sexta-feira, 29 de junho de 2007

Médiuns sonâmbulos


Médiuns Sonâmbulos


172. O sonambulismo pode ser considerado como uma variedade da faculdade mediúnica, ou melhor, trata-se de duas ordens de fenómenos que se encontram frequentemente reunidos. O sonâmbulo age por influência do seu próprio Espírito. É a sua alma que, nos momentos de emancipação, vê, ouve e percebe além dos limites dos sentidos. O que ele diz procede dele mesmo. Em geral, suas ideias são mais justas do que no estado normal, seus conhecimentos são mais amplos porque sua alma está livre. Numa palavra, ele vive por antecipação a vida dos Espíritos. (15)


O médium, pelo contrário, serve de instrumento a outra inteligência. É passivo e o que diz não é dele. (16) Em resumo: o sonâmbulo exprime o seu próprio pensamento e o médium exprime o pensamento de outro. Mas o Espírito que se comunica através de um médium comum pode também fazê-lo por um sonâmbulo. Frequentemente mesmo o estado de emancipação da alma, no estado sonambúlico, torna fácil essa comunicação. Muitos sonâmbulos vêem perfeitamente os Espíritos e os descrevem com a mesma precisão dos médiuns videntes. Podem conversar com eles e transmitir-nos o seu pensamento. Assim, o que eles dizem além do círculo de seus conhecimentos pessoais lhe é quase sempre sugerido por outros Espíritos.


Eis, a seguir, um exemplo notável da acção simultânea do Espírito do sonâmbulo e do outro Espírito, que se revelam de maneira inequívoca.


173. Um dos nossos amigos usava como sonâmbulo um rapazinho de 14 para 15 anos, de inteligência bastante curta e de instrução extremamente limitada. Em estado sonambúlico, porém, dava provas de extraordinária lucidez e grande perspicácia. Isso principalmente no tratamento de doenças, tendo feito numerosas curas consideradas impossíveis.


Certo dia, atendendo a um doente, descreveu a sua moléstia com absoluta exactidão — Isso não basta, lhe disseram, agora é necessário indicar o remédio — Não posso, respondeu ele, meu anjo doutor não está aqui — A quem chama você de anjo doutor? — Aquele que dita os remédios — Então não é você mesmo que vê os remédios? — Oh! não, pois não estou dizendo que é o meu anjo doutor quem os indica?
Assim, nesse sonâmbulo, quem via a doença era o seu próprio Espírito, que para isso não precisava de assistência. Mas a indicação dos remédios era feita por outro Espírito. Se esse não estivesse presente, ele nada podia dizer. Sozinho, ele era apenas sonâmbulo; assistido pelo que ele chamava de seu anjo doutor, era médium-sonâmbulo.


174. A faculdade sonambúlica é uma faculdade que depende do organismo e nada tem que ver com a elevação, o adiantamento e a condição moral do sujeito. Um sonâmbulo pode, pois, ser muito lúcido e incapaz de resolver certas questões, se o seu Espírito for pouco adiantado. O sonâmbulo que fala por si mesmo pode dizer, portanto, coisas boas e más, certas ou falsas, usar de maior ou menor delicadeza e escrúpulo no seu procedimento, segundo o grau de elevação ou de inferioridade do seu próprio Espírito. É nesse caso que a assistência de outro Espírito pode suprir as suas deficiências.


Mas um sonâmbulo pode ser assistido por um Espírito mentiroso, leviano, ou até mesmo mau, como acontece com os médiuns. Nisto, sobretudo, é que as qualidades morais têm grande influência, por atraírem os Espíritos bons. (Ver O Livro dos Espíritos, tópico Sonambulismo, nº 125; e neste livro o capítulo sobre Influência Moral do Médium.)


(15) A hipótese de projecção do eu, hoje sustentada por alguns psicólogos e parapsicólogos, é uma evidente aproximação deste princípio espírita. A independência da alma vai aos poucos se confirmando. (N. do T.)


(16) Não confundir a passividade voluntária do médium, que presta serviço ao Espírito comunicante, com a passividade hipnótica, por sujeição, de que alguns adversários do Espiritismo acusam a mediunidade. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

Médiuns curadores


. Médiuns Curadores


175. Somente para mencioná-la trataremos aqui desta variedade de médiuns, porque o assunto exigiria demasiado desenvolvimento para o nosso esquema. Estamos aliás informados de que um médico nosso amigo se propõe a tratá-la numa obra especial sobre a medicina intuitiva. Diremos apenas que esse género de mediunidade consiste principalmente no dom de curar por simples toque, pelo olhar ou mesmo por um gesto, sem nenhuma medicação. Certamente dirão que se trata simplesmente de magnetismo. É evidente que o fluido magnético exerce um grande papel no caso. Mas, quando se examina o fenómeno com o devido cuidado, facilmente se reconhece a presença de mais alguma coisa.


A magnetização comum é uma verdadeira forma de tratamento, com a devida sequência, regular e metódica. No caso referido as coisas se passam de maneira inteiramente diversa. Todos os magnetizadores são mais ou menos aptos a curar, se souberem cuidar do assunto convenientemente. Mas entre os médiuns curadores a faculdade é espontânea, e às vezes a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção de uma potência oculta, que caracteriza a mediunidade, torna-se evidente em certas circunstâncias. E o é, sobretudo, quando consideramos que a maioria das pessoas qualificáveis como médiuns curadores recorrem à prece, que é uma verdadeira evocação. (Ver o nº 131).


176. Eis as respostas que obtivemos dos Espíritos, a perguntas feitas a respeito:


1. Podemos considerar as pessoas dotadas de poder magnético como formando uma variedade mediúnica?


— Não podes ter dúvida alguma.


2. Entretanto, o médium é um intermediário entre os Espíritos e os homens, mas o magnetizador, tirando sua força de si mesmo, não parece servir de intermediário a nenhuma potência estranha.


— É uma suposição errónea. A força magnética pertence ao homem, mas é aumentada pela ajuda dos Espíritos a que ele apela. Se magnetizas para curar, por exemplo, e evocas um bom Espírito que se interessa por ti e pelo doente, ele aumenta a tua força e a tua vontade, dirige os teus fluidos e lhes dá as qualidades necessárias. (17)


3. Há, porém, excelentes magnetizadores que não acreditam nos Espíritos.


— Pensas então que os Espíritos só agem sobre os que crêem neles? Os que magnetizam para o bem são auxiliados pelos Espíritos bons. Todo homem que aspira ao bem os chama sem o perceber, da mesma maneira que, pelo desejo do mal e pelas más intenções chamará os maus.


4. O magnetizador que acreditasse na intervenção dos Espíritos agiria com maior eficiência?


— Faria coisas que seriam consideradas milagres.


5. Algumas pessoas têm realmente o dom de curar por simples toque, sem o emprego dos passes magnéticos?


— Seguramente. Não tens tantos exemplos?


6. Nesses casos trata-se de acção magnética ou somente de influência dos Espíritos?


— Uma e outra. Essas pessoas são verdadeiros médiuns, pois agem sob a influência dos Espíritos, mas isso não quer dizer que sejam médiuns escreventes, como o entendes.


(17) A acção dos Espíritos é que realmente dá eficácia curadora ao magnetismo humano. Preste-se atenção à dinâmica do auxílio espiritual, revelada nessa esclarecedora resposta. (N. do T.)


7. Esse poder é transmissível?


— O poder, não, mas sim o conhecimento do que se necessita para exercê-lo, quando se o possui. Há pessoas que nem suspeitariam ter esse poder se não pensarem que ele lhe foi transmitido. (18)


8. Podem-se obter curas apenas pela prece?


— Sim, às vezes Deus o permite. Mas talvez o bem do doente esteja em continuar sofrendo, e então se pensa que a prece não foi ouvida.


9. Existem fórmulas de preces mais eficazes do que outras, para esse caso?


— Só a superstição pode atribuir virtudes a certas palavras. E somente os Espíritos ignorantes ou mentirosos podem entreter essas ideias, prescrevendo fórmulas. Entretanto, pode acontecer que para pessoas pouco esclarecidas e incapazes de entender as coisas puramente espirituais, o emprego de uma fórmula contribua para lhes infundir confiança. Nesse caso, a eficácia não é da fórmula, mas da fé que foi aumentada pela crença no uso da fórmula.


(18) Os Espíritos colocam aqui um problema comum de psicologia. Há magnetizadores e médiuns hipnotizadores e sujeitos paranormais que só acreditam em suas faculdades e as desenvolvem sob a acção de outras pessoas. Trata-se de falta de confiança em si mesmas e não de poder das outras pessoas, que muitas vezes se julgam poderosas. Ilusão muito frequente dos que se dizem capazes de desenvolver a mediunidade dos outros. (N. do T.)


Referência: O livro dos médiuns

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A prece


A Prece
João Batista Armani


Ao iniciarmos uma doutrinária fazemos uma prece, ao encerrarmos fazemos uma prece, para os trabalhos de passe fazemos uma prece, ao deitarmos fazemos uma prece, ao levantarmos fazemos uma prece, fazemos uma prece nos momentos alegres; e oramos também nos momentos de aflição.


Muito se tem dito a respeito da prece, mas muito pouco ainda conhecemos do seu mecanismo de funcionamento, Por isso mesmo, pouco a valorizamos, e por vezes até a esquecemos.


Já o dissemos em outras ocasiões, que o Espiritismo é uma Doutrina de Tríplice aspecto, Ciência – Filosofia – Religião, mas é comum vermos trabalhos, palestras, cursos e etc, enfocarem quase que essencialmente as partes filosóficas e religiosas, deixando um pouco de lado o seu aspecto científico. É até um procedimento normal, uma vez que o Espiritismo é uma Doutrina relativamente jovem com aproximadamente 150 anos, e a análise de seus aspectos científicos requer conhecimentos básicos, sem os quais não entenderíamos as suas explicações, precisaríamos então ter noções de física, ciências, biologia, fluidos, magnetismo, electromagnetismo, electricidade, telecomunicações, etc. Mas nesse trabalho, passaremos uma pequena noção do seu aspecto científico.


Mas afinal, o que é a prece?


Poderíamos dizer que a prece é uma projecção do pensamento, a partir do qual irá se estabelecer uma corrente fluídica cuja intensidade dependerá do teor vibratório de quem ora, e nisto reside o seu poder e o seu alcance, pois nesta relação fluídica o homem atrai para si a ajuda dos Espíritos Superiores a lhe inspirar bons pensamentos. Por que pensamentos? Porque são a origem da quase totalidade de nossas acções.(Primeiro pensamos depois agimos).
Poderíamos dizer também que a prece é uma invocação e que por meio dela pomos o pensamento em contacto com o ente a quem nos dirigimos.
A prece é a expressão de um sentimento que sempre alcança a Deus, quando ditada pelo coração de quem ora.


Pode-se orar para si ou para outrem.


O Espiritismo faz compreender a acção da prece explicando o processo da transmissão do pensamento: quer o ser por quem se ora venha ao nosso chamado, quer o nosso pensamento chegue até ele.
Para compreender o que se passa nessa circunstância, convêm considerar todos os seres, encarnados e desencarnados, mergulhados no mesmo fluido universal que ocupa o espaço, como neste planeta estamos nós na atmosfera. O ar é o veículo do som com a diferença que as vibrações do ar são circunscritas ao planeta Terra, ao passo que as do fluido universal se estendem ao infinito.


Então, logo que o pensamento é dirigido para um ser qualquer na Terra ou no espaço, de encarnado a desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece de um para o outro, transmitindo o pensamento, como o ar transmite o som. A energia da corrente está na razão da energia do pensamento e da vontade. É por esse meio que a prece é ouvida pelos espíritos onde quer que estejam; que eles se comunicam entre si; que nos transmitem as suas inspirações; que as relações se estabelecem a distância, etc.
Esta é sua visão científica.


Pela prece podemos fazer três coisas louvar, pedir e agradecer (LE, 659).


Mas o que isso significa exactamente?


Louvar é enaltecer os desígnios de Deus sobre todas as coisas, aceitando-o como Ser Supremo, causa primária de tudo o que existe, bendizendo-lhe o nome.
Pedir é recorrer ao Pai Todo-Poderoso em busca de luz, equilíbrio, forças, paciência, discernimento e coragem para lutar contra as forças do mal; enfim, tudo, desde que não se contrarie a lei de amor que rege e sustenta a Harmonia Universal.
Agradecer é reconhecer as inúmeras bênçãos recebidas, ainda que em diferentes graus de entendimento e aceitação: a alegria, a fé, a bênção do trabalho, a oportunidade de servir, a esperança, a família, os amigos, a dádiva da vida.


As preces devem ser feitas directamente ao Criador, mas também pode ser-lhe endereçada por intermédio dos bons Espíritos, que são os Seus mensageiros e executores da Sua vontade. Quando se ora a outros seres além de Deus, é simplesmente como a intermediários ou intercessores, pois nada se pode obter sem a vontade de Deus.


A prece torna o homem melhor porque aquele que faz preces com fervor e confiança se torna mais forte contra as tentações do mal, e Deus lhe envia bons Espíritos para o assistir (LE 660).
O essencial é orar com sinceridade e aceitar os próprios defeitos, porque a prece não redime as faltas cometidas; aqueles que pede a Deus perdão pelos seus erros, só o obtêm mudando sua conduta na prática do bem. Deste modo, as boas acções são a melhor prece, e por isso os actos valem mais do que as palavras.


Através da prece pode-se ainda fazer o bem aos semelhantes, porque o Espírito que ora, actuando pela vontade de praticar o bem, atrai a influência de Espíritos mais evoluídos que se associam ao bem que se deseja fazer.


Entretanto, a prece não pode mudar a natureza das provas pelas quais o homem tem que passar, ou até mesmo desviar-lhe seu curso, e isto porque elas (..) estão nas mãos de Deus e há as que devem ser suportadas até o fim, mas Deus leva sempre em conta a resignação.
Deve-se considerar, também, que nem sempre aquilo que o homem implora corresponde ao que realmente lhe convém, tendo em vista sua felicidade futura. Deus, em Sua omnisciência e suprema bondade, deixa de atender ao que lhe seria prejudicial.


Todavia, as súplicas justas são atendidas mais vezes do que supomos, podendo a resposta a uma prece vir por meios indirectos ou por meios de ideias com as quais saímos das dificuldades.
A prece em favor dos desencarnados não muda os desígnios de Deus a seu respeito; contudo, o Espírito pelo qual se ora experimenta alívio e conforto ao receber o influxo amoroso dos entes que compartilham de suas dores. Além do mais, o efeito benéfico da prece sobre o desencarnado é tal, que pode levá-lo à tomar consciência das faltas cometidas e ao desejo de fazer o bem:
É nesse sentido que se pode abreviar a sua pena, se do seu lado ele contribui com a sua boa vontade. Esse desejo de melhora, excitado pela prece, atrai para o Espírito sofredor os Espíritos melhores que vêm esclarecê-lo, consolá-lo e dar-lhe esperanças (LE, 664).


Qual a importância da prece?


Lembremo-nos de um exemplo prático. Se não limparmos periodicamente o nosso quintal, a sujeira se acumula, o mato cresce, e há a proliferação de bichos. No campo espiritual, se não limparmos o nosso psiquismo, os espíritos luminosos se afastam (mesmo que temporariamente), as trevas tomam conta favorecendo a acção de espíritos endurecidos.


Deus atende àqueles que oram com fé e fervor?


Deus envia-lhes sempre bons Espíritos para os auxiliarem. Não existem fórmulas especiais de orações. A bondade de Deus não está voltada para as fórmulas e o número de palavras, mas sim para as intenções de quem ora.


O que dizer das orações repetidas inúmeras vezes?


As intermináveis ladainhas e “PAI NOSSOS”, repetidos algumas vezes, as rezas pronunciadas com os lábios apenas, que o coração não sente e a inteligência não compreende, não têm valor perante Deus. Jesus disse: “Não vos assemelheis aos hipócritas que pensam que pelo muito falar serão ouvidos” (Mateus C6:V7).


O essencial é orar bem e não muito.
Por que existe então, mesmo no espiritismo, orações ditadas por espíritos e publicadas em livros?


Para ensinar aos homens a raciocinar quando se dirigem a Deus e fazê-lo não só por meio de palavras, como também pelo sentimento e com inteligência. Estas orações não constituem rituais, uma vez que, no espiritismo não existem rituais de nenhuma espécie, nem formalismo.


Por quem devemos orar?


Primeiramente por nós mesmos, por nossos parentes, pelos nossos amigos e inimigos, deste e do outro mundo; devemos orar pelos que sofrem e por aqueles por quem ninguém ora.


O que pedir?


Em Mateus C26:V39, há a passagem amarga do Cristo, que antecedia as suas dores supremas no calvário, onde Ele nos diz: “ Pai, se quiserdes, afasta de mim este cálice, mas acima de tudo faça-se a Tua vontade e não a minha”. Demonstrava-nos o Mestre que as Leis Naturais são sábias e justas e que são aplicadas indistintamente. Assim, não peçamos “milagres ou prodígios”, mas tão-somente forças para suportar aquilo que não está ao nosso alcance mudar, paciência, resignação, fé e coragem.


Formas da Prece


A prece deve ser curta e feita em segredo, no recôndito da consciência e em profunda meditação. Preces prolongadas ou repetidas, tornam-se cansativas, sonolentas e, muitas vezes, delas não participam o pensamento e o coração.
Assim, a condição da prece está no pensamento recto, podendo-se orar em qualquer lugar, a qualquer hora, a sós ou em conjunto, em pé, deitado, de luz acesa ou apagada, de olhos abertos ou fechado; desde que haja o recolhimento íntimo necessário para se estabelecer a sintonia harmoniosa. Por isto a importância do sentimento amoroso, humilde, piedoso, livre de qualquer ressentimento ou mágoa, dessa maneira o homem irá absorver a força moral necessária para vencer as dificuldades com seus próprios méritos.


Eficácia da Prece


Existem aqueles que contestam a eficácia da prece, alegando que, pelo fato de Deus conhecer as necessidades humanas, torna-se dispensável o ato de orar, pois sendo o Universo regido por leis sábias e eternas, as súplicas jamais poderão alterar os desígnios do Criador. No entanto, o ensinamento de Jesus vem esclarecer que a justiça divina não é inflexível a ponto de não atender os que lhe fazem súplicas. Ocorre que existem determinadas leis naturais e imutáveis que não se alteram segundo os caprichos de cada um. Porém, isso não deve levar à crença de que tudo esteja submetido à fatalidade. O homem desfruta do livre-arbítrio para compor a trajectória de sua encarnação, pois Deus não lhe concedeu a inteligência e o entendimento para que não os utilizasse.


Existem acontecimentos na vida actual aos quais o homem não pode furtar-se; são consequências de falhas e deslizes de passado que necessitam de reajustes; é a aplicação da Lei de Causa e Efeito e isto explica porque alguns alegam que pedem benefícios a Deus, mas que nunca são concedidos; o que parece, a princípio, contrariar o ensinamento de Jesus citado em Marcos C11:V24 “O que quer que seja que pedirdes na prece, crede que obtereis, e vos será concedido”.


Muitas coisas que na vida presente parecem úteis e essenciais para a felicidade do homem, poderão ser-lhe prejudiciais e esta é a razão por que elas não lhe são concedidas. Contudo, o egoísmo e o imediatismo não permitem que ele perceba com exactidão a eficácia da prece.
Porém, seus efeitos ocorrem segundo os desígnios divinos: A curto prazo na medida em que consola, alivia os sofrimentos, reanima e encoraja; a médio e longo prazo porque pelo pensamento edificante dá-se a aproximação das forças do bem a restaurar as energias de quem ora.


Àquele que pede, Deus está sempre pronto a conceder-lhe a coragem, a paciência, a resignação para enfrentar as dificuldades e os dissabores inerentes à natureza humana, com ideias que lhes são sugeridas pelos Espíritos benfeitores, deixando-nos contudo o mérito da acção, e isto porque não se deve ficar ocioso à espera de um milagre, pois a Providencia Divina sempre ampara os que se ajudam a si mesmos, como asseverou o Mestre: “Ajuda-te e o céu te ajudará” (ESE, Cap. 27, item 7).


Portanto, de tudo o que foi dito anteriormente, podemos concluir que a eficácia da prece está na dependência da renovação íntima do homem, em que deve prevalecer a linguagem do amor, do perdão e da humildade para que ele possa assim, de coração liberto de sentimentos negativos, agradecer a Deus a dádiva da vida.


“Vigiai e Orai” nos recomendou o Mestre (Mateus C26:V41).


Bibliografia:

Curso Básico do Espiritismo 1º Ano – FEESP.
Curso Básico do Espiritismo 2º Ano – FEESP.
O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Para pedir um conselho


Para Pedir um Conselho


24. _ Quando ficamos indecisos quanto a alguma coisa que temos por fazer, devemos propor-nos, antes de tudo, as seguintes questões: 1º) O que pretendo fazer pode causar algum prejuízo a outra pessoa? 2º) Pode ser útil a alguém? 3º) Se alguém fizesse o mesmo para mim, eu ficaria satisfeito? Se o que temos de fazer só interessa a nós mesmos, é conveniente pesar as vantagens e desvantagens pessoais que nos podem advir. Se interessa a outros, e se fazendo bem a um pode resultar em mal para outro, é igualmente de conveniência pesar as vantagens e desvantagens. Afinal, mesmo para as melhores coisas, é necessário considerar a oportunidade e as circunstâncias, porquanto uma coisa boa por si mesma pode dar maus resultados em mãos inábeis, ou se não for conduzida com prudência e circunspecção. Em todo caso, pode-se sempre pedir a assistência dos Espíritos protectores, lembrando-nos desta máxima de sabedoria: Na dúvida, abstém-te! (Cap. XXVIII, nº 38).


25. Prece _ Em nome de Deus Todo-Poderoso, vós, Bons Espíritos que me protegeis, inspirai-me a melhor decisão a tomar, na incerteza em que me encontro. Dirigi o meu pensamento para o bem, e desviai a influência dos que tentam enganar-me.

terça-feira, 26 de junho de 2007

O futuro e o nada


O Futuro e o Nada


1 — Nós vivemos, nós pensamos, nós agimos — eis o que é positivo. E nós morremos — o que não é menos certo. Mas ao deixar a Terra para onde vamos? No que nos transformamos? Estaremos melhor ou pior? Seremos ainda nós mesmos ou não mais o seremos? Ser ou não ser — essa é a alternativa. Ser para todo o sempre ou nunca mais ser. Tudo ou nada. Viveremos eternamente ou tudo estará acabado para sempre. Vale a pena pensarmos em tudo isso?
Toda criatura humana sente a necessidade de viver, de gozar, de amar, de ser feliz. Diga-se àquele que sabe que vai morrer que ele ainda viverá ou que a sua hora foi adiada. Diga-se sobretudo que ele será mais feliz do que já foi — e o seu coração palpitará de alegria. Mas de que serviriam essas aspirações de felicidade, se basta um sopro para dissipá-las?


Haverá alguma coisa mais desesperadora do que essa ideia de destruição absoluta?(1)


Sagradas afeições, inteligência, progresso, saber laboriosamente adquirido, tudo seria destruído, tudo estaria perdido! Que necessidade teríamos de esforçar-nos para ser melhores, de nos constrangermos na repressão das paixões, de nos fatigarmos no aprimoramento do espírito, se de tudo isso não iremos colher nenhum fruto? E, sobretudo, diante da ideia de que amanhã, talvez, tudo isso não nos sirva para nada? Mas, se assim fosse, a sorte do homem seria cem vezes pior que a do bruto. Porque este vive inteiramente no presente, na plena satisfação de seus apetites materiais, nada aspirando para o futuro. Uma secreta intuição nos diz que isso é absurdo.


2 — Acreditando que o fim de tudo é o nada, o homem concentra forçosamente todo o seu pensamento na vida presente. Com efeito, não seria lógico preocupar-se com um futuro que não se espera. Essa preocupação exclusiva com o presente o leva naturalmente a pensar em si antes de tudo. É portanto, o mais poderoso estimulante do egoísmo, e a incredulidade é consequente consigo mesma quando chega a esta conclusão: gozemos enquanto vivemos, gozemos o mais possível, desde que após a morte tudo está acabado, gozemos logo, pois não sabemos quanto tempo isso vai durar. E também quando chega a esta outra conclusão, bastante grave para a sociedade: gozemos de qualquer maneira, cada qual por si, que a felicidade neste mundo cabe sempre ao mais esperto.


Se o respeito humano consegue deter alguns, que freio poderia segurar aqueles que nada tem? Eles dizem que a lei humana só protege os males intencionados, e por isso aplicam todo o seu talento aos meios de fraudá-la. Se existe uma doutrina malsã e anti-social é seguramente essa do nada, pois que rompe os verdadeiros laços da sociedade e da fraternidade, fundamentos das relações sociais.


3 — Suponhamos que, em alguma circunstância, todo um povo se convença de que dentro de oito dias, um mês ou um ano ele será aniquilado, que nenhum indivíduo sobreviverá, que não restará mais nenhum traço de cada um após a morte. O que faria esse povo durante este tempo? Trabalharia para se melhorar, para se instruir, se esforçaria para viver? Respeitaria os direitos, os bens, a vida de seus semelhantes? Se submeteria às leis, a alguma autoridade, qualquer que seja, mesmo a mais legítima: a autoridade paterna? Haveria para ele qualquer espécie de dever? Seguramente não.


Pois bem: isso que não acontece para um povo que a doutrina do nada realiza isoladamente a cada dia. Se as consequências não são tão desastrosas como poderiam ser, é primeiro porque na maior parte dos incrédulos há mais fanfarronice do que verdadeira incredulidade, mais dúvida do que convicção, e porque eles são mais temerosos do nada do que podem parecer. O epíteto de espírito forte alenta-lhes o amor-próprio. Em segundo lugar, os verdadeiros incrédulos constituem uma ínfima minoria, que sofrem a contra-gosto a pressão da opinião contrária e são contidos pelas forças sociais. Mas que a verdadeira incredulidade se torne um dia a opinião da maioria e a sociedade estará em dissolução. É ao que leva a propagação da doutrina do niilismo. (2)


Seja quais forem as consequências, se o niilismo fosse uma doutrina verdadeira teríamos de aceitá-la, e não seriam os sistemas contrários, nem a ideia do mal que ela pudesse produzir, que poderiam eliminá-la. Ora, não se pode negar que o cepticismo, a dúvida, a indiferença ganham terreno cada dia, apesar dos esforços da religião em contrário. Isso, é positivo. Se a religião é impotente contra a incredulidade é que lhe falta alguma coisa para combatê-la, de tal maneira que, se ela se imobilizasse, em pouco tempo estaria inevitavelmente superada. O que lhe falta neste século de positivismo, onde se quer compreender para crer, é a sanção das suas doutrinas pelos factos positivos. E é também a concordância de algumas doutrinas com os dados positivos da ciência. Se ela diz branco e os factos dizem negro, temos forçosamente de optar entre a evidência e a fé cega. (3)


(1) Cem anos depois de Kardec a Filosofia em França quase se desfez nos sofismas do nada, com Jean Paul Sartre e sua escola. Mas Simone de Beauvoir, companheira e discípula de Sartre, confirma e ilustra as considerações de Kardec ao escrever "...detesto pensar no meu aniquilamento. Penso com melancolia nos livros lidos, nos lugares visitados, no saber acumulado e que não mais existirá. Toda a música, toda a pintura, tantos lugares percorridos — e de repente mais nada!" — La Force des Choses, final do último capítulo. — A aproximação da morte, sob a ideia do nada, acarreta às criaturas mais cultas essa desesperança amarga. (N. do T.)


(2) Um jovem de dezoito anos sofria de uma doença cardíaca que foi declarada incurável. O veredicto da ciência havia sido: pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos, mas não passará disso. O jovem ficou sabendo e logo abandonou todo o estudo e se entregou aos excessos de toda a espécie. Quando lhe mostravam quanto essa vida era perniciosa para a sua situação, ele respondia: "Que me importa, desde que só tenho dois anos de vida? De que me valeria cansar a mente? Gozo o tempo que me resta e quero me divertir até o fim." Eis a consequência lógica no niilismo. Mas se esse jovem fosse espírita poderia responder: "A morte só destruirá o meu corpo que abandonarei como uma roupa usada, mas meu espírito continuará a viver. Eu serei, numa vida futura, o que fizer de mim mesmo nesta vida. Nada do que tenha adquirido em qualidades morais e intelectuais se perderá, porque isso representa uma conquista para o meu adiantamento. Toda a imperfeição de que me houver livrado será um passo no caminho da felicidade, minha ventura ou minha desgraça futura dependem da utilização de minha existência presente. É pois de meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta, evitando tudo o que pudesse diminuir as minhas forças." Qual dessas duas doutrinas será preferível? (Nota de Kardec).


(3) Muitos esforços se fazem ainda hoje, particularmente no campo da Cibernética e do Estruturalismo, para demonstrar que o homem não tem liberdade. O Espiritismo é, por excelência, a doutrina da liberdade e da responsabilidade individuais. Mas o conceito de liberdade, no Espiritismo, não é absoluto. A liberdade humana é condicionada pelas condições corporais (hereditariedade, constituição etc.) pelo meio físico, pelas características raciais, pela cultura e pelas normas sociais e morais, bem como pela constituição psíquica de cada indivíduo e pelo determinismo do seu passado espiritual, do seu karma. Dentro de todas essas limitações, entretanto, subsiste a capacidade de optar, de escolher e de agir segundo a vontade. Essa capacidade permite mesmo à criatura abrandar ou romper algumas das limitações que lhe são impostas, até mesmo no plano kármico, onde a lei do amor lhe serve de instrumento para remover ou atenuar consequências nefastas. Assim, o determinismo está na facticidade (no conjunto de condições com que o homem apareceu feito no mundo) e a liberdade ou livre-arbítrio está na ipseidade (na individualização ou na essência do ser condicionado pela forma). É bom lembrar que não estamos no absoluto, mas no relativo, e que neste não existe liberdade onde não houver condições para que ela se exerça. Para melhor compreensão deste problema ler O Ser e a Serenidade, de J. H. Pires, edição "Paidéia". (N. do T.)


4 — Em face desta situação o Espiritismo vem opor um dique à invenção da incredulidade, servindo-se não somente da razão e da perspectiva dos perigos a que ela arrasta, mas também dos factos materiais, ao permitir que se toque com o dedo e se veja com o olho a alma e a vida futura.
Cada qual é livre sem dúvida no tocante à crença, podendo crer em alguma coisa ou não crer em nada. Mas os que procuram fazer prevalecer no espírito das massas, e sobretudo da juventude, a negação do futuro, apoiando-se na autoridade, seu saber e na ascendência da sua posição, semeiam na sociedade os germes da perturbação e da dissolução, incorrendo numa grande responsabilidade.


5 — Há uma outra doutrina que se defende da acusação de materialista porque admite a existência de um princípio inteligente além da matéria. É a doutrina da absorção no todo universal. Segundo esta doutrina cada indivíduo absorve ao nascer uma parcela do princípio que lhe dá a vida, constituindo a sua alma, a sua inteligência e os seus sentimentos. Com a morte, essa alma retorna ao elemento comum e se perde no infinito como uma gota d'água no oceano.
Essa doutrina é sem dúvida um passo adiante em relação ao puro materialismo, pois admite alguma coisa, enquanto o outro não admite nada. Mas as consequências de ambas são exactamente as mesmas. Que o homem seja mergulhado no nada ou num reservatório comum, é a mesma coisa. Se no primeiro caso ele é transformado em nada, no segundo perde a sua individualidade, o que equivale a perder a sua existência. As relações sociais são igualmente rompidas. O essencial para o homem é a conservação do seu eu. Sem isso, que lhe importa ser ou não ser? O futuro para ele não existe, num e noutro caso, e a vida presente é a única coisa que lhe interessa e o preocupa. Do ponto de vista das consequências morais essas duas doutrinas são perniciosas, igualmente desesperadoras, esta última excitando o egoísmo da mesma maneira que o materialismo.


6 — Além disso, pode-se fazer a essa doutrina a seguinte objecção: todas as gotas d'água de um oceano se assemelham e têm as mesmas propriedades, como partes que são de um mesmo todo. Porque as almas, se foram tiradas de um grande oceano de inteligência universal se assemelham tão pouco entre si? Como explicar a presença do génio ao lado do idiota? As mais sublimes virtudes junto aos vícios mais ignóbeis? A bondade, a doçura, a mansidão ao lado da maldade, da crueldade e da barbárie? Como as partes de um todo homogéneo podem ser diferentes umas das outras? Poderão dizer que é a educação que as modifica? Mas então de onde procedem as qualidades inatas, as inteligências precoces, os bons e os maus instintos que independem de qualquer educação e frequentemente não estão em harmonia com o meio em que as criaturas se desenvolvem?
A educação, não há dúvida, modifica as qualidades intelectuais e morais da alma, mas neste ponto outra dificuldade se apresenta. Quem deu à alma a educação que a fez progredir? Outras almas que por sua origem comum não devem ser mais adiantadas? Por outro lado, a alma, voltando ao todo universal de que sairá, após haver progredido durante a vida, leva a ele um elemento de perfeição, de onde se segue que esse todo deve ser profundamente modificado e melhorado com o tempo. Como se explica que dele saiam incessantemente almas ignorantes e perversas?


7 — Nessa doutrina a fonte universal da inteligência que produz as almas humanas é independente da Divindade. Não se trata, pois, do panteísmo. A doutrina panteísta propriamente dita difere dela ao considerar o princípio universal da vida e da inteligência como integrando a Divindade. Assim, Deus é ao mesmo tempo espírito e matéria. Todos os seres, todos os corpos da natureza constituem a Divindade, da qual representam as moléculas e demais elementos componentes. Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas. Cada indivíduo, sendo uma parte do todo, é em si mesmo Deus. Nenhum ser superior e independente comanda o conjunto. O universo é uma imensa república sem presidente, onde todos ou cada um é o seu próprio chefe com poder absoluto.


8 — Podemos opor numerosas objecções a esses sistemas. As principais são as seguintes:
Não se podendo conceber a Divindade sem perfeições infinitas, pergunta-se como um todo perfeito pode ser formado de parcelas tão imperfeitas que necessitam de progredir? Cada parcela estando submetida à lei do progresso, disso resulta que o próprio Deus deve progredir, e se ele progride sem cessar, deve ter sido muito imperfeito na origem dos tempos. Como um ser imperfeito, formado de vontades e ideias tão divergentes, pode conceber as leis harmoniosas, tão admiráveis, de unidade, de sabedoria e de previdência que regem o universo? Se todas as almas são parcelas da divindade, todas concorreram para a criação das leis da natureza, como se explica que elas mesmas protestem continuamente contra essas leis, que são a sua própria obra? Uma teoria só pode ser aceita como verdadeira sob a condição de satisfazer à razão e explicar todos os fenómenos que abrange. Se um só facto puder desmenti-la é que ela não possui a verdade absoluta.


9 — Do ponto de vista moral as consequências são também inteiramente ilógicas. A princípio, temos para as almas, como no sistema precedente, a absorção num todo e a perda da individualidade. Se admitirmos, segundo a opinião de alguns panteístas, que elas conservem a sua individualidade, Deus não terá mais uma vontade única, pois será um composto de miríades de vontades divergentes. Depois, sendo cada alma parte integrante da divindade, nenhuma será dominada por um poder superior. Em consequência, não haverá nenhuma responsabilidade individual pelos actos bons ou maus, como nenhum interesse em fazer o bem, podendo fazer impunemente o mal, desde que ela é o soberano senhor de si mesma.


10 — Além desses sistemas não satisfazerem à razão nem às aspirações do homem, apresentam-se, como se vê, cheios de dificuldades insuperáveis, de maneira que são incapazes de resolver todas as questões de facto que levantamos. O homem tem, portanto, três alternativas: o nada, a absorção ou a individualidade da alma antes e após a morte. É a esta última crença que a lógica nos leva insensivelmente. É ela também que constitui o fundo de todas as religiões desde que o mundo existe.
Se a lógica nos leva à individualidade da alma, nos leva também a outra consequência, a de que a sorte de cada alma deve depender de suas qualidades pessoais, pois seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem e a do homem perverso estivessem no mesmo nível que o do homem de bem e do sábio. Segundo a justiça, as almas devem ter a responsabilidade dos seus actos, mas para que sejam responsáveis é necessário que sejam livres para escolher entre o bem e o mal. Sem o livre-arbítrio haverá fatalidade e com esta a alma não poderia ter responsabilidade.


11 — Todas as religiões admitiram igualmente o princípio do destino feliz ou infeliz das almas após a morte, ou seja, das penas e dos gozos futuros que se resumem na doutrina do céu e do inferno, que encontramos por toda a parte. Mas no que elas diferem essencialmente é quanto à natureza das penas e dos gozos e sobretudo quanto às condições que podem levar as almas a merecerem umas e outros. Daí resultam os pontos de fé contraditórios que deram origem aos diferentes cultos e os deveres particulares impostos por todos eles para reverenciar a Deus, por meio dos quais se pode ganhar o céu e escapar ao inferno.


12 — Todas as religiões deviam estar, em sua origem, em relação com o grau de adiantamento moral e intelectual dos homens. Estes, ainda muito materiais para compreender o valor das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maioria dos deveres religiosos na prática de fórmulas exteriores. Durante algum tempo essas fórmulas satisfizeram à sua razão. Mais tarde, esclarecendo-se os seus espíritos, sentiram o vazio dessas fórmulas, e como a religião não mais os satisfazem eles a abandonam e se tornam filósofos.


13 — Se a religião, a princípio apropriada aos conhecimentos limitados dos homens, tivesse sempre seguido o desenvolvimento progressivo do espírito humano, não haveria incrédulos porque a necessidade de crer está na própria natureza do homem e ele sempre crerá desde que lhe dêem o alimento espiritual em harmonia com as suas exigências intelectuais. Ele quer saber de onde vem e para onde vai.
Se lhe mostrarem um alvo que não corresponde às suas aspirações nem à ideia que ele faz de Deus, nem aos dados positivos que a ciência lhe fornece, se além disso lhe impõem, para atingir a Deus, condições que a sua razão considera inúteis, ele repele a tudo. Então o materialismo e o panteísmo lhe parecem mais racionais, porque neles se discute e raciocina, e embora o raciocínio seja falso, ele prefere raciocinar falso a ser impedido de fazê-lo.(4)
Mas se lhe apresentarem um futuro em condições lógicas, digno em tudo da grandeza, da justiça e da infinita bondade de Deus, ele abandonará o materialismo e o panteísmo, dos quais sente o vazio em seu próprio íntimo e que só havia aceitado na falta de coisa melhor. O Espiritismo lhe oferece o melhor e é por isso que se vê acolhido ansiosamente por todos os que se atormentam com a incerteza pungente da dúvida, não encontrando nas crenças e nas filosofias vulgares aquilo que procuram. Ele tem a seu favor a lógica do raciocínio e a prova dos factos. É por isso que inutilmente tem sido combatido.


14 — O homem tem a convicção instintiva do futuro, mas não tendo até então nenhuma base certa para a sua definição, criou pela imaginação os sistemas que o levaram à diversidade das crenças. A doutrina espírita sobre o futuro, não sendo obra de imaginação concebida de maneira engenhosa, mas sim o resultado da observação dos factos materiais que hoje ocorrem aos nossos olhos, ligará, como já está fazendo actualmente, as opiniões divergentes ou incertas, e conduzirá pouco a pouco, pela própria força das circunstâncias, a crença a uma unidade baseada na certeza e não mais na hipótese. Realizada a unificação no tocante ao destino das almas, será este o primeiro ponto de aproximação dos diferentes cultos, um passo considerável para a tolerância religiosa, a princípio, e mais tarde para a fusão. (5)


(4) O materialismo e a descrença são flores de estufa, criações artificiais das fases de desenvolvimento cultural. Nessas fases, o desequilíbrio entre as estruturas religiosas, que vêm do passado, e as exigências novas da evolução cultural provoca a defecção religiosa. Por isso os ateus e materialistas constituem sempre minorias. Essas minorias correspondem ao número de pessoas que puderam acompanhar a evolução cultural. A massa da população permanece apegada às fórmulas religiosas tradicionais, mas, na proporção em que a cultura se divulga, a descrença e o materialismo florescem. Kardec colocou o problema numa síntese admirável, como se vê na parte grifada do período acima. (N. do T.)


(5) Foi necessário mais de um século para que esta previsão de Kardec, não profética mas formulada em termos da moderna Futurologia, começasse a realizar-se. O actual Ecumenismo, que significativamente deixa de lado o Espiritismo, é um passo, apesar das dificuldades que o entravam, para a futura fusão do pensamento religioso na Terra. Nos mundos superiores, segundo informam os Espíritos mais elevados, os cultos religiosos se fundem numa forma única, simplificada e racional. As tentativas de criação de teorias ecléticas e de construção de templos comuns para diversas religiões, em nosso tempo, são outros sinais da evolução religiosa do planeta. (N. do T.)


Referência: O ceú e o inferno