?
— Nenhuma além das más disposições fluídicas, que podem ser contrárias.


13. Como trazes o objecto? Carregando-o com as mãos?
— Não; envolvo-o em mim mesmo.


Nota de Erasto - Ele não explica claramente a sua operação, pois na verdade não envolve o objeto na sua pessoa. Como o seu fluido pessoal pode dilatar-se, é penetrável e expansível, ele combina uma porção desse fluido com uma porção do fluido animalizado do médium, e é nessa mistura que oculta e transporta o objecto. Não é certo dizer, portanto, que o envolve nele mesmo.


14. Transportarias com mesma facilidade um objecto mais pesado: de cinquenta quilos, por exemplo?
— O peso nada é para nós. Trago flores porque elas podem ser mais agradáveis que um objecto volumoso.


Nota de Erasto - É certo. Ele pode transportar cem ou duzentos quilos de objectos, porque a gravidade que existe para vós não existe para ele. Mas neste caso também ele não percebe o que se passa. A massa de fluidos combinados é proporcional à massa de objectos. Numa palavra: a força deve estar na proporção da resistência. Assim, se o Espírito só transporta uma flor ou um objecto leve, é frequentemente por não encontrar no médium ou nele mesmo os elementos necessários para um maior esforço.


15. Alguns casos de desaparecimento de objectos, por motivo ignorado, serão devidos aos Espíritos?
— Isso acontece com frequência, muito mais frequentemente do que pensais, e poderia ser remediado pedindo-se ao Espírito a devolução do objecto.


Nota de Erasto - É verdade, mas às vezes o que foi levado, levado está. Porque esses objectos que somem da casa são quase sempre levados para muito longe. Mas, como a subtracção de objectos exige quase as mesmas condições fluídicas dos transportes, só pode se dar com a ajuda de médiuns dotados de faculdades especiais. Por isso, quando alguma coisa desaparecer, é mais provável que se deva ao vosso descuido que à acção dos Espíritos.


16. Há efeito da acção de certos Espíritos que consideramos como fenómenos naturais?
— Vossos dias estão cheios desses factos que não compreendeis, porque não pensastes neles, e que um pouco de reflexão vos faria ver com clareza.


Nota de Erasto - Não se deve atribuir aos Espíritos o que é obra humana. Mas acreditai na sua influência oculta e constante, produzindo ao vosso redor mil circunstâncias, milhares de incidentes necessários à realização dos vossos actos e da vossa existência.(12)
17. Entre os objectos usados nos transportes não há os que podem ser fabricados pelos Espíritos? Quer dizer: produzidos espontaneamente pelas modificações que eles podem provocar no fluido ou elemento universal?
— Não por mim, que não tenho permissão para isso. Só um Espírito elevado pode fazê-lo.


18. Como introduziste outro dia esses objectos na sala que estava fechada?
— Levei-os comigo, envolvidos por assim dizer, na minha substância. Não posso dizer mais, porque isso não é explicável.


19. Como fizeste para tornar visíveis esses objectos, que estavam invisíveis?
— Tirei a matéria que os envolvia.
Nota de Erasto - Não é a matéria propriamente dita que os envolve, mas um fluido tirado em parte do perispírito do médium e em parte (metade de cada um) do Espírito operador.


20. (A Erasto) - Um objecto pode ser transportado para um lugar completamente fechado; numa palavra, o Espírito pode espiritualizar um objecto material de maneira que ele possa penetrar a matéria?
— Esta questão é complexa. O Espírito pode tornar invisíveis os objectos transportados, mas não penetráveis. Não pode desfazer a agregação da matéria, o que seria a destruição do objecto. Tornando-o invisível, pode carregá-lo quando quiser e só o largar no momento conveniente para fazê-lo aparecer. Bem diverso o que se passa com os objectos que compomos. Nestes introduzimos apenas os elementos da matéria, e como esses elementos são essencialmente penetráveis como atravessamos os corpos mais densos com a mesma facilidade dos raios solares atravessando as vidraças, podemos perfeitamente dizer que introduzimos o objecto num lugar, por mais fechado que ele esteja. Mas isto somente nesse caso. (13)


(12) Os Espíritos estão por toda a parte, são uma das forças da Natureza em constante acção no Universo. (Ver o n.º 87 de O Livro dos Espíritos). A resposta de Erasto se refere a essa actividade natural dos espíritos, que agem também ao nosso redor e dariam condições para o cumprimento dos nossos destinos. Não se trata de nada sobrenatural ou misterioso, mas de um aspecto da Natureza que o Espiritismo vem esclarecer. (N. do T.)


(13) Ver adiante, sobre a teoria da formação espontânea dos objectos, o Cap. VIII, intitulado Laboratório do Mundo Invisível. (N. de Kardec).

Referência: O livro dos médiuns