terça-feira, 24 de julho de 2007

Utilidade das evocações vulgares



Utilidades das Evocações Vulgares


281. As comunicações dos Espíritos superiores ou dos que animaram grandes personagens da Antiguidade são valiosas por seus elevados ensinamentos. Esses Espíritos atingiram um grau de perfeição que lhes permite abranger mais amplo círculo de ideias, desvendar mistérios que ultrapassam as possibilidades humanas e iniciar-nos assim, melhor do que outros, em certas questões. Mas isso não quer dizer que as comunicações dos Espíritos de ordem menos elevada sejam inúteis, pois o observador pode instruir-se com elas. Para conhecer os costumes de um povo é necessário estudá-lo em todas as suas camadas. Quem apenas o observar num dos seus aspectos mal o conhece. A história de um povo não é a dos seus reis ou dos seus expoentes sociais. Para julgá-lo é necessário pesquisar a sua vida íntima, os seus hábitos particulares. Ora, os Espíritos superiores são os expoentes do mundo espírita, sua própria elevação coloca-os de tal maneira acima de nós que nos assombramos com a distância que os separam de nós.


Os Espíritos mais burgueses (que nos relevem esta expressão) nos tornam mais palpáveis às condições de sua nova existência. A ligação entre a vida corpórea e a vida espírita é neles mais estreita e podemos compreendê-la melhor, porque nos toca mais de perto. Aprendendo por eles mesmos o processo de sua transformação, como pensam e o que experimentam os homens de todas as condições e de todos os caracteres, os homens de bem e os viciosos, os grandes e os pequenos, os felizes e os infelizes do nosso próprio século, numa palavra: os que viveram entre nós, que vimos e conhecemos, cuja vida real pudemos conhecer com suas virtudes e seus erros, compreendemos melhor suas alegrias e seus sofrimentos, partilhamos de umas e de outros e tiramos de ambos o ensino moral. Este ensino é tanto mais proveitoso quanto mais íntimas forem as ligações entre eles e nós. É mais fácil nos colocarmos no lugar daquele que foi nosso igual do que de outro que apenas vemos através da miragem de uma glória celestial. Os Espíritos vulgares nos mostram o resultado prático das grandes e sublimes verdades de que os Espíritos superiores nos dão à teoria. Aliás, no estudo de uma ciência nada é inútil. Newton descobriu a lei das forças universais no mais simples fenómeno.(10)


A evocação dos Espíritos vulgares tem ainda a vantagem de nos pôr em relação com os Espíritos sofredores, aos quais podemos aliviar e cujo adiantamento podemos facilitar com bons conselhos. Assim, podemos ser úteis ao mesmo tempo em que nos instruímos. Há egoísmo em só procurar a própria satisfação nas relações com os Espíritos. Aquele que deixa de estender a mão aos desgraçados dá prova de orgulho. De que lhe serve obter belas comunicações de Espíritos elevados, se isso não o torna melhor, mais caridoso e mais benevolente para os seus irmãos deste e do outro mundo? Que seria dos pobres doentes se os médicos se recusassem a lhes tocar as chagas?(11)


282. Perguntas sobre as evocações:


1. Pode alguém evocar os Espíritos sem ser médium?
— Todos podem evocar os Espíritos. Se os evocados não puderem manifestar-se materialmente, nem por isso deixam de se aproximar e ouvir o evocador.
2. O Espírito evocado atende sempre ao chamado?
— Isso depende das suas condições, porque há circunstâncias em que não pode fazê-lo.
3. Quais as causas que podem impedi-lo?
— Primeiro, a sua própria vontade; depois, o seu estado corpóreo, se estiver encarnado, as missões de que estiver encarregado, ou ainda a falta de permissão para tanto, que lhe pode ser negada. Há também Espíritos que não podem jamais comunicar-se. São os que ainda pertencem, por sua natureza, a mundos inferiores à Terra. Os que se encontram em globos de punição também não podem comunicar-se, a menos que tenham permissão superior, só concedida em caso de utilidade geral. Para que um Espírito possa comunicar-se é necessário que tenha atingido o grau de evolução do mundo em que é chamado, pois do contrário será estranho à cultura desse mundo e não disporá de meios de comparação para exprimir-se. Não se dá o mesmo com os que são enviados em missão ou expiação aos mundos inferiores, pois esses possuem a cultura necessária para responder.


(10) Este tópico deixa bem clara a posição científica do Espiritismo e revela também a sua posição existencial no tratamento do problema do Ser. A actualidade científica e filosófica da Doutrina nele se comprovam. A busca do objectivo, do que se pode tocar e portanto provar, daquilo que está ao nosso alcance e por isso mesmo nos instrui como nessa observação da nova existência dos Espíritos burgueses, é o que mais interessa ao pesquisador espírita verdadeiro, menos interessado em formular teorias do que em descobrir leis. Essa é uma das diferenças fundamentais entre o Espiritismo e as demais correntes espiritualistas. (N. do T.)
(11) O humanismo espírita se evidencia nesta passagem em que a pesquisa se transforma em meio de ajuda mútua. Os Espíritos não são apenas objecto de curiosidade ou de estudo, mas irmãos em humanidade aos quais podemos ajudar, ao mesmo tempo em que nos ajudamos com as lições do seu exemplo. Espíritos e encarnados se conjugam na batalha consciente do aperfeiçoamento humano. (N. do T.)
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4. Por quais motivos pode ser negada a um Espírito a permissão de se comunicar?
— Pode ser uma prova ou uma punição para ele ou para quem o chama.
5. Como os Espíritos, dispersos no espaço ou em diversos mundos, podem ouvir as evocações que lhes são dirigidas de todos os pontos do Universo?
— Frequentemente são prevenidos pelos Espíritos familiares que vos cercam e que vão procurá-los. Mas ocorre nesse caso um fenómeno que é difícil de vos explicar, porque ainda não podeis compreender, o modo de transmissão do pensamento entre os Espíritos. O que posso dizer é que o Espírito evocado, por mais distante que esteja, recebe por assim dizer o impulso do pensamento como uma espécie de choque eléctrico, que chama a sua atenção para o lado de onde vem o pensamento a ele endereçado. Podemos dizer que ele entende o pensamento, como na Terra entendeis a voz.


— O fluido universal é o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som?
— Sim, com a diferença de que o som só pode ser ouvido num raio muito limitado, enquanto o pensamento atinge o infinito. O Espírito no espaço é como o viajante que, no meio de vasta planície, ouvindo subitamente o seu nome se dirige para o lado de onde o chamam.(12)
6. Sabemos que as distâncias nada são para os Espíritos, mas nos admiramos de ver que respondem, às vezes, tão prontamente ao chamado como se estivessem bem próximos.
— É que, às vezes realmente estão. Se a evocação foi premeditada, o Espírito recebeu o aviso com antecedência e frequentemente se encontra no lugar antes que o chamem.
7. Conforme as circunstâncias, o pensamento do evocador será ouvido com maior ou menor facilidade?
— Sem qualquer dúvida. O Espírito chamado com um pensamento de simpatia e benevolência é mais vivamente tocado. É como se reconhecesse uma voz amiga. Sem isso, acontece muitas vezes que a evocação não avança. O pensamento desferido pela evocação toca o Espírito, mas se é mal dirigido se perde no vácuo. Isso acontece também com os homens: se quem os chama não interessa ou lhes é antipático, eles podem ouvi-lo, mas na maioria das vezes não o atendem.


(12) A comunicação do pensamento à distância está hoje provada pelos próprios métodos das chamadas ciências positivas (ou materiais) graças às pesquisas e experiências parapsicológicas. Bastou um século de progresso científico para que este problema se tornasse mais acessível à compreensão dos homens. O pensamento não conhece limites no espaço e no tempo, o que dá plena validade científica a esse princípio espírita. (N. do T.)


8. O Espírito evocado se manifesta voluntariamente ou é constrangido a isso?
— Ele obedece à vontade de Deus, o que quer dizer à lei geral que rege o Universo. Não obstante, constrangido não é o termo certo, porque ele julga se é conveniente atender e ainda nisso dispõe do livre-arbítrio. O Espírito superior atende sempre que o chamam com uma finalidade útil. Só se recusa a responder a reuniões de pessoas pouco sérias e que tratam disso por divertimento.
9. O Espírito evocado pode negar-se a atender?
— Perfeitamente. Onde estaria, sem isso, o seu livre-arbítrio? Achais que todos os seres do Universo estão às vossas ordens? E vós mesmos, acaso vos considerais obrigados a responder a todos os que pronunciam o vosso nome? Mas quando assim o digo, refiro-me ao chamado do evocador. Porque um Espírito inferior pode ser constrangido, por um superior, a se manifestar.(13)
10. O evocador dispõe de algum meio para constranger o Espírito a atendê-lo?
— Nenhum, se o Espírito é igual ou superior a ele em moralidade, — digo em moralidade e não em inteligência, — porque então não tem nenhuma autoridade. Se for inferior, poderá fazê-lo para o seu próprio bem, porque então outros Espíritos o ajudarão. (Ver nº 279).


(13) O poder do Espírito superior se exerce em benefício do inferior, obrigando-o a se manifestar para o seu próprio bem. O livre-arbítrio é condicionado pela evolução. Quanto mais elevado o Espírito, maior a sua liberdade. É o mesmo que vemos na Terra: os criminosos estão sujeitos a restrições da liberdade que não devem atingir os homens de bem. Nas sessões de desobsessão os Espíritos inferiores são frequentemente obrigados a se manifestarem, para o seu próprio bem e em favor de suas vítimas. (N. do T.)
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11. Será inconveniente evocar Espíritos inferiores e será de temer que eles dominem o evocador?
— Eles só dominam os que se deixam dominar. Quem for assistido por Espíritos bons nada tem a temer, porque se impõe aos Espíritos inferiores e não estes a ele. Os médiuns quando sós, principalmente quando iniciantes, devem evitar essa espécie de evocações. (Ver nº 278)
12. Há algumas disposições especiais para as evocações?
— A disposição principal é a do recolhimento, quando se deseja a comunicação de Espíritos sérios. Com fé e o desejo do bem há maior capacidade para se evocar Espíritos superiores. Ao elevar a alma por alguns instantes de recolhimento, no momento da evocação, a gente se identifica com os Espíritos bons e os dispõe a se manifestarem.
13. A fé é necessária para as evocações?
— A fé em Deus, sim. Quanto ao mais, a fé se desenvolverá com o desejo do bem e a intenção de instruir-se.
14. Reunidos pela unidade de pensamentos e intenções os homens se tornam mais fortes para evocar os Espíritos?
— Quando todos se reúnem pela caridade e para o bem, conseguem grandes coisas. Nada é mais nocivo para o êxito das evocações do que a divergência de pensamentos.
15. É útil o hábito de formar corrente, dando-se as mãos por alguns minutos no começo das reuniões?
— A corrente é um meio material que não produz a união entre vós se ela não existir nos pensamentos. Mais eficaz que essas coisas é a união num pensamento comum, apelando cada qual para os Espíritos bons. Não sabeis o que se poderia obter numa reunião séria, da qual se houvesse afastado todo sentimento de orgulho e de personalismo, reinando um perfeito sentimento de mútua cordialidade.
16. É preferível fazer as evocações em dias e horas determinados?
— Sim, e se possível no mesmo local. Os Espíritos então comparecem mais à vontade. A vossa constância ajuda os Espíritos a virem comunicar- se convosco. Eles têm as suas ocupações, que não podem deixar de repente para vossa satisfação pessoal. Quando digo no mesmo local não me refiro a uma obrigação absoluta, pois os Espíritos vão a toda parte. Quero dizer que é preferível um local consagrado às reuniões, porque o recolhimento se torna mais perfeito.
17. Certos objectos, como medalhas e talismãs, têm a propriedade de atrair ou repelir os Espíritos, como pretendem algumas pessoas?
— Pergunta inútil, pois sabeis que a matéria não exerce nenhuma acção sobre os Espíritos. Ficai certos de que jamais um Espírito bom aconselha semelhantes absurdos. A virtude dos talismãs, de qualquer natureza, só existe na imaginação das criaturas supersticiosas.
18. Que pensar dos Espíritos que marcam encontros em lugares lúgubres em horas inconvenientes?
— São Espíritos que se divertem com os que lhes dão ouvidos. É sempre inútil e frequentemente perigoso ceder a essas sugestões. Inútil, porque nada absolutamente se ganha além de ser mistificado; perigoso, não pelo mal que os Espíritos possam fazer, mas pela influência que isso pode exercer nos cérebros fracos.
19. Há dias e horas mais propícias para as evocações?
— Para os Espíritos isso é completamente indiferente, como tudo o que é material, e seria supersticioso acreditar na influência dos dias e das horas. Os momentos mais propícios são aqueles em que o evocador esteja menos absorvido pelas suas preocupações habituais, em que o seu corpo e o seu espírito estejam mais calmos.
20. A evocação é agradável ou penosa para os Espíritos? Eles atendem de boa vontade quando os chamamos?
— Isso depende do seu carácter e do motivo porque o chamam. Quando o objectivo é louvável e o meio é simpático, a evocação se torna agradável e mesmo atractiva. Os Espíritos se sentem sempre felizes com os testemunhos de afeição. Há os que consideram uma grande felicidade poder comunicar- se com os homens e sofrem com o esquecimento destes. Mas, como já disse, isso também depende do seu carácter. Entre os Espíritos existem também os misantropos que não gostam de ser incomodados, cujas respostas se ressentem do seu mau humor, sobretudo quando chamados por criaturas que lhes são indiferentes, pelas quais não se interessam. Um Espírito não tem, muitas vezes, nenhum motivo para atender o apelo de um desconhecido que lhe é indiferente e que age quase sempre movido pela curiosidade. Nesse caso, se ele atende é geralmente em rápidas passagens, a menos que exista um objectivo sério e instrutivo na evocação.


