terça-feira, 7 de agosto de 2007

Manifestações físicas espontâneas


Manifestações Físicas Espontâneas


Ruídos, Barulhos e Perturbações - Lançamento de Objectos


82. Os fenómenos de que tratamos são provocados. Mas acontece às vezes que ocorrem de maneira espontânea. Não intervém então a vontade dos participantes, e longe disso, pois se tornam quase sempre muito importunos. O que exclui, além disso, a suposição de serem efeitos de uma imaginação fertil pelas ideias espíritas é que ocorrem entre pessoas que nunca ouviram falar a respeito e quando menos elas podiam esperar. Esses fenómenos, cuja manifestação se poderia considerar como de prática espírita natural, são muito importantes porque excluem as suspeitas de conivência. Recomendamos, por isso, às pessoas que se ocupam de fenómenos espíritas, colectarem todos os factos desse género de que tiverem conhecimento, mas sobretudo constatarem cuidadosamente a sua realidade através de minucioso estudo das circunstâncias, para se assegurarem de não se tratar de simples ilusão ou mistificação. (1)


83. De todas as manifestações espíritas, as mais simples e frequentes são os ruídos e as pancadas. Mas é sobretudo nesses casos que devemos temer a ilusão, pois há muitas causas naturais que podem produzi-las: o vento que assobia ou sacode um objecto, algo que a gente mesmo está movendo sem perceber, um efeito acústico, um animal oculto, um insecto e assim por diante, e até mesmo brincadeiras de mau gosto. Os ruídos espíritas têm, aliás, características inconfundíveis, com intensidade e timbre muito variados. São facilmente reconhecíveis e não podem ser confundidos com os estalidos da madeira, o crepitar do fogo ou o tique-taque de um relógio. São golpes secos, às vezes surdos, fracos e leves, de outras vezes claros, distintos, até mesmo barulhentos, que mudam de lugar e se repetem sem nenhuma regularidade mecânica. De todos os meios de controlo, o mais eficaz e que não deixa nenhuma dúvida quanto à origem é submetê-los à nossa vontade. Se eles se fizeram ouvir do lado que indicarmos, se responderem ao nosso pensamento dando o número que pedimos, aumentando ou diminuindo sua intensidade, não podemos negar a presença de uma causa inteligente. Mas a falta de resposta nem sempre prova o contrário.


84. Admitindo, porém, depois de minuciosa constatação, que os ruídos ou qualquer outro efeito são manifestações reais, seria racional que nos amedrontássemos? Seguramente não. Porque em caso algum oferecerão o menor perigo. Só podem ser afectadas de maneira prejudicial as pessoas que acreditam tratar-se do Diabo, como as crianças que temem o lobisomem ou o bicho-papão. Essas manifestações, em certas circunstâncias, aumentam e adquirem persistência desagradável. É necessária uma explicação a respeito, pois é natural que então se queira afastá-los.


85. Já dissemos que as manifestações físicas têm por fim chamar a nossa atenção para alguma coisa e convencer-nos da presença de um poder superior ao homem. Dissemos também que os Espíritos elevados não se ocupam dessas manifestações, servindo-se dos inferiores para produzi-las, como nos servimos de criados para serviços grosseiros, e por isso com a finalidade que acima indicamos. Atingida essa finalidade, cessa a manifestação, que não é necessária. Um ou dois exemplos tornarão a questão mais compreensível.


86. Há muitos anos, quando iniciava meus estudos de Espiritismo, trabalhando uma noite nesse assunto, ouvi golpes que soaram ao meu redor durante quatro horas seguidas. Era a primeira vez que isso me acontecia. Verifiquei que não tinham nenhuma causa acidental, mas no momento não pude saber nada mais. Nessa época eu me encontrava sempre com um excelente médium escrevente. Logo no dia seguinte perguntei ao Espírito que se comunicava por ele qual era a causa dos golpes. Respondeu-me: — Era o teu Espírito Familiar que queria falar-te. — E o que queria dizer-me? — Resposta: — Podes perguntar a ele mesmo, que está aqui. Interroguei-o e ele se deu a conhecer por um nome alegórico. (Soube, depois, por outros Espíritos, que ele pertence a uma ordem muito elevada e que desempenhou na Terra um papel importante). Indicou erros no meu trabalho, apontando as linhas em que eu os encontraria, deu-me úteis e sábios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e me atenderia quando eu quisesse interrogá-lo. Desde então, realmente, esse Espírito jamais me deixou. (2) Deu-me numerosas provas de grande superioridade e sua intervenção benévola e eficaz socorreu-me tanto nos problemas da vida material quanto nos metafísicos. Mas desde essa primeira conversa os golpes cessaram. O que desejava ele, com efeito? Estabelecer comunicação regular comigo, e para isso precisava me avisar. Dado o aviso, explica a sua razão e estabelecidas as relações regulares, os golpes não eram mais necessários. Não se toca mais o tambor para acordar os soldados, quando eles já se levantaram.


Caso quase semelhante ocorreu com um de nossos amigos. Há tempos que no seu quarto ressoavam barulhos diversos, que já se tornavam cansativos. Tendo a oportunidade de interrogar o Espírito de seu pai por um médium escrevente, soube o que dele queriam, atendeu o pedido e não ouviu mais os barulhos. Assinalemos que as pessoas que dispõem de meio regular e fácil de comunicação com os Espíritos, como se compreende, estão muito menos sujeitas a manifestações desse género.


(1) Esse mesmo processo está sendo empregado na Parapsicologia actual. Veja-se a respeito a colecta de casos espontâneos efectuada pela profa. Louise Rhine e apresentada em seu livro. Os canais ocultos da mente. (N. do T.)


(2) Tratava-se do Espírito da Verdade, como se vê pelo relato mais extenso deste fato que o leitor pode encontrar em Obras Póstumas, segunda parte, comunicação de 25 de Março de 1856, sob o título de Meu Guia Espiritual. Importante assinalar a afirmação de Kardec de que esse Espírito jamais o abandonou, o que põe por terra a teoria errónea que se lançou no meio espírita, segundo a qual esse Espírito deixou a Terra depois de escrito O Livro dos Espíritos. Pelo contrário toda a Codificação e todos os trabalhos de Kardec foram por ele orientados. (N. do T.)


87. As manifestações espontâneas nem sempre se limitam a ruídos e batidas. Degeneram às vezes em verdadeira barulheira e em perturbações. Móveis e objectos são revirados, projécteis diversos são atirados de fora, portas e janelas são abertas e fechadas por mãos invisíveis, vidraças se quebram e tudo isso não pode ser levado à conta de ilusão.
Toda essa desordem é muitas vezes real, mas algumas vezes é apenas aparente. Ouve-se gritaria num cómodo ao lado, barulho de louça que cai e se despedaça, de achas de lenha rolando no assoalho. Corre-se para ver e encontra-se tudo tranquilo e em ordem. Mas a gente se retira, porém, e o tumulto recomeça.


88. Essas manifestações não são raras nem novas. São poucas as crónicas locais que não incluem alguma história desse género. O medo, sem dúvida, frequentemente exagerou esses factos, dando-lhes proporções enormemente ridículas em sua transmissão oral. Com a ajuda das superstições, as casas em que se verificaram foram consideradas como assombradas pelo Diabo. Daí todos os contos maravilhosos ou terríveis de fantasmas. A trapaça, por sua vez, não perdeu a ocasião de explorar a credulidade, quase sempre em proveito pessoal. Compreende-se ainda a impressão que factos dessa espécie, mesmo reduzidos à realidade, podem produzir em caracteres fracos e predispostos pela educação às ideias supersticiosas. O meio mais seguro de prevenir os inconvenientes que possam acarretar, pois não se pode impedi-los, é dar a conhecer a verdade. As coisas mais simples tornam-se assustadoras quando ignoramos as causas. Havendo familiaridade com os Espíritos, e os que recebem suas comunicações não mais acreditando que se trata de demónios, o medo desaparecerá.(3)


Muitos factos autênticos desse género podem ser lidos na Revista Espírita. Entre outros, o do Espírito batedor de Bergzabern, cujas estrepolias duraram mais de oito anos (nºs. de Maio, Junho e Julho de 1858); o de Dibbelsdorp (Agosto de 1858); o do Padeiro das Grandes Vendas, próximo a Dieppe (Março de 1860); o da Rua de Noyers, em Paris (Agosto de 1860); o do Espírito de Castelnaudary , sob o título de História de Um Danado (Fevereiro de 1860); o da fabricante de São Petersburgo (Abril de 1860), e assim por diante.(4)


89. Essas manifestações frequentemente assumem o carácter de verdadeira perseguição. Conhecemos seis irmãs que moravam juntas e que, durante muitos anos, encontravam de manhã suas roupas esparramadas, às vezes escondidas no tecto, rasgadas e cortadas em pedaços, apesar das precauções que tomavam, guardando-as a chave. Tem acontecido muitas vezes que pessoas deitadas, mas perfeitamente acordadas, viram sacudir as cortinas, arrancarem-lhes violentamente as cobertas e os travesseiros, foram erguidos no ar e às vezes até mesmo atirados fora do leito. Esses factos são mais frequentes do que se pensa, mas a maioria das vítimas não os contam por medo do ridículo. Soubemos que tentaram curar algumas pessoas, por entenderem que se tratava de alucinações, submetendo-as ao tratamento dos alienados, o que as deixou realmente loucas. A Medicina não pode compreender esses factos, porque só admite causas materiais, do que resultaram negligências funestas. A História relatará um dia certos tratamentos do século XIX como hoje se relatam certos processos da Idade Média. (5)


Admitimos perfeitamente que alguns casos são obra da malícia ou da malvadez, mas quando se averiguou suficientemente que não são produzidos por ninguém, temos de convir que são, para uns, obra do Diabo, e para nós dos Espíritos. Mas de que Espíritos?


90. Os Espíritos superiores, como os homens sérios entre nós, não gostam de fazer travessuras. Muitas vezes interpelamos esses Espíritos sobre o motivo de perturbarem o sossego alheio. A maioria quer apenas divertir-se. São Espíritos antes levianos do que maus. Riem dos sustos que pregam e do trabalho que dão para descobrir a causa do tumulto. Muitas vezes apegam-se a uma pessoa e se divertem a incomodá-la por toda parte. De outras vezes se apegam a um lugar por simples capricho. Algumas vezes também se trata de uma vingança, como veremos. Em certos casos sua intenção é a mais louvável: querem chamar a atenção e estabelecer comunicação, seja para transmitir à pessoa um aviso útil, seja para fazer um pedido. Vimo-los muitas vezes pedir preces, o cumprimento de um voto que em vida não puderam realizar, e outros quererem, para o seu próprio sossego, reparar uma maldade praticada em vida. Em geral, é um erro amedrontar-se com a sua presença que pode ser importuna mas não perigosa.


(4) Nesta citação de Kardec, como em outras tantas deste livro e das demais obras de Codificação, vê-se a importância da Revista Espírita para o estudo sério e aprofundado do Espiritismo. Realmente, a Revista, na colecção redigida por Kardec, é fonte de factos e de esclarecimentos doutrinários indispensáveis ao estudioso. (N. do T.)


(5) Os casos de obsessão, de possessão e de simples perturbação por Espíritos, quando tratados como loucura, geralmente se agravam. A rede de Hospitais Espíritas hoje existentes no Brasil, com mais de vinte só no Estado de São Paulo, constitui a mais evidente prova disso. Nesses hospitais têm sido curados numerosos casos dados por incuráveis no tratamento comum. Leia-se Novos Rumos à Medicina, do Dr. Ignácio Ferreira, do Hospital Espírita de Uberaba, e no campo da experiência estrangeira, Trinta Anos Entre os Mortos, do Prof. dr. Karl Wickland, da Faculdade de Medicina de Chicago, Estados Unidos. (N. do T.)


(3) Esta afirmação de Kardec é plenamente sancionada pela Psicologia actual. Bastaria o caso do tabu sexual, cujos inconvenientes só podemos evitar pela educação nesse sentido, para provar a verdade dessa asserção. O desconhecimento do problema mediúnico, a negação sistemática da acção dos Espíritos, a ignorância do assunto, enfim, são os responsáveis pelo tabu espírita, criador de neuroses e perturbações mentais. Ao lado das superstições, que agravam as consequências das manifestações inevitáveis, temos ainda o preconceito cultural, o falso saber de pessoas que se julgam orgulhosamente detentoras, como diz Kardec, de todas as leis naturais. A divulgação teórica e prática do Espiritismo é a única maneira possível de evitar todos esses inconvenientes, familiarizando as criaturas com esse aspecto inegável da realidade. Inútil e prejudicial toda tentativa de negar os fatos ou escamoteá-los através de explicações imaginárias. (N. do T.)


Compreende-se o desejo de livrar-se deles, mas para isso geralmente se faz o contrário do que se deve. Quando se trata de Espíritos que se divertem, quanto mais se levá-los a sério, mais persistirão, como as crianças traquinas que impacientam as pessoas e assustam os medrosos. Se, pelo contrário, as pessoas também rirem com as suas peças, acabarão por se cansar e deixá-las-ão em paz. Conhecemos alguém que em vez de se irritar os excitava, os desafiava a fazer isto ou aquilo, de maneira que em alguns dias se afastaram. Mas como dissemos, há os que agem por motivos menos frívolos. Por isso é sempre útil saber o que eles desejam. Se pedem alguma coisa, é certo que cessarão suas visitas quando forem satisfeitos. O melhor meio de informação é evocá-los através de um bom médium escrevente. Pelas suas respostas, logo se verá quem são e se poderá agir convenientemente. Se for um Espírito infeliz, a caridade manda tratá-lo com as atenções que merece; se um brincalhão, podemos tratá-lo sem rodeios; se um malvado, devemos pedir a Deus que o melhore. Em todos os casos a prece só pode dar bons resultados. Mas a solenidade das fórmulas de exorcismo Lhes provoca o riso: não lhe dão nenhuma importância. Se, se puder entrar em comunicação com eles, é preciso desconfiar dos qualificativos burlescos ou assustadores que algumas vezes se dão, para se divertirem com a credulidade dos ouvintes.


Voltaremos a tratar deste assunto com mais detalhes, bem como das causas que frequentemente tornam as preces ineficazes, nos capítulos: Lugares Assombrados (IX) e Da Obsessão (XXIII).


91. Embora produzidos por Espíritos inferiores, esses fenómenos são frequentemente provocados por Espíritos de ordem mais elevada, com o objectivo de demonstrar a existência dos seres incorpóreos, dotados de poderes superiores aos humanos. A repercussão que alcançam, o próprio horror que chegam a causar, despertam a atenção para o assunto e acabam por abrir os olhos dos mais incrédulos. Estes acham mais simples considerar os fenómenos como efeitos da imaginação, explicação muito cómoda e que dispensa a busca de outras. Mas quando os objectos são revirados ou atirados à cabeça das pessoas, só uma imaginação muito complacente poderia estar em jogo para que os factos não sejam reais. Se alguma coisa acontece, tem forçosamente uma causa, e se uma fria e serena observação demonstra que esse efeito independe da vontade humana e de toda causa material, e que além disso apresenta sinais evidentes de inteligência e vontade próprias, o que é o seu traço mais característico, somos forçados a atribuí-la a uma inteligência oculta. Mas que seres misteriosos são esses? É o que os estudos espíritas nos revelam de maneira dificilmente contestável, graças aos meios que nos proporcionam de nos comunicarmos com eles.


Aliás, os estudos espíritas nos ensinam também a distinguir o que há de real, de falso ou de exagerado nos fenómenos que examinamos. Quando um efeito estranho se produz: um ruído, um movimento, ou mesmo uma aparição, o primeiro pensamento que devemos ter é o de que a sua causa é natural, porque é a mais provável. Devemos então procurar essa causa com o maior cuidado, não admitindo a intervenção dos espíritos senão quando bem averiguada. Esse o meio de evitarmos a ilusão. Aquele, por exemplo, que recebesse uma bofetada ou bordoada nas costas, sem estar perto de ninguém, como já se tem visto, não poderia duvidar da presença de um ser invisível. (6)
Devemos acautelar-nos contra os relatos que podem ser considerados muito ou pouco exagerados, e também contra as nossas próprias impressões, para não atribuirmos origem oculta a tudo quanto não pudermos explicar. Há muitas causas simples e naturais que podem produzir efeitos estranhos à primeira vista, e seria evidentemente supersticioso ver Espíritos por toda a parte, ocupados em derrubar móveis, quebrar louças, provocar todos esses distúrbios domésticos que é mais razoável atribuirmos ao descuido.


92. A explicação do movimento dos corpos inertes aplica-se naturalmente a todos os efeitos de que acabamos de tratar. Os ruídos, embora mais fortes que os golpes na mesa, têm a mesma causa; o lançamento ou deslocação de objectos são produzidos pela mesma força que levanta objectos. Há mesmo uma circunstância que serve de apoio a essa teoria. Poderíamos perguntar onde se encontra o médium, nesses casos. Os Espíritos explicaram que há sempre alguém cujas forças são usadas à sua revelia. As manifestações espontâneas raramente ocorrem em lugares isolados. É quase sempre em casas habitadas que elas se verificam, em virtude da presença de certas pessoas que exercem sem querer a sua influência. Trata-se de verdadeiros médiuns que ignoram as suas faculdades e por isso os chamamos de médiuns naturais. Estão para os outros médiuns na condição dos sonâmbulos naturais para os sonâmbulos magnéticos, e são como eles dignos de observação.


93. A intervenção voluntária ou involuntária de pessoa dotada de aptidão especial parece necessária, na maioria dos casos, para a produção desses fenómenos, embora haja aqueles em que o Espírito parece agir sozinho. Mas ainda nesses casos ele poderia tirar o fluido animalizado de uma pessoa distante. Isso explica porque os Espíritos que nos cercam incessantemente não produzem perturbações a cada instante. É necessário primeiro que o Espírito queira, que tenha um objectivo, um motivo para fazê-lo. A seguir, que encontre, precisamente no lugar em que pretende agir, uma pessoa apta a ajudá-lo, coincidência que só raramente ocorre. Se essa pessoa aparece inesperadamente, ele a aproveita. Mas apesar das circunstâncias favoráveis, ele poderia ainda ser impedido por uma vontade superior que não lhe permitisse agir como quer. Pode também só lhe ser permitido agir dentro de certos limites, nos casos em que essas manifestações sejam consideradas úteis, seja para servirem com meio de convicção ou de experiência para a pessoa que as suporta.


(6) Veja-se a História de um Danado, no volume III da Revista Espírita. Um homem, sozinho em casa, recebe uma bofetada do Espírito que mais tarde é identificado. É a casos como esse que Kardec se refere, nos quais a intervenção do Espírito não pode ser posta em dúvida. (N. do T.)
94. Citaremos a respeito a conversação suscitada pelos fatos verificados em Junho de 1860 na rua Des Noyers, em Paris. Os pormenores se encontram na Revista Espírita de Agosto de 1860.


1. (A São Luís) Terias a bondade de nos dizer se os factos que dizem ter ocorrido na rua Des Noyers são reais? Quanto à sua possibilidade não temos dúvidas.
— Sim, esses factos são verdadeiros, mas a imaginação do povo os exagerou, seja por medo ou por ironia. Entretanto, repito, são verdadeiros. Foram manifestações de um Espírito que se diverte um pouco com os moradores.


2. Há alguém, na casa, que dê motivo a essas manifestações?
— Elas são sempre provocadas pela presença de uma pessoa detestada. O Espírito perturbador se aborrece com o habitante do lugar em que ele se encontra e quer pregar-lhe algumas peças ou fazê-lo mudar-se.


3. Perguntamos se há, entre os moradores, alguém que seja a causa dos fenómenos, em virtude de mediunidade espontânea e involuntária?
— Isso é necessário, pois sem isso o facto não poderia se dar. Um Espírito mora num lugar de sua predilecção. Enquanto ali não aparece uma pessoa de que se possa servir, fica sem acção. Quando essa pessoa aparece, então ele se diverte quanto pode.


4. A presença dessa pessoa no próprio lugar é indispensável?
— É o mais comum e foi o que aconteceu no caso citado. Por isso eu disse que sem isso o facto não teria ocorrido. Mas não quis generalizar. Há casos em que a presença no local não é necessária.


5. Sendo esses Espíritos de ordem inferior, a aptidão para lhes servir de auxiliar é uma indicação desfavorável para a pessoa? Indica uma simpatia de sua parte para com os seres dessa natureza?
— Não precisamente, porque essa aptidão decorre de uma disposição física. Mas indica quase sempre uma tendência material que seria preferível não possuir, pois quanto mais elevada moralmente, mais a pessoa atrai os bons Espíritos, que necessariamente afastam os maus.


6. Onde o Espírito vai buscar os objectos que atira?
— Esses objectos são quase sempre encontrados no próprio lugar ou na vizinhança. Uma força que sai do Espírito os lança no espaço e os faz cair onde ele quer.


7. Desde que as manifestações espontâneas são muitas vezes permitidas e até mesmo provocadas com o fim de convencer, parece-nos que se alguns incrédulos fossem o seu alvo seriam forçados a render-se à evidência. Eles às vezes se queixam de não haver testemunhado factos concludentes. Não dependeria dos Espíritos dar-lhes alguma prova sensível?


— Os ateus e os materialistas não testemunham a cada instante os efeitos do poder de Deus e do pensamento? Mas isso não os impede de negar a Deus e a Alma. Os milagres de Jesus converteram todos os seus contemporâneos? Os Fariseus que lhe diziam: "Mestre, fazei-nos ver algum prodígio", não se pareciam com esses que hoje vos pedem para ver manifestações? Se não se deixam convencer pelas maravilhas da Criação, não seriam mais tocados pelo aparecimento de um Espírito, mesmo da maneira mais evidente, pois o seu orgulho os transforma em animais empacados. Não lhes faltariam ocasiões de ver, se eles as procurassem de boa fé. É por isso que Deus não julga conveniente fazer por eles mais do que não faz nem mesmo para aqueles que sinceramente buscam instruir-se, porque Ele só recompensa os homens de boa vontade. Essa incredulidade não impedirá que se cumpra a vontade de Deus. Já vistes que ela não impediu a expansão da doutrina. Não vos inquieteis, pois, com a sua oposição, que é para a doutrina como a sombra numa pintura: dá-lhe maior relevo. Que méritos teriam eles se fossem convencidos à força? Deus lhes deixa a responsabilidade da teimosia, e essa responsabilidade é mais pesada do que pensais. Felizes os que crêem sem ter visto, disse Jesus, porque eles não duvidam do poder de Deus.


8. Achas conveniente evocar esse Espírito para lhe pedirmos algumas explicações?
— Evoca-o se o quiseres, mas é um Espírito inferior, que só dará respostas de pouca significação.
95. Conversação com o Espírito perturbador da rua Des Noyers:


1. Evocação.
— Por que me chamaste? Queres, acaso, umas pedradas? Então é que se veria um belo corre-corre, apesar do teu ar de bravura!


2. Mesmo que nos desses pedradas, isso não nos assustaria. Pedimos até, se puderes, que nos dês algumas.
— Aqui talvez eu não pudesse. Tendes um guardião que vela bem por vós.


3. Na rua Des Noyers havia alguém que te servia de auxiliar nas peças que pregavas aos moradores?
— Certamente. Encontrei um bom instrumento. E não havia nenhum Espírito douto, sábio e prudente para me impedir. Porque eu sou alegre e gosto, às vezes, de me divertir.


4. Quem te serviu de instrumento?
— Uma criada.


5. Ela te auxiliava sem saber?
— Oh, sim! Pobre moça! Era a mais assustada.


6. Tinhas algum propósito hostil?
— Eu? Eu não tinha nada contra ninguém. Mas os homens que de tudo se apossam torcerão a coisa em seu proveito.


7. Que queres dizer? Não te compreendemos.
— Eu procurava me divertir, mas vós estudareis a coisa e tereis mais um facto para provar que nós existimos.


8. Dizes que não tinhas propósito hostil, mas quebrastes todas as vidraças do apartamento, causando um prejuízo real.
— Isso é um detalhe.


9. Onde encontraste os objectos que atiravas?
— São muito comuns. Achei-os no pátio e nos jardins vizinhos.


10. Achaste todos ou fabricaste alguns? (Ver o Cap. VIII).
— Eu não criei nada, nada compus.


11. Se não os encontrasses, terias podido fabricá-los?
— Teria sido mais difícil. Mas, em último caso, a gente mistura matérias e faz qualquer coisa.


12. Agora, conta-nos como os atiraste.
— Ah, isso é mais difícil de dizer! Servi-me da natureza eléctrica daquela moça, ligada à minha, que é menos material. Assim pudemos, os dois, transportar aqueles diversos materiais.


13. Penso que concordarás em nos dar algumas informações sobre a tua pessoa. Diga-nos primeiro se morreste há muito tempo.
— Faz muito tempo, há bem uns cinquenta anos.


14. Que foste em vida?
— Não era grande coisa. Catava bugigangas neste bairro e às vezes me atiravam injúrias porque eu gostava muito do licor vermelho do bom velho Noé. Eu também queria pô-los a correr.


15. Por ti mesmo e de tua plena vontade que respondeste às nossas perguntas?
— Eu tinha um instrutor.


16. Quem é esse instrutor?
— Vosso bom rei Luís.


Nota - Esta pergunta foi feita por causa da natureza de algumas respostas que pareciam além da capacidade do Espírito, tanto pelas ideias quanto pela forma da linguagem. Nada demais que ele tenha sido ajudado por um Espírito mais esclarecido, que queria aproveitar a ocasião para nos instruir. Esse é o facto comum. Mas uma particularidade notável deste caso é que a influência do outro Espírito se fez presente na própria escrita. Nas respostas em que ele interferiu a escrita é mais regular e corrente; nas do trapeiro é angulosa, grossa, irregular, muitas vezes pouco legível, revelando um carácter muito diverso.(7)


17. Que fazes agora? Cuidas do futuro?
— Ainda não. Ando errante. Pensam tão pouco em mim na Terra, que ninguém ora por mim: assim não tenho ajuda e não trabalho.
Nota _ Veremos logo quanto se pode contribuir para o progresso e o alívio dos Espíritos inferiores, através da prece e dos conselhos.


18. Qual era teu nome em vida?
— Jeannet.


19. Muito bem, Jeannet, faremos preces por ti. Diga-nos se a evocação te deu prazer ou te contrariou.
— Antes prazer, porque sois boa gente, alegre viventes, embora um pouco severos. Pouco importa: me escutastes e estou contente.


(7) Nota-se o rigor das observações de Kardec nessas experiências, que provam irrefutavelmente a comunicabilidade dos espíritos. (N. do T.)


Jeannet.


referência: O livro dos médiuns

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Teoria das manifestações físicas



Teoria das Manifestações Físicas


Movimentos de Suspensão - Ruídos - Aumento e Diminuição de Peso dos Corpos


72. Demonstrada a existência dos Espíritos, pelo raciocínio e pelos factos, e a possibilidade de agirem sobre a matéria, devemos agora saber como se efectua essa operação e como eles agem para mover as mesas e outros corpos inertes.
O pensamento que naturalmente nos ocorre é aquele que tivemos. Como os Espíritos o contestaram e nos deram uma explicação inteiramente diversa, que não podíamos esperar, é evidente que sua teoria não provinha de nós. Ora, a ideia que tivemos, todos a podiam ter, como nós. Quanto à teoria dos Espíritos, não acreditamos que pudesse jamais ocorrer a alguém. Facilmente se reconhecerá quanto é superior à nossa, embora mais simples, porque oferece a solução de numerosos outros factos que não tinham uma explicação satisfatória.


73. O conhecimento da natureza dos Espíritos, de sua forma humana, das propriedades semi-materiais do perispírito, da acção mecânica que podem exercer sobre a matéria, e o facto de nas aparições as mãos fluídicas e até mesmo tangíveis pegarem objectos e os carregarem, naturalmente nos faziam crer que o Espírito se servisse das mãos para girar a mesa e que a erguesse pelos braços. Mas, nesse caso, qual a necessidade de médiuns? O Espírito não poderia agir sozinho? Porque o médium que frequentemente pousa as mãos na mesa em sentido contrário ao do movimento, ou mesmo nem chega a pousá-las, não pode evidentemente ajudar o Espírito por acção muscular. Ouçamos primeiro os Espíritos que interrogamos a respeito.


74. As respostas seguintes nos foram dadas pelo Espírito São Luís e depois confirmadas por muitos outros:
1. O fluido universal é uma emanação da Divindade?
— Não.


2. É uma criação da Divindade?
— Tudo foi criado, excepto Deus.


3. O fluido universal é o próprio elemento universal?
— Sim, é o princípio elementar de todas as coisas.


4. Tem alguma relação com o fluido eléctrico, cujos efeitos conhecemos?
— É o seu elemento.


5. Como o fluido universal se nos apresenta na sua maior simplicidade?
— Para encontrá-lo na simplicidade absoluta seria preciso remontar aos Espíritos puros. No vosso mundo ele está sempre mais ou menos modificado, para formar a matéria compacta que vos rodeia. Podeis dizer, entretanto, que ele mais se aproxima dessa simplicidade no fluido que chamais fluido magnético animal.(1)


6. Afirmou-se que o fluido universal é a fonte da vida: seria ao mesmo tempo a fonte da inteligência?
— Não; esse fluido só anima a matéria.


7. Sendo esse fluido que forma o perispírito, parece encontrar-se nele numa espécie de condensação que de certa maneira o aproxima da matéria propriamente dita?
— De certa maneira, dizeis bem, porque ele não possui todas as propriedades da matéria e a sua condensação é maior ou menor, segundo a natureza dos mundos.


8. Como um Espírito pode mover um corpo sólido?
— Combinando uma porção de fluido universal com o fluido que se desprende do médium apropriado a esses efeitos.


9. Os Espíritos erguem a mesa com a ajuda dos braços, de alguma maneira solidificados?
— Esta resposta não te dará ainda o que desejas. Quando uma mesa se move é porque o Espírito evocado tirou do fluido universal o que anima essa mesa de uma vida factícia. Assim preparada, o Espírito a atrai e a movimenta, sob a influência do seu próprio fluido, emitido pela sua vontade. Quando a massa que deseja mover é muito pesada para ele, pede a ajuda de outros Espíritos da sua mesma condição. Por sua natureza etérea, o Espírito propriamente dito não pode agir sobre a matéria grosseira sem intermediário, ou seja, sem o liame que o liga à matéria. Esse liame, que chamas perispírito, oferece a chave de todos os fenómenos espíritas materiais. Creio me haver explicado com bastante clareza para fazer-me compreender.


Observação - Chamamos a atenção para a primeira frase: "Esta resposta não te dará ainda o que desejas". O Espírito compreendera perfeitamente que todas as questões anteriores só tinham por fim chegar a essa. E se refere ao nosso pensamento, que esperava, com efeito, outra resposta, que confirmasse a nossa ideia sobre a maneira porque o Espírito movimenta as mesas.


(1) As teorias científicas actuais, no campo da Fisiologia e da Psicologia, tentam negar a existência do fluido magnético. A palavra fluido tornou-se uma heresia científica. Mas o Espiritismo a conserva e já agora estamos vendo a sua volta ao campo científico sob outras formas, como na teoria física de campo, na dos electrões livres e assim por diante. (N. do T.)


10. Os Espíritos que ele chama para ajudá-lo são inferiores a ele? Estão sob as suas ordens?
— Quase sempre são seus iguais e acodem espontaneamente.


11. Todos os Espíritos podem produzir esses fenómenos?
— Os Espíritos que produzem esses efeitos são sempre inferiores, ainda não suficientemente livres das influências materiais.


12. Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupem dessas coisas, mas perguntamos se sendo mais desmaterializados, teriam o poder de fazê-lo, se o quisessem?
— Eles possuem a força moral, como os outros possuem a força física. Quando necessitam desta última, servem-se dos que a possuem. Já não dissemos que eles se servem dos Espíritos inferiores como vós dos carregadores?


Observação - A densidade do perispírito, se assim se pode dizer, varia de acordo com a natureza dos mundos, como já foi ensinado. (O Livro dos Espíritos, nº 94 e 187). Parece variar também no mesmo mundo, segundo os indivíduos. Nos Espíritos moralmente adiantados ele é mais subtil e se aproxima do perispírito das entidades elevadas; nos Espíritos inferiores aproxima-se da matéria e é isso que determina a persistência das ilusões da vida terrena nas entidades de baixa categoria, que pensam e agem como se ainda estivessem na vida física, tendo os mesmos desejos e quase poderíamos dizer a mesma sensualidade. Essa densidade maior do perispírito, estabelecendo maior afinidade com a matéria, torna os Espíritos inferiores mais aptos para as manifestações físicas. É por essa razão que um homem refinado, habituado aos trabalhos intelectuais, de corpo frágil e delicado, não pode erguer pesados fardos como um carregador. A matéria de seu corpo é de alguma maneira menos compacta, os órgãos são menos resistentes, o fluido nervoso menos intenso. O perispírito é para o Espírito o que o corpo é para o homem. Sua densidade está na razão da inferioridade do Espírito. Essa densidade, portanto, substitui nele a força muscular, dando-lhe maior poder sobre os fluidos necessários às manifestações dos que o possuem os de natureza mais etérea. Se um Espírito elevado quer produzir esses efeitos, faz o que fazem entre nós os homens refinados: incumbe disso um Espírito carregador.(2)


13. Se bem compreendemos o que disseste, o princípio vital provém do fluido universal. O Espírito tira desse fluido o envoltório semi-material do seu perispírito, e é por meio desse fluido que ele age sobre a matéria inerte. É isso?
— Sim, quer dizer que ele anima a matéria de uma vida factícia, artificial: a matéria se impregna de vida animal. A mesa que se move sob as vossas mãos vive como animal e obedece por si mesma ao ser inteligente. Não é o Espírito que a empurra com se fosse um fardo. Quando ela se eleva, não é o Espírito que a ergue com os braços: é a mesa animada que obedece à impulsão dada pelo Espírito.


14. Qual o papel do médium nesse fenómeno?
— Eu já disse que o fluido próprio do médium se combina com o fluido universal do Espírito. É necessária a união de ambos, do fluido animalizado e do fluido universal, para dar vida à mesa. Mas não se deve esquecer que essa vida é apenas momentânea, extinguindo-se com a mesma acção, e muitas vezes antes que a acção termine, quando a quantidade de fluido já não é mais suficiente para animar a mesa.(3)


15. O Espírito pode agir sem o concurso do médium?
— Pode agir à revelia do médium. Isso quer dizer que muitas pessoas ajudam os Espíritos na realização de certos fenómenos, sem o saberem. O Espírito tira dessas pessoas, como de uma fonte, o fluido animal de que necessita. É dessa maneira que o concurso de um médium, como o entendes, nem sempre é necessário, o que acontece sobretudo nos fenómenos espontâneos.


16. A mesa animada age com inteligência? Pensa?
— É como o bastão com que fazes um sinal inteligente a alguém. Não pensa, mas a vitalidade de que está animado lhe permite obedecer ao impulso de uma inteligência. É bom saber que a mesa em movimento não se torna Espírito e não tem pensamento nem vontade.(4)


Observação - Servimo-nos frequentemente de uma expressão semelhante na linguagem usual: de uma roda que gira com velocidade dizemos que está animada de um movimento rápido.


17. Qual a causa preponderante na produção deste fenómeno: o Espírito ou o fluido?
— O Espírito é a causa e o fluido é o seu instrumento; ambos são necessários.


(2) Esta referência de Kardec à densidade do perispírito dos encarnados em nosso mundo mostra o sentido progressivo da Codificação. O problema do perispírito em O Livro dos Espíritos limitou-se mais à evolução nos diferentes mundos, embora se possa deduzir de várias passagens o aspecto aqui acentuado. E o que podemos ver no próprio comentário de Kardec à pergunta 182 do L.E., ou no comentário final à pergunta 196, acentuando que o perispírito se purifica à medida que o Espírito se aperfeiçoa. Aqui, porém, Kardec trata especificamente do assunto e se refere também à evolução do corpo material. (N. do T.)


(3) Isto explica as interrupções inesperadas de comunicações. A falta de fluido faz a mesa cessar de mover-se, como se o Espírito comunicante se houvesse ausentado. (N. do T.)


(4) O bastão, como apêndice da mão, é animado ficticiamente por esta. Lançado ao chão, não tem vida, não dá mais qualquer sinal inteligente. No mundo espiritual os objectos são de outra natureza. A mão pode pegar um bastão e movimentá-lo, mas o pensamento não pode fazer assim. Misturando o fluido animal do médium com o fluido universal do Espírito, temos um pouco da natureza humana e um pouco da espiritual, formando um elemento intermediário. Impregnada a mesa com esse elemento, o fluido material se liga à madeira e o fluido espiritual fica ligado ao pensamento do Espírito. Essa, ao que parece, a mecânica da levitação e essa a natureza do ectoplasma. Os parapsicólogos Wathely Carington e G. S. Soal, em sessão realizada na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, obtiveram o fenómeno de voz direta, com levitação do megafone. A comunicação foi interrompida em meio, sem que eles pudessem explicar o motivo. Como vemos nestas explicações, deve ter sido a falta de fluido ectoplásmico.(N.doT.)

18. Qual o papel da vontade do médium?
— Chamar os Espíritos e ajudá-los a impulsionar os fluidos.


18a. É indispensável a vontade do médium?
— Ela aumenta a potência, mas nem sempre é necessária, desde que pode haver o movimento, malgrado ou contra a vontade do médium, o que é uma prova da existência de uma causa independente.


Observação - Nem sempre é necessário o contacto das mãos para mover um objecto. Ele basta, quase sempre, para dar o primeiro impulso. Iniciado o movimento, o objecto pode obedecer à vontade sem contacto material. Isso depende da potência mediúnica ou da natureza dos Espíritos. Aliás, o primeiro contacto nem sempre é necessário: temos a prova disso nos movimentos e deslocamentos espontâneos, que ninguém pensou em provocar.


19. Por que motivo não podem todos produzir o mesmo efeito e todos os médiuns não têm a mesma potência?
— Isso depende do organismo e da maior ou menor facilidade na combinação dos fluidos, e ainda da maior ou menor simpatia do médium com os Espíritos que nele encontram a potência fluídico necessária. Esta potência, como a dos magnetizadores, é maior ou menor. Encontramos, nesse caso, pessoas inteiramente refractárias, outras em que a combinação só se verifica pelo esforço da sua própria vontade, e outras, enfim, em que ela se dá tão natural e facilmente que nem a percebem, servindo de instrumentos sem o saberem, como já dissemos. (Ver a seguir, o Cap. sobre as Manifestações Físicas Espontâneas.)


Observação - O magnetismo é, não há dúvida, o princípio desses fenómenos, mas não como geralmente se pensa. Temos a prova disso na existência de poderosos magnetizadores que não movimentam uma mesinha de centro, e de pessoas que não sabem magnetizar, até mesmo crianças, que bastam pousar os dedos numa mesa pesada para que ela se agite. Logo, se a potência mediúnica não depende da magnética, é que tem outra causa.(5)


20. As pessoas ditas eléctricas podem ser consideradas médiuns?
— Essas pessoas tiram de si mesmas o fluido necessário à produção dos fenómenos e podem agir sem auxílio dos Espíritos. Não são propriamente médiuns, no sentido exacto da palavra. Mas pode ser também que um Espírito as assista e aproveite as suas disposições naturais.(6)


21. Ao mover os corpos sólidos, os Espíritos penetram na substância dos mesmos ou permanecem fora dela?
— Fazem uma coisa e outra. Já dissemos que a matéria não é obstáculo para os Espíritos, que tudo penetram. Uma porção do seu perispírito se identifica, por assim dizer, com o objecto em que penetra.(7)


22. Como o Espírito bate? Com um objecto material?
— Não, como não usa os braços para erguer a mesa. Sabes que ele não dispõe de martelos. Seu martelo é o fluido combinado que ele põe em acção, pela sua vontade, para mover ou bater. Quando move, a luz vos transmite a visão do movimento; quando bate, o ar vos transmite o som.
23. Concebemos isso quando se trata de um corpo duro. Mas, como pode nos fazer ouvir ruídos ou sons através do ar?
— Desde que age sobre a matéria, pode agir tanto sobre o ar como sobre a mesa. Quanto aos sons articulados, pode imitá-los como a todos os demais ruídos.


(5) Ver o nº 131, Cap. VIII da II Parte, e o subtítulo Médiuns Curadores, do Cap. XIV, sobre Os Médiuns. (N. do T.)


(6) Ainda hoje se tenta negar a mediunidade alegando a existência dessas pessoas. Como se vê, o Espiritismo distingue perfeitamente a acção pessoal ou anímica dessas criaturas da acção impessoal dos médiuns. A sra. Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica, era uma dessas pessoas e quis negar a acção mediúnica nos fenómenos físicos, em virtude da sua capacidade de produzi-los. O animismo, como demonstrou Ernesto Bozzano (ver Animismo ou Espiritismo) e como hoje admite o parapsicólogo Rhine (ver O Novo Mundo da Mente) prova a existência do Espírito no homem ou de um elemento não físico, que supera as condições orgânicas. (N. do T .)
Observação - Essas pessoas seriam como os sonâmbulos, que podem agir com ou sem o auxílio dos Espíritos. (Ver no Cap. XIV, Os Médiuns, a parte relativa aos sonâmbulos.)


(7) Da mesma maneira que nossa mão penetra num tubo para erguê-lo ou pega numa vara para sacudi-la. Não esquecer que o perispírito é o corpo espiritual. O Espírito faz aí uma comparação para dar-nos a explicação possível. (N. do T.)


Observação - Compreende-se, assim, que os Espíritos podem fazer tudo quanto fazemos, mas pelos meios correspondentes ao seu organismo. Algumas forças que lhes são próprias substituem os nossos músculos, da mesma maneira que a mímica substitui, nos mudos, a palavra que lhes falta.


24. Dizes que o Espírito não usa as mãos para mover a mesa, mas em certas manifestações apareceram mãos a dedilhar teclados, movimentando as teclas e produzindo sons. Não pareceria, nesse caso, que as teclas eram movimentadas pelos dedos? E a pressão dos dedos não é também directa e real, quando a sentimos em nós mesmos, quando essas mãos deixam marcas na pele?
— Não poderias compreender a natureza dos Espíritos e sua maneira de agir por meio dessas comparações, que dão apenas uma ideia incompleta. É um erro querer sempre assemelhar às vossas, as maneiras deles procederem. Os processos dos Espíritos devem estar sempre em relação com a sua organização. Já não dissemos que o fluido do perispírito penetra na matéria e se identifica com ela, dando-lhe uma vida factícia? Pois bem, quando o Espírito movimenta as teclas com os dedos ele o faz realmente. Mas não é pela força muscular que faz a pressão. Ele anima a tecla, como faz com a mesa, e a tecla obedece à sua vontade e vibra a corda. Neste caso também ocorre um facto de difícil compreensão para vós. É que certos Espíritos são ainda tão atrasados e de tal forma materiais, em comparação com os Espíritos elevados, que conservam as ilusões da vida terrena e julgam agir como quando estavam no corpo. Não percebem a verdadeira causa dos efeitos que produzem, como um pobre homem não compreende a teoria dos sons que pronuncia. Se perguntares como tocam o piano, dirão que com os dedos, pois assim crêem fazer. Produzem o efeito de maneira instintiva, sem o saberem, e não obstante pela sua vontade. Quando falam e se fazem ouvir, é a mesma coisa.


25. Entre os fenómenos citados como provas da acção de uma potência oculta, há os que são evidentemente contrários a todas as leis conhecidas da Natureza. A dúvida, então, não parece justa?
— Acontece que o homem está longe de conhecer todas as leis da Natureza; se as conhecesse, seria Espírito superior. Cada dia, entretanto, oferece um desmentido aos que tudo pensam saber, pretendendo impor limites à Natureza, e nem por isso eles se mostram menos orgulhosos. Desvendando incessantemente novos mistérios, Deus adverte ao homem que deve desconfiar das suas próprias luzes, pois chegará um dia em que a ciência do mais sábio será confundida. Não vê todos os dias o exemplo de corpos dotados de movimento capazes de superar a força de gravitação? A bala de um canhão não supera momentaneamente essa força? "Pobres homens que vos considerais tão sábios, cuja tola vaidade é a todo instante confundida, sabei que sois ainda muito pequeninos!"


75. Essas explicações são claras, categóricas, sem ambiguidades. Delas ressalta o ponto capital de que o fluido universal, que encerra o princípio da vida, é o agente principal das manifestações, e que esse agente recebe seu impulso do Espírito, quer seja encarnado ou errante. O fluido condensado constitui o perispírito ou invólucro semi-material do Espírito.(8) Na encarnação, o perispírito está ligado à matéria do corpo; na erraticidade está livre. Quando o Espírito está encarnado, a substância do perispírito está mais ou menos fundida com a matéria corpórea, mais ou menos colada a ela, se assim podemos dizer.(9) Em algumas pessoas há uma espécie de emanação desse fluido, em consequência de condições especiais de sua organização, e é disso, propriamente falando, que resultam os médiuns de efeitos físicos. A emissão do fluido animalizado pode ser mais ou menos abundante e sua combinação mais ou menos fácil, e daí os médiuns mais ou menos possantes. Mas essa emissão não é permanente, o que explica a intermitência da força.(10)


76. Façamos uma comparação. Quando queremos atingir alguma coisa situada à distância de nós, é pelo pensamento que o tentamos, mas o pensamento sozinho não poderia realizar o nosso intento. Precisamos de um instrumento que o pensamento dirigirá: um bastão, um projéctil, um assopro, etc. Note-se ainda que o pensamento não age directamente sobre o bastão, que precisamos pegar. A inteligência, que é o próprio Espírito encarnado em nosso corpo, está unida ao corpo pelo perispírito e não pode agir sobre o corpo sem perispírito, da mesma maneira que não pode agir sobre o bastão sem o corpo. Assim: ela age sobre o perispírito, que é a substância com que tem mais afinidade, o perispírito age sobre os músculos, estes fazem a mão pegar o bastão e o bastão atinge o alvo. Quando o Espírito não está encarnado necessita de um instrumento que não pertence ao seu organismo: esse instrumento é o fluido, com o auxílio do qual torna o objecto apropriado a realizar o impulso da sua vontade.


(8) A teoria da condensação do fluido foi posta em ridículo por muitas pessoas, e ainda hoje o é. Mas convém assinalar que essa teoria é precisamente a da física atómica de hoje, para explicar a formação da matéria, que se dá pela condensação da energia. (N. do T.)


(9) Preferimos as palavras fundida e colada, em substituição às palavras ligada e aderente, usadas literalmente em várias traduções, porque aquelas nos parecem corresponder melhor, em nossa língua, ao sentido real do texto.


77. Quando, pois, um objecto é movido, erguido ou atirado no ar, o Espírito não o pegou, não o ergueu nem o atirou como nós o fazemos com as mãos. Ele o saturou, por assim dizer, como o seu fluido, combinado com o do médium. O objecto, assim momentaneamente vivificado, age como um ser vivo, com a diferença de não ter vontade própria e obedecer ao impulso da vontade do Espírito.
Assim, o fluido vital, dirigido pelo Espírito, dá uma vida artificial e momentânea aos corpos inertes. Sendo o perispírito formado por esse fluido, segue-se que o Espírito encarnado, por meio do seu perispírito, é quem dá vida ao corpo, mantendo-se unido a ele enquanto o organismo o permite. Quando ele se retira, o corpo morre. Então, se em lugar de uma mesa fizéssemos uma estátua de madeira, teríamos, sob a acção mediúnica, uma estátua que se moveria e daria pancadas, respondendo às nossas perguntas. Numa palavra: teríamos uma estátua animada por uma vida artificial. E como se diz mesas falantes, também se poderia dizer estátuas falantes. Quanta luz lança esta teoria sobre uma infinidade de fenómenos até agora inexplicáveis! Quantas alegorias e efeitos misteriosos vem explicar!(11)


78. Os incrédulos objectam, apesar de tudo, que o levantamento das mesas sem apoio é impossível, por contrariar a lei da gravitação. Responderemos, primeiro, que a negação não é uma prova; depois, que existindo o facto, estranhamente contrário a todas as leis conhecidas, isso apenas provaria que ele se apoia em alguma lei desconhecida, pois os negadores não podem ter a pretensão de conhecer todas as leis da Natureza. Explicamos essa lei, mas isso não basta para que eles a aceitem, pois a explicação é dada por Espíritos que deixaram as vestes terrenas, em lugar daqueles que ainda as têm e envergam o fardão da Academia. Dessa maneira, se o Espírito de Arago, em vida, lhes tivesse dado essa lei, eles a aceitariam de olhos fechados, mas dada pelo mesmo Espírito, depois da morte, é apenas uma utopia. E isso por quê? Porque a morte de Arago é para eles absoluta. Não temos a pretensão de dissuadi-los disso, mas como esta objecção poderia embaraçar algumas pessoas, tentaremos respondê-las do seu mesmo ponto de vista, ou seja, fazendo abstracção, por um instante, da teoria da animação factícia.


79. Quando se faz o vácuo na campânula da máquina pneumática é impossível erguê-la, tal a força de adesão que lhe dá a pressão do ar sobre ela. Deixando-se entrar o ar, a campânula se eleva com a maior facilidade, porque o ar debaixo contrabalança o de cima. Entretanto, abandonada a si mesma, permanecerá no prato em virtude da lei da gravitação. Comprima-se, porém, o ar interior, dando-lhe uma densidade maior que o de cima, e a campânula se levantará apesar da gravitação. Se a corrente de ar for rápida e violenta, ela poderá manter-se no espaço sem nenhum apoio visível, como os bonecos que giram sobre os jactos de um repuxo. Por que, pois, o fluido universal, que é o elemento básico de toda a matéria, acumulando-se em torno da mesa, não teria a propriedade de aumentar ou diminuir o seu peso específico relativo, como faz o ar com a campânula, o hidrogénio com os balões, sem que fique derrogada a lei da gravitação? Conheceis todas as propriedades e toda a força desse fluido? Não. E então? Como negar um facto que não podeis explicar?


80. Voltemos à teoria do movimento da mesa. Se um Espírito pode erguer uma mesa pelo meio indicado, pode erguer qualquer outra coisa: uma poltrona, por exemplo. E se pode erguer esta poderá também erguê-la com uma pessoa sentada, havendo força suficiente. Eis, pois, a explicação desse fenómeno, cem vezes produzido pelo sr. Home, consigo mesmo e com outras pessoas. Ele o repetiu durante uma viagem recente a Londres e, para provar que os assistentes não eram vítimas de uma ilusão de ótica, fez no teto um sinal a lápis e deixou que passassem por baixo dele. Sabe-se que o sr. Home é um potente médium de efeitos físicos. Nesse caso, ele era a causa eficiente e o objecto.(12)


81. Tratamos há pouco do possível aumento de peso. É um fenómeno que às vezes se produz e não tem nada de mais anormal do que a prodigiosa resistência da campânula sob a pressão da coluna atmosférica. Sob a influência de certos médiuns, objectos muito leves têm oferecido a mesma resistência, cedendo de repente ao menor esforço. Na experiência da campânula, ela realmente não pesa mais nem menos que o seu peso normal, mas parece mais pesada por efeito da causa exterior que a pressiona. O mesmo provavelmente, acontece com a mesa. Ela tem sempre o seu peso natural, pois a sua massa não foi aumentada, mas uma força exterior se opõe ao seu movimento, e essa causa pode estar nos fluidos ambientes que a penetram, como a da campânula está na pressão atmosférica. Faça-se a experiência da campânula diante de um homem ignorante: não compreendendo que o agente é o ar, que ele não vê, será fácil persuadi-lo que se trata do Diabo.


Talvez se diga que o fluido, sendo imponderável, sua acumulação não poderá aumentar o peso de um objecto. De acordo. Mas é preciso notar que só nos servimos da palavra acumulação com finalidade comparativa e não para identificação do fluido com o ar. Ele é imponderável, seja; mas a verdade é que nada o prova, sua natureza íntima nos é desconhecida e estamos longe de conhecer todas as suas propriedades. Antes de conhecer o peso do ar, ninguém podia suspeitar dos efeitos desse peso. A electricidade é também classificada entre os fluidos imponderáveis. No entanto, um corpo pode ser fixado por uma corrente eléctrica e resistir fortemente a quem pretender erguê-lo. Aparentemente, portanto, torna-se mais pesado. Do facto de não se ver o suporte, seria ilógico concluir que ele não existe. O Espírito pode, pois, ter alavancas que desconhecemos. A Natureza nos prova diariamente que o seu poder não se limita ao testemunho dos nossos sentidos.
Não se pode explicar senão por uma causa semelhante o estranho fenómeno, de que há tantos exemplos, de um jovem débil e delicado erguer com dois dedos, sem esforço e como uma pena, um homem forte e robusto com a cadeira em que se assenta. E as intermitências da faculdade provam que a sua causa é estranha à pessoa que a possui.(13)


(10) Esta teoria da emanação e da emissão do fluido animalizado ou fluido perispirítico do médium, e de sua combinação mais ou menos fácil com o fluido universal do Espírito, para a produção dos fenómenos de efeitos físicos e consequentemente de materializações, exige atenção do leitor, para bem compreender o desenvolvimento dos fenómenos. A última frase é de grande importância para explicar as intermitências das funções mediúnicas, cuja causa é muitas vezes orgânica e se costuma atribuir a motivos morais. (N. do T.)


(11) As estátuas falantes de Kardec não são uma hipótese fantástica, bastando lembrar-se as materializações em miniatura, os megafones das experiências de voz directa, as ideoplastias falantes das experiências de moda, na Itália, além do fenómeno clássico das mesas. O sr. A. P. Sinnet, teósofo de renome, relata em seu livro Incidentes da Vida da Sra. Blavatsky o facto curioso de um lustre, de cristal, em forma de aranha, do Palácio do Metropolita de Moscovo, que se desprendeu do teto e andou no ar, como se fosse vivo, numa visita de Blavatsky ao prelado. (N. do T.)


(12) Daniel Dunglas Home, famoso médium inglês que realizava especialmente fenómenos de levitação e foi estudado pelo físico sir William Crookes. A causa eficiente é uma das causas da classificação de Aristóteles e corresponde à que se relaciona directamente com o efeito, produzindo-o. No caso, Home era a causa eficiente, porque produzia o fenómeno, e era o objecto porque estava levitado. (N. do T.)


(13) A faculdade mediúnica está sujeita a intermitências e variações que mostram a sua independência da vontade pessoal do médium. Essa independência poderia ser determinada por condições orgânicas ou psíquicas, como Kardec já acentuou, mas acusam também, em muitas ocasiões, a participação ou não de inteligências estranhas ao médium, sem as quais ele não consegue a produção dos fenómenos de maneira satisfatória. É o que se verá na sequência deste livro. (N. do T.)


Referência :O livro dos médiuns

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Manifestações inteligentes



Manifestações Inteligentes


65. Nada certamente nos revela, nesses factos que acabamos de examinar, a intervenção de uma potência oculta. Esses efeitos poderiam ser perfeitamente explicados pela possível acção de uma corrente eléctrica ou magnética ou pela de um fluido qualquer. Foi essa, com efeito, a primeira solução proposta para esses fenómenos, e que realmente podia passar por muito lógica. E ela teria sem dúvida prevalecido, se outros factos não viessem demonstrar a sua insuficiência. Esses novos factos consistem na prova de inteligência dada pelos fenómenos. Ora, como todo efeito inteligente deve ter uma causa inteligente, tornou-se evidente que, mesmo admitindo-se a acção da electricidade ou de qualquer outro fluido, havia a presença de outra causa. Qual seria? Qual era essa inteligência? Foi o que o prosseguimento das observações revelou.


66. Para que uma manifestação seja inteligente, não precisa ser convincente, espiritual ou sábia. Basta ser um acto livre e voluntário, revelando uma intenção ou correspondendo a um pensamento. Quando vemos um papagaio de papel agitar-se, sabemos que apenas obedece a um impulso do vento; mas se reconhecêssemos nos seus movimentos sinais intencionais, se girasse para a direita ou a esquerda, rápida ou lentamente, obedecendo às nossas ordens, teríamos de admitir, não que o papagaio tenha inteligência, mas que obedece a uma inteligência. Foi o que aconteceu com a mesa.


67. Vimos a mesa mover-se, elevar-se, dar pancadas sob a influência de um ou de vários médiuns. O primeiro efeito inteligente que se observou foi precisamente o de obediência às ordens dadas. Sem mudar de lugar, a mesa se erguia sobre os pés que lhes eram indicados. Depois, ao abaixar-se, dava um determinado número de pancadas para responder a uma pergunta. De outras vezes, sem o contacto de ninguém, a mesa passeava sozinha pelo aposento, avançando para a direita ou a esquerda, para a frente ou para trás e executando diversos movimentos que os assistentes ordenavam. É claro que afastamos qualquer suspeita de fraude, aceitando a perfeita lealdade dos assistentes, atestada por sua honorabilidade e absoluto desinteresse. Trataremos logo mais das fraudes contra as quais é prudente prevenir-se.(1)


68. Por meio de pancada, e principalmente dos estalidos no interior da madeira, de que já tratamos, obtêm-se efeitos ainda mais inteligentes, como a imitação do rufar dos tambores, da fuzilaria de descarga por fila ou de pelotão, de canhoneiros, e também a do ruído de uma serra, das batidas de um martelo, dos ritmos de diversas músicas, etc. Todo um vasto campo, portanto, aberto à investigação. Observou-se que, se havia uma inteligência oculta, ela podia responder a perguntas. E realmente ela respondeu, por sim ou por não, segundo o número de pancadas convencionado. Sendo essas respostas de pouca significação, lembrou-se de estabelecer um sistema de pancadas correspondentes às letras do alfabeto, para a formação de palavras e de frases.


69. Repetidos à vontade por milhares de pessoas, em todos os países, esses factos não podiam deixar dúvidas sobre a natureza inteligente das manifestações. Foi então que surgiu um novo sistema de interpretação, atribuindo a inteligência manifestante ao próprio médium, ao interrogante e mesmo aos assistentes. A dificuldade estava em explicar de que maneira essa inteligência podia reflectir-se na mesa e traduzir-se por meio de pancadas. Verificando-se que os golpes não eram dados pelo médium, deviam ser dados pelo pensamento. Mas o pensamento dando pancadas seria um fenómeno ainda mais prodigioso do que todos os que se haviam observado.
A experiência não tardou a demonstrar que essa opinião era inadmissível. Com efeito, as respostas se mostravam muito frequentemente em completa oposição ao pensamento dos assistentes fora do alcance intelectual do médium e até mesmo em idiomas ignorados por ele ou relatando factos desconhecidos de todos. São tão numerosos esses exemplos, que é quase impossível alguém se haver ocupado de comunicações espíritas sem os ter muitas vezes testemunhado. Citaremos apenas um, que nos foi relatado por uma testemunha ocular.


70. Num navio da Marinha Imperial Francesa, nos mares da China, toda a equipagem, dos marinheiros até o comando, ocupava-se das mesas falantes. Resolveram evocar o Espírito de um tenente do mesmo navio, morto há dois anos. Ele atendeu, e após diversas comunicações que espantaram a todos, disse o seguinte por meio de pancadas: "Peço-vos insistentemente que paguem ao capitão a soma de... (indicou a quantia) que lhe devo e que lamento não ter podido pagar antes de morrer". Ninguém sabia do facto. O próprio capitão se havia esquecido da dívida, que aliás era mínima. Mas, verificando nas suas contas, encontrou o registro da dívida do tenente, na exacta importância indicada. Perguntamos: do pensamento de quem essa indicação podia ter sido reflectida?(2)


71. Aperfeiçoou-se essa arte de comunicação pelo sistema alfabético de pancadas, mas o meio era sempre muito moroso. Não obstante, obtiveram-se algumas de certa extensão, assim como interessantes revelações sobre o Mundo dos Espíritos. Desse meio surgiram outros, e assim se chegou ao de comunicações escritas.
As primeiras comunicações desse género foram obtidas por meio de uma pequena e leve mesa a que se adaptava um lápis, colocando-a sobre uma folha de papel. Movimentada sob a influência do médium, essa mesinha começou traçando algumas letras, e depois escreveu palavras e frases. Esse processo foi gradualmente simplificado com a utilização de mesas ainda menores, feitas especialmente, do tamanho da mão, a seguir de cestinhas, de caixas de papelão, e por fim de simples pranchetas.(3)


A escrita era tão fluente, rápida e fácil como a manual, mas reconheceu-se mais tarde que todos esses objectos serviam apenas de apêndices da mão, verdadeiros porta-lápis, que podiam ser dispensados. De facto, a própria mão do médium, impulsionada de maneira involuntária, escrevia sob a influência do Espírito, sem o concurso da vontade ou do pensamento daquele. Desde então as comunicações de além-túmulo não têm mais dificuldades do que a correspondência habitual entre os vivos.
Voltaremos a tratar desses diferentes meios, para explicá-los com detalhes. Fizemos um rápido esboço para mostrar a sucessão dos factos que levaram à constatação da interferência, nesses fenómenos, de inteligências ocultas, ou seja, dos Espíritos.


(1) O problema das fraudes, que tanta celeuma provoca ainda hoje, decorre apenas da falta de observação criteriosa do processo de desenvolvimento dos fenómenos. Numa sessão preparada segundo as indicações de Kardec e realizada por pessoas sérias, os próprios resultados demonstram a impossibilidade de fraudes e ilusões. (N. do T.)


(2) O problema do inconsciente deu margem no passado, e continua a dá-la ainda hoje, a numerosas hipóteses fantásticas sobre a possibilidade de serem telepáticas essas transmissões. Mas os factos são mais complicados do que o citado acima e essas hipóteses não abrangem a todos. As pesquisas parapsicológicas actuais, longe de beneficiarem essas hipóteses fantásticas, como querem os adversários do Espiritismo, vêm confirmando progressivamente a explicação espírita. O estudante deve precaver-se contra os explicadores tendenciosos e prosseguir seriamente o estudo para obter respostas mais positivas. (N. do T.)


(3) Esse desenvolvimento gradual do processo de psicografia representa um dos episódios mais significativos da Ciência Espírita, mostrando a naturalidade do fenómeno. A prancheta, como se vê não é mais do que uma miniatura da mesa-girante, conservando-se assim a forma do instrumento primitivo através da evolução para a escrita manual. O aparecimento da cesta e da caixa de papelão assinala o momento de transição dos meios materiais para o meio psíquico. Aliás, o fenómeno da psicografia é reconhecido pela Psicologia como escrita automática, estudado principalmente por Pierre Janet. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Manifestações físicas e mesas girantes



Manifestações Físicas e Mesas Girantes


60. Chamam-se manifestações físicas as que se traduzem por efeitos sensíveis, como os ruídos, o movimento e a deslocação de corpos sólidos. Umas são espontâneas, independentes da vontade humana, e outras podem ser provocadas. Trataremos inicialmente apenas das últimas.
O efeito mais simples, e um dos primeiros a serem observados, foi o do movimento circular numa mesa. Esse efeito se produz igualmente em qualquer outro objecto. Mas sendo a mesa o mais empregado, por ser o mais cómodo, o nome de mesas girantes prevaleceu na designação desta espécie de fenómenos.
Quando dizemos que este efeito foi um dos primeiros a serem observados, referimo-nos aos últimos tempos, pois é certo que todos os géneros de manifestações são conhecidos desde os tempos mais distantes, e nem podia ser de outra maneira. Desde que são efeitos naturais, teriam de produzir-se em todas as épocas. Tertuliano refere-se de maneira clara às mesas girantes e falantes.(1)
Este fenómeno entreteve durante algum tempo a curiosidade dos salões, que depois se cansaram e passaram a outras distracções, porque servia apenas nesse sentido. Dois foram os motivos do abandono das mesas girantes: para os frívolos, a moda, que raramente Lhes permite o mesmo divertimento em dois Invernos, e que prodigiosamente lhe dedicaram três ou quatro! Para as pessoas sérias e observadoras foi um motivo sério: abandonaram as mesas girantes para ocupar-se das consequências muito mais importantes que delas resultavam. Deixaram o aprendizado do alfabeto pela Ciência, eis todo o segredo desse aparente abandono, de que fazem tanto barulho os zombadores.
Seja como for, as mesas girantes não deixam de ser o ponto de partida da Doutrina Espírita e por isso devemos tratá-las com maior desenvolvimento. E tanto mais quanto apresentando esses fenómenos na sua simplicidade, o estudo das causas será mais fácil e a teoria, uma vez estabelecida, nos dará a chave dos efeitos mais complicados.


61. Para a produção do fenómeno é necessária a participação de uma ou muitas pessoas dotadas de aptidão especial e designadas pelo nome de médiuns. O número dos participantes é indiferente, a menos que entre eles se encontrem alguns médiuns ainda ignorados. Quanto às pessoas cuja mediunidade é nula, sua presença não dá qualquer resultado, podendo mesmo ser mais prejudicial do que útil, pela disposição de espírito com que frequentemente se apresentam.(2)
Os médiuns gozam de maior ou menor poder na produção dos fenómenos, produzindo efeitos mais ou menos pronunciados. Um médium possante quase sempre produz muito mais do que vinte outros reunidos, bastando pôr as mãos na mesa para que ela no mesmo instante se movimente, se eleve, revire, salte ou gire com violência.


62. Não há nenhum indício da faculdade mediúnica e somente a experiência pode revelá-la. Quando se quer fazer uma experiência, numa reunião, basta simplesmente sentar-se em torno de uma mesa e colocar as mãos espalmadas sobre ela, sem pressão nem contenção muscular. No princípio, como as causas do fenómeno eram ignoradas, indicavam-se numerosas precauções, depois reconhecidas como inúteis. Por exemplo: a alternância de sexos, o contacto dos dedos mínimos das pessoas para formar uma cadeia ininterrupta. Esta última precaução parecia necessária porque se acreditava na acção de uma espécie de corrente eléctrica, mas a experiência mostrou a sua inutilidade. A única prescrição realmente obrigatória é a do recolhimento, do silêncio absoluto, e sobretudo a paciência, quando o efeito demora. Pode acontecer que ele se produza em alguns minutos, como pode tardar meia hora ou uma hora. Isso depende da capacidade mediúnica dos participantes.


63. Acrescentamos que a forma da mesa, o material de que é feita, a presença de metais, da seda nas vestes dos assistentes, os dias, as horas, a obscuridade, a luz, etc., são tão indiferentes como a chuva e o bom tempo. Só o peso da mesa pode ter alguma importância, mas apenas nos casos em que a potência mediúnica não seja suficiente para movê-la. Noutros casos, basta uma pessoa, até mesmo uma criança, para erguer uma mesa de cem quilos, enquanto em condições menos favoráveis doze pessoas não fariam mover-se uma mesinha de centro.(3)
Assim preparada a experiência, quando o efeito começa a produzir-se é muito frequente ouvir-se um pequeno estalo na mesa, sente-se um estremecimento como prelúdio do movimento, a mesa parece lutar para se desamarrar, depois o movimento de rotação se inicia e se acelera a tal ponto que os assistentes se vêem em apuros para segui-lo. Desencadeado assim o movimento, pode-se mesmo deixar a mesa livre que ela continua a mover-se sem contacto em várias direcções.
De outras vezes a mesa se ergue e se firma, ora num pé, ora noutro, e depois retoma suavemente sua posição natural. De outras, ainda, ela se balança para a frente e para trás e de um lado para outro, imitando o balanço de um navio. E de outras, por fim, mas sendo necessária para isso considerável potência mediúnica, ela se levanta inteiramente do soalho e se mantém em equilíbrio no espaço, sem qualquer apoio, chegando mesmo em certas ocasiões até o forro, de maneira que se pode passar por baixo; a seguir desce lentamente, balançando-se no ar como uma folha de papel, ou cai violentamente e se quebra. Isso prova, de maneira evidente, que não houve uma ilusão de óptica.


64. Outro fenómeno que se produz com muita frequência, conforme a natureza do médium, é o das pancadas no cerne da madeira, no seu interior, sem provocar qualquer movimento da mesa. Esses golpes, que às vezes são bem fracos e outros muito fortes, estendem-se a outros móveis do aposento, às portas, às paredes e ao forro. Voltaremos logo a este caso. Quando se produzem na mesa, provocam uma vibração que se percebe muito bem pelos dedos e que se torna sobretudo muito distinta se aplicarmos o ouvido contra a mesa.


(1) Tertuliano, famoso doutor da Igreja, nascido em Cartago, considerado grande apologista mas que acabou caindo em heresia, depois de havê-las condenado ardentemente. Viveu entre 160 a 240 da nossa época. (N. do T.)


(2) A observação de Kardec sobre as pessoas "cuja mediunidade é nula" se explica pela referência final à "disposição de Espírito" com que participam. Mesmo pessoas sem essa mediunidade específica, mas sinceras e convictas, podem participar de experiências, como adiante se verá. O que torna as pessoas negativas são as vibrações negativas do seu pensamento, que afectam prejudicialmente a reunião. (N. do T.)


(3) A expressão francesa é guéridon, que corresponde a uma mesinha antiga de centro, redonda, com um perna central única e três pés na ponta. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

Acção dos espiritos sobre a matéria



Acção dos Espíritos Sobre a Matéria


52. Excluída a interpretação materialista, ao mesmo tempo rejeitada pela razão e pelos factos, resta apenas saber se a alma, após a morte, pode manifestar-se aos vivos. Assim reduzida à sua mais simples expressão, torna-se a questão bastante fácil. Poderíamos perguntar, primeiro, por que motivo os seres inteligentes, que de alguma maneira vivem entre nós, embora naturalmente invisíveis, não poderiam demonstrar-nos a sua presença por algum meio? O simples raciocínio mostra que isto nada tem de impossível, o que já é alguma coisa. Essa crença, aliás, tem a seu favor a aceitação de todos os povos, pois a encontramos em toda parte e em todas as épocas. Ora, uma intuição não poderia ser tão generalizada, nem sobreviver através dos tempos, sem ter alguma razão. Ela é ainda sancionada pelo testemunho dos livros sagrados e dos Pais da Igreja, e foi necessário o cepticismo e o materialismo do nosso século para relegá-la ao campo das superstições. Se estamos, pois, em erro, essas autoridades também estão.
Mas estas são apenas considerações lógicas. Uma causa, acima de tudo, contribui para fortalecer a dúvida, numa época tão positiva como a nossa, em que tudo se quer conhecer, onde se quer saber o porquê e o como de todas as coisas: a ignorância da natureza dos Espíritos e dos meios pelos quais podem manifestar-se. Conquistado esse conhecimento, o facto das manifestações nada apresenta de surpreendente e entra na ordem dos factos naturais.


53. A ideia que geralmente se faz dos Espíritos torna a princípio incompreensível o fenómeno das manifestações. Elas não podem ocorrer sem a acção do Espírito sobre a matéria. Por isso, os que consideram o Espírito completamente desprovido de matéria perguntam, com aparente razão, como pode ele agir materialmente. E nisso precisamente está o erro. Porque o Espírito não é uma abstracção, mas um ser definido, limitado e circunscrito. O Espírito encarnado é a alma do corpo; quando o deixa pela morte, não sai desprovido de qualquer envoltório. Todos eles nos dizem que conservam a forma humana e, com efeito, quando nos aparecem, é sob essa forma que os reconhecemos.


Observamo-los atentamente no momento em que acabavam de deixar a vida. Acham-se perturbados; tudo para eles é confuso; vêem o próprio corpo perfeito ou mutilado, segundo o género de morte; por outro lado, vêem a si mesmo e se sentem vivos. Alguma coisa Lhes diz que aquele corpo Lhes pertencia e não compreendem como possam estar separados. Continuam a se ver em sua forma anterior, e essa visão provoca em alguns, durante certo tempo, uma estranha ilusão: julgam-se ainda vivos. Falta-lhes a experiência desse novo estado para se convencerem da realidade. Dissipando-se esse primeiro momento de perturbação, o corpo Lhes aparece como velha roupa de que se despiram e que não querem mais. Sentem-se mais leves e como livres de um fardo. Não sofrem mais as dores físicas e são felizes de poderem elevar-se e transpor o espaço, como faziam muitas vezes em vida nos seus sonhos.(1) Ao mesmo tempo, apesar da falta do corpo constatam a inteireza da personalidade: têm uma forma que não os constrange nem os embaraça e têm a consciência do eu, da individualidade. Que devemos concluir disso? Que a alma não deixa tudo no túmulo mas leva com ela alguma coisa.


54. Numerosas observações e factos irrecusáveis, de que trataremos mais tarde, demonstraram a existência no homem de três componentes: 1º) a alma ou Espírito, princípio inteligente em que se encontra o senso moral; 2º) o corpo, invólucro material e grosseiro de que é revestido temporariamente para o cumprimento de alguns desígnios providenciais; 3º) o perispírito, invólucro fluídico, semi- material, que serve de liame entre a alma e o corpo.
A morte é a destruição, ou melhor, a desagregação do envoltório grosseiro que a alma abandona. O outro envoltório desprende-se e vai com a alma, que dessa maneira tem sempre um instrumento. Este último, embora fluídico, etéreo, vaporoso, invisível, para nós em seu estado normal, é também material, apesar de não termos, até o presente, podido captá-lo e submetê-lo à análise.
Este segundo envoltório da alma ou perispírito existe, portanto, na própria vida corpórea. É o intermediário de todas as sensações que o Espírito percebe, e através do qual o Espírito transmite a sua vontade ao exterior, agindo sobre os órgãos do corpo. Para nos servirmos de uma comparação material, é o fio eléctrico condutor que serve para a recepção e a transmissão do pensamento. É, enfim, esse agente misterioso, inapreensível, chamado fluido nervoso, que desempenha tão importante papel na economia orgânica e que ainda não se considera suficientemente nos fenómenos fisiológicos e patológicos. A Medicina, considerando apenas o elemento material ponderável, priva-se do conhecimento de uma causa permanente de acção, na apreciação dos factos. Mas não é aqui o lugar de examinar essa questão; lembraremos somente que o conhecimento do perispírito é a chave de uma infinidade de problemas até agora inexplicáveis.(2)


O perispírito não é uma dessas hipóteses a que se recorre nas ciências para explicação de um facto. Sua existência não foi somente revelada pelos Espíritos, pois resulta também de observações, como teremos ocasião de demonstrar. Por agora, e para não antecipar questões que teremos de tratar, nos limitaremos a dizer que, seja durante a sua união com o corpo ou após a separação, a alma jamais se separa do seu perispírito.


(1) Quem se reportar ao que dissemos em O Livro dos Espíritos sobre os sonhos e o estado do Espírito durante o sono (n.º 400 a 418), compreenderá que os sonhos que quase todos têm, vendo-se transportados através do espaço e como que voando, são a lembrança da sensação do Espírito durante o seu desprendimento do corpo, levando o corpo fluídico, o mesmo que conservará após a morte. Esses sonhos podem pois nos dar a ideia do estado do Espírito quando se desembaraçar dos entraves que o retêm na Terra. (Nota de Kardec).
(2) O desenvolvimento da Psicoterapeuta, e mais recentemente da Medicina psicossomática, confirmam o acerto de Kardec nesta observação. (N. do T.)


55. Já se disse que o Espírito é uma chama, uma centelha.(3) Isto se aplica ao Espírito propriamente dito, como princípio intelectual e moral, ao qual não saberíamos dar uma forma determinada. Mas, em qualquer de seus graus, ele está sempre revestido de um invólucro ou perispírito, cuja natureza se eteriza à medida que ele se purifica e se eleva na hierarquia. Dessa maneira, a ideia de forma é para nós inseparável da ideia de Espírito, a ponto de não concebermos este sem aquela. O perispírito, portanto, faz parte integrante do espírito, como o corpo faz parte integrante do homem. Mas o perispírito sozinho não é o homem, pois o perispírito não pensa. Ele é para o Espírito o que o corpo é para o Homem: o agente ou instrumento de sua actividade.


56. A forma do perispírito é a forma humana, e quando ele nos aparece é geralmente a mesma sob a qual conhecemos o espírito na vida física. Poderíamos crer, por isso, que o perispírito, desligado de todas as partes do corpo, se modela de alguma maneira sobre ele e lhe conserva a forma. Mas não parece ser assim. A forma humana, com algumas diferenças de detalhes e as modificações orgânicas exigidas pelo meio em que o ser tem de viver, é a mesma em todos os globos. É pelo menos, o que dizem os Espíritos. E é também a forma de todos os Espíritos não encarnados, que só possuem o perispírito. A mesma sob a qual em todos os tempos foram representados os anjos ou Espíritos puros. De onde devemos concluir que a forma humana é a forma típica de todos os seres humanos, em qualquer grau a que pertençam. Mas a matéria subtil do perispírito não tem a persistência e a rigidez da matéria compacta do corpo. Ela é, se assim podemos dizer, flexível e expansível. Por isso, a forma que ela toma, mesmo que decalcada do corpo, não é absoluta. Ela se molda à vontade do espírito, que pode lhe dar a aparência que quiser, enquanto o invólucro material lhe ofereceria uma resistência invencível.
Desembaraçado do corpo que o comprimia, o perispírito se distende ou se contrai, se transforma, em uma palavra: presta-se a todas as modificações, segundo a vontade que o dirige. É graças a essa propriedade do seu invólucro fluídico que o Espírito pode fazer-se reconhecer, quando necessário, tomando exactamente a aparência que tinha na vida física, e até mesmo com os defeitos que possam servir de sinais para o reconhecimento.
Os Espíritos, portanto, são seres semelhantes a nós, formando ao nosso redor toda uma população que é invisível no seu estado normal. E dizemos no estado normal porque, como veremos, essa invisibilidade não é absoluta.


57. Voltemos a tratar da natureza do perispírito, que é essencial para a explicação que devemos dar. Dissemos que, embora fluídico, ele se constitui de uma espécie de matéria, e isso resulta dos casos de aparições tangíveis, aos quais voltaremos. Sob a influência de certos médiuns, verificou-se a aparição de mãos, com todas as propriedades das mãos vivas, dotadas de calor, podendo ser apalpadas, oferecendo a resistência dos corpos sólidos, e que de repente se esvaneciam como sombras. A acção inteligente dessas mãos, que evidentemente obedecem a uma vontade ao executar certos movimentos, até mesmo ao tocar músicas num instrumento, prova que elas são parte visível de um ser inteligente invisível. Sua tangibilidade, sua temperatura, a impressão sensorial que produzem, chegando mesmo a deixar marcas na pele, a dar pancadas dolorosas, a acariciar delicadamente, provam que são materialmente constituídas. Sua desaparição instantânea prova, entretanto, que essa matéria é extremamente subtil e se comporta como algumas substâncias que podem, alternativamente, passar do estado sólido ao fluídico e vice-versa.


58. A natureza íntima do Espírito propriamente dito, ou seja, do ser pensante, é para nós inteiramente desconhecida. Ele se revela a nós pelos seus actos, e esses actos só podem tocar os nossos sentidos por um intermediário material. O Espírito precisa, pois, de matéria, para agir sobre a matéria. Seu instrumento directo é o perispírito, como o do homem é o corpo. O perispírito, como acabamos de ver, constitui-se de matéria. Vem a seguir o fluido universal, agente intermediário, espécie de veículo sobre o qual ele age como nós agimos sobre o ar para obter certos efeitos através da dilatação, da compressão, da propulsão ou das vibrações.
Assim considerada, a acção do Espírito sobre a matéria é fácil de admitir-se. Compreende-se então que os efeitos pertencem à ordem dos factos naturais e nada têm de maravilhoso. Só pareciam sobrenaturais porque sua causa era desconhecida. Desde que a conhecemos, o maravilhoso desaparece, pois a causa se encontra inteiramente nas propriedades semi-materiais do perispírito. Trata-se de uma nova ordem de coisas, que novas leis vêm explicar. Dentro em pouco ninguém mais se espantará com esses factos, como ninguém hoje se espanta de poder comunicar-se à distância, em apenas alguns minutos, por meio da electricidade.


59. Talvez se pergunte como pode o Espírito, com a ajuda de uma matéria tão subtil, agir sobre corpos pesados e compactos, erguer mesas etc. Certamente não será um homem de ciências que fará essa objecção, porque, sem falar das propriedades desconhecidas que esse novo agente pode ter, não vimos com os próprios olhos exemplos semelhantes? Não é nos gases mais rarefeitos, nos fluidos imponderáveis, que a indústria encontra as mais poderosas forças motrizes? Quando vemos o ar derrubar edifícios, o vapor arrastar massas enormes, a pólvora gaseificada elevar rochedos, a electricidade despedaçar árvores e perfurar muralhas, que há de estranho em admitir que o Espírito, servindo-se do perispírito, possa erguer uma mesa, sobretudo quando se sabe que esse perispírito pode tornar-se visível, tangível e comportar-se como um corpo sólido?
(3) O Livro dos Espíritos, nº 88. Respondendo a uma pergunta de Kardec sobre a forma dos Espíritos, os seus instrutores espirituais disseram: "Eles são, se o quiserdes, uma chama, um clarão ou uma centelha etérea." (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns