terça-feira, 3 de julho de 2007

Os pais e os filhos


Os pais e os filhos-problemas
Walter Barcelos


"Os filhos doentes são mensageiros de amor que Deus te envia, para que o amor se desentranhe de qualquer forma do egoísmo enquistado e se inflame de luz, na luz da sublimação". (Emmanuel)


Os laços de família não se verificam por acaso: há uma Lei Divina comandando o destino e a união das almas na vida corpórea. Antes de acolhermos nos braços, com ternura, o ser pequenino, pelas vias da maternidade sagrada, idealizamos para ele o melhor: o corpo mais perfeito, a saúde orgânica integral, a inteligência lúcida; mas não devemos esquecer que essa escolha já foi feita realmente por nós, desde muito tempo, sem ilusões e sonhos, na maioria das vezes, antes de reencarnarmos. Deste modo não devemos alarmar-nos com o que os filhos possam trazer para nós de trabalhos dificuldades e problemas, desde tenra idade.


Nossos filhos, em verdade, não são nossos filhos: São filhos de Deus, e temporariamente se encontram sob nossos cuidados. Junto aos filhos simpáticos, pacíficos e obedientes, surgem também aqueles outros que, desde o berço, já começam a provocar preocupações, irritações, tensões emocionais, aborrecimentos, angústias e canseiras físicas e psíquicas, por apresentarem um temperamento forte de rebeldia e desobediência, destacando-se pela insubordinação e leviandade. São os filhos problema que a Lei da Reencarnação trouxe ao nosso convívio familiar, ensejando a oportunidade de renovação de seus destinos. É o reencontro para a reconciliação indispensável entre pais e filhos, em busca de um melhor futuro espiritual. Na intimidade do coração, os pais sempre indagam quem são estes filhos diferentes que trazem uma maior dose de lutas e trabalhos. O mentor espiritual Emmanuel explica: "Os filhos-problema são aqueles mesmos espíritos que prejudicamos, desfigurando-lhes o carácter e envenenando-lhes os sentimentos".


Os filhos difíceis são filhos de nossas próprias obras, em vidas passadas, que a Providência Divina agora encontra a possibilidade de nos unir pelos laços da consanguinidade, dando-nos a maravilhosa chance de resgate, reparação e os serviços árduos da educação.


A primeira atitude construtiva dos pais, ante os filhos rebeldes, é desenvolverem em si mesmos a grande compreensão, para não se deixarem dominar pela revolta e amargura, julgando que são infelizes e perseguidos pela má sorte... O evangelho de Allan Kardec nos ensina: "Não recuseis, portanto, o filho que no berço repele a mãe, nem aquele que vos paga com a ingratidão: não foi o acaso que o fez assim e que o enviou. Uma intuição imperfeita do passado se revela e dela podeis deduzir que um ou outro já odiou ou foi odiado, que um ou outro veio para perdoar ou para expiar".


Encontramos no livro do espírito André Luiz, "Nos Domínios da Mediunidade" Cap. 24, psicografia de Francisco C. Xavier, um facto interessante sobre reencarnação e família. Na encarnação actual, vamos encontrar o pai de nome Júlio, espírita convicto, acometido de paralisia das pernas e que possui quatro filhos desorientados: Américo sofre de perturbação mental. Márcio é vítima do alcoolismo e Guilherme e Benício vivem na leviandade e extravagâncias nocturnas. Os Espíritos Superiores revelaram a André Luiz que, em vida passada Júlio, o pai, fora chefe de um grupo de assaltantes e desencaminhou quatro rapazes para aventuras delituosas, os quais, hoje, são seus filhos desequilibrados. Teremos sempre os filhos de que precisamos e merecemos, dentro dos estatutos da Justiça Divina e através dos processos redentores das reencarnações expiatórias.


Os pais espíritas com cérebros esclarecidos e os corações iluminados pela Doutrina Kardecista, devem ficar felizes por encontrarem esta oportunidade grandiosa de cooperar na recuperação de espíritos infelizes; a quem devem e que talvez, há longo tempo, esperam por esta bênção do reencontro.


Fonte: Rev. "Informação"
(Revista Espírita Allan Kardec Nº 5)

As drogas e suas implicações espirituais


As Drogas e suas Implicações Espirituais
Xerxes Pessoa De Luna


I— Introdução


Um dos problemas mais graves da sociedade humana, na actualidade, é o consumo indiscriminado e, cada vez mais crescente, das drogas por parte não só dos adultos, mas, também, dos jovens e lamentavelmente até das crianças, principalmente nos centros urbanos das grandes cidades.


A situação é tão preocupante, que cientistas de várias partes do Planeta, reunidos, chegaram à seguinte conclusão: “Os viciados em drogas de hoje podem não só estar pondo em risco seu próprio corpo e sua mente, mas fazendo uma espécie de roleta genética, ao projectar sombras sobre os seus filhos e netos ainda não nascidos.”


Diante de tal flagelo e de suas terríveis consequências, não poderia o Espiritismo, Doutrina comprometida com o crescimento integral da criatura humana na sua dimensão espírito-matéria, deixar de se associar àqueles segmentos da sociedade que trabalham pela preservação da vida e dos seus ideais superiores, em seus esforços de erradicação de tão terrível ameaça.
O efeito destruidor das drogas é tão intenso que extrapola os limites do organismo físico da criatura humana, alcançando e comprometendo, substancialmente, o equilíbrio e a própria saúde do seu corpo perispiritual. Tal situação, somada àquelas de natureza fisiológica, psíquica e espiritual, principalmente as relacionadas com as vinculações a entidades desencarnadas em desalinho, respondem, indubitavelmente, pelos sofrimentos, enfermidades e desajustes emocionais e sociais a que vemos submetidos os viciados em drogas.


Em instantes tão preocupantes da caminhada evolutiva do ser humano em nosso planeta, cabe a nós espíritas, não só difundir as informações anti drogas que nos chegam do plano espiritual benfeitor que nos assiste, mas, acima de tudo, entender e atender aos apelos velados que estes amigos espirituais nos enviam com seus informes e relatos contrários ao uso indiscriminado das drogas, no sentido de envidarmos esforços mais concentrados e específicos no combate às drogas, quer no seu aspecto preventivo, quer no de assistência aos já atingidos pelo mal.


II — A acção das drogas no perispírito


Revela-nos a ciência médica que a droga, ao penetrar no organismo físico do viciado, atinge o aparelho circulatório, o sangue, o sistema respiratório, o cérebro e as células, principalmente as neuronais.


Na obra “Missionários da Luz” — André Luiz (pág. 221 — Edição FEB), lemos: “O corpo perispiritual, que dá forma aos elementos celulares, está fortemente radicado no sangue. O sangue é elemento básico de equilíbrio do corpo perispiritual.” Em “Evolução em dois Mundos”, o mesmo autor espiritual revela-nos que os neurónios guardam relação íntima com o perispírito.
Comparando as informações destas obras com as da ciência médica, conclui-se que a agressão das drogas ao sangue e às células neuronais também reflectirá nas regiões correlatas do corpo perispiritual em forma de lesões e deformações consideráveis que, em alguns casos, podem chegar até a comprometer a própria aparência humana do perispírito. Tal violência concorre até mesmo para o surgimento de um acentuado desequilíbrio do Espírito, uma vez que “o perispírito funciona em relação a este, como uma espécie de filtro na dosagem e adaptação das energias espirituais junto ao corpo físico e vice-versa.


Por vezes o consumo das drogas se faz tão excessivo, que as energias, oriundas do perispírito para o corpo físico, são bloqueadas no seu curso e retornam aos centros de força.


III — A acção dos Espíritos inferiores junto ao viciado


Esta acção pode ser percebida através das alterações no comportamento do viciado, dos danos adicionais ao seu organismo perispiritual, já tão agredido pelas drogas, e das consequências futuras e penosas que experimentará quando estiver na condição de espírito desencarnado, vinculado a regiões espirituais inferiores.


Sabemos que, após o desencarne, o Espírito guarda, por certo tempo, que pode ser longo ou curto, seus condicionamentos, tendências e vícios de encarnado. O Espírito de um viciado em drogas, por exemplo, em face do estado de dependência a que ainda se acha submetido, no outro lado da vida, sente o desejo e necessidade de consumir a droga. Somente a forma de satisfazer seu desejo é que irá variar, já que a condição de desencarnado não lhe permite proceder como quando na carne. Como Espírito precisará vincular-se à mente de um viciado, de início, para transmitir-lhe seus anseios de consumo da droga, posteriormente para saciar sua necessidade, valendo-se para tal do recurso, ou da vampirização das emanações tóxicas impregnadas no perispírito do viciado ou da inalação dessas mesmas emanações quando a droga estiver sendo consumida.


“O Espírito de um viciado em drogas, em face do estado de dependência a que se acha submetido, no outro lado da vida, sente a desejo e a necessidade de consumir a droga”
Essa sobrecarga mental, indevida, afecta tão seriamente o cérebro, a ponto de este ter suas funções alteradas, com consequente queda no rendimento físico, intelectual e emocional do viciado. Segundo Emmanuel, “o viciado ao alimentar o vício dessas entidades que a ele se apegam, para usufruir das mesmas inalações inebriantes, através de um processo de simbiose em níveis vibratórios, colecta em seu prejuízo as impregnações fluídicas maléficas daqueles, deixando o viciado enfermiço, triste, grosseiro, infeliz, preso à vontade de entidades inferiores, sem o domínio da consciência dos seus verdadeiros desejos”.


IV — Contribuição do Centro Espírita no trabalho anti drogas desenvolvido pelos Benfeitores Espirituais


As Casas Espíritas, como Pronto-Socorro espirituais, muito podem contribuir com os Espíritos Superiores no trabalho de prevenção e auxílio às vítimas das drogas nos dois lados da vida. Com certeza, esta contribuição poderia ocorrer através de medidas que, no dia-a-dia da instituição:
Um incentivo cada vez mais constante às actividades de evangelização da infância e da juventude, principalmente com sua implantação, caso a Instituição ainda não o tenha implantado.


Estimular seus frequentadores, em particular a família do viciado em tratamento, à prática do Evangelho no Lar. Estas pequenas reuniões, quando realizadas com o devido envolvimento e sinceridade de propósitos, são fontes sublimes de socorro às entidades sofredoras, além, naturalmente, de concorrer para o estreitamento dos laços afectivos familiares, o que decerto estimulará o viciado, por exemplo, a perseverar no seu propósito de libertar-se das drogas ou a dar o primeiro passo nesse sentido.


Preparar devidamente seu corpo mediúnico para o sublime exercício da mediunidade com Jesus, condição essencial ao socorro às vítimas das drogas, até mesmo as desencarnadas.
No diálogo fraterno com o viciado e seus familiares, sejam-lhes colocados à disposição os recursos socorristas do tratamento espiritual: passe, desobsessão, água fluidificada e reforma íntima.


Criar, no trabalho assistencial da Casa, uma actividade que enseje o diálogo, a orientação, o acompanhamento e o esclarecimento, com fundamentação doutrinária, ao viciado e a seus familiares.


V — Conclusão


Diante dos factos e dos acontecimentos que estão a envolver a criatura humana, enredada no vício das drogas, geradores de tantas misérias morais, sociais, suicídios e loucuras, nós, espíritas, não podemos deixar de considerar esta realidade, nem tampouco deixar de concorrer para a erradicação deste terrível flagelo que hoje assola a Humanidade. Nesse sentido, urge que intensifiquemos e aprimoremos cada vez mais as acções de ordem preventiva e terapêutica, já em curso em nossas Instituições, e que, também, criemos outros mecanismos de acção mais específicos neste campo, sempre em sintonia com os ensinamentos do Espiritismo e seu propósito de bem concorrer para a ascensão espiritual da criatura humana às faixas superiores da vida.


Revista Reformador - Março - 1998
Responsável. p/ transcrição: Wadi Ibrahim

operações espirituais


Operações espirituais: como acontecem
José Queid Tufaile Huaixan


A maioria das pessoas, espíritas ou não, já ouviu falar das "operações invisíveis". Segundo se entende, elas seriam intervenções cirúrgicas no perispírito, realizadas por equipas de médicos desencarnados.


Será que isso é possível? Este tipo de auxílio espiritual poderia ser implantado rotineiramente no centro espírita? Haveria algum impedimento legal ou doutrinário a ser observado?


Como se vê, são muitas as indagações que se podem fazer em torno do assunto. A finalidade deste estudo é encontrarmos respostas a tais perguntas, tendo em vista nosso aprendizado e a melhoria dos serviços mediúnicos prestados ao povo.


Nas actividades do Grupo Espírita Bezerra de Menezes, temos tido a oportunidade de verificar mediunicamente o trabalho de uma equipe espiritual, que nos parece composta por médicos-cirurgiões.


Observamos suas actividades durante alguns anos e concluímos que prestam importante serviço no campo do alívio e cura das enfermidades. Fundamentados nessa experiência e no raciocínio acerca dos fundamentos doutrinários, afirmamos que as operações cirúrgicas no perispírito são perfeitamente possíveis de serem realizadas pelos desencarnados, e que geralmente não são aceitas pelas sociedades por causa de preconceitos e de suas consequências morais.


O perispírito


Allan Kardec, quando realizou seu trabalho na Codificação, colocou a existência do corpo espiritual como um dos alicerces no qual se assentava a fenomenologia espírita.
Chamou este corpo de perispírito, classificando-o como o elo invisível a unir o princípio espiritual ao princípio material. Sem ele, o Espírito, fundamentalmente abstracto, não poderia agir sobre a matéria, ficando impossibilitado de encarnar-se. Procuremos agora, compreender a natureza deste corpo fluídico.


O que diz Allan Kardec?


Em várias ocasiões, o Codificador esteve avaliando a constituição do perispírito. Suas conclusões apontam o corpo espiritual como sendo o elo que transmite o desejo do espírito ao corpo material. Em um de seus estudos, publicado na Revista Espírita, número de Março de 1866, intitulado "Introdução ao Estudo dos Fluidos Espirituais", Kardec demonstra que o corpo material e o espiritual são provenientes da mesma fonte, isto é, do fluido básico universal.


O que diz a Codificação?


A Codificação espírita revelou questões básicas a respeito de todos os pontos importantes para quem pratica o Espiritismo. Consultamos "O Livro dos Espíritos" e encontramos colocações capazes de nos apontar rumos no estudo proposto. Essas questões dão a entender que o perispírito é algo mais que uma massa fluídica homogénea. Na questão 137, Kardec pergunta se poderia haver uma divisão do Espírito quando fosse reencarnar.


Pergunta: - O mesmo Espírito pode encarnar-se de uma vez em dois corpos diferentes?


Resposta: "Não. O Espírito é indivisível e não pode animar simultaneamente duas criaturas diferentes".


A questão 140, logo à frente, indaga o seguinte:


Pergunta: - Que pensar da teoria da alma subdividida em tantas partes quantos são os músculos, presidindo cada uma as diferentes funções do corpo?


Resposta: "Isso depende do sentido que se atribuir à palavra alma. Se por ela se entende o fluido vital, está certo; se o Espírito quando encarnado, está errado. Já dissemos que o Espírito é indivisível: ele transmite o movimento aos órgãos através do fluido intermediário, sem por isso se dividir".


Quando Kardec coloca a questão 140, pergunta da possibilidade de o Espírito se dividir em tantas partes quantas fossem os órgãos do corpo. Referindo-se à pergunta anterior, o Espírito de Verdade responde que tudo dependia do sentido que se atribuía à palavra "alma". Se por ela se entendia o fluido vital, estava certo. Quer dizer, haveria uma divisão fluídica dos fluidos perispirituais em torno dos órgãos materiais. Se por ela se entendia o "Espírito", estava errado, pois tinha afirmado anteriormente que o Espírito era indivisível.


Na questão 140-A, Kardec complementa:


"A alma age por meio dos órgãos, e estes são animados pelo fluido vital que se reparte entre eles, e com mais abundância nos que são os centros ou focos do movimento".
Fica evidente que o perispírito não seria um todo fluídico homogéneo, como comumente se pensa.
Perguntamos: essas massas fluídicas em que Kardec afirma dividir-se o perispírito seriam órgãos fluídicos? A resposta a esta questão estaria embutida em estudos e revelações espirituais vindas no futuro.


O que disseram as obras subsidiárias?


Em termos de obras complementares, optamos pela citação das psicografadas por Francisco Cândido Xavier, dado à idoneidade do médium. Em varias partes do seu trabalho, os Espíritos que o assistem revelaram tratar-se o perispírito de uma organização fluídica complexa e que o corpo carnal seria um grosseiro reflexo do corpo espiritual. Vejamos o que diz André Luiz, no livro "Evolução em Dois Mundos":


"Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar, antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque na realidade, é o corpo físico que o reflecte, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação" (Corpo Espiritual, pág.25).


"Todos os órgãos do corpo espiritual e, consequentemente, do corpo físico, foram, portanto, construídos com lentidão, atendendo à necessidade do campo mental em seu condicionamento e exteriorização no meio terrestre" (Génese dos Órgãos Psicossomáticos, págs.40/41).
Como se vê, há indícios patentes de que o perispírito seria um organismo complexo, dotado de células e de tecidos e, o que é interessante, de órgãos funcionais, como aqueles que temos no corpo físico.


Mas, será que são reais? Sim, afirmamos. São tão reais como os do corpo carnal, constituído por uma realidade mais densa. Tanto um como o outro, no entanto, são obras milenares construídas pelo pensamento do espírito na sua ascensão para Deus.


As ocupações dos Espíritos


A Doutrina Espírita revela que os espíritos, depois de sua desencarnação, ocupam-se, na Espiritualidade, das mesmas actividades que eles desempenhavam em vida. A causa primeira desta preocupação estaria no condicionamento imposto ao Espírito pela sua experiência na matéria. Depois, pela sua própria vontade em servir dentro do campo de seus conhecimentos.
A Revista Espírita, no ano de 1865, narra um episódio onde ocorre o desencarne do Dr. Antoine Demeure, um médico com quem Kardec correspondia. Em mensagens na Revista, a entidade fala de suas condições no mundo espiritual, revelando que no Além continuava cuidando de enfermos, como o fazia na Terra.


Numa carta vinda de Montauban, publicada por Kardec, um correspondente narra um trabalho de cura orgânica feito pelo médico/espírito Demeure durante uma sessão mediúnica. Nela, ocorre a cura instantânea de um grave entorse que incomodava uma vidente.
É natural que, desencarnados, os médicos se ocupem em ajudar aqueles que estão enfermos, no Além como na Terra.


No livro "Evolução em Dois Mundos", página 213, há uma questão ventilada por André Luiz, cujo teor fala da Medicina no Mundo dos Espíritos.


Pergunta - Quais os principais métodos usados na Espiritualidade para o tratamento das lesões do corpo espiritual?


Resposta: Na Espiritualidade, os servidores da medicina penetram, com mais segurança, na história do enfermo para estudar, com êxito possível, os mecanismos da doença que lhe são particulares. Aí os exames nos tecidos psicossomáticos com aparelhos de precisão, correspondendo às inspecções instrumentais e laboratoriais em voga na Terra, podem ser enriquecidos com a ficha cármica do paciente, a qual determina quanto à reversibilidade ou irreversibilidade da moléstia, antes da nova reencarnação, motivo por que numerosos doentes são tratáveis, mas somente curáveis mediante longas ou curtas internações no campo físico, a fim de que as causas profundas do mal sejam extirpadas da mente pelo contacto directo com as lutas em que se configuram".


Como se pode ver, nos círculos espirituais mais próximos da Terra, acontecem actividades médicas similares àquelas que se observam nos hospitais terrenos. Ora, se o perispírito de um desencarnado pode sofrer uma cirurgia, obviamente o de um encarnado também o pode. Inúmeras observações mediúnicas feitas na história do Espiritismo apontam curas orgânicas realizadas por médiuns. Nestes trabalhos, os espíritos operadores falaram destas cirurgias e das formas como elas se processavam.


Fluidoterapia


A fluidoterapia é a técnica de tratamento utilizada nos centros espíritas. As cirurgias perispirituais pertencem a este campo, devido serem actividades ligadas à manipulação dos fluidos. Classificam-se, porém, por fenómenos dotados de características próprias, tanto em termos fluídicos como espirituais. Estão intimamente ligadas à mediunidade curadora e, por isso, a equipe que as produz deverá ter entre seus membros a presença de um ou mais médiuns curadores. Estes, serão assistidos por entidades desencarnadas, ligadas ao campo da medicina, conhecedoras dos meandros da saúde espiritual e da lei de causa e efeito.


Quando se considera o trabalho de passes, a magnetização não exige nenhuma condição especial.
Qualquer pessoa poderá ministrá-los de forma razoável. Já a cirurgia espiritual só poderá ser realizada por espíritos especializados nesta área.
Pode-se afirmar que o passe está para a cirurgia espiritual assim como o trabalho de um farmacêutico está para o de um médico. Enquanto um ministra uma medicação o outro faz o diagnóstico da enfermidade, prescreve a medicação ou realiza uma cirurgia na recuperação do corpo enfermo.


Mecanismos da fluidoterapia


Na fluidoterapia a movimentação fluídica ocorre através da vontade do médium e dos espíritos que o circundam. Sua acção benfazeja contribui para afastar do enfermo parasitas fluídicos, espíritos enfermos ou obsessores e contaminações magnéticas que oprimem a vida mental, impedindo-a de sintonizar com as regiões mais elevadas.


Ainda nas enfermidades graves, o passe convencional mostra-se benéfico, porque o perispírito, à semelhança de uma esponja, absorve os fluidos espirituais que nele são depositados. Sua entrada na camada perispiritual é facilitada pela sintonia vibratória entre a fonte e o emissor. Fundamentados no que disse Allan Kardec em O Livro dos Espíritos, acreditamos que o perispírito traz em si, um mecanismo de automação espiritual, onde os fluidos se concentram nas regiões mais carentes da estrutura. É uma acção parecida com a dos anticorpos da organização física, nos casos de infecções.


Nas contaminações com baixo magnetismo, obsessões ou influencia de espíritos sofredores, o passe produz um alívio imediato de sintomas e, por esta razão, deve ser ministrado rotineiramente nas casas espíritas.


A natureza do mundo espiritual


No movimento espírita transitam algumas ideias limitadas a respeito da natureza do mundo espiritual. Geralmente, pensa-se que o mundo invisível é uma região de abstracção, onde as formas são revestidas de fluidos ténues. Tal pensamento foi fortalecido pela revelação feita pelos espíritos, dizendo que os fluidos são modificáveis pela acção do pensamento.
Sim, os fluidos espirituais sofrem as impressões do pensamento, modificando-se segundo sua natureza, mas devemos ter o cuidado de não carregarmos essa ideia com os excessos da imaginação. Se a influência fosse tão intensa como querem alguns, pela imensa variedade de almas desencarnadas existentes no Além, tal mundo não teria estabilidade alguma e estaria em constante mutação. O mundo invisível é estável e tão palpável quanto o terreno.
Allan Kardec, em "A Génese", demonstra por uma série de raciocínios a ponderabilidade das regiões espirituais. É evidente que todos os objectos encontrados na Espiritualidade são produtos do pensamento de alguém que os criou, mas nem por isso deixam de ser reais. O Universo material, por exemplo, é uma criação do pensamento Divino, e nos parece muito real.
Por este raciocínio, queremos entender a possibilidade da existência no mundo invisível de instrumentos cirúrgicos, os quais têm sido observados nas operações no corpo astral.
Sobre a grande oficina da vida espiritual, Kardec assim se refere em "A Génese", capítulo XIV, item 14.


"Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não que os manipulem como os homens manipulam os gases, mas com o auxílio do pensamento e da vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos aquilo que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a tais fluidos esta ou aquela direcção; eles os aglomeram, os combinam ou os dispersam; formam com esses materiais, conjuntos que tenham uma aparência, uma forma, uma cor determinadas; mudam suas propriedades como um químico altera as propriedades dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo determinadas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual".


Podem os Espíritos de médicos construírem, com seus pensamentos, instrumentos cirúrgicos, como os que eram utilizados por eles em vida corpórea? Tudo indica que sim. Vejamos uma vez mais, as palavras do Codificador, no mesmo item.


"O pensamento do Espírito cria fluidicamente os objectos dos quais tem o hábito de se servir; um avaro manejará o ouro, um militar terá suas armas e seu uniforme, um fumante, seu cachimbo, um trabalhador seu arado e seus bois, uma mulher velha, seus aparelhos de fiar. Esses objectos fluídicos são tão reais para o Espírito, o qual é fluídico também, como o eram no estado material para o homem vivo; porém, pela mesma razão de que são criados pelo pensamento, sua existência é também fugitiva como o pensamento".


Concluí-se, pois, que a vida dos espíritos livres só pode ter similaridade com a existência terrena, devido a esta propriedade que tem o pensamento de agir no universo fluídico, criando as formas. De outro modo, teríamos o nada.


Causa das enfermidades


Quanto à origem das enfermidades, podemos classificá-las como sendo provenientes de duas fontes. Numa, a causa do mal reside na alteração da estrutura orgânica, provocada por uma causa física qualquer. Na outra, temos um tipo de enfermidade, onde fluidos espirituais impregnados de baixo magnetismo, actuam no corpo espiritual causando desarmonia no funcionamento do corpo físico. A primeira fonte de enfermidades é objecto de estudo da medicina humana. A segunda, deveria ser preocupação dos estudiosos da ciência espírita, uma vez que a terrena ainda não aceita a existência do mundo invisível.


O centro espírita ainda é o lugar onde Deus pode exercer através dos Espíritos a medicina espiritual para benefício dos que sofrem.
Kardec afirma que a maioria das moléstias, como todas as misérias humanas, são expiações do presente ou do passado, ou provações para o futuro.
Não pode ser curado aquele que deve suportar sua provação até o fim. Isto não quer dizer, que se deva deixar o enfermo ao abandono para que sofra as expiações do seu carma. Às vezes, está em nossas mãos a tarefa de fazer cessar o sofrimento daqueles que nos procuram, fazendo uso da metodologia espírita.


A operação espiritual


O mecanismo da cura não é difícil de ser compreendido, pois é conhecido de todos. Nas enfermidades localizadas no corpo carnal, o processo terapêutico convencional, através de medicação, procura substituir as moléculas desorganizadas, enfermiças, por outras saudáveis. Isto se faz com o uso da química farmacêutica e, em alguns casos, pela conduta cirúrgica.
Nas doenças provenientes do corpo espiritual o processo curativo é exactamente o mesmo, só que realizado por médicos desencarnados. Livres da matéria, os Espíritos podem se encarregar desta tarefa com precisão, pois a tudo penetram com facilidade. Neste último caso, as moléculas substituídas são as do perispírito, causando consequências directas na organização física. A este processo chamamos "operação espiritual".


Os Espíritos Superiores, ligados à área da medicina, realizam as actividades curativas, tendo em vista o alívio do sofrimento dos enfermos que buscam conforto nas casas de caridade.
Como organizar uma sessão destinada às curas espirituais?


Todas as casas espíritas podem promover reuniões com a finalidade única de atender aos doentes do corpo. No movimento espírita, de um modo geral, não há especialização em nenhum sector da prática doutrinária. Tudo fica na dependência de que o Alto faça sua caridade, quando e como bem entender. Temos afirmado que há uma necessidade urgente dos centros espíritas promoverem em seus quadros de serviços, uma reforma visando torná-los produtivos. O núcleo que tiver disponibilidade, deve especializar-se, utilizar o Espiritismo para atender quem precisa de ajuda.


Sabemos que todo o trabalho espírita fundamenta-se na movimentação de fluidos impregnados de magnetismo. A natureza deste magnetismo está intimamente ligada às qualidades morais das pessoas e dos espíritos envolvidos.


Um trabalho onde se propõe produzir fenómenos de curas é bem diferente daqueles onde se trata especificamente da obsessão. Nas reuniões onde se cuidam de pessoas alteradas emocionalmente, ou perturbadas por espíritos inferiores, é certo que haverá ali a presença do magnetismo inferior.


Nas reuniões de curas, onde acontecerá uma operação de reposição molecular e expulsão de miasmas da estrutura íntima da matéria, os fluidos a serem utilizados serão de natureza fina, impregnados do magnetismo superior.


O mais sensato, pois, é organizarmos as sessões de curas num dia apropriado para ela. Não devemos misturar os trabalhos de curas com os de desobsessão.


Kardec diz que em alguns casos, as enfermidades podem ter como causa primária a obsessão. Nestes casos, quando se detectar influências obsessivas, o paciente deverá receber cuidados nas duas áreas assistenciais, com predominância no sector desobsessivo. Como não há indícios de que um médium tenha a faculdade de curar, as equipes interessadas nestas actividades devem formar um grupo para ministrar o passe curativo. Aqueles em que pesar a suspeita de serem doadores específicos, devem ser experimentados nas sessões de curas.


Todos os sintomas, o procedimento de tratamento e resultados devem ser controlados de modo a se ter ideia se os métodos estão funcionando a contento. Os médiuns curadores devem evitar o toque físico no paciente. Não é necessário que isto aconteça para que se processe o fenómeno curativo.


A acção magnética será simplesmente aquela que se faz no passe, ou seja, imposição das mãos por tempo mais ou menos determinado. Em alguns grupos, utiliza-se um divã para deitar os pacientes que exijam uma magnetização mais intensa.
O paciente é submetido a um primeiro atendimento, feito pelo grupo principal, voltado exclusivamente neste dia para os trabalhos de cura. Depois, semanalmente, continua recebendo passes nas sessões que se seguem à evangelização. Este serviço é feito pelos médiuns passistas comuns. Cada sociedade deve criar seu método e avaliar os resultados.


É ilegal curar no centro espírita?


Sim, é ilegal do ponto de vista jurídico. As leis são normas de vida que são feitas com a finalidade de orientarem a conduta do homem. A legislação diz que para se exercer o direito de curar um enfermo, uma pessoa tem que ser devidamente habilitada para isso. A humanidade conta com universidades destinadas à formação de médicos profissionais nos muitos sectores da saúde. Seria uma falta de senso, se a sociedade aprovasse a acção impensada de uma pessoa, que se propusesse curar seu próximo, simplesmente porque crê ter poderes para isso.


E nós espíritas, como ficamos em face desta ilegalidade? É simples. As mesmas leis que proíbem a prática ilegal da medicina, também nos facultam o direito de culto, protegendo o ambiente religioso onde se professam as crenças.


O Espiritismo é uma religião e devemos deixar claro que nossos trabalhos de assistência aos enfermos são objectos da fé que os homens têm em Deus e na assistência dos Espíritos.
Se não há o uso de qualquer instrumentação material; se não ocorre a prescrição de medicamento; se não há cobrança por assistência prestada; se não há promessas de curas; não existe como acusar legalmente um centro por prática de curandeirismo.


Os trabalhos de curas devem ser desenvolvidos dentro do âmbito religioso. Na sociedade onde trabalhamos, fixamos uma placa logo na entrada do centro, informando a natureza do trabalho desenvolvido, de modo que não haja enganos quanto à natureza religiosa da assistência espiritual.


Na história do Espiritismo houve médiuns curadores que vieram desenvolver um trabalho curativo a que se denomina "missão". Estes médiuns aparecem de tempos em tempos, com suas operações chocantes, e vêm exercer um papel de chamar a atenção da ciência materialista para a existência da alma. Operam o corpo carnal utilizando instrumentos cortantes, sem anestesia ou assepsia. Estes médiuns encarnam-se preparados para viver a espinhosa tarefa e acabam processados e presos pelas leis terrenas. Estes, devem cumprir suas missões.
O serviço de assistência a enfermos, proposto aqui neste trabalho, nada tem de ilegal. Pode ser realizado por qualquer núcleo espírita.


O preconceito


As operações espirituais são técnica e racionalmente concebíveis, como demonstramos em nossos escritos. Por que motivo são alvo de preconceitos por espíritas e médicos espíritas? Tudo acontece simplesmente por razões morais.
Allan Kardec demonstra que os médiuns curadores formam uma categoria à parte de doadores fluídicos. Seria lógico que estes indivíduos, à medida que se suspeitasse de suas faculdades, fossem encaminhados para uma sessão apropriada, onde o atendimento aos enfermos fosse a meta. Mas, não é isso o que acontece. Em nome da caridade, resolve-se manter as aparências, instituindo a ideia de que todos são iguais e que a formação de classes especializadas em determinados serviços, levaria seus participes à ideia de engrandecimento.


Essa questão, em verdade, tem dois lados. Num, estão os médiuns que sem conhecerem a Codificação, ou estando mal orientados, pensam que as curas promovidas por seu intermédio são produtos de sua grandeza espiritual. Não possuem consciência de que o dom que lhes foi dado, poderá ser tirado a qualquer instante. É a ignorância.


No outro lado, estão as pessoas que se sentem rebaixadas e humilhadas, quando alguém faz alguma coisa que elas, por seus limites, não são capazes de fazer. É o orgulho.


Uma vez mais, a ausência de metodologia administrativa racional leva a opção pela pseudo-igualdade. Estabelece-se que todos são iguais e que qualquer um pode fazer qualquer coisa, desde que em nome de Jesus. O resultado desta política, é que quase nada acontece em termos de curas.


Finalidade dos trabalhos de curas


No movimento espírita existe uma ala de seguidores que afirma serem os trabalhos de cura uma actividade dispensável. Segundo eles, o Espiritismo teria vindo ao mundo para curar as almas e não os corpos perecíveis. Trata-se de uma filosofia belíssima, porém, comporta algumas observações.


Se o Espiritismo é o cristianismo revivido, e à época de Jesus ele promovia curas em nome desta Doutrina, por que motivo nós que somos seus discípulos não o podemos fazer? Por que Jesus utilizava-se deste poderoso recurso? Qual a finalidade dos trabalhos curativos? Ora, sabemos que o Mestre tornou-se conhecido mundialmente por seus "milagres", não por sua doutrina. Isto por quê? Pelo facto de que o homem terreno, em vista do seu atraso, apega-se aos interesses imediatistas. Não daria ouvidos a nenhuma filosofia, que não lhes falasse às suas necessidades materiais.


Os homens de hoje são diferentes da época em que viveu Jesus? Não, não são. Há um indiscutível progresso tecnológico, mas, moralmente, o homem pouco mudou. Se vamos nos dirigir à sociedade, temos que oferecer a ela algo ligado às suas necessidades imediatas, para despertar-lhe o interesse.


Quando o centro produz em termos de desobsessão e alívio das enfermidades físicas, há grande procura por seus serviços. O contacto com as pessoas nos dá oportunidade para levarmos até elas o conhecimento da Doutrina.


É o mesmo trabalho que Jesus Cristo e os apóstolos desenvolviam. Pode-se afirmar, sem sombras de dúvidas, que o Espiritismo não sobreviveria sem seus fenómenos mediúnicos. Alguns trabalhadores colocam-se na cómoda posição de discípulos incapazes. É um outro erro. Jesus era o Mestre, porém, afirmou que seus seguidores fariam obras iguais as suas ou maiores que elas.


Acreditamos, pois, que as actividades assistenciais a nível mediúnico são de fundamental importância para a sobrevivência do centro espírita como posto a serviço da Espiritualidade. A cura física se encaixa perfeitamente na finalidade misericordiosa e iluminadora do cristianismo e, por extensão, do Espiritismo.


"A mediunidade curadora não vem suplantar a medicina e os médicos; vem simplesmente provar que há coisas que eles não sabem e os convidar para estudá-las; que a natureza tem recursos que eles ignoram; que o elemento espiritual que eles desconhecem, não é uma quimera, e que, quando o levarem em conta, abrirão novos horizontes à ciência e terão mais êxitos do que agora" (Allan Kardec, Revista Espírita, Novembro de 1866).

Morte cerebral


Morte cerebral: aspectos médicos e espirituais


Gilberto Perez Cardoso


O tema relativo à morte cerebral tem sido largamente discutido na actualidade, motivado por dois principais aspectos. O primeiro diz respeito ao prolongamento da vida de pacientes que agonizam, por vezes durante semanas, até mesmo meses, em unidades de tratamento intensivo, quando recursos de alta tecnologia podem ser empregados com finalidade de prolongamento da vida física. O segundo relaciona-se com a doação de órgãos para transplante, discutido em toda a imprensa de nosso país, em virtude da recente lei que passou a considerar a todos como doadores potenciais, caso não se manifestem previamente em contrário.


Como se sabe, há casos de transplantes, como o do coração, por exemplo, em que o órgão precisa ser retirado do doador, estando esse ainda com vitalidade, caso contrário o transplante não se faz com sucesso. A questão que surge, então, e que tem sido alvo de discussão por parte da sociedade, é a da determinação do momento da morte.


Tradicionalmente, a morte sempre foi associada à parada dos batimentos cardíacos, desde épocas remotas. Com o tempo e os avanços da Fisiologia, o cérebro foi ganhando mais importância do que o coração, na consideração do diagnóstico de morte. A primeira definição de morte encefálica foi divulgada por volta de 1968 por uma comissão especialmente criada para essa finalidade na Faculdade de Medicina de Harvard, nos Estados Unidos. Essa comissão deslocou o conceito de morte da parada cardíaca para a morte encefálica.


A legislação brasileira sobre o assunto decidiu que o diagnóstico de morte encefálica deveria ser definido pelo Conselho Federal de Medicina, o que resultou na Resolução nº 1346-91.
Mais tarde, os critérios foram aperfeiçoados pela Resolução n° 1480-97, do Conselho Federal de Medicina, actualmente em vigor. Além de estabelecer critérios clínicos precisos para diagnóstico, a Resolução do CFM recomenda, ainda, para pacientes acima de dois anos de idade, a realização de exame complementar dentre os que analisam a actividade circulatória cerebral ou sua actividade metabólica. Para pacientes acima de uma semana de vida, até dois anos de idade, sugere-se a realização de um eletroencefalograma, com intervalos variáveis de acordo com a idade.


Tal recomendação é oportuna e revela uma grande cautela, porque em vários outros países, inclusive nos Estados Unidos, curiosamente, tais exames complementares são dispensados pela lei, e o diagnóstico de morte cerebral é feito somente com base no exame clínico.
O diagnóstico de morte cerebral, entretanto, não impede e nem dispensa a adopção de qualquer atitude terapêutica pertinente, na opinião da maioria dos neurologistas. Significa, apenas, para o momento dos nossos conhecimentos médicos, "a impossibilidade do retorno à vida".
No futuro, é possível que critérios de morte encefálica possam ser modificados, pois a Ciência avança a cada dia.


Novidades acontecem, e já há até quem defenda certas técnicas de hipotermia (abaixamento da temperatura do corpo), que teriam a possibilidade de recuperar casos antes tachados de irreversíveis. Todavia, esse é o modo como os neurologistas encaram o problema actualmente.


E do ponto de vista espiritual, o que podemos dizer?


Em 1857, quando da publicação de O Livro dos Espíritos, a humanidade ainda não se defrontava com transplantes e UTIs, de forma que não há referências a essas questões no Capítulo III, da Segunda Parte, que trata da volta do Espírito ao Mundo Maior. Os Espíritos Superiores fixam o instante da morte no momento em que, "rompidos os laços que retinham o Espírito, ele se desprende" (O Livro dos Espíritos, questão nº 155).


Evidentemente que nenhum método diagnóstico utilizado pela medicina é capaz, até o momento, de precisar o instante em que o Espírito se desprendeu do corpo físico definitivamente. Os métodos de que dispomos nos informam que o cérebro está impossibilitado de expressar o Espírito, somente isso.


Por outro lado, a questão nº 156 diz que "na agonia, a alma, algumas vezes, já tem deixado o corpo; nada mais que a vida orgânica...", sugerindo que o desprendimento já ocorreu, a desencarnação já se consumou, embora o coração continue a bater.


Consequentemente, do ponto de vista espiritual, tanto o corpo pode funcionar, tendo o desencarne já se efectivado, quanto pode ocorrer a morte cerebral e o Espírito não ter ainda efectivado sua liberação total da carne.


A morte cerebral, no actual estágio dos nossos conhecimentos, representa apenas uma impossibilidade/irreversibilidade de expressão via corpo físico, mas não representa o instante do desencarne, nem a garantia de que o Espírito já tenha partido definitivamente. A pergunta l56 diz que a situação descrita (desprendimento do Espírito com o corpo ainda funcionando) acontece algumas vezes e não todas as vezes.


Por isso mesmo, temos de encarar tal questão com bastante cautela e humildade, reconhecendo, como em muitas outras questões, que será necessário aguardar mais um pouco para o surgimento de informações mais esclarecedoras. Até lá, prudência e paciência são o mais aconselhável.


Não se pretende aqui a defesa do prolongamento artificial, muitas vezes agressivo e doloroso, do paciente indubitavelmente agónico; mas recomenda a Ética que medidas básicas sejam empregadas para deixar que a Vida decida pela permanência ou não do indivíduo no corpo físico.
A doação de órgãos é sublime, na medida que uma vida física inviável proporciona vitalidade a outra com possibilidades de permanência no campo físico. Entretanto, tal doação precisa respeitar, em primeiro lugar, a existência que está findando, caso contrário não podemos garantir que o acto ocorreu dentro de um sentido ético, ainda mais levando em conta a correria desenfreada que se instalou na busca por um transplante.


Eutanásia e homicídio são situações delicadas frente às Leis Divinas. Avanços da Ciência e mais informações da Espiritualidade auxiliarão os homens, com certeza, a definir melhor certos pontos ligados à morte cerebral e ao momento do desenlace, que não estão ainda devidamente - do ponto de vista espiritual - esclarecidos.


Boletim do SEI – nº 1569 – 256/4/98.
(Jornal Mundo Espírita de Julho de 1998)

O céu


O Céu


1 — A palavra céu se aplica geralmente ao espaço infinito que envolve a Terra, e mais particularmente à parte que se eleva sobre o horizonte. Ela vem do latim coelum, formada do grego coilos: côncavo, porque o céu apresenta o aspecto de uma imensa concavidade. Os antigos acreditavam na existência de muitos céus super-postos, constituídos de matéria sólida e transparente, formando as esferas concêntricas que tinham a Terra por centro. Essas esferas, girando ao redor da Terra, arrastavam com elas os astros encontrados nos seus circuitos.
Essa ideia, decorrente da insuficiência dos conhecimentos astronómicos, foi a de todas as teogonias que fizeram dos céus, assim escalonados, os diferentes degraus da escala da beatitude. O último era a morada da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus.


Daí a expressão: estar no sétimo céu para exprimir uma felicidade perfeita. Os muçulmanos admitiam a existência de nove céus, em cada um dos quais a felicidade dos crentes era maior. O astrónomo Ptolomeu contava onze, sendo o último chamado Empírio em virtude da grande luminosidade que o caracterizava.
Esse é ainda hoje o nome poético dado à região da glória eterna. A teologia cristã reconhece a existência de três céus: o primeiro é a região do ar e das nuvens, o segundo é o espaço em que se movem os astros, o terceiro está além da região dos astros e é a morada do Supremo Ser e dos eleitos que o contemplam face a face. É de acordo com esta crença que se diz que São Paulo foi elevado ao terceiro céu.


2 — As diferentes doutrinas referentes à morada dos bem-aventurados repousam todas no duplo erro de que a Terra é o centro do Universo e de que a região dos astros é limitada. É além deste limite imaginário que todas elas colocam a região afortunada e a morada do Todo Poderoso. Estranha anomalia que coloca o autor de todas as coisas, Aquele que a todas governa, nos confins da criação ao invés do centro de onde a irradiação do seu pensamento poderia estender-se ao todo.


3 — A Ciência, com a inexorável lógica dos factos e da observação, iluminou com a sua luz as profundezas do espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. A Terra não é mais o centro do Universo, mas um dos seus menores astros girando na imensidade. O próprio Sol é apenas o centro de um turbilhão planetário. As estrelas são inumeráveis sóis em torno dos quais giram inumeráveis mundos, separados por distâncias que são apenas acessíveis ao nosso pensamento, embora eles nos dêem a impressão de se tocarem.
Nesse conjunto, regido por leis eternas que revelam a sabedoria e a omnipotência do Criador, a Terra aparece como um ponto imperceptível e um dos menos favoráveis à habitabilidade. Dessa maneira pergunta-se porque Deus a teria feito a única sede da vida e relegado a ela as criaturas de sua predilecção. Muito ao contrário, tudo nos diz que a vida se encontra por toda parte e que a Humanidade é infinita como o próprio Universo. A Ciência tendo nos revelado a existência de mundos semelhantes à Terra, e é evidente que Deus não os podia ter criado sem finalidade: ele os deve ter povoado de seres capazes de os governar. (11)


4 — As ideias do homem estão sempre na razão dos seus conhecimentos. Como todas as descobertas importantes, a da constituição dos mundos teve que influir nessas ideias mudando-lhes o curso. Sob a influência dos novos conhecimentos as crenças tiveram de modificar-se. O céu foi deslocado, a região das estrelas, sendo sem limites, não lhe deixa mais espaço. Para onde foi ele? Diante dessa pergunta todas as religiões permanecem mudas.
O Espiritismo vem resolvê-la ao demonstrar o verdadeiro destino do homem. A natureza deste último e os atributos de Deus sendo tomados como ponto de partida, chega-se à conclusão. Quer dizer que, partindo do conhecido chega-se ao desconhecido por uma dedução lógica, sem falar das observações directas que permitem ao Espiritismo chegar a esse ponto.


5 — O homem se constitui de corpo e espírito. O Espírito é o ser principal, o ser racional, o ser inteligente. O corpo é o envoltório material que reveste temporariamente o Espírito para o cumprimento da sua missão na Terra, permitindo-lhe executar os trabalhos necessários ao seu adiantamento. O corpo se destrói depois de usado e o Espírito sobrevive a esta destruição. Sem o Espírito o corpo é apenas matéria inerte, como um instrumento privado do braço que o movimenta. Sem o corpo, o Espírito continua integral: é vida e inteligência. Deixando o corpo ele volta ao mundo espiritual de que saíra para se encarnar.


(11) A Terra é um dos mundos menos favoráveis à habitabilidade. Esta afirmação de Kardec é de grande importância, pois antecipa conhecimentos que só agora vão se firmando no mundo científico. A vida humana é breve e difícil, lutando o espírito e o corpo com hostilidades de toda espécie no solo planetário. Apesar disso, ainda há quem sustente a ideia de que somente a Terra deve ser habitada. Isso porque o homem se desenvolve aos poucos, penosamente, através dos milénios. Acostumado a encarar as coisas do ponto de vista humano, apega-se hoje ao homocentrismo, como antigamente se apegava ao geocentrismo. O Espiritismo antecipou a Era Cósmica, revelando a pluralidade dos mundos habitados.
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Há portanto o mundo corpóreo, constituído pelos Espíritos encarnados, e o mundo espiritual, constituído dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corpóreo, em razão do seu envoltório material, estão ligados à Terra ou a qualquer outro globo. O mundo espiritual estende-se por toda parte, ao redor de nós e através do espaço. Nenhum limite podemos assinalar para ele. Em razão da natureza fluídica do seu envoltório, os seres que o constituem não se arrastam penosamente sobre o solo, mas atravessam as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retinham cativos.


6 — Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas dispondo de aptidão para todas as aquisições e para progredir, em virtude do seu livre-arbítrio. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e por conseguinte novas possibilidades de prazer, desconhecidas dos Espíritos inferiores. Eles vêem, ouvem, sentem e compreendem aquilo que os Espíritos atrasados não podem ver, nem ouvir, nem sentir e nem compreender.
A felicidade está na razão do progresso realizado. Dessa maneira, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz como o outro unicamente porque não é tão avançado intelectual e moralmente como ele, sem haver necessidade de cada um se encontrar numa região diferente.


Embora estando lado a lado, um pode se encontrar nas trevas enquanto para o outro tudo é resplandecente ao seu redor, da mesma maneira como um cego e um vidente podem se dar as mãos. Um percebe a luz que entretanto não impressiona o outro. A felicidade dos Espíritos, sendo inerente às suas próprias qualidades, eles a gozam por toda parte, onde quer que se encontrem, na face da Terra, entre os encarnados ou no espaço.


Uma comparação vulgar nos permitirá compreender ainda melhor esta situação. Se, num concerto se encontram dois homens: um bom músico de ouvidos exercitados, o outro sem conhecimentos musicais e de sentido auditivo pouco delicado, o primeiro experimenta uma sensação de felicidade enquanto o segundo permanece insensível. Isso porque um percebe e compreende o que não produz nenhuma impressão sobre o outro. Assim acontece com todas as alegrias dos Espíritos que estão na razão directa das suas aptidões para senti-las. O mundo espiritual está repleto de esplendores, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, ainda sujeitos às influências da matéria, não podem sequer entrever, pois são acessíveis apenas aos Espíritos depurados. (12)


7 — O progresso dos Espíritos é o resultado do seu próprio trabalho. Mas como eles são livres e trabalham para o seu adiantamento com maior ou menor actividade ou negligência, segundo à sua vontade, eles apressam assim ou retardam o seu próprio progresso, o que vale dizer a sua felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros se arrastam por longos séculos nos lugares inferiores. Eles são, portanto, os próprios artífices da sua situação feliz ou desgraçada, segundo estas palavras do Cristo: A cada um segundo as suas obras. Cada Espírito que fica atrasado só pode lamentar-se de si mesmo, como aquele que avança tem todo o mérito do seu progresso: A felicidade que conquistou tem assim mais valor aos seus próprios olhos. (13)


A felicidade suprema é prémio exclusivo dos Espíritos perfeitos, o que vale dizer dos Espíritos puros. Eles a atingem só depois de haver progredido em inteligência e moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral raramente andam juntos, mas o que o Espírito não consegue num determinado tempo, o consegue em outro, de maneira que essas duas formas de progresso acabam por atingir o mesmo nível. Essa a razão pela qual frequentemente se vêem homens inteligentes e instruídos que são muito pouco avançados no terreno moral, e vice-versa.


(12) Assim, o Espiritismo confirma o adágio: a felicidade está dentro de nós, mas ao mesmo tempo desmente a suposição (da elite e não do povo) de que os ignorantes são mais felizes que os instruídos. Como pode uma criatura ignorante e grosseira sentir a verdadeira felicidade? Sujeita aos instintos animalescos, presa de interesses mesquinhos, apegada a prazeres passageiros a felicidade dessas criaturas é ilusória e está arriscada a decepções contínuas. Na proporção em que a criatura se eleva os seus sentidos se refinam, os seus prazeres passam do plano das sensações materiais para o das sensações íntimas, espirituais, a sua felicidade se amplia em perspectivas jamais suspeitadas. Ela atinge, então, aquele estágio da evolução em que a felicidade se torna permanente e invariável, não perturbada por nenhum facto exterior, pois para esses factos ela possui também uma visão e uma compreensão que nos escapa, e recursos que não possuímos para prestar ajuda e socorro eficientes. Não devemos, porém, confundir criaturas ignorantes e grosseiras com criaturas pobres, nascidas em meio social obscuro, desprovidas da cultura do mundo mas providas da cultura e do refinamento da alma. As condições sociais da Terra não correspondem às condições evolutivas do espírito. (N. do T.) .


(13) O mérito do progresso implica também o desenvolvimento da responsabilidade. O Espírito que fracassa numa encarnação não retrocede no plano evolutivo, mas sente enfraquecer-se moralmente. Isso aumenta a sua necessidade de esforço próprio para recuperação do tempo perdido. O Espírito vitorioso dá o que podemos chamar um salto no tempo, o que aumenta a sua fé em Deus e a sua confiança em si mesmo. Ele se fortalece moralmente e eleva o seu senso de responsabilidade. Dali por diante as vitórias morais lhe serão mais fáceis. O progresso espiritual se verifica através dos saltos qualitativos de que trata Kierkegaard em seu ensaio sobre O Conceito de Angústia. Ao saltar no tempo o Espírito realiza também o salto interior da sua transformação moral. (N. do T.)
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8 — A encarnação é necessária ao Espírito para conseguir esse duplo progresso, intelectual e moral. O progresso intelectual é realizado pela actividade que é obrigado a desenvolver nos seus trabalhos. O progresso moral, pela necessidade das relações mútuas entre os homens. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a mansidão, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má fé, a hipocrisia, em uma palavra tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso tem por motivo, por alvo e por estimulante as relações do homem com seus semelhantes. Para o homem que vive só não há vícios nem virtudes; se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, também anula as possibilidades do bem. (14)


9 — Uma só existência corpórea é evidentemente insuficiente para o Espírito adquirir tudo o que lhe falta no campo do bem e se desfazer de tudo o que possui de mal. O selvagem, por exemplo, jamais poderia atingir numa só encarnação o nível moral e intelectual de um europeu dos mais avançados. Isso seria materialmente impossível. Deveria ele então permanecer eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos gozos que só o desenvolvimento das suas faculdades lhe pode proporcionar? O simples bom senso repele essa suposição, que seria ao mesmo tempo a negação da justiça e da bondade de Deus, bem como da lei de progresso que rege a Natureza. Eis porque Deus, soberanamente justo e bom, concede ao Espírito tantas existências quantas forem necessárias para atingir o seu objectivo, que é a perfeição.


Em cada nova existência o Espírito se apresenta com o que adquiriu nas precedentes em aptidões, em conhecimentos intuitivos, em inteligência e em moralidade. Cada existência é assim um passo dado no caminho do progresso. (15)
A encarnação é inerente à condição de inferioridade dos Espíritos. Ela se torna desnecessária para aqueles que romperam esses limites e progrediram espiritualmente ou nas existências corporais dos mundos superiores, onde nada mais existe da materialidade terrena. Para esses a encarnação é voluntária, com o fim de exercer sobre os encarnados uma acção mais directa no cumprimento das missões de que estiverem encarregados. Eles aceitam as suas vicissitudes e os seus sofrimentos por abnegação.


10 — No intervalo das existências corpóreas o Espírito volta por tempo mais ou menos longo ao mundo espiritual, onde é feliz ou infeliz, segundo o bem ou o mal que tenha praticado. O estado espiritual é a situação normal do Espírito, pois esse deve ser o seu estado definitivo, e porque o corpo espiritual nunca morre. O estado corpóreo é apenas transitório, passageiro. É sobretudo no estado espiritual que ele recolhe os frutos do progresso realizado durante a encarnação. É então que ele também se prepara para novas lutas e toma resoluções que se esforçará para pôr em prática no seu retorno ao seio da humanidade.
O Espírito progride igualmente na erraticidade. Nela adquire conhecimentos especiais que não poderia adquirir na Terra. Suas ideias então se modificam. O estado corpóreo e o estado espiritual são para ele as fontes de duas formas de progresso que se desenvolvem solidárias. É por isso que ele passa alternativamente por esses dois modos de existência. (16)


11 — A reencarnação pode se dar na Terra ou em outros mundos. Entre os mundos há os mais avançados, onde a existência decorre em condições menos penosas do que na Terra, física e moralmente. Mas nesses mundos só são admitidos os Espíritos que chegaram ao grau de perfeição a eles correspondentes.
A vida nos mundos superiores já é em si mesma uma recompensa, porque ali estaremos livres dos males e das vicissitudes que enfrentamos neste mundo. Os corpos menos materiais, quase fluídicos, não estão sujeitos às doenças, às dificuldades e nem mesmo às necessidades dos nossos. Os maus espíritos estando excluídos deles, os homens vivem em paz, cuidando apenas do seu progresso pelo trabalho da inteligência.


(14) Eis a razão por que o Espiritismo é inteiramente contrário ao misoneísmo, ao isolamento da criatura, mesmo a pretexto de consagrar-se a Deus. A dinâmica do desenvolvimento moral está sujeita à dinâmica do processo social. É na vida social que nos desenvolvemos moralmente. Se trabalhando a Natureza e as coisas, trabalhamos a nós mesmos, despertando nossa inteligência, por outro lado é no meio social que conseguimos o desenvolvimento moral, despertando a nossa afectividade. Fugir da vida social é portanto fugir de nós mesmos, fugir da própria finalidade da nossa encarnação. As igrejas começam agora a compreender isso, tomando as primeiras providências para acabar com os processos retrógrados de isolamento religioso a pretexto de viver para Deus. Só vivemos para Deus servindo ao próximo. (N. do T.)


(15) Temos aqui um princípio bem conhecido de Pedagogia. A Educação não tem por finalidade transmitir conhecimentos, mas preparar o educando para a aquisição de conhecimentos. O que se passa na reencarnação é precisamente isso. Podemos aprender muito numa existência, mas não são os conhecimentos formais que interessam ao Espírito, e sim o seu treino no aprendizado que desperta as suas faculdades cognitivas, a sua capacidade de aprender. Cada encarnação predispõe o Espírito a assimilar conhecimentos mais avançados na seguinte. Por isso é que não nascemos com a cabeça cheia de dados e informações, mas aparelhada com as intuições que nos determinam a vocação e a habilidade para diversos sectores de actividades. A vida social é necessária porque só ela possui os estimulantes capazes de despertar no cérebro novo que vamos possuir as suas faculdades latentes. Isso explica o motivo porque as crianças abandonadas na selva ou isoladas do meio social não revelam desenvolvimento mental. Lembremos a maiêutica de Sócrates, ou seja, o processo por ele usado para arrancar o conhecimento de dentro dos seus próprios discípulos, ao invés de aplicar-lhes o ensino didáctico. (N. do T.)


(16) Vê-se claramente, neste trecho, como a cultura terrena é ainda apenas uma meia-cultura. Função do Espiritismo é completar essa cultura, dando-lhe as dimensões da realidade espiritual. A alternância de vidas, na Terra e no Espaço, faz do homem, não o existente das Filosofias existenciais, mas um inter-existente. Mesmo na encarnação essa condição inter-existencial se revela de maneira inegável. Os homens vivem no estado de vigília, no estado de hipnose, ou de sono. Além disso, possuem a mediunidade que a Parapsicologia denomina de funções psi, e através dessas funções ele se coloca num plano intermédio, vivendo ao mesmo tempo em dois planos diferentes, mas conjugados. Veja-se este problema em O Ser e a Serenidade. (N. do T.)
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Nesses mundos, reinando a verdadeira fraternidade, não existe o egoísmo. A igualdade é legítima, porque não existe o orgulho. A liberdade é verdadeira porque não existem desordens que exijam repressão, nem ambições tentando oprimir os fracos. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos e representam as diversas etapas da rota do progresso que conduz o Espírito ao seu estado definitivo. A Terra, sendo um mundo inferior destinado à depuração dos Espíritos imperfeitos, é essa a razão porque o mal nela domina até que praza a Deus transformá-la em morada de Espíritos adiantados.


É assim que o Espírito, progredindo gradualmente, à medida que se desenvolve vai chegando ao apogeu da felicidade. Mas antes de atingir o ponto culminante da perfeição ele já goza de uma felicidade relativa ao seu progresso. É como a criança que gosta dos brinquedos nos seus primeiros anos, mais tarde prefere os prazeres da juventude e finalmente aqueles mais verdadeiros da idade madura.


12 — A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não está na ociosidade contemplativa, que seria, como frequentemente se diz, uma eterna e fastidiosa inutilidade. A vida espiritual, em todos os seus graus, é pelo contrário uma actividade constante, mas livre de fadiga. A suprema felicidade consiste em desfrutar todos os esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana poderia exprimir, que a mais fecunda imaginação não poderia conceber. Consiste ainda no conhecimento e na compreensão de todas as coisas, na ausência de qualquer sofrimento físico e moral, na satisfação íntima, na serenidade do espírito que nada altera, no amor que une a todos os seres e portanto na ausência de todo o aborrecimento proveniente da relação com os maus, e acima de tudo na visão de Deus e na compreensão de seus mistérios revelados aos mais dignos.
Mas ela está também no exercício das funções que felicitam o Espírito encarnado. Os Espíritos puros são os Messias ou mensageiros de Deus para transmissão e a execução de seus desígnios. Eles cumprem as grandes missões, presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do Universo, incumbência gloriosa a que só chegam pela perfeição. Os de ordem mais elevada são os únicos que estão no segredo de Deus e se inspiram no seu pensamento, do qual são os representantes directos.


13 — As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu progresso, ao seu esclarecimento, às suas capacidades, à sua experiência e ao grau de confiança que merecem do Soberano Senhor. Não existem privilégios nem favores que não decorram do próprio mérito. Tudo é medido pela mais estrita justiça. As missões mais importantes só são confiadas aos que Deus sabe que estão em condições de cumpri-las e são incapazes de falir ou de comprometê-las na sua realização.
Enquanto sob o próprio olhar de Deus os mais dignos constituem o conselho supremo, aos principais Espíritos é entregue a direcção dos turbilhões planetários e aos outros a dos mundos especiais. Vêm em seguida, na ordem do adiantamento e da disposição hierárquica, as atribuições mais restritas dos que são incumbidos da orientação dos povos, da protecção às famílias e aos indivíduos, de impulsionar cada ramo do progresso, das diversas operações da Natureza, até aos mais íntimos detalhes da criação. Nesse vasto e harmonioso conjunto há ocupações para todas as boas disposições. São ocupações aceitas com alegria e solicitadas com ardor porque representam um meio de adiantamento para os Espíritos que desejam elevar-se.


14 — Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há também as de todos os graus de importância entregues aos Espíritos de todas as ordens, o que nos permite dizer que cada encarnado tem a sua, ou seja: deveres a cumprir para o bem de seus semelhantes, desde o pai de família a quem incumbe o cuidado de fazer progredir os filhos, até o homem de génio que lança na sociedade novos elementos de progresso. É nessas missões secundárias que frequentemente se verificam as falências, as prevaricações, as omissões, que entretanto só prejudicam ao próprio indivíduo e não ao conjunto.


15 — Todas as inteligências concorrem para a obra geral, qualquer que seja o seu grau de desenvolvimento, cada uma na medida das suas possibilidades. Umas como encarnadas, outras como Espíritos. Por toda parte deparamos com a actividade, desde o mais baixo ao mais alto da escala, todos se instruindo, se ajudando mutuamente, se apoiando e se dando as mãos para atingirem o alvo.
Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corpóreo, ou seja entre os Espíritos e os homens, entre os Espíritos livres e os Espíritos cativos. Assim se perpetuam e se consolidam, pela depuração e pela continuidade das relações, as verdadeiras simpatias e as mais sagradas afeições.
Por toda parte, pois, há vida e movimento. Não há um recanto do infinito que não esteja povoado, nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por inumeráveis legião de seres radiosos, invisíveis para os sentidos grosseiros dos encarnados, mas cuja visão enche de admiração e de alegria as almas libertas da matéria. Por toda parte enfim, a felicidade é relativa a todos os graus de progresso, por todos os deveres cumpridos. Cada um carrega consigo os elementos de sua própria felicidade, na razão da categoria em que o coloca o seu grau de adiantamento.
A felicidade decorre das próprias qualidades dos indivíduos e não da condição material do meio em que se encontram. Ela está, portanto, em toda parte onde existam Espíritos capazes de ser felizes. Nenhum lugar determinado existe para ela no Universo. Em qualquer lugar que se encontre, os Espíritos puros podem contemplar a grandeza divina porque Deus está em tudo.
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16 — Entretanto, a felicidade não é pessoal. Se somente a possuirmos em nós mesmos, se não pudermos partilhá-la com os outros, ela será egoísta e triste. Ela está também na comunhão de pensamentos que une os seres simpáticos. Os Espíritos felizes, atraídos uns aos outros pela semelhança de ideias e gostos, de sentimentos, formam vastos grupos ou famílias homogéneas, no seio das quais cada individualidade irradia suas próprias qualidades e se beneficia dos eflúvios serenos e benfazejos que emanam do conjunto. Os membros destes, ora se afastam para cumprir sua missão, ora se reúnem em algum lugar do espaço para se comunicarem os resultados dos seus trabalhos, ora se reúnem em redor de um Espírito de ordem superior para receber os seus conselhos e as suas instruções.


17 — Embora os Espíritos estejam por toda parte, os mundos constituem os lares em que eles de preferência se reúnem, em razão da sintonia existente entre eles e os que os habitam. Ao redor dos mundos adiantados a maioria dos Espíritos são superiores, ao redor dos mundos atrasados pululam os Espíritos inferiores. A Terra é ainda um destes últimos. Cada globo tem, portanto, de qualquer maneira, sua população própria de Espíritos encarnados e desencarnados, que se sustenta na maior parte pela encarnação e o desencarne sucessivos. Essa população é mais estável nos mundos inferiores, onde os Espíritos são mais apegados à matéria, e é mais flutuante nos mundos superiores. Mas dos mundos que são focos de luz e de felicidade partem Espíritos que se dirigem aos mundos inferiores para neles semear os germes do progresso, para levar-lhes a consolação e a esperança, reerguendo os ânimos abatidos pelas provas da vida e às vezes neles se encarnando para cumprir com mais eficácia a sua missão.


18 — Nessa imensidade sem limites, onde está o céu? Está por toda parte, nada o cerca nem lhe serve de limites. Os mundos felizes são as últimas estações do caminho que a ele conduz, as virtudes favorecem a caminhada e os vícios impedem o seu acesso. Ao lado desse quadro grandioso que povoa todos os recantos do universo, que dá uma finalidade e uma razão de ser a todas as coisas da criação, como é pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve a humanidade num imperceptível ponto do espaço, que no-la mostra começando num determinado instante para igualmente acabar um dia com o mundo que a carrega, tudo isso apenas num minuto dentro da eternidade!


Como é triste, fria e glacial essa doutrina quando nos apresenta todo o resto do universo, antes, durante e após a existência da humanidade terrena, sem vida, sem movimento, como um imenso deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora ao figurar-nos um pequeno número de eleitos entregues à contemplação perpétua, enquanto a maioria das criaturas é condenada aos sofrimentos sem fim! Como é pungente para os corações amorosos a barreira que ela coloca entre os mortos e os vivos! As almas felizes, dizem, só pensam na sua felicidade e aquelas que são infelizes somente nas suas penas. É de admirar-se que o egoísmo reine sobre a Terra, quando no-lo mostram no próprio céu? Como, pois é estreita a ideia que ela nos oferece da grandeza, do poder e da bondade de Deus!


Mas como é sublime, ao contrário, a que o Espiritismo nos proporciona! Como a sua doutrina engrandece os conceitos, alarga o pensamento! Quem nos diz porém que ela é verdadeira? Primeiramente, a razão, em seguida, a revelação; depois, sua concordância com o desenvolvimento da ciência. Entre duas doutrinas, em que uma diminui e a outra amplia os atributos de Deus; uma está em desacordo e a outra em harmonia com o progresso; uma permanece no passado e a outra marcha para o futuro, o bom senso nos diz de que lado está a verdade. Que diante das duas cada um, no seu foro íntimo consulte as suas aspirações e uma voz interior lhe responderá. As aspirações são a própria voz de Deus que não pode enganar os homens. (17)


19 — Mas então porque Deus não revelou desde o princípio toda a verdade. Pela mesma razão que não se ensina às crianças o que se deve ensinar na idade madura. A revelação restrita era suficiente durante um certo período do desenvolvimento da humanidade. Deus a proporciona na medida da força dos espíritos. Estes recebem hoje uma revelação mais completa dada pelos mesmos Espíritos que já lhe deram uma revelação parcial em outro tempo, porque desde então desenvolveram-se em inteligência.


Antes que a ciência tivesse revelado aos homens as forças vivas da natureza, a constituição dos astros, a verdadeira posição e o processo de formação da Terra, poderiam eles compreender a imensidade do espaço e a multiplicidade dos mundos? Antes que a geologia tivesse provado como a Terra se formou, teriam eles podido desalojar o inferno do seu interior e compreender o sentido alegórico dos seis dias da criação? Antes que a astronomia tivesse descoberto as leis que regem o universo, teriam podido compreender que no espaço não existe alto nem baixo, que o céu não está acima das nuvens nem limitado pelas estrelas? Antes do desenvolvimento das ciências psicológicas poderiam identificar-se com a sua natureza espiritual, poderiam conceber, após a morte uma vida feliz ou infeliz que não estivesse circunscrita a determinado lugar e sob uma forma material?


Não. Compreendendo mais pelos sentidos do que pelo pensamento, o universo era demasiado vasto para essa compreensão, sendo necessário reduzi-lo a proporções menores para que pudesse caber na sua perspectiva mental, reservando-se para mais tarde a sua verdadeira compreensão. Uma revelação parcial tinha portanto a sua utilidade. Era prudente então, mas hoje é insuficiente. O erro está em se querer, não levando em conta o progresso da cultura, governar os homens amadurecidos com os preceitos que se aplicavam à infância.
(17) As aspirações humanas provêm dos desígnios de Deus referentes ao destino da humanidade. Todas as criaturas trazem no seu íntimo a intuição do sentido e da finalidade da sua existência. Foi isso que Descartes descobriu no famoso episódio do cógito, constatando que a ideia de Deus é inata no homem. Essa a razão de Kardec afirmar que as aspirações são a voz de Deus. (N. do T.)


Referência: O céu e o inferno