Observação - Vemos pessoas que só evocam seus parentes para fazer perguntas sobre as coisas mais vulgares da vida material. Por exemplo: um para saber se alugará ou venderá a sua casa; outro, para indagar do lucro que obterá com sua mercadoria, qual o lugar onde há dinheiro escondido, se tal negócio será ou não vantajoso. Nossos parentes de além-túmulo só se interessam por nós em razão da afeição que lhes conservamos. Se todos os nossos pensamentos se limitam a julgá-los feiticeiros, se só pensamos neles pedindo informações, não podem ter grande simpatia por nós e não devemos nos admirar de que nos demonstrem pouca benevolência.
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21. Há diferença entre os Espíritos bons e maus no tocante à solicitude com que atendem ao nosso chamado?
— Há, e muito grande. Os Espíritos maus só atendem de boa vontade quando esperam dominar e enganar; sentem viva contrariedade quando são forçados a se manifestar para confessar as sua faltas e procuram escapar, como o colegial que se chama para repreender. Podem ser constrangidos a manifestar-se por Espíritos superiores, como castigo e para instrução dos encarnados. A evocação é penosa para os Espíritos bons quando chamados inutilmente, por motivos fúteis. Então não atendem ou logo se retiram.
Pode-se dizer que em geral os Espíritos, sejam quais forem, não gostam de servir, como vós, de distracção para curiosos. Muitas vezes não tendes outro fim, ao evocar um Espírito, que o de ver o que ele vos dirá ou interrogá-lo sobre particularidades da sua vida que ele não se interessa por vos contar, pois não tem nenhum motivo para vos fazer de confidente. Pensais que vai se expor no banco dos réus para vos agradar? Desenganai-vos, pois o que ele não faria em vida, muito menos o fará como Espírito.
Observação - A experiência comprova que a evocação é sempre agradável para os Espíritos quando feita com um objectivo sério e útil. Os bons têm prazer em nos instruir. Os sofredores são aliviados com a simpatia que lhes demonstramos; os nossos conhecidos ficam satisfeitos com a nossa lembrança. Os Espíritos levianos gostam de ser evocados por pessoas frívolas, porque têm a oportunidade de se divertirem à sua custa; não se sentem bem na companhia de pessoas sérias.
22. Os Espíritos necessitam da evocação para se manifestarem?
— Não. Manifestam-se muito frequentemente sem ser chamados, o que prova que o fazem de boa vontade.
23. Quando um Espírito se manifesta por si mesmo podemos estar certos da sua identidade?
— De maneira alguma, pois os Espíritos mistificadores o fazem com frequência para melhor enganar.
24. Quando evocamos um Espírito pelo pensamento ele nos atende, mesmo que não haja manifestação pela escrita ou de outra maneira?
— A escrita é o meio material pelo qual o Espírito atesta a sua presença, mas é o pensamento que o atrai e não o acto de escrever.
25. Quando um Espírito inferior se manifesta podemos obrigá-lo a se retirar?
— Sim, não lhe dando ouvidos. Mas como quereis que se retire se vos divertis com as suas asneiras? Os Espíritos inferiores, como os tolos entre vós, se apegam aos que gostam de ouvi-los.
26. A evocação em nome de Deus é uma garantia contra a intromissão dos Espíritos maus?
— O nome de Deus não é um freio para todos os Espíritos perversos, mas segura muitos deles. Por esse meio sempre afastais alguns, e muitos mais afastareis se o pronunciardes do fundo do coração e não como fórmula banal.(14)
27. Poderíamos evocar nominalmente muitos Espíritos ao mesmo tempo?
— Não há para isso nenhuma dificuldade. Havendo três ou quatro mãos para escrever, três ou quatro Espíritos responderiam ao mesmo tempo. É o que acontece quando dispomos de muitos médiuns.
28. Quando muitos Espíritos são evocados de uma vez, com um médium só, qual o que responde?
— Um deles responde por todos e exprime o pensamento colectivo.
29. O mesmo Espírito poderia comunicar-se ao mesmo tempo, na mesma sessão, por dois médiuns diferentes?
— Tão facilmente como, entre vós, certos homens ditam muitas cartas de uma vez.
Observação - Vimos um Espírito responder ao mesmo tempo, por dois médiuns, às perguntas que lhe faziam, por um em francês e por outro em inglês, sendo idênticas as respostas quanto ao sentido, e algumas mesmo verdadeiras traduções literais.


(14) A palavra Deus, em si, não tem nenhum poder. A palavra é apenas um signo e sua carga emotiva está no conceito, na ideia que ela exprime e portanto no pensamento. Dizê-las em sentir o que ela representa é como articular sons sem sentido. Dizê-la com plena consciência do seu significado e sentindo-a fundamente é ligar-nos a Deus. No plano espiritual o que vale é a vibração psíquica e não a forma verbal, ou segundo Kardec, o fundo e não a forma. (N. do T.)
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Dois Espíritos evocados simultaneamente por dois médiuns podem travar uma conversação. Não necessitando dessa forma de comunicação, desde que lêem reciprocamente seus pensamentos, assim o fazem para nossa instrução. Se forem Espíritos inferiores, estando ainda imbuídos das paixões terrenas e das ideias que tiveram na vida corpórea, pode acontecer que briguem e troquem palavrões, que se acusem mutuamente e até mesmo que atirem os lápis, as cestas, as pranchetas, etc. um no outro.(15)
30. O Espírito que é evocado ao mesmo tempo em muitos lugares pode responder simultaneamente às perguntas que lhe fazem?
— Sim, se for um Espírito elevado.
— Nesse caso o Espírito se divide ou possui o dom da ubiquidade?
— O Sol é um só e no entanto irradia a sua luz por todos os lados, projectando os seus raios à distância sem se subdividir. Dá-se o mesmo com os Espíritos. O pensamento do Espírito é como uma estrela que irradia a sua claridade no horizonte e pode ser vista de todos os pontos. Quanto mais puro é o Espírito mais o seu pensamento irradia e se difunde como a luz. Os Espíritos inferiores são mais materiais, não podem responder a mais de uma pessoa de cada vez e não podem atender à nossa evocação se já foram chamados em outro lugar.
Um Espírito superior, chamado ao mesmo tempo em dois lugares, atenderá às duas evocações se elas forem igualmente sérias e fervorosas. Em caso contrário, dará preferência à mais séria.(16)
Observação - Dá-se o mesmo com o homem que, de um mesmo lugar, pode transmitir seu pensamento por meio de sinais que são visíveis de várias direcções. Numa sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em que a questão da ubiquidade estava em discussão, um Espírito ditou espontaneamente a comunicação seguinte:
"Discutíeis sobre a hierarquia dos Espíritos quanto à ubiquidade. Comparai-nos a um aeróstato que se eleva pouco a pouco no ar. Enquanto ainda rasteja na terra, só um pequeno círculo de pessoas pode vê-lo; à medida que se eleva o círculo se alarga e quando atinge certa altura é visto por uma infinidade de pessoas. O mesmo acontece connosco. Um Espírito mau, ainda apegado à terra, fica num círculo restrito de pessoas que o vêem. Eleve-se na graça, melhore-se e poderá conversar com muitas pessoas. Quando se tornar Espírito superior poderá irradiar como a luz solar, mostrar-se a muitas pessoas e em muitos lugares ao mesmo tempo. -CHANNING".
31. Os Espíritos puros, que já terminaram a série de suas encarnações, podem ser evocados?
— Sim, mas muito raramente, pois só se comunicam aos corações puros e sinceros, não aos orgulhosos e egoístas. Assim, é necessário desconfiar dos Espíritos inferiores que se arrogam essa qualidade para se fazerem mais importantes aos vossos olhos.
32. Como se explica que os Espíritos de homens mais eminentes atendam tão facilmente, e de maneira tão familiar, ao chamado dos homens mais obscuros?
— Os homens julgam os Espíritos por si mesmos, o que é errado. Após a morte corporal as posições terrenas desaparecem. A única distinção entre os Espíritos é a da bondade, e os que são bons vão a todos os lugares onde possam fazer o bem.
33. Quanto tempo depois da morte se pode evocar um Espírito?
— Pode-se evocá-lo no próprio instante da morte, mas como então ele ainda se encontra em perturbação, só imperfeitamente pode responder.


(15) A leitura recíproca do pensamento refere-se aos Espíritos mais adiantados. Os Espíritos inferiores, que brigam e se xingam, estão ainda em condições humanas. É o que se esclarece na resposta à pergunta 30. Kardec e os Espíritos que lhe revelaram a doutrina tomam sempre o Espírito de tipo médio, já liberto da materialidade grosseira, para base de suas respostas sobre a vida espírita. (N. do T.)
(16) A informação dos Espíritos sobre a irradiação do pensamento está hoje cientificamente provada pelas pesquisas parapsicológicas. No tocante à graduação do poder de irradiação, segundo a evolução espiritual, é problema referente ao mundo espírita. Não obstante, podemos verificá-lo na Terra através do alcance intelectual das criaturas, que varia de acordo com o grau evolutivo dos indivíduos na própria escala social. Assim, a imagem feita por Channing na sua comunicação corresponde a uma realidade espiritual que podemos constatar na existência terrena. (N. do T.)
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OBSERVAÇÃO - Sendo muito variável a duração da perturbação, não se pode fixar um prazo para a evocação. Não obstante, é raro que o Espírito, depois de oito dias, não esteja suficientemente consciente do seu estado para poder responder. Às vezes pode fazê-lo muito bem, dois ou três dias após a morte. É possível, em todos os casos, experimentar de maneira prudente.(17)
34. A evocação no instante da morte é mais penosa para o Espírito do que mais tarde?
— Algumas vezes. É como se vos fizessem levantar em meio do sono, sem estardes completamente acordado. Não obstante, há os que não se mostram de maneira alguma contrariados e aos quais a evocação até mesmo ajuda a saírem da perturbação.(18)
35. Como pode o Espírito de uma criança, morta em tenra idade, responder conscientemente, se quando em vida corpórea ainda não tinha consciência de si mesma?
— A alma da criança é um Espírito ainda envolto nas faixas da matéria. Mas liberto da matéria goza das suas faculdades de Espírito, porque os Espíritos não têm idade. Isso prova que o Espírito da criança já viveu. Não obstante, até que esteja completamente liberto pode conservar na linguagem alguns traços do carácter da criança.(19)


Observação — A influência corpórea, que perdura mais ou menos no Espírito da criança, às vezes também se nota no Espírito dos que morreram loucos. O Espírito em si mesmo não é louco, mas sabe-se que certos Espíritos acreditam, durante algum tempo, estar ainda neste mundo. Não é pois de admirar que o Espírito do louco ainda se ressinta dos entraves que, durante a vida, se opunham à sua livre manifestação, até que esteja completamente liberto. Esse efeito varia segundo as causas da loucura, porque há loucos que recobram toda a lucidez imediatamente após a morte.


283. Evocação de animais.


36. Pode-se evocar o Espírito de um animal?
— O princípio inteligente que animava o animal fica em estado latente após a morte. Os Espíritos encarregados desse trabalho imediatamente o utilizam para animar outros seres, através dos quais continuará o processo da sua elaboração. Assim, no mundo dos Espíritos não há Espíritos errantes de animais, mas somente Espíritos humanos. Isto responde a vossa pergunta.(20)
37. Como se explica então que certas pessoas tenham evocado animais e recebido respostas?
— Evoque um rochedo e ele responderá. Há sempre uma multidão de Espíritos prontos a falar sobre tudo.
Observação - É por essa mesma razão que se evocarmos um mito ou um personagem alegórico ele responderá. Isso quer dizer que responderão por ele. O Espírito que se apresentar em seu lugar tomará o seu aspecto e as suas maneiras. Alguém teve um dia a ideia de evocar Tartufo e ele logo se manifestou. E ainda mais, falou de Orgon, de Elmira, de Damis e Valéria, dando suas notícias. Quanto a si mesmo, imitou Tartufo com tanta arte como se ele fosse um personagem real. Disse mais tarde ser um artista que havia desempenhado o papel. Os Espíritos levianos se aproveitam sempre da inexperiência dos interrogantes, mas evitam manifestar-se aos que sabem que podem descobrir as suas imposturas e não dariam crédito às suas histórias. É o mesmo que acontece entre os homens.


(17) Nunca se faz a evocação no momento da morte. A pergunta colocou apenas uma possibilidade, que os Espíritos confirmaram. Aliás, o Espírito recém-desencarnado não atenderia se não estivesse em condições e não recebesse permissão dos Espíritos superiores. No caso de atender é porque isso lhe seria benéfico, segundo vemos na resposta à pergunta 34: ajudá-lo-ia a vencer a perturbação. (N. do T.)
(18) As evocações se processam, desde os tempos primitivos, entre todos os povos. Dessa maneira os Espíritos podem citar experiências muitas vezes ocorridas antes da prática espírita moderna. Os casos propriamente espíritas se limitaram a algumas experiências de pesquisa científica. (N. do T.)
(19) A expressão "faixas da matéria" é comparativa, lembrando a criança enfaixada após o nascimento. O Espírito da criança entra no mundo espírita envolvido pelas ligações materiais que o restringiam na condição infantil terrena. O Espírito se refere, nessa resposta, especialmente aos "traços de linguagem" porque trata nesse momento das comunicações orais e escritas (N. do T.)
(20) Espíritos errantes são os que aguardam nova encarnação terrena (humana) mesmo que já estejam bastante elevados. São errantes porque estão na erraticidade, não se tendo ainda fixado em plano superior. Os espíritos de animais, mesmo dos animais superiores, não têm essa condição. Ler na Revista Espírita, nº 7 de Julho de 1860, as comunicações do Espírito de Charlet e a crítica de Kardec a respeito. Na edição Edicel, página 218 do volume terceiro, título "Dos Animais". (N. do T.)
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Um senhor tinha em seu jardim um ninho de pintassilgos, pelos quais se interessava muito. Certo dia o ninho desapareceu. Seguro de que ninguém de sua casa cometera o delito, e sendo médium, teve a ideia de evocar a mãe dos passarinhos. Ela se comunicou e lhe disse em excelente francês: "Não acuses a ninguém e tranquiliza-te quanto à sorte dos meus filhinhos. Foi o gato que saltou e derrubou o ninho. Poderás encontrá-lo sob a relva, juntamente com os filhotes que não foram comidos." Indo verificar, encontrou tudo certo. Devemos concluir que foi a ave quem respondeu? Claro que não, mas simplesmente que um Espírito conhecia a história. Isso mostra quanto devemos desconfiar das aparências: evoca um rochedo e ele te responderá. (Ver o capítulo sobre Mediunidade nos animais, nº 234).(21)


284. Evocação de pessoas vivas.


38. A encarnação do Espírito impede de maneira absoluta a sua evocação?
— Não, mas é necessário que a condição corpórea facilite o seu desprendimento nesse momento. O Espírito encarnado atende mais facilmente quando o mundo em que se encontra é mais elevado, porque então os corpos são menos materiais.
39. Podemos evocar o Espírito de uma pessoa viva?
— Sim, desde que se pode evocar um Espírito encarnado. O Espírito de um vivo pode, também, nos seus momentos de liberdade, manifestar-se sem ser evocado. Isso depende da simpatia que tiver pelas pessoas em causa. (Ver nº 116, História do homem da tabaqueira).
40. Como se acha o corpo da pessoa cujo Espírito é evocado?
— Dorme ou cochila; é quando o Espírito está livre.
41. Poderia despertar na ausência do Espírito?
— Não; para isso, o Espírito é forçado a voltar ao corpo. Se nesse momento estiver se comunicando, ele vos deixa e frequentemente diz o motivo.
42. Como o Espírito é avisado da necessidade de voltar ao corpo?
— O Espírito de um vivo nunca está completamente separado do corpo. Por mais que se distancie, continua ligado por um laço fluídico que serve para chamá-lo quando necessário. Só com a morte se rompe esse laço.(22)
Observação - Muitas vezes esse laço fluídico é percebido pelos médiuns videntes. É uma espécie de rastro fosforescente que se perde no espaço, na direcção do corpo. Certos Espíritos disseram que reconhecem por ele os que ainda continuam no mundo corpóreo.
43. Que aconteceria se o corpo fosse mortalmente ferido durante o sono e na ausência do Espírito?
— O Espírito seria advertido e voltaria antes que a morte se consumasse.
44. Não poderia então ocorrer a morte do corpo na ausência do Espírito, e que este, ao voltar, não mais pudesse retomá-lo?
— Não, isso seria contrário à lei que rege a união da alma com o corpo.
45. Mas se fosse desferido um golpe súbito?
— O Espírito seria prevenido antes do golpe.


(21) Muitas críticas foram e ainda são feitas a Kardec por haver citado exemplos como este. Mas é necessário compreender que ele se dirigia ao povo em geral e não apenas a determinada classe de pessoas. Factos dessa natureza ocorrem com frequência entre pessoas ingénuas, mesmo as pertencentes a classes ilustradas. Uma das principais dificuldades da prática espírita está precisamente nessa ingenuidade de certas pessoas, mais numerosas do que se pensa, e a melhor maneira de adverti-las é através de exemplos concretos. (N. do T.)
(22) A ligação fluídico é de natureza vibratória e portanto energética. A expressão laço costuma sugerir um cordão material. Devemos lembrar que o perispírito é semi-material (O Livro dos Espíritos, nº 95) e compreenderemos melhor a natureza desse laço, que se poderia comparar a uma frequência de ondas nas ligações de aparelhos teleguiados. (N. do T.)
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Observação - Interrogado a respeito, o Espírito de um vivo respondeu: "Se o corpo pudesse morrer na ausência do Espírito, seria esse meio muito cómodo de se praticarem suicídios hipócritas".(23)


46. O Espírito de uma pessoa evocada durante o sono comunica-se tão livremente como o de um morto?
— Não. A matéria sempre o influencia em maior ou menor grau.
Observação - Uma pessoa interrogada nesse estado respondeu. "Estou sempre ligado à bola de ferro que arrasto comigo".
47. Nesse estado de sono o Espírito poderia ser impedido de atender por estar em outro lugar?
— Sim, pode acontecer que o Espírito se encontre num lugar em que deseja permanecer. Então não atende à evocação, sobretudo quando feita por alguém que não lhe interessa.
48. É absolutamente impossível evocar o Espírito de uma pessoa acordada?
— Embora difícil, não há impossibilidade absoluta porque, se a evocação a atingir, a pessoa pode adormecer. Mas o Espírito só pode comunicar-se, como Espírito, nos momentos em que a sua presença não for necessária à actividade inteligente do corpo.
Observação - Prova a experiência que a evocação durante o estado de vigília pode provocar o sono ou pelo menos uma abstracção aproximada ao sono. Mas esse efeito só se produz por uma vontade bastante enérgica e se houver laços de simpatia entre as duas pessoas. De outra maneira a evocação não dá resultado. Mesmo quando a evocação puder provocar sono, se o momento for inoportuno e a pessoa não quiser dormir, resistirá. Caso sucumba, seu Espírito estará perturbado com isso e dificilmente responderá. Conclui-se que o momento mais favorável à evocação de uma pessoa viva é o do sono natural, porque o Espírito estando livre pode atender ao chamado, da mesma maneira que pode ir a outro lugar. Quando a evocação é feita com o consentimento da pessoa, tentando esta dormir sob o seu efeito, pode acontecer que essa preocupação retarde o sono e perturbe o Espírito. Eis porque o sono natural é ainda o preferível.
49. A pessoa viva evocada tem consciência disso ao acordar?
— Não. Tu mesmo és evocado bem mais frequentemente do que pensas. Só o Espírito o sabe e às vezes pode dar ao homem uma vaga impressão do que houve, como a de um sonho.(24)
50. Quem nos pode evocar, se somos seres obscuros?
— Noutras existências poderias ter sido pessoa conhecida nesse mundo ou em outros, e há também os teus parentes e amigos desse e de outros mundos. Suponhamos que o teu Espírito haja animado o corpo do pai de outra pessoa. Pois bem: quando essa pessoa evocar o seu pai, é o teu Espírito que está sendo evocado e que responderá.
51. O Espírito da pessoa viva responde como Espírito ou com as ideias do seu estado de vigília?
— Isso depende de sua elevação, mas considera as coisas com mais lucidez e menos preconceitos, exactamente como os sonâmbulos. É um estado quase semelhante.


(23) As pesquisas parapsicológicas provam, actualmente que o pensamento se transmite à distância com rapidez instantânea. Se uma pessoa pensar em ferir outra que dorme, esse pensamento a atinge por antecipação. Nos casos de acidentes a percepção do próprio Espírito da vítima se verifica às vezes com grande antecedência. São os chamados fenómenos de precognição. Por outro lado, sendo a morte um desligamento vital do Espírito, o seu desprendimento total do corpo, é necessário que ele retorne à unidade psicossomática para que se processe o fenómeno biológico da morte. (N. do T.)
(24) O Espírito é a essência do homem, mas em cada encarnação se limita às condições existenciais necessárias a essa fase de sua evolução. Sua manifestação é condicionada pelas exigências da existência que está enfrentando. Daí os enigmas do psiquismo, o mistério do inconsciente, os problemas do animismo. As respostas a estas perguntas, fazendo a distinção entre o Espírito e o homem, levantam todos esses problemas que as nossas escolas psicológicas e psiquiátricas desconhecem, razão porque muitas vezes se perdem em hipóteses e teorias confusas. (N. do T.)
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52. Se o Espírito de um sonâmbulo fosse evocado durante o sono magnético seria mais lúcido que o de qualquer outra pessoa?
— Responderia mais facilmente, sem dúvida, porque estaria mais desprendido. Tudo depende do grau de independência do Espírito em relação ao corpo.
53. O Espírito de um sonâmbulo poderia responder a quem o evocasse à distância, ao mesmo tempo que respondia verbalmente a outra pessoa?
— A faculdade de se comunicar simultaneamente em dois lugares diferentes só pertence aos Espíritos completamente libertos da matéria.
54. Poderíamos modificar as ideias de uma pessoa em estado de vigília, agindo sobre o seu Espírito durante o sono?
— Sim, às vezes. Não estando o Espírito, no sono, ligado tão estreitamente à matéria, torna-se mais acessível às sugestões morais e estas podem influir sobre a sua maneira de ver no estado ordinário. Infelizmente acontece, quase sempre, que ao acordar a natureza corpórea o domina e o faz esquecer as boas resoluções que tenha podido tomar.
55. O Espírito de pessoa viva é livre de dizer ou não o que desejar?
— Ele está na posse de suas faculdades de Espírito, portanto do seu livre-arbítrio. Como dispõe de mais perspicácia, é mesmo mais cauteloso do que no seu estado de vigília.
56. Poderíamos obrigar uma pessoa evocada a dizer o que deseja calar?
— O Espírito tem o seu livre-arbítrio, como eu disse. Mas pode acontecer que, como Espírito, dê menos importância a certas coisas do que no seu estado ordinário. Sua consciência pode revelar-se mais livremente. Aliás, se não falar, pode sempre escapar às importunações indo embora, pois não se pode reter o Espírito como se retém o corpo.
57. O Espírito de pessoa viva não poderia ser constrangido por outro Espírito a se manifestar e falar, como acontece com Espíritos errantes?
— Entre os Espíritos de mortos ou de vivos só há uma supremacia, que é a da superioridade moral. Deves compreender que um Espírito superior jamais apoiaria uma indiscrição covarde.
Observação - Esse abuso de confiança seria de facto uma acção má, que entretanto não daria resultado, pois não se pode arrancar um segredo do Espírito que o deseja guardar. A menos que, dominado por um sentimento de justiça, confessasse o que em outras circunstâncias calaria. Uma pessoa quis saber por esse meio se um de seus parentes a beneficiava em seu testamento. O Espírito respondeu: "Sim, minha querida sobrinha, e logo terás a prova." Realmente era assim, mas poucos dias depois o parente desfez o seu testamento e teve a malícia de dar ciência disso à sobrinha, sem entretanto saber que havia sido evocado. Um sentimento instintivo o levou sem dúvida, a executar a resolução que o seu Espírito tomara após a pergunta que lhe fora feita. Há covardia em se perguntar ao Espírito de um morto ou de um vivo o que não se ousaria perguntar à sua pessoa, e essa covardia não tem sequer a compensação do resultado que se espera.
58. Pode-se evocar um Espírito cujo corpo ainda se encontra no seio materno?
— Não. Sabes muito bem que nessa fase o Espírito se acha em completa perturbação.
Observação - A encarnação somente se efectiva no momento em que a criança respira. Mas desde a concepção o Espírito designado é envolvido por uma perturbação que aumenta com a aproximação do nascimento e lhe tira a consciência de si mesmo. Por conseguinte ele não pode responder. (Ver O Livro dos Espíritos: Retorno à Vida Corporal e União da Alma com o Corpo, nº 344).
59. Um Espírito mistificador poderia responder pelo de uma pessoa viva que se evocasse?
— Não há dúvida e isso acontece com muita frequência, sobretudo quando a intenção do evocador não é pura. Aliás, a evocação de pessoas vivas só tem interesse como estudo psicológico. Convém não fazê-la quando não se visa a um resultado instrutivo.
Observação - Se a evocação dos Espíritos errantes nem sempre os atinge, para usarmos a sua própria expressão, isso ainda é mais frequente no tocante aos encarnados. É então, sobretudo, que os Espíritos mistificadores tomam o seu lugar.
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60. É inconveniente evocar uma pessoa viva?
— Nem sempre é livre de perigos. Depende da condição da pessoa. Se ela estiver doente podemos aumentar os seus sofrimentos.
61. Quando a evocação de um vivo pode ser mais inconveniente?
— Não devem ser evocadas as crianças de tenra idade, as pessoas gravemente doentes, os velhos enfermos. Numa palavra: ela pode ter inconvenientes sempre que o corpo esteja muito debilitado.
Observação - A brusca suspensão das faculdades intelectuais durante o estado de vigília, também poderia oferecer perigo, se a pessoa, no momento, necessitasse de toda a sua agilidade mental.
62. Durante a evocação de uma pessoa viva seu corpo se cansa por causa do trabalho do Espírito, embora ausente?
Uma pessoa evocada, afirmando que o seu corpo se cansava, respondeu assim a essa pergunta:
— Meu Espírito é como um balão amarrado a um poste; meu corpo é o poste que estremece com as sacudidelas do balão.
63. Desde que a evocação dos vivos pode ter inconvenientes, quando feita sem precaução, não há perigo também ao se evocar um Espírito que não se sabe se está encarnado e poderia não se encontrar em condições favoráveis?
— Não, as circunstâncias não são as mesmas. Ele só atenderá se estiver em condições. Aliás, eu já não disse que antes de fazer a evocação deve-se perguntar se ela é possível?
64. Quando sentimos, nos momentos mais impróprios, um sono irresistível, será por que estamos sendo evocados em algum lugar?
— Isso pode ser, sem dúvida, mas o mais frequente é tratar-se de uma exigência física, seja pela necessidade de repouso do corpo ou porque o Espírito precisa da sua liberdade.
Observação - Uma senhora nossa conhecida, médium, teve um dia a ideia de evocar o Espírito do seu neto, que dormia no mesmo quarto. Constatou-se a identidade pela linguagem, pelas expressões familiares da criança e pelo relato bastante exacto de muitas coisas que lhe haviam acontecido no internato. Mas uma circunstância ainda a confirmou. Súbito a mão da médium parou em meio de uma frase, sem que fosse possível escrever mais. Nesse momento, meio acordado, o menino agitou-se no leito. Logo mais, voltando a dormir, a mão se pôs a escrever, continuando a conversa interrompida. A evocação de vivos, feita nas condições convenientes, prova de maneira incontestável a actividade distinta do Espírito e do corpo, e por conseguinte a existência de um princípio inteligente independente da matéria. (Ver na Revista Espírita de 1860, páginas 11 e 85 da "Edicel", vários exemplos notáveis de evocação de pessoas vivas.).(25)
285. Telegrafia humana.
65. Duas pessoas, evocando-se reciprocamente, poderiam transmitir-se os seus pensamentos e corresponder-se?
— Sim, e essa telegrafia humana será um dia um meio universal de correspondência.
66. Por que não seria praticada desde agora?
— Já é por algumas pessoas, mas não por todos. É necessário que os homens se depurem para que o seu Espírito se liberte da matéria, eis ainda uma razão para que se faça a evocação em nome de Deus. Até lá, ela estará circunscrita às almas de eleição e desmaterializadas, que raramente se encontram no estado actual dos habitantes da Terra.(26)


(25) Na colecção da Revista Espírita, publicada em português pela Edicel, encontra-se toda a documentação das experiências de evocações de vivos feitas por Kardec na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Uma investigação científica rigorosa, que nada fica a dever às pesquisas actuais. (N. do T.)
(26) As modernas experiências parapsicológicas de telepatia à distância confirmam essa previsão. A tese de Rhine (Duke University) de que o pensamento não é físico, apoia a teoria espírita. E esta teoria, como se vê, considerando a telepatia como forma de comunicação mediúnica, só plenamente acessível aos Espíritos purificados, explica a razão das dificuldades actuais para obter-se segurança e regularidade nas comunicações telepáticas. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

domingo, 22 de julho de 2007

Quadro de inferno pagão



Quadro do Inferno Pagão


9 — Só conhecemos o inferno pagão através das composições dos poetas. Homero e Virgílio nos deram a definição mais completa, mas devemos considerar as exigências formais da poesia nessas descrições. A de Fenelon no Telêmaco, embora originária da mesma fonte quanto às crenças fundamentais, tem a simplicidade mais precisa da prosa. Descreve o aspecto lúgubre dos vários lugares e procura ressaltar sobretudo o género dos sofrimentos a que são submetidos os culpados, estendendo-se bastante sobre o destino dos maus reis, isso em virtude da instrução que dava ao seu aluno real.
Por mais popular que seja a sua obra, muitas pessoas não terão de memória essa descrição ou não puderam reflectir bastante sobre ela para fazer uma comparação. Eis porque julgamos útil reproduzir os trechos que apresentam relação mais directa com o nosso assunto, ou seja, aqueles que se referem especialmente às penas individuais.


10 — Entrando, Telêmaco ouve outros gemidos de uma sombra que não encontrava consolação. — Qual é, diz ele, — a vossa desgraça? O que fostes na Terra? — Eu era, — respondeu-lhe a sombra, — Nabofarzan, rei da soberba Babilónia, e todos os povos do Oriente tremiam ao simples som do meu nome. Fiz-me adorar pelos babilónios no templo de mármore onde estava representado por uma estátua de ouro, diante da qual eram queimados dia e noite os mais preciosos perfumes da Etiópia. Ninguém jamais ousou me contradizer sem ter sido imediatamente punido. Eu inventava cada dia novos prazeres para tornar minha vida mais deliciosa. Era então jovem e robusto. Mas, oh, desgraça, embora muito ainda me restasse para gozar sobre o trono, uma mulher que amei e que não me amava me fez logo sentir que eu não era um deus: envenenou-me e hoje nada mais sou. Puseram pomposamente as minhas cinzas numa urna de ouro. Choraram, arrancando os cabelos ao redor. Ela ameaçou atirar-se nas chamas em que me incineravam, para morrer comigo e ainda hoje vai chorar aos pés do soberbo túmulo a que lançaram as minhas cinzas. Mas ninguém me lamenta e minha memória causa horror mesmo na minha família, enquanto sofro aqui em baixo horríveis tratamentos.
Telêmaco, emocionado com o drama, lhe diz: Foste verdadeiramente feliz durante o vosso reinado, sentíeis essa doce paz sem a qual o coração permanece sempre opresso e abatido em meio das delícias? — Não — respondeu o babilónio — nem mesmo compreendo o que quereis dizer. Os sábios louvam essa paz como o único bem, mas de minha parte jamais a senti. Meu coração estava incessantemente agitado por novos desejos, por temores e esperanças. Eu procurava esquecer-me de mim na confusão das minhas paixões. Cuidava de entreter essa embriaguez para que não cessasse, pois o menor intervalo de raciocínio normal me teria sido demasiado amargo. Eis a paz que desfrutei. Qualquer outra me parece uma fábula ou um sonho. Eis os bens que lamento.


Assim falando, o babilónio chorava como um homem pusilânime que se deixou debilitar pelas comodidades, não se tendo jamais acostumado a suportar a desgraça. Tinha ao seu lado alguns escravos que fizeram morrer nas honras dos seus funerais. Mercúrio os havia entregue a Caronte com o seu rei, dando-lhes um poder absoluto sobre esse rei que haviam servido na Terra.
Essas sombras de escravos não temiam mais a sombra de Nabofarzan, mas a mantinham acorrentada e a submetiam às mais cruéis humilhações. Uma lhe dizia: — Nós também não éramos homens, tanto como tu?
Como pudeste ser tão insensato para te considerar como um deus, não te lembrando que pertencias à mesma raça dos homens? — Uma outra o insultava dizendo: — Tinhas razão de não querer que te considerassem como um homem, porque eras um monstro sem humanidade. — Outra lhe falava assim: — Muito bem! Onde estão agora os teus aduladores? Não tens mais nada a dar, infeliz! E não podes mais fazer nenhum mal; eis que te tornaste escravo dos teus próprios escravos; os deuses demoram a fazer justiça, mas por fim a fazem.


A essas duras palavras Nabofarzan se atirava com o rosto na terra, arrancando os cabelos numa explosão de raiva e desespero. Mas Caronte dizia aos escravos: — Puxai-o pela corrente, erguei-o mesmo que ele não queira, pois ele não terá nem mesmo a consolação de ocultar a própria vergonha. É necessário que todas as sombras do Estinge o testemunhem para justificar os deuses, que tão longamente suportaram o reinado desse ímpio na Terra.
Logo ele percebeu, bem próximo dele, o Tártaro negro. Subia deste uma fumaça escura e espessa, cujo odor empestado causaria a morte se ela se expandisse pela região dos vivos. Essa fumaça cobria um rio de fogo com turbilhões de chamas, e o seu ruído, semelhante ao das mais impetuosas correntes, quando se lançam dos mais altos rochedos ao fundo dos abismos, fazia que não se pudesse ouvir com clareza nesses tristes lugares.
Telêmaco, secretamente influenciado por Minerva, entrou sem temor nesse báratro. Percebeu de início um grande número de homens que haviam vivido nas mais baixas condições e que eram punidos por haverem buscado as riquezas por meio de fraudes, de traições e de crueldades. Notou ali muitos ímpios e hipócritas que fingindo amar a religião, dela se haviam servido como um bom pretexto para satisfazer as suas ambições, aproveitando-se da credulidade alheia. Esses homens que haviam abusado da própria virtude, embora sendo ela o mais valioso dom dos deuses, eram punidos como os piores entre os celerados.


Os filhos que haviam matado pais e mães, as esposas que haviam manchado suas mãos no sangue dos próprios maridos, os traidores que haviam entregue a pátria violando todos os juramentos sofriam penas menos cruéis do que esses hipócritas. Os três juízes dos infernos assim determinaram, e eis as suas razões: esses hipócritas, não se contentando de ser maus como os demais ímpios, querem ainda passar por bons e fazem por sua falsa virtude que os homens não mais queiram acreditar na virtude verdadeira. Os deuses, dos quais eles se serviram, tornando-os desprezíveis para os homens, sentem prazer ao empregar todo o seu poder para vingar-se dos seus insultos.
Ao lado desses estavam outros homens que o vulgo não considera culpados, mas que a vingança divina persegue impiedosamente. São os ingratos, os mentirosos, os vaidosos que se louvaram no vício, os críticos maliciosos que não temeram manchar a mais pura virtude. Por fim, os que julgaram temerariamente sem conhecer as coisas a fundo, com isso prejudicando a reputação dos inocentes.


Vendo os três juízes que estavam sentados e condenavam um homem, Telêmaco ousou perguntar-lhes quais eram os crimes do mesmo. No mesmo instante o condenado, tomando a palavra, exclamou: — Nunca fiz nenhum mal, sempre tive o maior prazer em fazer o bem, fui magnânimo, liberal, justo e compassivo. Do que me podem acusar? — Então Minos lhe disse: Não se te reprova nada em relação aos homens, mas não devias menos aos homens do que aos deuses? Qual, é, pois, essa justiça de que te vanglorias? Não faltaste com nenhum dever no tocante aos homens, que nada são. Foste virtuoso, mas referiste toda a tua virtude a ti mesmo e não aos deuses, que a concederam a ti, porque querias gozar os frutos da tua própria virtude, vangloriando-te em ti mesmo: foste a tua própria divindade. Mas os deuses, que tudo fizeram unicamente por si mesmos não podem renunciar aos seus direitos. Tu os esquecestes, eles te esqueceram. Eles te entregaram a ti mesmo, desde que preferiste ser de ti mesmo e não deles. Procura, pois, agora, se puderes, o teu consolo em teu próprio coração. Estás agora, para sempre, separado dos homens aos quais querias agradar. Estás sós diante de ti, que eras o teu ídolo. Compreende que não existe verdadeira virtude sem o respeito e o amor aos deuses, aos quais tudo deves. Tua falsa virtude, que por muito tempo ofuscou os homens fáceis de enganar, vai ser confundida. Os homens, considerando os vícios e as virtudes somente pelo que os toca ou os agrada, são cegos para o verdadeiro bem e o verdadeiro mal. Mas aqui uma luz divina inverte todos os julgamentos superficiais. Frequentemente é condenado aquilo que eles admiram e justificavam o que eles condenam.


A essas palavras, o filósofo, como ferido por um raio não podia conter-se. A satisfação que havia tido outrora ao apreciar a sua própria moderação, a sua coragem e as suas tendências generosas transformou-se em desespero. A visão do seu próprio coração, inimigo dos deuses, tornou-se um suplício. Ele se via a si mesmo e não podia deixar de fazê-lo. Via a vaidade das apreciações dos homens, aos quais ele quis sempre agradar em todas as suas acções. Havia uma revolução geral em tudo o que se encontrava no seu íntimo, como se alguém revirasse todas as suas entranhas. Ele não era mais o mesmo. Seu coração negava-lhe todo o apoio. Sua consciência, cujo julgamento lhe havia sido tão favorável, voltou-se contra ele reprovando amargamente o desvirtuamento e o engano de todas as suas virtudes, que não tiveram o culto da divindade por princípio e por fim. Estava perturbado, consternado, cheio de vergonha, de remorsos e de desespero. As fúrias não o atormentavam porque era bastante entregá-lo a si mesmo, pois o seu próprio coração vingava suficientemente os deuses desprezados. Procurou os lugares mais sombrios para se ocultar dos outros mortos, já que não podia ocultar-se a si mesmo. Procurou as trevas e não pode encontrá-las, pois uma luz importuna o seguia por toda parte, os raios penetrantes da verdade vingam sem cessar a verdade que ele negligenciou ao invés de seguir.
Tudo o que ele amava se tornava odioso, como sendo a própria fonte de seus males, que não mais poderiam acabar. Disse a si mesmo: Oh insensato! Então não conheci os deuses, nem os homens e nem a mim mesmo! Não, nada conheci, desde que nunca amei a única verdade e o verdadeiro bem. Todos os meus passos foram extraviados. Minha sabedoria não era mais que loucura. Minha virtude, um orgulho ímpio e cego. Fui o meu próprio ídolo.
Por fim Telêmaco viu os reis condenados por terem abusado do poder. De um lado uma Fúria vingadora lhes mostrava um espelho em que viam a monstruosidade dos seus próprios vícios. Viam e não podiam deixar de ver sua grosseira vaidade e sua avidez dos mais ridículos louvores; sua dureza para com os homens, que tinham o dever de fazer felizes; sua insensibilidade para a virtude; seu temor de ouvir a verdade; sua inclinação para as criaturas pusilânimes e bajuladoras; sua irresponsabilidade; sua indolência; sua desconfiança excessiva; seu fausto e demasiada magnificência baseadas nas ruínas dos povos; sua ambição que os levava a conquistar o mínimo de vanglória com o sangue dos cidadãos; enfim, sua crueldade de procurar cada dia novas emoções por entre as lágrimas e o desespero de tantos infelizes. Eles se viam nesse espelho permanentemente. Viam-se mais horríveis e mais monstruosos do que a Quimera vencida por Belerofonte ou a Hidra de Lerna abatida por Hércules, ou mesmo Cérbero vomitando por suas três güelas escancaradas um sangue negro e venenoso capaz de empestar toda a raça dos mortais que vivem na Terra.


De outro lado e ao mesmo tempo outra Fúria lhes repetia de maneira insultuosa todos os louvores que os aduladores lhes fizeram em vida e mostravam-lhes outro espelho, no qual eles se viam tais como os aduladores os haviam pintado. A contradição desses dois quadros tão opostos constituía um suplício para a sua vaidade. Notava-se que os piores entre esses reis eram os que haviam recebido as homenagens mais magnificentes durante a vida, porque os maus são mais temidos que os bons e exigem sem pudor as mentirosas reverências dos poetas e dos oradores do seu tempo.
Ouviam-se os seus gemidos na profundeza das trevas, onde eles não podiam perceber outra coisa além dos insultos e das ironias que deviam sofrer. Nada tinham ao seu redor que não os repelisse e contradissesse confundindo-os, enquanto na terra se aproveitavam da vida dos homens, supondo que todos existiam somente para os servir. No Tártaro eles são entregues aos caprichos de alguns escravos que os submetem por sua vez a uma servidão cruel. Têm de servir sofrendo e não lhes resta nenhuma esperança de poder abrandar jamais o seu cativeiro. Ficam sujeitos aos golpes desses escravos, transformados em seus tiranos impiedosos, como uma forja sobre os golpes dos martelos dos Ciclopes, quando Vulcano os apresa no trabalho dentro das ardentes fornalhas do monte Etna.


Telêmaco viu então semblantes, pálidos, consternados e hediondos. É que uma tristeza negra corrói esses criminosos. Eles têm horror de si mesmos e não podem livrar-se desse horror como se ele pertencesse à sua própria natureza. Não necessitam assim, de outro castigo para as suas faltas do que as suas próprias faltas que vêem sem cessar em toda a sua enormidade, apresentando-se a eles como horríveis espectros que os perseguem. Para se livrarem disso buscam uma outra morte mais poderosa que aquela que os separou dos seus corpos.
No desespero em que se encontram, esses reis clamam pelo socorro de uma morte que pudesse extinguir neles todo o sentimento e toda a consciência. Pedem aos abismos que os traguem para escaparem aos raios vingadores da verdade que os perseguem, mas estão condenados à vingança que se distila sobre eles gota a gota e que jamais cessará. A verdade que eles temiam ver é agora o seu suplício. Eles a vêem e só têm olhos para vê-Ia erguendo-se contra eles. Essa visão os trespassa, os destrói, os arranca de si mesmos. É como um raio que sem nada destruir ao redor penetra até o mais fundo das suas entranhas.
Entre essas coisas que lhe faziam eriçar os cabelos, Telêmaco viu muitos antigos reis da Lídia que eram punidos por terem preferido os deleites de uma vida folgazã ao trabalho para melhoria dos povos, que deve ser inseparável da realeza.
Os reis reprovavam uns aos outros a sua própria cegueira. Um dizia a outro que tinha sido seu filho: — Não te recomendei frequentemente, durante a minha velhice e antes de morrer, que reparasses os males que pratiquei na minha negligência? — Ah, infeliz pai! — dizia o filho, — foste tu que me perdeste. Foi o vosso exemplo que me sugeriu o fausto, o orgulho, a voluptuosidade e a dureza de coração para com os homens! Vendo-te reinar com tanta displicência e cercado de covardes aduladores, habituei-me ao gosto da lisonja e dos prazeres. Acreditei que o resto dos homens eram para os reis o que são os cavalos e outros animais de carga para a humanidade em geral, ou seja, esses animais aos quais não se dá importância, querendo apenas que prestem serviços e proporcionem comodidades. Acreditei nisso, e foste tu que me fizeste acreditar. Hoje estou sofrendo todos estes males por te haver imitado. — A essas recriminações juntavam as mais horríveis maldições e pareciam prestes a se entre - devorarem de raiva.


Ao redor dos reis volteavam ainda, como morcegos nocturnos, as mais cruéis suspeitas, os falsos receios, as desconfianças que são as vinganças dos povos contra a maldade de seus reis, sua insaciável fome de riquezas, a falsidade de sua glória sempre baseada na tirania e a covarde displicência que aumenta os males do povo sem lhes proporcionar jamais a compensação das necessidades satisfeitas.
Viam-se muitos desses reis severamente punidos, não pelos males que haviam praticado, mas por terem negligenciado o bem que deviam fazer. Todos os crimes dos povos, que decorrem da negligência na observação das leis, eram imputados aos reis que deviam ter como seu ministério fazer que as leis reinassem. Todas as desordens provenientes dos excessos de fausto, do luxo e de todos os demais abusos que lançam os homens na violência e na tentação de desprezar as leis para se enriquecerem, eram também imputadas aos reis. Eram tratados sobretudo com rigor os que em lugar de serem bons e vigilantes pastores dos povos só haviam pensado em devorar o rebanho como lobos insaciáveis.
Mas o que mais consternava Telêmaco era ver, nesse abismo de trevas e maldades, grande número de reis que haviam passado pela Terra como soberanos muito bons e estavam condenados às penas do Tártaro por se terem deixado governar por homens maus e hipócritas. Esses eram punidos pelos males que haviam permitido que fossem feitos sob a sua autoridade. De resto, a maioria desses reis não haviam sido bons nem maus, tamanha era a sua fraqueza. Jamais haviam receado conhecer a verdade, pois não possuíam o gosto da virtude e nunca sentiram o prazer de praticar o bem


Referência: O céu e o inferno

Quadro do inferno cristão



Quadro do inferno cristão


11 — Resumimos nas citações seguintes a opinião dos teólogos sobre o inferno. Essa descrição, tendo sido tirada dos próprios autores sacros e da vida dos santos, pode ser considerada, tanto melhor, como a expressão da fé ortodoxa nesse assunto, quanto é a todo instante reproduzido, com algumas pequenas variantes, nos sermões e nas instruções pastorais.


12 — Os demónios são espíritos puros, pois os condenados presentemente no inferno podem também ser considerados como espíritos puros, desde que somente a sua alma desceu até lá e os seus restos mortais, devolvidos à Terra, se transformam incessantemente em relva, plantas, frutos, minerais ou líquidos, passando inconscientemente pelas metamorfoses da matéria. Mas os condenados, como os santos, devem ressuscitar no último dia e retomar, para não mais os perder, corpos carnais, os mesmos corpos com que foram conhecidos quando vivos. O que distinguirá uns dos outros é que os eleitos ressuscitarão em corpos purificados e radiosos, enquanto os condenados em corpos imundos e deformados pelo pecado.
Assim, não haverá mais no inferno somente Espíritos puros, mas homens semelhantes a nós. O inferno é, portanto, uma região física, geográfica, material, desde que será povoado por criaturas terrenas com pés, mãos, boca, língua, dentes, orelhas, olhos semelhantes aos nossos, com sangue nas veias e nervos sensíveis à dor.


Onde está situado o inferno? Alguns doutores o colocaram nas próprias entranhas da Terra. Outros, em não sabemos que planeta. A questão não foi resolvida por nenhum concílio. Ficamos, nesse caso, reduzido às conjecturas. A única coisa que se afirma é que o inferno, onde quer que esteja situado, é um mundo constituído de elementos materiais, mas um mundo sem sol, sem lua, sem estrelas, mais triste, mais inóspito, mais desprovido de todo princípio e toda aparência de bem, como não acontece mesmo nas regiões mais inabitáveis deste mundo em que pecamos.
Os teólogos mais sérios não se atrevem a figurar, como faziam os Egípcios, os Indianos e os Gregos, todos os horrores desta região. Limitam-se a nos indicar, como uma amostra, o pouco que as Escrituras revelam: o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isaías, esses vermes que devoram eternamente os cadáveres do Tofel e os demónios atormentando os homens que conseguiram levar à perdição, e os homens chorando e rangendo os dentes, segundo a expressão dos Evangelistas.


Santo Agostinho não concorda que essas penas físicas sejam simples imagens das penas morais. Ele vê num lago realmente de enxofre, vermes e serpentes verdadeiras apegando-se a todas as partes dos corpos dos condenados e juntando as suas mordidas às queimaduras do fogo. Ele pretende segundo um versículo de São Marcos que esse fogo estranho, embora material como o nosso, agindo sobre corpos materiais os conservará como o sal conserva a carne de animais sacrificados. Mas os condenados sentirão esse fogo que queima sem destruir e que penetrará sob a sua pele. Eles ficarão encharcados e saturados em todos os seus membros, na medula dos ossos e na pupila dos olhos, bem como nas fibras mais ocultas e mais sensíveis do ser. A cratera de um vulcão, se nela pudessem atirar-se, seria para eles um lugar de refrigério e descanso.
Assim falam, com toda segurança, os teólogos mais tímidos, mais discretos e reservados. Não negam, aliás, a existência no inferno de outros suplícios corporais. Dizem apenas que não possuem conhecimentos suficientes para deles falar de maneira positiva, pelo menos como podem fazer sobre o horrível suplício do fogo e dos vermes. Mas há teólogos mais espertos ou mais esclarecidos que descrevem o inferno com mais detalhes, mais variados e mais precisos. Embora não saibam em que lugar do espaço está situado o inferno, há santos que o viram. Não foram até lá com a lira nas mãos como Orfeu, ou de espada em punho como Ulisses, mas transportados em espírito. Santa Teresa pertence a esse número.


Tem-se a impressão, pelo relato da santa, que há cidades no inferno. Ela viu ali, pelo menos, uma espécie de rua comprida e estreita, como tantas que existem nas velhas cidades. Entrou na rua, andando com horror sobre um terreno pantanoso e fétido, cheio de répteis monstruosos, mas teve a sua marcha sustida por um muro que fechava a saída. Nesse muro havia um nicho ao qual Teresa se recolheu, sem saber como isso aconteceu. Era, diz ela o lugar que lhe estava destinado se abusasse, durante a vida, das graças que Deus lhe concedia em sua cela de Ávila. Logo que foi introduzida, com espantosa facilidade, nesse nicho de pedra, viu que não podia sentar-se nem deitar-se, e nem mesmo se manter de pé. Menos ainda poderia sair dali. Esse horrível mundo começou a fechar-se sobre ela, envolvendo-a, prendendo-a como se as faces do nicho fossem animadas. Parecia-lhe que a asfixiavam, estrangulavam e ao mesmo tempo que a esfolavam viva e a retalhavam em fatias. Sentia-se queimar e experimentava simultaneamente todas as formas de angústia. Nenhuma esperança de socorro. Tudo ao seu redor era trevas, mas através dessas trevas ela ainda percebia, com assombro, a horrorosa rua em que estava alojada, com toda a sua imundície, o que também lhe era intolerável como o aperto da sua prisão.


Esse, não há dúvida apenas um cantinho do inferno. Outros viajantes espirituais foram mais favorecidos. Viram no inferno grandes cidades inteiramente incendiadas: Babilônia e Nínive, a própria Roma com seus palácios e seus templos abrasados e todos os habitantes acorrentados. Os traficantes presos aos seus balcões, os padres reunidos com as cortesãs nos salões de festas, urrando nas suas cadeiras das quais não podiam levantar-se e levando aos lábios para matar a sede, taças de que saíam chamas. Criados de joelhos em cloacas ferventes, de braços estendidos ante príncipes de cujas mãos escorria sobre eles, em forma de lavas devoradoras, ouro derretido. Outros viram no inferno planícies ilimitadas, onde camponeses famintos, nada colhendo das suas estéreis plantações nessas planícies regadas pelos seus suores fumegantes, e como nada podiam encontrar, se entre devoravam. Depois, tão numerosos como antes, magros e famintos da mesma maneira, eles se dispersavam em bandos no horizonte procurando inutilmente um lugar de terras mais felizes, e sendo imediatamente substituídos, nos campos que abandonavam, por outras colónias errantes de condenados. Há os que viram no inferno montanhas cercadas de precipícios, e florestas soluçantes, de poços sem água, de fontes de lágrimas, de rios de sangue, de turbilhões de neve em desertos de gelo, de barcos cheios de desesperados vagando sobre mares sem praias. Viram-se, enfim, todas as coisas que os pagãos haviam visto: um reflexo tenebroso da terra, uma projecção desmesuradamente aumentada das suas misérias, dos seus sofrimentos naturais eternizados, e até calabouços, forcas e outros instrumentos de tortura criados por nós mesmos.


Existem lá, com efeito, demónios que para atormentarem os homens nos seus corpos, também se revestem de corpos. Esses corpos têm asas de morcegos, chifres, pele coberta de escamas, patas com garras e dentes aguçados. São mostrados armados de espadas, de tenazes, de pinças, de serras em fogo, de grelhas, de garfos, de foles, de martelos ardentes e trabalhando pela eternidade na carne dos condenados como açougueiros e cozinheiros. Às vezes, transformados em leões ou em enormes serpentes, arrastam suas vítimas para cavernas solitárias. Alguns se transformam em corvos para arrancar os olhos a certos culpados, e outros em dragões voadores para os carregar no seu dorso, aterrorizados e sangrentos, através de tenebrosos espaços e os lançar num lago de enxofre. Ali, há nuvens de gafanhotos, de escorpiões gigantescos cuja vista produz calafrios e cujo odor provoca náuseas, que o simples tocar com os dedos produz convulsões. Lá, monstros de muitas cabeças abrem para todos os lados goelas vorazes, sacudindo as disformes cabeças de crinas de serpentes, esmagam os condenados em suas mandíbulas sangrentas e os vomitam mastigados, mas vivos porque eles são imortais.


Esses demónios em forma humana, que lembram tão claramente os deuses do Amenti e do Tártaro, os ídolos adorados pelos Fenícios e pelos Moabitas e outros povos pagãos ao redor da Judéia, esses demónios não agem ao acaso: todos têm a sua função e o seu objectivo. O mal que fazem no inferno está em relação com o mal que inspiraram e levaram aos homens a praticar na Terra.
Os condenados são punidos em todos os seus sentidos e em todos os seus órgãos, porque ofenderam a Deus através desses sentidos e desses órgãos. São punidos da seguinte maneira: os gulosos pelos demónios da gulodice, os preguiçosos pelos demónios da preguiça, os sensuais pelos demónios da sensualidade e assim por diante, segundo a variedade dos pecados. Sentirão frio ao se queimarem e calor ao se enregelarem. Desejarão ao mesmo tempo o repouso e o movimento. E sempre famintos, sempre sedentos, mais fatigados que os escravos no fim da jornada, mais doentes do que agonizantes, mais maltratados e cobertos de chagas do que os mártires. E tudo isso sem que nunca se acabe.


Nenhum demónio se recusa nem se recusará jamais a executar a sua espantosa tarefa. São todos, nesse sentido, bem disciplinados e fiéis no cumprimento das ordens de vingança que recebem. Sem isso, no que se tornaria o inferno? Os pacientes ficariam em descanso se os carrascos andassem a discutir ou a se enfadarem. Mas nada de repouso para os primeiros, nem de discussões para os segundos. Por piores que sejam e por maior que seja o seu número, os demónios se estendem de um extremo ao outro do abismo e jamais se viu sobre a Terra uma organização de súbditos mais dóceis aos seus príncipes, de exércitos mais obedientes aos seus comandantes, de ordens monásticas mais humildemente submissa aos seus superiores.(18)
(18) Esses mesmos demónios, rebeldes a Deus no tocante ao bem, são de exemplar docilidade para a prática do mal. Nenhum deles se recusa ou se mostra de má vontade através de toda a eternidade. Que estranha metamorfose operou-se neles, que haviam sido criados puros e perfeitos como os anjos! É realmente estranho vê-los dar exemplos de perfeito entendimento, de plena harmonia, de inalterável concórdia, quando os homens não sabem viver em paz e se estraçalham na Terra. Vendo o requinte dos castigos reservados aos condenados e comparando a sua situação com a dos demónios, pergunta-se quais são os mais dignos de lástima: Os algozes ou as vítimas?(N. de Kardec)


Quase nada se conhece dos demónios que formam a população do inferno, esses espíritos vis que constituem as legiões de vampiros e sapos, de escorpiões, de corvos, de hidras, de salamandras e outros animais sem nomes da fauna das regiões infernais. Mas se conhecem e sabem-se de muitos dos príncipes que comandam essas regiões, entre outros Belfegor, o demónio dos desejos impuros ou o senhor das moscas que produzem a corrupção; Mamum, o demónio da avareza; Moloque, Belial, Balgad e Astarote e muitos outros. E acima deles o seu chefe universal, o sombrio arcanjo que tinha no céu o nome de Lúcifer e que tem no inferno o nome de Satanás.
Eis em resumo a ideia que nos dão do inferno considerado em sua natureza física e quanto às penas físicas que nele existem. Consultai os Pais da Igreja e os antigos Doutores. Interrogai as legendas piedosas. Olhai as esculturas e as pinturas das nossas igrejas. Ouvi com atenção o que dizem nos nossos púlpitos e aprendereis ainda mais.


13 — O autor acrescenta a essas descrições as reflexões seguintes, cujo alcance todos compreenderão:
A ressurreição dos corpos é um milagre, mas Deus faz ainda outro milagre ao dar a esses corpos mortais, já usados nas passageiras provas da vida e já uma vez aniquilados, a virtude de subsistir, sem se dissolverem, numa fornalha em que até os metais se evaporariam. Que se diga que a alma é o seu próprio carrasco, que Deus não a castiga, mas apenas a abandona no estado de infelicidade que ela mesma escolheu, isso a rigor se pode compreender, embora o eterno abandono de um ser extraviado e sofredor pareça pouco de acordo com a bondade do Criador. Mas o que se diz da alma e das penas espirituais, não se pode dizer de maneira alguma dos corpos e das penas corporais. Para perpetuar essas penas corporais não é suficiente que Deus afaste a sua mão, mas é necessário, pelo contrário, que ele a mostre, que intervenha, que haja, sem o que os corpos sucumbiriam.
Os teólogos supõem então que Deus opera, com efeito, após a ressurreição, esse segundo milagre de que falamos. Primeiro, ele retira do sepulcro, que os havia devorado, os nossos corpos de argila é os retira tal como foram enterrados, com suas antigas enfermidades e as deformações produzidas pela idade, pela doença e pelos vícios. Ele nos devolve a esse estado: decrépitos, gulosos, gotosos, cheios de necessidades, sensíveis a uma picada de insectos, cobertos pelas feridas que a vida e a morte nos impuseram, e é esse o primeiro milagre. Depois, nesses corpos miseráveis, prestes a voltarem à poeira de que saíram, ele insufla uma propriedade que eles nunca possuíram, dando-lhes a imortalidade, esse mesmo dom que na sua cólera, ou antes na sua misericórdia, ele havia retirado à Adão ao expulsá-lo do Éden, e eis o segundo milagre. Quando Adão era imortal, e portanto invulnerável, deixou de o ser, tornando-se mortal: a morte seguiu-se imediatamente à dor.


A ressurreição não nos devolve, pois, nem às condições físicas do homem inocente nem às condições físicas do homem culpado. É uma ressurreição apenas das nossas misérias, mas com a sobrecarga de novas misérias, infinitamente mais horríveis. É em parte, uma verdadeira criação e a mais maliciosa que a imaginação já se atreveu a conceber. Deus reconsidera, e para acrescentar aos tormentos espirituais dos pecadores os tormentos carnais que devem durar para sempre, muda imediatamente, por um efeito do seu poder, as leis e as propriedades por ele mesmo estabelecidas, desde o começo, para os organismos materiais. Ressuscita as carnes doentes e corrompidas, e reunindo por um nó indestrutível esses elementos que tendem por si mesmos a separar-se, os mantém e perpetua contra a ordem natural, nessa podridão viva, e a lança no fogo, não para a purificar, mas para a conservar tal qual é, sensível, sofredora, sempre queimando, horrível, exactamente como quer que ela se mantenha imortal.
Por esse milagre se transforma Deus num dos carrascos do inferno, pois se os condenados só podem atribuir a si mesmos os seus males espirituais, não podem fazer o mesmo com os outros, só atribuíveis a Deus. Era aparentemente muito pouco abandoná-los depois da morte à tristeza, ao arrependimento e a todas as angústias de uma alma que sente haver perdido o bem supremo. Deus, segundo os teólogos, irá buscá-las nessa noite no fundo desse abismo, trazendo-as por um momento à luz, não para as consolar, mas para as revestir de um corpo horrendo, queimante, imperecível, mais empestado que a túnica de Janira, e só então as abandona para sempre.
Mas a verdade é que não as abandonará, pois que o inferno subsiste, como a terra e o céu, por um acto permanente da sua vontade sempre activa e tudo se desvaneceria se ele cessasse de os sustentar. Ele manterá, portanto, sem cessar, sua mão sobre os condenados para impedir que o fogo se extinga e seus corpos se dissolvam, querendo que esses infelizes imortais contribuam com o seu perene suplício para a edificação dos eleitos.


14 — Dissemos com razão que o inferno dos cristãos havia superado o dos pagãos. No Tártaro, com efeito, viam-se os culpados serem torturados pelos remorsos, sempre em face dos seus crimes e das suas vítimas, acabrunhados por aqueles mesmos que eles haviam prejudicado em vida. Viam-se os culpados fugindo à luz e procurando em vão escapar aos olhos que os perseguiam. O orgulho era ali abatido e humilhado. Todos carregavam os estigmas do seu passado, todos eram punidos pelas suas próprias faltas, a tal ponto que, para alguns, era bastante entregá-los a si mesmos, sendo inútil acrescentar-lhes outros castigos. Além disso eles eram sombras, quer dizer: almas com seus corpos fluídicos, imagens da sua existência terrena. Não se viam os homens retomarem seus corpos carnais para sofrerem materialmente, nem o fogo penetrar-lhes sob a pele e os saturar até a medula dos ossos, nem o requinte e o refinamento dos suplícios que constituem a base do inferno cristão. Havia juízes inflexíveis, mas justos, que proporcionavam a pena na medida da falta, enquanto no império de Satanás todos se confundem nas mesmas torturas e tudo se funda na materialidade, de maneira que a própria equidade não existe.


Há hoje, sem dúvida, na própria Igreja, muitos homens de bom senso que não mais admitem essas coisas ao pé da letra e as consideram como simples alegorias das quais é necessário apreender o sentido. Mas essa opinião é apenas individual e não constitua lei. A crença no inferno material, com todas as suas consequências, ainda permanece como artigo de fé.
15 — Pergunta-se como os homens puderam ver essas coisas em estado de êxtase, se elas não existem. Não é este o lugar de explicar a fonte dessas imagens fantásticas, que as vezes se produzem com a aparência de realidade. Diremos somente que devemos ver nisso uma prova do princípio de que o êxtase é a menos segura de todas as formas de revelação, porque esse estado de super excitação nem sempre resulta de um desprendimento completo da alma, como se poderia crer, e nele encontramos muito frequentemente o reflexo das preocupações do estado de vigília. As ideias de que a mente se nutre e que o cérebro, ou melhor o invólucro perispiritual correspondente ao cérebro, conserva, se reproduzem e amplificam como numa miragem, sob as formas vaporosas que se desenvolvem e se misturam, compondo esse conjuntos estranhos.
Os extáticos de todos os cultos sempre viram as coisas em relação com a fé a que se apegam. Não é pois de surpreender que os que, como Santa Teresa se acham fortemente convencidos das ideias do inferno, segundo as apresentam as descrições verbais ou escritas e as pinturas, tenham visões que nada mais são, propriamente falando, do que a reprodução dessas ideias, produzindo o efeito de um pesadelo. Um pagão cheio de fé teria visto o Tártaro e as Fúrias, como teria visto no Olimpo o próprio Júpiter tendo um raio na mão.(19)


(19) Kardec antecipa, nesta maravilhosa explicação, a teoria do condicionalismo à crença que Charles Richet formularia mais tarde na Meta psíquica e hoje revivida na Parapsicologia. Como se vê, as chamadas novidades parapsicológicas nada mais fazem do que confirmar teses espíritas de há mais de um século, e às vezes de maneira incoerente, contrastando com a explicação espírita, que é sempre clara e precisa. Veja-se este assunto no livro En los limites de la Psicologia, do prof. Ricardo Musso, Buenos Aires, 1960, no Tratado de Metapsíquica, de Richet, e em Parapsicologia Hoje e Amanhã, de J. Herculano Pires. (N. do T.)


Referência: O céu e o inferno

sábado, 21 de julho de 2007

As provas possiveis de identidade



As Provas Possíveis de Identidade


255. A questão da identidade dos Espíritos é uma das mais controvertidas, mesmo entre os adeptos do Espiritismo. Porque os Espíritos de facto não trazem nenhum documento de identificação e sabe-se com que facilidade alguns deles usam nomes emprestados. Esta é, portanto, depois da obsessão, uma das maiores dificuldades da prática espírita. Mas em muitos casos a questão da identidade absoluta é secundária e desprovida de importância real.
A mais difícil de se constatar é a identidade de personagens antigas, que muitas vezes se torna mesmo impossível, reduzindo-se a uma possibilidade de apreciação puramente intelectual. Julgamos os Espíritos, como os homens, pela linguagem. Se um Espírito se apresenta, por exemplo, com o nome de Fénelon, dizendo trivialidades e puerilidades, é evidente que não pode ser ele. Mas se as coisas que diz são dignas do carácter de Fénelon e não o contradizem, temos uma prova, senão material, pelos menos de grande possibilidade moral de que seja ele. É sobretudo nesses casos que a identidade real se torna uma questão secundária: desde que o Espírito só diz boas coisas, pouco importa o nome que esteja usando.
Há sem dúvida a objecção de que um Espírito que tomasse nome suposto, mesmo que só para o bem, não deixaria de cometer uma fraude e por isso não poderia ser bom. É neste ponto que surgem questões delicadas, difíceis de se compreender, e que vamos tentar desenvolver.


256. À medida que os Espíritos se purificam e se elevam na hierarquia, as características distintivas de sua personalidade desaparecem, de certa maneira, na uniformidade da perfeição, mas nem por isso deixam eles de conservar a sua individualidade. É o que se verifica com os Espíritos superiores e os Espíritos puros. Nessa posição, o nome que tiveram na Terra, numa das mil existências corporais efémeras por que passaram, nada mais significa. Notemos ainda que os Espíritos se atraem mutuamente pela semelhança de suas qualidades, constituindo grupos ou famílias simpáticas. Se considerarmos, por outro lado, o número imenso de Espíritos que, desde a origem dos tempos, devem haver atingido os planos mais elevados, e se compararmos ao número tão restrito de homens que deixaram na Terra um grande nome, compreenderemos que entre os Espíritos superiores que podem comunicar-se a maioria não deve ter nomes para nós. Mas, como precisamos de nomes para fixar as nossas ideias, eles podem tomar o de um personagem conhecido, cuja natureza mais se identifique com a deles.
É assim que o nossos anjos guardiães se fazem conhecer, na maioria das vezes, pelo nome de um santo que veneramos, escolhendo geralmente o do santo de nossa preferência. Dessa maneira, se o anjo guardião de uma pessoa dá o nome de São Pedro, por exemplo, não há nenhuma prova material de tratar-se do apóstolo. Tanto pode ser ele como um Espírito inteiramente desconhecido, pertencente à família de Espíritos a que São Pedro pertence. Acontece ainda que, seja qual for o nome pelo qual se invoque o anjo guardião, ele atenderá ao chamado porque é atraído pelo pensamento e o nome lhe é indiferente.(1)


O mesmo se verifica todas as vezes que um Espírito superior se comunica usando o nome de um personagem conhecido. Nada prova que seja precisamente o Espírito desse personagem. Mas se ele nada diz, no seu ditado espontâneo, que desminta a elevação espiritual do nome citado, existe a presunção de que seja ele. E em todos esses casos se pode dizer que, se não é ele, deve ser um Espírito do mesmo grau ou talvez mesmo um seu enviado. Em resumo: a questão do nome é secundária, podendo-se considerar o nome como simples indício do lugar que o Espírito ocupa na Escala Espírita. (Ver o nº 100 de O Livro dos Espíritos.)


A situação é outra quando um Espírito de ordem inferior se enfeita com um nome respeitável para se fazer acreditar. E esse caso é tão comum que não seria demais manter-se em guarda contra esses embustes. Porque é graças a nomes emprestados, e sobretudo com a ajuda da fascinação, que certos Espíritos sistemáticos, mais orgulhosos do que sábios, procuram impingir as ideias mais ridículas.(2)


(1) Richet formulou a hipótese do condicionamento à crença para explicar os casos de aparições de santos, anjos, etc. Ricardo Musso (Argentina) explora essa hipótese, em seu livro En 105 Límites de Ia Psicologia, para explicar as relações de Espíritos protectores e familiares com médiuns e crentes no Espiritismo. Como vemos acima, faltou a Richet, como falta hoje a Musso e aos seus imitadores, um dado fundamental do problema. Rejeitando a existência do mundo espiritual, não sabem como as coisas realmente se passam. O leitor deve atentar para estas importantes explicações de Kardec, baseadas na experiência, na lógica e nos ensinos dos Espíritos superiores. (N. do T.)


(2) Encontramos na bibliografia espírita numerosos casos dessa espécie, tendo alguns conseguido infiltrar-se em respeitáveis sectores da divulgação doutrinária, ocasionando graves prejuízos à aceitação do Espiritismo por pessoas sensatas e ilustradas. A fascinação foi tratada no n° 239 do cap. anterior. Como se vê ali, o Espírito mistificador paralisa a capacidade de julgamento do médium. O mesmo se dá com todas as pessoas que se deixam envolver. Essa a razão porque ideias absurdas e ridículas se espalham no meio doutrinário, defendidas por pessoas cultas, às vezes dedicadas ao movimento mas invigilantes e pouco atentas às advertências deste livro. (N. do T.)


Assim a questão da identidade, como dissemos, é mais ou menos indiferente quando se trata de instruções gerais, desde que os Espíritos mais elevados podem substituir-se mutuamente sem que isso acarrete consequências. Os Espíritos superiores constituem, por assim dizer, uma colectividade, cujas individualidades nos são, com poucas excepções, completamente desconhecidas. O que nos interessa não são as pessoas, mas o ensino. Ora, se o ensino é bom, pouco importa que venha de Pedro ou de Paulo. Devemos julgá-lo pela qualidade e não pelo nome. Se um vinho é mau, não é a etiqueta que o faz melhor. Mas já é diferente nas comunicações íntimas, porque então é o indivíduo, ou sua pessoa mesma que nos interessa. É pois com razão que, nessa circunstância, se procure assegurar de que o Espírito manifestante é realmente o que se deseja.


257. A identidade é muito mais fácil de constatar quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujos hábitos e carácter são conhecidos. Porque são precisamente esses hábitos, de que ainda não tiveram tempo de se livrar, que nos permitem reconhecê-los. E digamos logo que são eles um dos sinais mais certos de identidade.(3)
O Espírito pode, sem dúvida, dar suas provas através das perguntas que lhe fazem, mas isso quando lhe convém. Em geral o pedido nesse sentido o magoa, pelo que devemos evitar de fazê-lo. Deixando o corpo o Espírito não se despoja da sua susceptibilidade. Toda pergunta para pô-lo à prova o aborrece.
Há perguntas que ninguém lhe faria em vida, com medo de faltar às conveniências. Porque tratá-lo com menos consideração após a morte? Se um homem se apresenta num salão declinando o seu nome, irá alguém lhe pedir documentos à queima-roupa, sob o pretexto de que há impostores? Esse homem teria o direito de lembrar ao interrogante as regras de civilidade. É o que fazem os Espíritos que não respondem ou que se retiram.
Tomemos um exemplo, para comparação. Suponhamos que o astrónomo Arago, quando vivo, se apresentasse numa casa em que não o conheciam e fosse recebido assim: "Dizeis que sois Arago, mas como não vos conhecemos, desejamos que o proveis respondendo às nossas perguntas: resolvei este problema de astronomia; dai-nos o vosso nome, prenome e os de vossos filhos; dizei o que fazeis em tal dia, a tal hora etc." O que ele responderia? Pois bem, como Espírito fará o que faria quando vivo, e os outros Espíritos farão o mesmo.


258. Recusando-se a responder perguntas pueris e absurdas que não lhes fariam quando vivos, os Espíritos, entretanto, frequentemente dão provas espontâneas e irrecusáveis de sua identidade. Isso pela revelação do próprio carácter através da linguagem, pelo emprego de expressões que lhes eram familiares, pela referência a alguns factos significativos e de particularidades de sua vida, às vezes desconhecidas dos assistentes, cuja veracidade se pode verificar. As provas de identidade ressaltam ainda de muitas circunstâncias imprevistas que nem sempre surgem no primeiro momento mas na sequência das manifestações. É conveniente, pois, esperá-las ao invés de as provocar, observando-se cuidadosamente todas as que possam provir da natureza das comunicações. (Ver o caso relatado no nº 70)


259. Um meio às vezes usado com sucesso para assegurar a identidade, quando o Espírito se torna suspeito, é o de fazê-lo afirmar em nome de Deus todo-poderoso que é ele mesmo. Acontece muitas vezes que o usurpador recua diante do sacrilégio. Depois de haver começado a escrever: Afirmo em nome de... pára e risca encolerizado traços sem significação ou quebra o lápis. Sendo mais hipócrita, contorna o problema através de uma omissão, escrevendo, por exemplo: Eu vos certifico que digo a verdade; ou ainda: Atesto, em nome de Deus, que sou eu mesmo quem vos falo etc.
Mas há os que não são assim escrupulosos e juram por tudo o que se quiser. Um deles se comunicava com um médium dizendo-se o próprio Deus, e o médium, muito honrado com tão elevada graça, não hesitou em acreditar. Evocado por nós, não ousou sustentar a impostura e disse: Eu não sou Deus, mas sou seu filho. -- Então sois Jesus? Isso não é provável porque Jesus está muito elevado para empregar subterfúgios. Ousais afirmar, em nome de Deus, que és o Cristo? — Eu não disse que sou Jesus, disse que sou filho de Deus porque sou uma das suas criaturas.
Deve-se concluir disso que a recusa de um Espírito em afirmar a sua identidade em nome de Deus é sempre uma prova de que usa de impostura, mas que a afirmação nos dá apenas a presunção e não a prova da identidade.


260. Pode-se também colocar entre as provas de identidade a semelhança de caligrafia e de assinatura. Mas além de não ser dado a todos os médiuns obter esse resultado, ele nem sempre representa uma garantia suficiente. Há falsários no mundo dos Espíritos, como no nosso. Essa semelhança não representa mais do que uma presunção de identidade, que só adquire valor dentro das circunstâncias em que se produziu.
O mesmo se dá com todos os sinais materiais que alguns dão como talismãs inimitáveis pelos Espíritos mentirosos. Para aqueles que ousam perjurar em nome de Deus ou imitar uma assinatura, nenhum signo material pode representar obstáculo maior. A melhor de todas as provas de identidade está na linguagem e nas circunstâncias imprevistas.


261. Certamente se dirá que se um Espírito pode imitar uma assinatura, pode também imitar a linguagem. É verdade. Temos visto os que tomam afrontosamente o nome do Cristo e para melhor enganar imitam o estilo evangélico excedendo-se nas expressões mais conhecidas: em verdade, em verdade vos digo. Mas quando se estuda o texto sem se deixar influenciar, perscrutando o fundo dos pensamentos e o alcance das expressões, vendo-se ao lado das belas máximas de caridade recomendações pueris e ridículas, seria preciso que se estivesse fascinado para se enganar. Sim, certos aspectos formais da linguagem podem ser imitados, mas não o pensamento. A ignorância jamais imitará o verdadeiro saber, como jamais o vício imitará a verdadeira virtude. Sempre aparecerá de algum lado a ponta da orelha. É então que o médium e o evocador devem usar de toda a sua perspicácia e raciocínio para separar a verdade da mentira. Devem persuadir-se de que os Espíritos perversos são capazes de todas as trapaças e de que, quanto mais elevado for o nome usado, mais desconfiança deve provocar. Quantos médiuns têm recebido comunicações apócrifas assinadas por Jesus, Maria ou algum santo venerado!(4)
(3) A identificação dos Espíritos é feita através da personalidade do falecido. Dados diversos podem ajudar essa identificação, mas são o seu carácter, os seus modos, os seus hábitos, todo esse conjunto pessoal que nos prova a sua presença. Exigir a identificação material é absurdo. Mas quando essa identificação é possível, como pelos sinais digitais, pela forma do rosto ou das mãos impressas no gesso, ou mesmo pela fotografia ou pela materialização do Espírito, ainda assim os negadores sistemáticos não a aceitam. Kardec tem razão ao acentuar a importância da identificação pela personalidade. (N. do T.)
(4) Hoje há também muito abuso com o próprio nome de Kardec. O remédio está bem indicado nesse item 261, que deve ser lido com atenção e ponderado pelos que querem pegar "a ponta da orelha". (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Como distinguir os espíritos bons e maus



Como Distinguir os Espíritos Bons e Maus


262. Se a perfeita identificação dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão secundária, sem importância, não se dá o mesmo com a distinção entre os Espíritos bons e maus. Sua individualidade pode ser-nos indiferente, mas a sua qualidade jamais. Em todas as comunicações instrutivas é sobre esse ponto que devemos concentrar nossa atenção, pois só ele pode nos dar a medida da confiança que podemos ter no Espírito manifestante, seja qual for o nome com que se apresente. O Espírito que se manifesta é bom ou mau? A que grau da escala espírita pertence? Essa a questão capital. (Ver Escala Espírita no item 100 de O Livro dos Espíritos)


263. Julgamos os Espíritos, já o dissemos, pela linguagem, como julgamos os homens. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que não conhece. Pelo estilo, pelas ideias, por numerosos indícios julgará quais são as instruídas e quais as ignorantes, educadas ou sem educação, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias, levianas, sentimentais etc. Acontece o mesmo com os Espíritos. Devem considerá-los como correspondentes que nunca vimos e perguntar o que pensaríamos da cultura e do carácter de um homem que dissesse ou escrevesse aquelas coisas. Podemos tomar como regra invariável e sem excepção que a linguagem dos Espíritos corresponde sempre ao seu grau de elevação.


Os Espíritos realmente superiores não se limitam apenas a dizer boas coisas, mas as dizem em termos que excluem absolutamente qualquer trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se forem manchadas por única expressão de baixeza temos um sinal indubitável de inferioridade. E com mais forte razão se o conjunto da comunicação ferir as conveniências por sua grosseria. A linguagem revela sempre a sua origem, seja pelo pensamento ou pela forma. Assim, mesmo que um Espírito quisesse enganar-nos com a sua pretensa superioridade, bastaria conversarmos algum tempo com ele para o julgarmos.


264. A bondade e a afabilidade são também atributos essenciais dos Espíritos depurados. Eles não alimentam ódio nem para com os homens nem para com os demais Espíritos. Lamentam as fraquezas e criticam os erros, mas sempre com moderação, sem amarguras nem animosidades. Se admitirmos que os Espíritos verdadeiramente bons só podem querer o bem e dizer boas coisas, concluiremos que tudo o que, na linguagem dos Espíritos, denote falta de bondade e afabilidade não pode provir de um Espírito bom.


265. A inteligência está longe de ser um sinal seguro de superioridade, porque a inteligência e a moral nem sempre andam juntas. Um Espírito pode ser bom, afável e ter conhecimentos limitados, enquanto um Espírito inteligente e instruído pode ser moralmente bastante inferior.(5)
Geralmente se pensa que interrogando o Espírito de um homem que foi sábio na Terra, em certa especialidade, obtém-se a verdade com mais segurança. Isso é lógico, e não obstante nem sempre é certo. A experiência demonstra que os sábios, tanto quanto os outros homens, sobretudo os que deixaram a Terra há pouco, estão ainda sob o domínio dos preconceitos da vida corpórea, não se livrando imediatamente do espírito de sistema. Pode assim acontecer que, influenciados pelas ideias que alimentaram em vida e que lhes deram a glória, vejam com menos clareza do que supomos. Não damos este princípio como regra. Longe disso. Advertimos apenas que isso acontece e que, por conseguinte, sua sabedoria humana nem sempre é uma garantia de sua infalibilidade como Espíritos.
(5) Atenção para a advertência final de que isso não constitui regra. Certas pessoas entendem que só devemos crer nos Espíritos ignorantes ou que se fazem passar por tal. Isso é ir de um extremo ao outro. Os Espíritos realmente elevados são inteligentes e bons, realizaram ao mesmo tempo a evolução intelectual e moral, como se depreende da própria regra de identificação de sua elevação pela linguagem. (N. do T.)


266. Submetendo-se todas as comunicações a rigoroso exame, sondando e analisando suas ideias e expressões, como se faz ao julgar uma obra literária e rejeitando sem hesitação tudo o que for contrário à lógica e ao bom senso, tudo o que desmente o carácter do Espírito que se pensa estar manifestando, consegue-se desencorajar os Espíritos mistificadores que acabam por se afastar, desde que se convençam de que não podem nos enganar. Repetimos que este é o único meio, mas é infalível porque não existe comunicação má que resista a uma crítica rigorosa.(6) Os Espíritos bons jamais se ofendem, pois eles mesmos nos aconselham a proceder assim e nada têm a temer do exame. Somente os maus se melindram e procuram dissuadir-nos, porque têm tudo a perder. E por essa mesma atitude provam o que são.
Eis o conselho dado por São Luís a respeito:
"Por mais legítima confiança que vos inspirem os Espíritos dirigentes de vossos trabalhos, há uma recomendação que nunca seria demais repetir e que deveis ter sempre em mente ao vos entregardes aos estudos: a de pesar e analisar, submetendo ao mais rigoroso controle da razão todas as comunicações que receberdes; a de não negligenciar, desde que algo vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro, de pedir as explicações necessárias para formar a vossa opinião."


267. Podemos resumir os meios de reconhecer a qualidade dos Espíritos nos seguintes princípios:


1º) Não há outro critério para se discernir o valor dos Espíritos senão o bom senso. Qualquer fórmula dada pelos próprios Espíritos, com esse fim, é absurda e não pode provir de Espíritos superiores.


2º) Julgamos os Espíritos pela sua linguagem e as suas acções. As acções dos Espíritos são os sentimentos que eles inspiram e os conselhos que dão.


3º) Admitido que os Espíritos bons só podem dizer e fazer o bem, tudo o que é mau não pode provir de um Espírito bom.


4º) A linguagem dos Espíritos superiores é sempre digna, elevada, nobre, sem qualquer mistura de trivialidade. Eles dizem tudo com simplicidade e modéstia, nunca se vangloriam, não fazem jamais exibição do seu saber nem de sua posição entre os demais. A linguagem dos Espíritos inferiores ou vulgares é sempre algum reflexo das paixões humanas. Toda expressão que revele baixeza, auto-suficiência, arrogância, fanfarronice, mordacidade é sinal característico de inferioridade. E de mistificação, se o Espírito se apresenta com um nome respeitável e venerado.


5º) Não devemos julgar os Espíritos pelo aspecto formal e a correcção do seu estilo, mas sondar-lhes o íntimo, analisar suas palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Toda falta de lógica, de razão e de prudência não pode deixar dúvida quanto à sua origem, qualquer que seja o nome de que o Espírito se enfeite. (Ver nº 224.)


6º) A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, se não quanto à forma, pelo menos quanto à substância. As ideias são as mesmas, sejam quais forem o tempo e o lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidas segundo as circunstâncias, as dificuldades ou a facilidade de se comunicar, mas não serão contraditórias. Se duas comunicações com o mesmo nome se contradizem, uma das duas é evidentemente apócrifa. A verdadeira será aquela em que nada desminta o carácter conhecido do personagem. Entre duas comunicações assinadas, por exemplo, por São Vicente de Paulo, uma pregando a união e a caridade e outra tendendo a semear a discórdia, não há pessoa sensata que possa enganar-se.


7º) Os Espíritos bons só dizem o que sabem, calando-se ou confessando a sua ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com segurança, sem se importar com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom senso revela a fraude, se o Espírito se apresenta como esclarecido.


(6) "Não existe comunicação má que resista a uma crítica rigorosa". Esta confiança de Kardec na análise racional das comunicações é acertada, mas depende do critério seguro de quem analisa. Por isso mesmo é conveniente fazer a análise em conjunto e recorrer, no caso de dúvida, a outras pessoas de reconhecido bom senso. O Espírito farsante pode influir sobre um indivíduo e sobre o grupo, o que tem ocorrido com frequência em virtude da vaidade, da pretensão ou do misticismo dominante. Comunicações avulsas e até obras mediúnicas alentadas, evidentemente falsas, têm sido publicadas, aceitas e até mesmo defendidas por grupos e instituições diversas. (N. do T.)


8º) Os Espíritos levianos são ainda reconhecidos pela facilidade com que predizem o futuro e se referem com precisão a factos materiais que não podemos conhecer. Os Espíritos bons podem fazer-nos pressentir as coisas futuras, quando esse conhecimento for útil, mas jamais precisam as datas. Todo anúncio de acontecimento para uma época certa é indício de mistificação.(7)


9º) Os Espíritos superiores se exprimem de maneira simples, sem prolixidade. Seu estilo é conciso, sem excluir a poesia das ideias e das expressões, claro, inteligível a todos, não exigindo esforço para a compreensão. Eles possuem a arte de dizer muito em poucas palavras, porque cada palavra tem o seu justo emprego. Os Espíritos inferiores ou pseudo-sábios escondem sob frases empoladas o vazio das ideias. Sua linguagem é sempre pretensiosa, ridícula ou ainda obscura, a pretexto de parecer profunda.


10º) Os Espíritos bons jamais dão ordens: não querem impor-se, apenas aconselham e se não forem ouvidos se retiram. Os maus são autoritários, dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam facilmente. Todo Espírito que se impõe trai a sua condição. São exclusivistas e absolutos nas suas opiniões e pretendem possuir o privilégio da verdade. Exigem a crença cega e nunca apelam para a razão, pois sabem que a razão lhes tiraria a máscara.


11º) Os Espíritos bons não fazem lisonjas. Aprovam o bem que se faz, mas sempre de maneira prudente. Os maus exageram nos elogios, excitam o orgulho e a vaidade, embora pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles que desejam conquistar.


12º) Os Espíritos superiores mantêm-se, em todas as coisas, acima das puerilidades formais. Os Espíritos vulgares são os únicos que podem dar importância a detalhes mesquinhos, incompatíveis com as ideias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e mistificação de parte de um Espírito que toma um nome pomposo.


13º) Devemos desconfiar dos nomes bizarros e ridículos usados por certos Espíritos que desejam impor-se à credulidade. Seria extremamente absurdo tomar esses nomes a sério.


14º) Devemos igualmente desconfiar dos Espíritos que se apresentam com muita facilidade usando nomes bastante venerados, e só com muita reserva aceitar o que dizem. Nesses casos, sobretudo, é que um controle severo se torna indispensável. Porque é frequentemente a máscara que usam para levar-nos a crer em pretensas relações íntimas com Espíritos excelsos. Dessa maneira eles lisonjeiam a vaidade do médium e se aproveitam dela para o induzirem a actos lamentáveis e ridículos.


15º) Os Espíritos bons são muito escrupulosos no tocante às providências que podem aconselhar. Em todos os casos têm apenas em vista um fim sério e eminentemente útil. Devemos pois encarar como suspeita todas aquelas que não tenham esse carácter ou sejam condenáveis pela razão, reflectindo maduramente antes de adoptá-las, pois do contrário nos exporemos a mistificações desagradáveis.


16º) Os Espíritos bons são também reconhecíveis pela sua prudente reserva no tocante às coisas que possam comprometer-nos. Repugna-lhes desvendar o mal. Os Espíritos levianos ou malfazejos gostam de expô-lo. Enquanto os bons procuram abrandar os erros e pregam a indulgência, os maus os exageram e sopram a discórdia por meio de pérfidas insinuações.


(7) As predições apocalípticas, com datas certas, de acontecimentos próximos têm sido feitas por espíritos pseudo-sábios nestes últimos anos. A linguagem dessas previsões seria suficiente para mostrar a falsidade das comunicações. Muitas outras ainda serão feitas, pois há sempre quem as aceite. O estudo atento deste resumo prevenirá as pessoas prudentes contra esses embustes, hoje tão numerosos e que pelo seu ridículo afastam muita gente das luzes da doutrina. (N. do T.)


17º) Os Espíritos bons só ensinam o bem. Toda máxima, todo conselho que não for estritamente conforme à mais pura caridade evangélica não pode provir de Espíritos bons.


18º) Os Espíritos bons só dão conselhos perfeitamente racionais. Toda recomendação que se afaste da linha recta do bom senso ou das leis imutáveis da Natureza acusa a presença de um Espírito estreito e portanto pouco digno de confiança.


19º) Os Espíritos maus ou simplesmente imperfeitos ainda se revelam por sinais materiais que a ninguém poderão enganar. A acção que exercem sobre o médium é às vezes violenta, provocando movimentos bruscos e sacudidos, uma agitação febril e convulsiva que contrasta com a calma e a suavidade dos Espíritos bons.


20º) Os Espíritos imperfeitos aproveitam-se frequentemente dos meios de comunicação de que dispõem para dar maus conselhos. Excitam a desconfiança e a animosidade entre os que lhes são antipáticos. Principalmente as pessoas que podem desmascarar a sua impostura são visadas pela sua maldade.


As criaturas fracas, impressionáveis, tornam-se alvo do seu esforço para levá-las ao mal. Usam sucessivamente os sofismas, os sarcasmos, as injúrias e até as provas materiais do seu poder oculto para melhor convencê-las, empenhando-se em desviá-las do caminho da verdade.


21º) Os Espíritos dos que tiveram, na Terra, uma preocupação exclusiva, material ou moral, se ainda não conseguiram libertar-se da influência da matéria continuam dominados pelas ideias terrenas. Carregam parte dos preconceitos, das predilecções e até mesmo das manias que tiveram aqui. Isso é fácil de se reconhecer pela sua linguagem.


22º) Os conhecimentos de que certos Espíritos muitas vezes se enfeitam, com uma espécie de ostentação, não são nenhum sinal de superioridade. A verdadeira pedra de toque para se verificar essa superioridade é a pureza inalterável dos sentimentos morais.


23º) Não basta interrogar um Espírito para se conhecer a verdade.
Devemos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos. Porque os Espíritos inferiores, pela sua própria ignorância, tratam com leviandade as mais sérias questões. Também não basta que um Espírito tenha sido na Terra um grande homem para possuir no mundo espírita a soberana ciência. Só a virtude pode, purificando-o, aproximá-lo de Deus e ampliar os seus conhecimentos.


24º) Os gracejos dos Espíritos superiores são muitas vezes subtis e picantes, mas nunca banais. Entre os Espíritos zombeteiros, mas que não são grosseiros, a sátira mordaz é feita quase sempre muito a propósito.


25º) Estudando-se com atenção o carácter dos Espíritos que se manifestam, sobretudo sob o aspecto moral, reconhece-se a sua condição e o grau de confiança que devem merecer. O bom senso não se enganará.


26º) Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é necessário antes saber julgar-se a si mesmo. Há infelizmente gente que toma a sua própria opinião por medida exclusiva do bem e do mal, do verdadeiro e do falso. Tudo o que contradiz a sua maneira de ver, as ideias, o sistema que inventaram ou adoptaram é mau aos seus olhos. Falta a essas criaturas, evidentemente, a primeira condição para a recta apreciação: a rectidão do juízo. Mas elas nem percebem. Esse o defeito que mais enganos produz.(8)
Todas estas instruções decorrem da experiência e do ensino dos Espíritos. Completamo-las com as próprias respostas dadas por eles a respeito dos pontos mais importantes.(9)


(8) A afirmação de Kardec no nº 25: "O bom senso não se enganará" se refere, como vemos, às pessoas dotadas de bom senso. Neste nº 26 ele nos adverte quanto ao perigo das pessoas que não possuem "a rectidão do juízo". Por isso devemos recorrer com humildade ao juízo dos outros, não nos fechando orgulhosamente em nossas opiniões. (N. do T.)


(9) O próprio Kardec nos dá o exemplo do que ensina: completa as suas instruções com as respostas textuais dos Espíritos às suas consultas. Este é um exemplo vivo de como foi escrita a Codificação. Às suas experiências pessoais, aos resultados sensatos de suas observações, Kardec junta a opinião esclarecida dos Espíritos superiores. (N. do T.)


268. Perguntas sobre a natureza e a identidade dos Espíritos:


1. Por qual sinais podemos reconhecer a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos?
— Pela sua linguagem, como distingues um estouvado de um homem sensato. Já dissemos que os Espíritos superiores nunca se contradizem e só tratam de boas coisas. Só querem o bem. Essa é a sua preocupação.
— Os Espíritos inferiores estão dominados pelas ideias materiais. Suas manifestações se ressentem da sua ignorância e da sua imperfeição. Só aos Espíritos superiores é dado conhecer todas as coisas e julgá-las sem paixão.


2. O conhecimento científico de um Espírito é sempre uma prova da sua elevação?
— Não, porque se ainda estiver sob a influência da matéria pode ter os vossos vícios e preconceitos. Há pessoas que são no vosso mundo excessivamente invejosas e orgulhosas. Pensas que ao deixá-lo perdem esses defeitos? Resta-lhes, depois que partem daí, principalmente as que alimentaram fortes paixões, uma espécie de atmosfera que as envolve e conserva todas essas coisas más.
— Esses Espíritos semi-imperfeitos são mais temíveis que os Espíritos maus, porque, na sua maioria, juntam a astúcia e o orgulho à inteligência. Pelo seu pretenso saber eles se impõem às pessoas simples e ignorantes, que aceitam sem exame as suas teorias absurdas e mentirosas. Embora essas teorias não possam prevalecer contra a verdade, não deixam de produzir um mal momentâneo porque entravam a marcha do Espiritismo e porque os médiuns se enganam ingenuamente quanto ao mérito das comunicações que recebem. Este o ponto que requer grande estudo de parte dos espíritas esclarecidos e dos médiuns. Para distinguir o verdadeiro do falso é que devemos convergir toda a nossa atenção.(10)


3. Muitos Espíritos protectores se apresentam com nomes de santos ou de personagens conhecidos. O que devemos pensar disso?
— Todos os nomes de santos e de personagens conhecidos não bastariam para designar o protector de cada criatura. São poucos os Espíritos de nomes conhecidos na Terra. É por isso que quase sempre não dão os seus nomes. Mas na maioria das vezes quereis um nome. Então, para vos satisfazer eles usam o de um homem que conheceis e que respeitais.


4. Esse empréstimo de nome não pode ser considerado uma fraude?
— Seria fraude se feito por um Espírito mau que desejasse enganar. Mas sendo para o bem, Deus permite que se faça entre os Espíritos da mesma ordem, pois entre eles existe solidariedade e similitude de pensamentos.


(10) Muitos entendem que não devemos importar-nos com as mistificações, pois a verdade acaba prevalecendo. Kardec toca o nó da questão ao advertir que estes embustes "entravam a marcha do Espiritismo" e prejudicam a actividade dos médiuns, perturbando-lhes o discernimento necessário ao cumprimento de suas missões. Grande número de criaturas sofrem a desorientação proveniente das confusões semeadas no campo doutrinário e muitas chegam mesmo a perder oportunidades de uma encarnação ardentemente solicitada na vida espiritual. Dever dos espíritas, portanto, é combater as mistificações e desmascarar os Espíritos embusteiros, assegurando o progresso normal da doutrina que eles se empenham em ridicularizar com suas teorias absurdas. Esse é o bom combate de que falava o apóstolo Paulo, em que os inimigos não são os Espíritos nem as pessoas por eles fascinadas, todos dignos do nosso amor, mas os erros semeados entre as criaturas ingénuas. (N. do T.)


5. Assim, quando um Espírito protector se apresenta como São Paulo, por exemplo, não é certo que seja o Espírito ou a alma do apóstolo desse nome?
— De maneira alguma, pois encontram-se milhares de pessoas às quais disseram que têm São Paulo como anjo guardião, ou outro santo. Mas que importa, se o Espírito que vos protege é da mesma elevação do apóstolo Paulo? Já vos disse: precisais de um nome e eles se servem de um para que os chameis e os reconheçais. É como fazeis com os nomes de baptismo para vos distinguir dos demais membros da família. Eles podem também tomar os nomes dos arcanjos Rafael, Miguel, etc., sem que isso traga consequências.
— Aliás, quanto mais um Espírito é elevado, mais se multiplica o seu poder de irradiação. Sabei que um Espírito protector de ordem superior pode tutelar centenas de encarnados. Entre vós, na Terra, tendes os notários que se encarregam dos negócios de cem ou duzentas famílias. Porque haveríamos de ser menos aptos, espiritualmente falando, na direcção moral dos homens, do que aqueles na direcção material de seus interesses?


6. Porque os Espíritos comunicantes tomam com tanta frequência nomes de santos?
— Identificam-se com os hábitos daqueles a quem se dirigem. Tomam os nomes mais aptos a melhor impressionar o homem, de acordo com as crenças deste.


7. Certos Espíritos superiores que se costumam evocar atendem sempre em pessoa? Ou, como pensam alguns mandatários para transmitir o seu pensamento?
— Porque não atenderiam em pessoa, se o podem? Mas se o Espírito não puder atender, em seu nome falará forçosamente um mandatário.


8. O mandatário é sempre suficientemente esclarecido para responder como o faria o próprio Espírito?
— Os Espíritos superiores sabem a quem confiam o encargo de os substituir. Aliás, quanto mais elevados são os Espíritos, mais se harmonizam num pensamento comum, de tal maneira que para eles a personalidade é diferente, como deve ser também para vós. Pensais então que no mundo dos Espíritos superiores só existem aqueles que conhecestes na Terra como capazes de vos instruir? Sois de tal modo levados a vos tomar por tipos universais que acreditais nada haver além do vosso mundo. Assemelhai-vos de facto aos selvagens que nunca saíram de sua ilha e pensam que o mundo não vai além dela.


9. Compreendemos que seja assim quando se trata de ensinamento sério. Mas como os Espíritos elevados permitem a Espíritos de baixa classe usarem nomes respeitáveis para semear o erro através de máximas muitas vezes perversas?
— Não é com a sua permissão que o fazem. Isso não acontece também entre vós? Os que assim enganam serão punidos, ficai certos disso, e a punição será proporcional à gravidade da impostura.
Aliás, se não fosseis imperfeitos só teríeis Espíritos bons ao vosso redor. Se sois enganados, não o deveis senão a vós mesmos. Deus o permite para provar a vossa perseverança e o vosso discernimento, para vos ensinar a distinguir a verdade do erro. Se não o fazeis é porque não estais suficientemente elevados e necessitais ainda das lições da experiência.


10. Espíritos pouco adiantados, mas animados de boas intenções e do desejo de progredir não são às vezes incumbidos de substituir um Espírito superior para se exercitarem na prática do ensino?
— Jamais nos Centros importantes. Quero dizer nos Centros sérios e para um ensino de ordem geral.(11) Os que o fazem é por sua própria conta e, como dizem, para se exercitarem. É por isso que as suas comunicações, embora boas, trazem sempre a marca da sua inferioridade. Recebem essa incumbência apenas para as comunicações de segunda importância e para as que podemos chamar de pessoais.


11. As comunicações espíritas ridículas são às vezes entremeadas de boas máximas. Como resolver essa anomalia, que parece indicar a presença simultânea de Espíritos bons e maus?
— Os Espíritos maus ou levianos se metem também a sentenciar, mas sem perceberem bem o alcance ou a significação do que dizem. Todos os que o fazem entre vós são homens superiores? Não, os Espíritos bons e maus não se misturam. É pela constante uniformidade das boas comunicações que reconhecereis a presença dos Espíritos bons.


12. Os Espíritos que induzem ao erro estão sempre conscientes do que fazem?
— Não. Há Espíritos bons, mas ignorantes; podem enganar-se de boa fé. Quando tomam consciência da sua falta de capacidade eles a reconhecem e só dizem o que sabem.


13. Ao dar uma falsa comunicação, o Espírito sempre o faz com má intenção?
— Não. Se for um Espírito leviano apenas se diverte a mistificar, sem outra finalidade.


14. Desde que certos Espíritos podem enganar pela linguagem, podem tomar também uma falsa aparência para os médiuns videntes?
— Isso acontece, mas é mais difícil. Em todos os casos isso somente se dá com uma finalidade que os próprios Espíritos maus desconhecem, pois servem de instrumentos para uma lição. O médium vidente pode ver os Espíritos levianos e mentirosos como os outros médiuns podem ouvi-los ou escrever sob sua influência. Os Espíritos levianos podem aproveitar-se da faculdade do médium para o enganar com uma falsa aparência. Isso depende das qualidades do próprio Espírito do médium.(12)


15. É suficiente a boa intenção para não ser enganado, e nesse caso os homens realmente sérios, que não mesclam de curiosidade leviana os seus estudos, também estariam expostos à mistificação?
— Menos do que os outros, evidentemente. Mas o homem tem sempre algumas esquisitices que atraem os Espíritos zombeteiros. Julga-se forte e quase nunca o é. Deve desconfiar, por isso mesmo, da fraqueza proveniente do orgulho e dos preconceitos. Não se levam muito em conta essas duas causas de que os Espíritos se aproveitam, pois agradando-lhes as manias estão seguros de conseguir o que desejam.(13)


16. Porque Deus permite que os Espíritos maus se comuniquem e digam coisas más?
— Mesmo o que há de pior traz um ensinamento. Cabe a vós saber tirá-lo. É necessário que haja comunicações de toda espécie para vos ensinar a distinguir os Espíritos bons dos maus e para que vos sirvam de espelho.


17. Os Espíritos podem sugerir desconfianças injustas contra certas pessoas, por meio de comunicações escritas, e separar amigos?
— Os Espíritos perversos e invejosos podem praticar os males que os homens praticam. Eis porque precisamos estar sempre em guarda. Os Espíritos superiores são sempre prudentes e reservados quando censuram: nada dizem de mal, advertem com jeito. Se quiserem que duas pessoas, no próprio interesse delas, deixem de ver-se, provocarão incidentes que as separem de maneira natural. Uma linguagem que semeia discórdia e desconfiança provém sempre de um Espírito mau, seja qual for o nome de que se sirva. Assim, recebei sempre com reservas o que um Espírito disser de mal contra outro, sobretudo quando um Espírito bom já vos disse o contrário, e desconfiai também de vós mesmos, das vossas próprias aversões. Das comunicações espíritas aceitai somente o que for bom, grande, belo, racional e o que a vossa consciência aprove.


(11) "Les grands centres", como está no original, ou os Centros importantes, como diríamos em português, são as instituições responsáveis, pouco importando o seu tamanho ou número de adeptos. Para se compreender a razão dessa espécie de privilégio (ao menos aparente) confronte-se este item com os de nº 19 e 20. A justiça espírita é aplicada segundo os méritos reais de pessoas e instituições, visando sempre ao bem geral. (N. do T.)


(12) Passa-se exactamente como entre os encarnados: o trapaceiro só consegue êxito com as pessoas que lhe dão ouvidos. Daí o ensino evangélico de vigiar e orar. Na mediunidade esse ensino se aplica como verdadeira lei. O médium que não vigiar a si mesmo e não souber manter-se em oração está sujeito a todos os enganos. Mas cada engano será para ele uma lição, como é para os homens enganados por outros. (N. do T.)


(13) Todos temos as nossas manias e as nossas pretensões. Os Espíritos zombeteiros ou mistificadores, por simples diversão ou maldade se aproveitam delas, dizendo coisas que estão de acordo com essas fraquezas do nosso carácter. Com isso nos agradam e nos dominam. (N. do T.)


18. Pela facilidade com que os Espíritos maus se infiltram nas comunicações, parece que nunca se pode estar certo da verdade?
— Sim, podeis, desde que tendes a razão para os julgar. Ao ler uma carta sabeis reconhecer muito bem se foi um grosseirão ou um homem educado, um tolo ou um sábio que a escreveu. Se recebeis uma carta de um amigo distante, o que vos prova que é dele? A letra, direis. Mas não há farsantes que imitam todas as letras e tratantes que podem conhecer os vossos negócios? Não obstante, há indícios que não vos permitem enganar. O mesmo se dá com os Espíritos. Imaginai que é um amigo que vos escreve ou que se trata da obra de um escritor. E julgai da mesma maneira.


19. Os Espíritos superiores poderiam impedir os maus de tomarem nomes falsos?
— Certamente que o podem. Mas, quanto piores são os Espíritos, mais teimosos são e frequentemente resistem às injunções. Convém saber que há pessoas pelas quais os Espíritos superiores se interessam mais do que por outras, e quando julgam necessário sabem preservá-las da mentira. Contra essas pessoas os mistificadores são impotentes.


20. Qual a razão dessa parcialidade?
— Isso não é parcialidade, é justiça. Os Espíritos bons se interessam pelos que aproveitam os seus conselhos e se esforçam seriamente para melhorarem. São esses os seus preferidos e os ajudam, mas pouco se importam com aqueles que os fazem perder o seu tempo em belas palavras.


21. Porque Deus permite aos Espíritos o sacrilégio de usarem falsamente nomes veneráveis?
— Poderíeis perguntar também porque Deus permite aos homens mentir e blasfemar. Os Espíritos, como os homens, têm o seu livre-arbítrio para o bem e para o mal, mas nem uns nem outros escaparão à justiça de Deus.


22. Há fórmulas eficazes para expulsar Espíritos mentirosos?
— Fórmula é matéria. Vale mais um bom pensamento dirigido a Deus.


23. Certos Espíritos disseram possuir sinais gráficos inimitáveis, espécies de selos pelos quais se pode reconhecer e constatar a sua identidade. Isso é verdade?
— Os Espíritos superiores só possuem como sinais de sua identidade a elevação de suas ideias e de sua linguagem. Qualquer Espírito pode imitar um sinal material. Quanto aos Espíritos inferiores, traem-se de tantas maneiras que só um cego se deixa enganar por eles.


24. Os Espíritos inferiores não podem imitar também o pensamento?
— Imitam o pensamento como os cenários do teatro imitam a Natureza.


25. Seria assim tão fácil descobrir a fraude por um exame atento?
— Nem há dúvida. Os Espíritos só enganam os que se deixam enganar. Mas é preciso ter olhos de joalheiro para distinguir a pedra verdadeira da falsa, e quem não sabe distingui-la procura um lapidário.


26. Há pessoas que se deixam seduzir por uma linguagem enfática, que se contentam mais com palavras do que com ideias, que chegam mesmo a tomar ideias falsas e vulgares por sublimes. Como essas pessoas, inaptas para julgar os homens, podem julgar os Espíritos?
— Quando são bastante modestas para reconhecer a sua insuficiência não se fiam em si mesmas. Quando, por orgulho, se julgam mais capazes do que são, pagam pela sua tola vaidade. Os Espíritos mistificadores sabem a quem se dirigem. Há pessoas simples e pouco instruídas que são mais difíceis de enganar do que as espertas e sabidas. Agradando o amor-próprio eles fazem dos homens o que querem.(14)


27. Ao escrever, os Espíritos maus às vezes se traem por sinais materiais involuntários?
— Os habilidosos, não. Os inábeis se atrapalham. Qualquer sinal inútil e pueril é indício certo de inferioridade. Os Espíritos elevados não fazem nada inútil.
28. Muitos médiuns reconhecem os Espíritos bons e maus pela sensação agradável ou penosa que experimentam à sua aproximação. Perguntamos se a impressão desagradável, a agitação convulsiva, ou mal-estar enfim, são sempre indícios da natureza má dos Espíritos manifestantes.
— O médium experimenta as sensações do estado em que se encontra o Espírito manifestante. Quando o Espírito é feliz, seu estado é tranquilo, calmo; quando é infeliz, é agitado, febril e essa agitação se transmite naturalmente ao sistema nervoso do médium. Aliás, é assim com o homem na Terra: aquele que é bom, mostra-se calmo e tranquilo; aquele que é mau está sempre agitado.
Observação - Há médiuns de maior ou menor impressionabilidade e por isso não se pode considerar a agitação como regra absoluta. Nisto, como em tudo, devemos levar em conta as circunstâncias. A natureza penosa e desagradável da sensação é produzida pelo contraste, pois se o Espírito do médium simpatizar com o Espírito mau que se manifesta, será pouco ou nada afectado por este. Além disso, é necessário não confundir a rapidez da escrita, produzida pela extrema flexibilidade de certos médiuns, com a agitação convulsiva que os médiuns mais lentos podem sofrer ao contacto dos Espíritos imperfeitos.


(14) A vaidade anula a inteligência e a instrução. A humildade supre através da vaidade que os mistificadores dominam os mais inteligentes e instruídos. Podemos ver isso ao nosso redor, e nos espantamos de que certas pessoas se deixem levar por mistificações evidentes. Os itens 25 e 26 esclarecem bem esse problema. Devemos meditar sobre esses itens. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns