quinta-feira, 14 de junho de 2007

função e necessidade do sofrimento


Função e necessidade do sofrimento

autor desconhecido

O sofrimento é um fenómeno de tal amplitude e gravidade que é extremamente delicado abordá-lo, tanto por aqueles que não experimentando alguma sensação de sofrimento o receiam e assim o descartam, quanto por aqueles que vitimados pela dor, têm como único desejo obter um apaziguamento.


A dor física é, mais frequentemente, um aviso da natureza que procura nos preservar dos excessos. Sem ela abusaríamos de nossos órgãos a ponto de os destruir antes da hora. Quando um mal perigoso penetra em nós que ocorreria se não lhe sentíssemos logo os efeitos desagradáveis? Ele avançaria pouco a pouco, nos invadindo e exauriria em nós as fontes da vida.
E mesmo quando, persistindo em desconhecer os avisos repetidos da natureza, deixamos a doença se desenvolver em nós, ela pode ser ainda um benefício se, causada por nossos abusos e vícios, nos ensinar a detestá-los e a nos corrigirmos. É preciso sofrer para se conhecer e para bem conhecer a vida. Epicteto dizia: «É uma falsa ideia pretender que a saúde é um bem e a doença um mal. Usar bem a saúde é um bem; e usar mal é um mal. Usar bem a doença é um bem; e usar mal é um mal. Tira-se o bem de tudo, mesmo da morte».


A dor, sob suas múltiplas formas, é o remédio supremo para as imperfeições e as enfermidades da alma. Sem ela nenhuma cura seria possível. Da mesma forma que as doenças orgânicas são com frequência o resultado de nossos excessos, as experiências morais que nos atingem são resultantes de nossas faltas passadas. Cedo ou tarde, essas faltas recaem sobre nós com suas consequências lógicas. É a lei da justiça e do equilíbrio moral. Saibamos aceitar os efeitos como aceitamos os remédios amargos e as operações dolorosas que devem restituir a saúde e a agilidade ao nosso corpo. Ainda mesmo que o desgosto, as humilhações e a ruína nos oprimam, suportemo-las com paciência. O trabalhador dilacera o seio da terra para fazer brotar a colheita dourada. Assim, de nossa alma dilacerada surgirá uma abundante colheita moral. Então, não é por vingança que a lei nos atinge, mas porque é bom e proveitoso sofrer.


O primeiro movimento do homem infeliz é se revoltar sob os golpes da sorte. Mas, mais tarde, quando o espírito já escalou os declives e contempla o áspero caminho percorrido, o desfilar de suas existências, é com um enternecimento alegre que recordará as provas e tribulações com ajuda das quais pode galgar os mais altos cumes.


Se nas horas de provação soubermos observar o trabalho interior, a acção misteriosa da dor em nós, em nosso eu, em nossa consciência, compreenderemos melhor sua sublime obra de educação e de aperfeiçoamento. Veremos que ela atinge sempre o ponto sensível. A mão que dirige o cinzel é a de um artista incomparável; não deixa de agir até que os ângulos de nosso carácter estejam aparados, polidos e gastos. Para isso, ela volta à carga tantas vezes quantas sejam necessárias. E por seus golpes repetidos, a arrogância e a personalidade excessiva de alguns deverão cair; a fraqueza, a apatia e a indiferença deverão desaparecer de outros; a dureza, a cólera e o furor de outros ainda. Para todos haverá diferentes procedimentos, variados ao infinito, conforme os indivíduos, mas em todos agirá com eficácia, de maneira a fazer nascer ou desenvolver a sensibilidade, a delicadeza, a bondade, a ternura e a fazer sair das dilacerações e das lágrimas qualquer qualidade desconhecida que dormia silenciosa no fundo do ser, ou aquela nobreza nova, adorno da alma, adquirida espontaneamente.


E quanto mais sobe, engrandece e se faz bela, mais a dor se espiritualiza e se torna subtil. Aos malvados são precisas provas numerosas, como a árvore precisa de muitas flores para produzir algum fruto. Mas quanto mais o ser humano se aperfeiçoa, mais os frutos da dor se tornam admiráveis nele. Às almas impolidas, mal desbastadas, incumbem os sofrimentos físicos e as dores violentas; aos egoístas e aos avaros caberão as perdas de fortuna, as negras inquietudes e os tormentos do espírito. Depois aos seres delicados, às mães, aos amantes e às esposas, as torturas escondidas e as mágoas do coração. Aos nobres pensadores e aos inspirados, a dor subtil e profunda que faz brotar o gemido sublime, o clarão do génio!


Por muito tempo ainda, a humanidade terrestre, ignorante das leis superiores e inconsciente do porvir e do dever, terá necessidade da dor, para estimulá-la na sua vida e para transformar o que predomina nela, os instintos primitivos e grosseiros em sentimentos puros e generosos. Por muito tempo o homem deverá passar pela iniciação amarga para chegar ao conhecimento de si mesmo e de seu objectivo. Ele sonha presentemente apenas em aplicar suas faculdades e sua energia em combater o sofrimento sobre o plano físico, em aumentar o bem-estar e a riqueza e em tornar mais agradáveis as condições da vida material. Mas isso será em vão. Os sofrimentos poderão variar, se deslocar, mudar de aspecto, mas a dor persistirá enquanto o egoísmo e o interesse regerem as sociedades terrestres, o pensamento se esquivar das coisas profundas e enquanto a flor da alma não tiver desabrochado.


Todas as doutrinas económicas e sociais serão impotentes para reformar o mundo e para aliviar os males da Humanidade, porque sua base é muito estreita e porque colocaram na vida presente unicamente a razão de existir, o objectivo de viver e de todos os nossos esforços. Para extinguir o mal social é preciso elevar a alma humana à consciência de sua função, fazê-la compreender que sua sorte depende somente dela, e que sua felicidade será sempre proporcional à extensão de seus triunfos sobre si mesma e de seu desenvolvimento em direcção aos outros.


Deve-se colocar um termo às provas de seu próximo quando se o pode, ou é preciso, por respeito aos desígnios de Deus, deixá-los seguir seu curso?


Nós temos dito e repetido bastante frequentemente que vocês estão sobre esta terra de expiação para terminar suas provas, e que tudo o que lhes chega é uma consequência de suas existências anteriores, o juro da dívida que vocês têm de pagar. Mas este pensamento provoca entre certas pessoas reflexões que é necessário impedir, porque poderiam ter consequências funestas.
Qualquer um pensa que desde o momento que se está sobre a terra para expiar, é preciso que as provas tenham seu curso. Alguns mesmo chegam até a acreditar que, não é preciso apenas nada fazer para as atenuar, mas que, ao contrário, deve-se contribuir para torná-las mais proveitosas fazendo-as mais vivas. É um grande erro. Sim, suas provas devem seguir o curso que Deus lhe traçou, mas vocês conhecem esse curso? Sabem até que ponto elas devem ir, e se seu Pai misericordioso não disse ao sofrimento de tal ou qual de seus irmãos: «Você não irá mais longe»? Sabem se a providência não os escolheu, não como um instrumento de suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como o bálsamo de consolação que deve cicatrizar as chagas que sua justiça tinha aberto? Não digam então, quando virem um de seus irmãos aflitos: É a justiça de Deus, é preciso que ela tenha seu curso; mas digam, ao contrário: Vejamos que meio nosso Pai misericordioso colocou em meu poder para suavizar o sofrimento de meu irmão. Vejamos se minhas consolações morais, meu apoio material, meus conselhos, não poderão ajudá-lo a transpor esta prova com mais força, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não colocou em minhas mãos o meio de fazer cessar esse sofrimento; se não me foi dado, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substitui-lo pela paz.


Ajudem-se então sempre nas suas provas respectivas, e não se considerem jamais como instrumentos de tortura; este pensamento deve revoltar todo homem de coração, todo espírita sobretudo; porque o espírita, melhor que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. O espírita deve pensar que sua vida inteira deve ser um acto de amor e de devotamente; que o quer que se possa fazer para contrariar as decisões do Senhor, sua justiça seguirá seu curso. Ele pode então, sem medo, fazer todos seus esforços para adoçar a amargura da expiação, mas é Deus somente quem poderá detê-la ou prolongá-la conforme seu julgamento a respeito.


Não seria um grande orgulho da parte do homem, se acreditar no direito de revolver, por assim dizer, a arma na ferida? De aumentar a dose de veneno no peito daquele que sofre, sob pretexto de que tal é sua expiação? Oh! Considerem-se sempre como um instrumento escolhido para cessar o sofrimento. Resumamo-nos aqui: vocês estão todos sobre a Terra para expiar; mas todos, sem excepção, devem fazer todos os esforços para suavizar a expiação de seus irmãos, segundo a lei de amor e de caridade.

Para saber mais:

O Problema do ser e do destino de Léon Denis (3ª parte, Cap. XXVI, A dor)
O Problema do ser e do destino de Léon Denis (3ª parte, Cap. XXVII, Revelação pela dor)
O Evangelho segundo o Espiritismo de Allan Kardec (Cap. V, Bem-aventurados os aflitos)
Após a morte de Léon Denis (5ª parte, Cap. L, Resignação na adversidade)
O Espiritismo, que sabemos? de USFF (Cap. XXVI, A quem corresponde o sofrimento)
Espiritualismo versus a luz de Louis Serré (Cap. VI, O mal, o bem, o sofrimento)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A depressão na visão espírita


A Depressão na visão Espírita
Dr. Wilson Ayub Lopes

A depressão pode ser conceituada como uma alteração do estado de humor, uma tristeza intensa, um abatimento profundo, com desinteresse pelas coisas. Tudo perde a graça, o mundo fica cinza, viver torna-se tarefa difícil, pesada, com ideias fixas e pessimistas.
Poderíamos considerá-la como uma emoção estragada. As emoções naturais devem ser passageiras, circularem normalmente, sem desequilibrar o ser. A tristeza por exemplo, é uma emoção natural, que nos leva a entrar em contacto connosco, à introspecção e à reflexão sobre nossas atitudes. Agora, uma vez estagnada, prolongada, acompanhada de sentimento de culpa, nos leva a depressão.


Podemos dividir a "depressão" em três formas, de acordo com o factor causal:
Depressão Reactiva ou Neurose Depressiva: - esta depende de um factor externo desencadeante, geralmente perdas ou frustrações, tais como separação, perda de um ente querido, etc.


Depressão Secundária a Doenças Orgânicas: acidente vascular cerebral ("Derrame"), tumor cerebral, doenças da tiróide, etc.
Depressão Endógena: por deficiência de neurotransmissores. exs.: depressão do velho, depressão familiar e psicose maníaco-depressiva.
Estima-se que a depressão incida em cerca de 14% da população, ou seja, temos no Brasil cerca de 21 milhões de deprimidos.


Ela afecta todo o ser, acarretando uma série de desequilíbrios orgânicos, sobretudo, comprometendo a qualidade de vida, tornando a criatura infeliz e com queda do seu rendimento pessoal.
André Luiz cita nas suas obras que os estados da mente são projectados sobre o corpo através dos bióforos que são unidades de força psicossomáticas, que se localizam nas mitocôndrias. A mente transmite seus estados felizes ou infelizes a todas as células do nosso organismo, através dos bióforos. Ela funciona ora como um sol irradiando calor e luz, equilibrando e harmonizando todas as células do nosso organismo, e ora como tempestades, gerando raios e faíscas destruidoras que desequilibram o ser.
Segundo Emmanuel, a depressão interfere na mitose (divisão) celular, contribuindo para o aparecimento do câncer e de outras doenças imunológicas, sobretudo a deficiência imunitária facilitando às infecções.


Na depressão existe uma perda de energia vital no organismo, num processo de desvitalização.
O indivíduo perde energia por dois mecanismos principais:
1º) Perde sintonia com a Fonte Divina de Energia Vital: o indivíduo não se armando como deve, com sentimento de auto-estima em baixa, afasta de si mesmo, da sua natureza divina, elo de ligação com a fonte inesgotável do Amor Divino. Além do mais, o indivíduo ao se fechar em seus problemas e suas mágoas, cria um ambiente vibratório negativo, que dificulta o acesso da espiritualidade Maior em seu benefício.


2º) Gasto Energético Improdutivo: o indivíduo ao invés de utilizar o seu potencial energético para desenvolver potencialidades evolutivas, vivendo intensamente as experiências e os desafios que a vida lhe apresenta, desperdiça energia nos sentimentos de auto-compaixão, tristeza e lamentações. Sofre e não evolui.

CAUSAS PRINCIPAIS


A depressão está frequentemente associada a dois sentimentos básicos: a tristeza e culpa degenerada em remorso.
Quando por algum motivo infringimos a lei natural, ao tomarmos consciência do erro cometido, temos dois caminhos a seguir:


1 - Erro> Consciência> Arrependimento> Tristeza> Reparação
2 - Erro> Consciência>Culpa-remorso (ideia fixa)>Depressão


O primeiro caminho é meio natural de nosso aperfeiçoamento. Uma vez tomando consciência de nossas imperfeições e erros cometidos, empreendemos o processo de regeneração através de lições reparadoras.
De outra maneira, se ao invés nos motivarmos a nos recuperarmos, nós nos abatermos, com sentimento de desvalia, de auto-punição, e permanecermos atrelados ao passado de erros, com ideias fixas e auto-obsessivas, nós estaremos caminhando para o estado de depressão, que é improdutivo no sentido de nossa evolução.
Outra condição que nos leva à depressão é citada pelo espírito de François de Geneve no Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. V item 5 (A Melancolia), onde relata que uma das causas da tristeza que se apodera de nossos corações fazendo com que achemos a vida amarga é quando o Espírito aspira a liberdade e a felicidade da vida espiritual, mas, vendo-se preso ao corpo, se frustra, cai no desencorajamento e transmite para o corpo apatia e abatimento, se sentindo infeliz. Para François Geneve então, a causa inicial é esta ânsia frustrada de felicidade, liberdade almejada pelo espírito encarnado, acrescido das atribulações da vida com suas dificuldades de relacionamento interpessoal, intensificada pelas influências negativas de espíritos encarnados e desencarnados.


Outro factor que está determinando esta incidência alarmante de depressão nos nossos dias é o isolamento, a insegurança e o medo que estão acometendo as pessoas na sociedade contemporânea.
Absorvido pelos valores imperantes como o consumismo, a busca do prazer imediato, a competitividade, a necessidade de não perder, de ser o melhor, de não falhar, o homem está de afastando de si e de sua natureza. Adopta então uma máscara (persona), que utiliza para representar um "papel" na sociedade. E, nesta vivência neurótica, ele deixa de desenvolver sua potencialidades, não se abre, nem expõe suas emoções, pois estas demonstram que de facto ele é. Enclausurado, fechado nesta carapaça de orgulho e egoísmo, ele se isola e se sente sozinho. Solidão, não no sentido de estar só, mas de se sentir só. Mais do que se sentir só é a insatisfação da pessoa com a vida e consigo mesma.


O indivíduo nessa situação precisa se cercar de pessoas e de coisas para ficar bem, pois, desconhece que ele se basta pelo potencial divino que tem.
A solidão é consequência de sua insegurança, de sua imaturidade psicológica. Nos primeiros anos de vida, a criança enquanto frágil e insegura, é natural que tenha necessidade de que as pessoas vivam em função delas, dando-lhes atenção e protecção. É a fase do egocentrismo, predominantemente receptiva. Com o seu amadurecimento, começa a criar uma boa imagem de si, tornando-se mais seguro, e a partir de então, passa a se doar, a se envolver e a participar mais do mundo. O que acontece é que certas pessoas, por algum motivo, têm dificuldades neste processo de amadurecimento afectivo, mantendo-se essencialmente receptivas e não participativas, exigindo carinho, respeito e atenção, sem se preocuparem da mesma forma com os outros. Fazem-se de vítimas, pobre coitados, sem as responsabilizarem por si.
Conseguem o seu equilíbrio às custas das conquistas exteriores. A primeira frustração que se deparam, não toleram, pois expõe suas fraquezas e isto motiva um quadro de depressão.
Em alguns idiomas, doença e vazio têm a mesma tradução. A doença seria decorrente de um vazio de sentimentos que gera depressão e adoece o ser.


Um indivíduo quando perde a capacidade de se amar, quando a auto-estima está debilitada, passa a ter dificuldade de amar o semelhante, pois o sentimento de amor, de generosidade para com o próximo, é um sentir de dentro para fora. Este sentimento de amor ao próximo, nada mais é do que uma extensão do nosso amor, da nossa sintonia com o Deus interior que nós temos em nós. A pessoa que tem dificuldade nesta composição de amar a si e, por consequência, amar o próximo, deixa de receber o amor e a simpatia do outro, e não consegue entra em sintonia com a fonte sublime inesgotável do Amor Divino. Nós limitamos aquilo que recebemos de Deus, na medida do quanto doamos ao próximo. Quem ama muito, muito recebe. Quem pouco ama, pouco recebe. Esse afastamento de si, e por conseguinte de Deus, gera a tristeza, o vazio, a depressão e a doença.

TRATAMENTO


A depressão é um sintoma que nos diz que não estamos nos amando como deveríamos.
O caminho para sairmos dela é preencher este vazio com a recuperação da auto-estima e do amor em todos os sentidos. Primeiro, procurando nos conhecer e nos analisar, com o intuito de nos descobrirmos, sem nos julgarmos, sem nos punirmos ou nos culparmos. E depois, nos aceitarmos como somos, com todas as nossas limitações, mas sabendo que temos toda potencialidade divina dentro de nós, esperando para desabrochar como sementes de luz. Isto nada mais é do que desenvolver a fé em si e no criador, sentimento este que transforma e que nos liga directamente a Deus.


Uma pessoa consciente de sua riqueza interior passa a ter segurança e fé nas suas potencialidades infinitas, começando a gostar e acreditar em si, amando-se e a partir de então, sentindo necessidade de expandir este sentimento a tudo e todos. Começa assim a se despertar para os verdadeiros valores da vida espiritual, se transformando numa pessoa feliz e sorridente, pois onde existe seriedade, há algo de errado; a seriedade está ligada ao ser doente. Sorria e seja feliz amando e servindo sempre.


A terapia contra a depressão se baseia no amar e no servir, se envolvendo em trabalhos úteis e no serviço do bem. Seja no trabalho profissional, no trabalho do lazer, ou no trabalho de servir ao próximo, o indivíduo se ocupa, exercita o amor, e deixa de se envolver com as lamentações, pois a infelicidade faz seu ninho no escuro dos sentimentos de cada um. Dificilmente conheceremos um deprimido, entre aqueles que trabalham a serviço do bem.
Para doarmos este amor, não basta somente fazermos obras de caridade, temos que nos tornarmos caridosos; antes de fazermos o bem temos que ser bons. Darmos um pão, um agasalho, mais junto colocarmos uma boa dose de afecto e carinho. Ser acima de tudo generosos, que é a caridade com afecto. As pessoas estão com fome de amor, de calor humano, um ombro amigo, um abraço, um aconchego e uma palavra de carinho.


Às vezes, com um simples sorriso, um bom dia, um olhar afectuoso, nós estamos doando energia e transmitindo vida.
O homem alcançou um enorme progresso intelectual, satisfazendo suas necessidades materiais com os avanços tecnológicos. Porém, ainda se depara com enormes dificuldades na convivência fraterna com o seu semelhante. Estamos cada vez mais próximos um dos outros através dos meios de comunicação e, no entanto, mais afastados emocionalmente. Agora, o homem está sentindo a necessidade premente de desenvolver a afectividade, de se envolver, amar e sentir o seu semelhante.


Temos que ressuscitar e liberar a criança que está esquecida dentro de nós. Para resgatarmos esta criança que adormece em nós, é necessário que vejamos o mundo de forma positiva e optimista. A nossa criança interior, geralmente se encontra retraída e oprimida, porque a vida nos apresenta de forma desagradável; ainda não vivemos de forma natural, espontânea e isto gera ansiedade e sofrimento. Como a criança é movida pelo prazer, ela se recolhe e não se manifesta.


A criança não se julga, não se pune. Ela apenas vive o hoje, o agora, integrada perfeitamente a Deus e à natureza. "Deixai vir a mim as criancinhas porque o reino dos céus é de quem vos assemelham" – com estas palavras quis Jesus dizer que teremos que ser puros, autênticos, integrados com a nossa natureza divina, sem fugas ou máscaras, para alcançarmos a nossa evolução espiritual. Ter atitudes simples, como lidar com animais, brincar com crianças, actividades criativas como a pintura, tocar um instrumento, fazer pequenas tarefas domésticas, cozinhar, manter uma conversa amena, contar um caso, ver um bom filme, escutar uma música, cantar, sorrir, ouvir com atenção, olhar com ternura, tocar as pessoas, abraçar, fazer um elogio sincero, curtir a natureza, admirar o por do sol, etc. Estas são tarefas que muito lhe ajudará a reencontrar o equilíbrio e a harmonia interior.


Manter sempre o bom humor. Aquele que tem no ideal de servir uma meta de vida, será sempre uma pessoa feliz. Na vida o que mais importa é o amor e o bem-querer das pessoas, viver suas emoções; não se deixar afectar por coisas pequenas. Muitas vezes nos deixamos abater por problemas, que se olharmos com olhos de Espíritos Eternos em passagem pela Terra, não valorizaríamos.
Substituir sentimentos de auto-piedade por vibrações em favor dos que sofrem. Se olharmos com atenção e interesse ao nosso redor, veremos que existem pessoas com problemas muito piores, que o nosso a pedir socorro.
Procurar praticar actividades físicas regulares, como a caminhada, um desporto, um lazer. A mente parada começa a criar pensamentos negativos, que se assemelham a lixos amontoados dentro de casa. Com estas actividades, você estará desviando sua mente destes pensamentos deletérios.


Tornar-se empreendedor, dinâmico, criando ideias novas e construtivas em benefício do semelhante, com motivação para implementá-las, junto ao grupo ou a comunidade que pertence. Não fique estagnado esperando que a coisas aconteçam em seu favor. Aja em favor do próximo e não se surpreenda se você for o mais beneficiado.
Leituras edificantes, uma conversa com um amigo, um terapeuta ou um orientador espiritual, ajuda você a ver o problema por um outro ângulo.
A oração é um recurso indispensável no processo de recuperação. Através dela estabelecemos sintonia com a Espiritualidade Maior, facilitando o caminho para que nos inspirem e revigorem nossas energias.


Não nascemos para sofrer. A vontade de Deus é a nossa alegria e a nossa felicidade. Se sofrermos é por nossa causa. Os nossos problemas e nossas dificuldades devem ser interpretadas como instrumentos para nossa evolução.
Nunca devemos nos deprimir ou nos revoltar contra eles. O melhor aprendizado, é aquele que tiramos de nossa própria vida.
Vocábulos “crise” em algumas línguas podem ter dois significados: a oportunidade ou perigo. Oportunidade de crescimento ou perigo de queda.


O que importa é sabermos que os problemas, que deparamos na vida só surgem quando já temos condições de solucioná-los. Como disse o Mestre Jesus: " O Pai não coloca fardos pesados em ombros fracos". Deste modo, ficamos mais fortes ao saber que temos todas as condições interiores, para enfrentar as dificuldades que a vida nos apresenta.
Ter consciência, que acima de tudo, tem um Deus maior a zelar por nós e que nunca nos abandona. Confiar em Jesus e seguir seu exemplo de vida: "Eu sou o Bom Pastor; tende bom ânimo; não turve o vosso coração; vinde a mim vós que andais afadigados, cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei".

SUICÍDIO


Uma das causas de suicídio é o indivíduo se achar impotente e fraco para enfrentar suas dificuldades. Ele se julga inferior, incapaz, vítima da sociedade, desprezando a força que tem. Aí os problemas passam uma dimensão muito maior, e ele se vê impossibilitado para resolvê-los.
Segundo esta linha de raciocínio, não existe pessoa "fraca" a ponto de não suportar um problema, que ele julga, de certa forma, demasiado para si. O que de facto ocorre é que esta criatura não teve força de mobilizar a sua vontade própria para enfrentar aquele desafio. Preferiu fugir, acreditando poder se libertar daquela situação. Só que não irá conseguir, pois a morte é apenas uma mudança de estado. A pessoa continua sendo a mesma, com os mesmos sentimentos e os mesmos problemas.


O mais grave é que o suicida acarreta danos ao seu perispírito. Quando voltar a reencarnar, além de enfrentar os velhos problemas ainda não solucionados, terá acrescido a necessidade de reajustar a sua lesão perispiritual.
Devemos ter a vontade firme de eliminar o mal invasivo da depressão, e vários caminhos podem ser percorridos: tratamento medicamentoso (às vezes necessário), trabalho espiritual incluindo a desobsessão, água fluidificada, passes magnéticos, trabalho beneficente, mudança de atitude mental, etc.


Após iniciado o processo de recuperação é necessário que nos tornemos vigilantes, pois é muito comum a melhora cíclica, com altos e baixos. "Vigiai e orai". É importante aproveitar os períodos de melhora para empreender trabalhos edificantes no bem, consolidando as conquistas efectuadas.
Uma coisa fundamental que devemos ter consciência é que ninguém e nada tem a capacidade de nos fazer infelizes se não quisermos. O centro de gravidade do nosso equilíbrio psico-emocional tem que estar localizado dentro de nós e não nas coisas exteriores.
Não se deve condicionar a sua felicidade a algo que aconteça ou esperar que alguém o faça feliz. Estando com o seu centro de equilíbrio estável, se amando e se aceitando como é, você passa a viver o agora e aceitar as pessoas e as circunstâncias como elas são. Além disto, passamos a ver as qualidades do outro e não os seus defeitos, pois, geralmente vemos o outro como um reflexo do nosso estado íntimo.
Não aceite o convite para sofrer, que venha de outra pessoa ou de você para você mesmo. Proteja-se. Emita pensamentos bons.
Nada pode abalar aquele que alcançou o amor, a paz, a harmonia interior e sobretudo a Fé em Deus.

BIBLIOGRAFIA:


_Kardec, Allan - O Evangelho Segundo o Espiritismo - 2ª edição - FEB - cap. V, item 25
_Franco, Divaldo Pereira - O Homem Integral - 3ª edição - Livraria Espírita Alvorada
_Xavier, Francisco Cândido - Missionários da Luz - FEB - 21ª edição
_Revista Espírita Allan Kardec - Ano X - n. 37
_Xavier, Francisco Cândido - O Consolador - FEB - 13ª edição
_Silva, Marco Aurélio (Dr) - Editora Best

Doenças espirituais


Doenças Espirituais
Dr. Nubor Orlando Facure
O objectivo espírita


O Espiritismo é uma doutrina que introduz ao nível do conhecimento médico um vastíssimo campo de estudo ampliando diagnósticos e introduzindo uma nova compreensão para justificar a razão do sofrimento que a doença nos traz.


Entretanto, o Espiritismo não veio para competir com qualquer especialidade médica e sua principal actuação não é a de produzir curas. Com muita frequência, seus adeptos, o utilizam com esses propósitos, sugerindo na sua busca, o consolo e a cura das doenças. Seu papel, primordial, é o de iluminar e esclarecer, para que cada criatura promova por si próprio, sua reeducação espiritual. Sem reforma íntima não vai ocorrer progresso nem cura. Neste sentido, as doenças são compreendidas como lições com grande potencial de transformação e trazem oportunidades de renovação e crescimento espiritual.


Uma anamnese voltada para a espiritualidade


A maioria dos nossos pacientes aceita muito bem um diálogo com o médico sobre sua espiritualidade. De maneira geral nosso povo, por crendice ou sabedoria mesmo, reconhece que muitas doenças têm alguma coisa a ver com a espiritualidade, ou como causa, ou como processo benéfico para sua cura. Podemos explorar o interrogatório médico de tal modo que o paciente perceba que, falar sobre a espiritualidade não implica em se comprometer com uma religião e que uma e outra podem ser perfeitamente separadas.


Método de avaliação.


Aprendemos a adoptar um critério arbitrário em que a espiritualidade do paciente é avaliada em três domínios (1):
O Domínio da crença: aqui, o paciente revela suas crenças ou não, na existência de Deus, na existência e imortalidade da Alma, no mundo invisível onde habitam os espíritos, na possibilidade de sua comunicação com o seu Deus, na reencarnação, na comunicação dos espíritos connosco.


Esta relação com a espiritualidade que os pacientes costumam se referir é, quase sempre, muito específica e individual sendo, as vezes, muito difícil de serem expressas em palavras, já que está ligada a uma crença que é intransferível, sagrada para cada um que a aceita e implica, como exigência máxima, o respeito que cada um espera ter para sua convicção própria.
O Domínio da prática: refere-se ao comportamento que cada um desenvolve em relação as suas crenças ou a religião que diz adoptar. Assim, identificaremos os frequentadores ocasionais e os assíduos, os participantes e os indiferentes, os curiosos e os inquiridores, todos eles com maior ou menor empenho em por em prática o que ouve das lições que sua religião se dispões a ensinar.


O Domínio da experiência transcendente: é a participação, frequentemente “traumática”, episódica, ocasional ou persistente e controlada que certas pessoas desfrutam com a espiritualidade. Temos os exemplos de pessoas que são surpreendidas pela visão de uma entidade espiritual, coisa que possa ter-lhe acontecido apenas uma vez na vida, mas, que lhe marcou profundamente. Outros, num momento de forte stress, como um acidente de automóvel ou a queda de avião, em que são os únicos sobrevivente, se sentiram, a partir daí, tocados por uma actuação privilegiada das divindades que o protegem. Estão neste grupo, também, aqueles casos de relatos das experiências fora do corpo, que traduzem um desdobramento do corpo espiritual, com um deslocamento mais ou menos demorado pelo mundo espiritual. Nestes casos, pode ou não haver consciência de contactos com entidades que os amparam nestes deslocamentos “fora do corpo”. Entre tantos outros exemplos, precisa ser destacada, também, com ênfase, toda a fenomenologia mediúnica que a doutrina espírita tem o privilégio de esclarecer em seus pormenores, revelando os insondáveis caminhos da mediunidade cujos canais de comunicação nos põe em contacto com a espiritualidade. Na experiência transcendente da mediunidade, a disciplina moral exerce um papel produtivo no grau de elevação espiritual do fenómeno


A fisiopatogenia


A possibilidade de existir uma doença espiritual só pode ser aceita com a crença em um novo paradigma que a doutrina espírita introduz em seus fundamentos (2).
O Espiritismo ensina que Deus é a “Inteligência Suprema do Universo” e tudo que existe faz parte da sua criação.


Cada um de nós é um espírito encarnado que está em processo de aprendizado que, necessariamente, vai nos levar a perfeição. Depois de um número inimaginável de reencarnações, neste, e em outros mundos onde também existe a vida.
Quando o corpo perece, a Alma que o anima passa a viver no mundo espiritual onde estão todos dos outros espíritos que nos precederam. Este mundo espiritual está em estreita ligação com o mundo material que habitamos e os Espíritos que aí vivem exercem constantemente uma forte interferência em nossas vidas.


Além do corpo físico, cada um de nós se serve de outro corpo de natureza intermediária entre a nossa realidade física e o mundo espiritual. Este corpo espiritual ou perispírito é consolidado pelo “fluido cósmico” disponível em cada um dos mundos habitados.
O pensamento é força criadora proveniente do Espírito que o impulsiona. Mesmo conhecendo muito pouco de suas propriedades, sabemos que a energia mental que o pensamento exterioriza, exerce total influência no corpo espiritual, modificando sua forma, sua aparência e sua consistência. É por isto que, Allan Kardec, afirmou que, situa-se no perispírito a verdadeira causa de muitas doenças e a Medicina teria muito a ganhar quando compreendesse melhor sua natureza (3).


Cada um de nós vive em sintonia com o ambiente espiritual que suas atitudes e seus desejos constroem para si próprio.
Diagnóstico da doença ou manifestação espiritual
A mim parece que temos no meio espírita dois vícios de interpretação das manifestações da espiritualidade. Quase sempre, aquele que busca no centro espírita uma orientação diante seus problemas, vai ouvir que seu caso é de “obsessão” ou no mínimo de “mediunidade” e que ele “precisa se desenvolver”.


É preciso reconhecer que, enquanto criaturas humanas que somos, percorrendo mais uma encarnação no planeta, pertencemos a um vastíssimo grupo de espíritos que, sem excepção, ainda está muito endividado e comprometido com seus resgates para imaginarmos que algum de nós possa se aventurar a dizer que não tem qualquer problema espiritual. No meio médico os alemães costumam dizer que “só tem saúde aquele que ainda não foi examinado”. Do ponto de vista espiritual uma afirmação deste tipo, longe de ser um exagero da exigência minuciosa dos germânicos, é uma verdade que só aquele que não se deteve em examinar sua consciência pode contestar.


Classificação:


Considerando a fisiopatogenia das doenças espirituais costumamos adoptar o seguinte conjunto de diagnósticos (4) :
1 - Doenças espirituais auto-induzidas:
Desequilíbrio vibratório
Auto-obsessão
2 - Doenças espirituais compartilhadas:
Vampirismo
Obsessão
3 - Mediunismo
4 - Doenças cármica
5 - Desequilíbrio vibratório:


O perispírito é um corpo intermediário que permite ao espírito encarnado exercer suas acções sobre o corpo físico. Sua ligação é feita célula a célula atingindo a mais profunda intimidade dos átomos que constitui a matéria orgânica do corpo físico. Esta ligação se processa as custas das vibrações que cada um dos dois corpos, o físico e o espiritual possuem (5). Compreende-se então que este “ajuste” exige uma determinada sintonia vibratória. O perispírito não é prisioneiro das dimensões físicas do corpo de carne e pode manifestar suas acções alem dos limites do corpo físico pela projecção dos seus fluidos. A sintonia e a irradiação do perispírito são dependentes unicamente das projecções mentais que o espírito elabora. Assim, a aparência e a relação entre o corpo físico e o corpo espiritual são dependentes exclusivamente do fluxo de ideias que construímos.


Devemos reconhecer que, de maneira geral, o ser humano ainda perde muito dos seus dias comprometido com a crítica aos semelhantes, o ódio, a maledicência, as exigências descabidas, a ociosidade, a cólera e o azedume entre tantas outras reclamações levianas contra a vida e contra todos. O orai e vigiai ainda está distante da nossa rotina e a tentação de enumerar os defeitos do próximo ainda é muito grande.


São estes os motivos que desajustam a sintonia entre o corpo físico e o perispírito. É esta desarmonia que desencadeia as costumeiras sensações de mal estar, de “estafa” desproporcional, a fadiga sistemática, a dispneia suspirosa onde o ar parece sempre faltar, os músculos que doem e parecem não aguentar o corpo (6) . A enxaqueca que o médico não consegue eliminar, a digestão que nunca se acomoda e tantas outras manifestações tidas a conta de “doenças psicossomáticas”. São tantos a procurarem os médicos, mas muito poucos a se dedicarem a uma reflexão sobre os prejuízos de suas mesquinhas atitudes.


A auto-obsessão:


O pensamento é energia que constrói imagens que se consolidam em torno de nós desenhando um “campo de representações” de nossas ideias. A custa dos elementos absorvidos do “fluido cósmico universal”, as ideias tomam formas, sustentadas pela intensidade com que pensamos no que esta ideia propõe. A matéria mental (7) constrói em torno de nós uma “atmosfera psíquica” (psicosfera) onde estão representados os nossos desejos. Neste cenário estão as personagens que nos aprisionam o pensamento pelo amor ou pelo ódio, pela inveja ou pela cobiça, pela indiferença ou pela protecção que projectamos para os que queremos bem.
Da mesma forma, os medos, as angústias, as mágoas não resolvidas, as ideias fixas, o desejo de vingança, as opiniões cristalizadas, os objectos de sedução, o poder ou os títulos cobiçados, também se estruturam em “idéias-formas”. A partir daí seremos prisioneiros do próprio medo, dos fantasmas da nossa angústia, das imagens dos nossos adversários, da falsa ilusão dos prazeres terrenos ou do brilho ilusório das vaidades humanas.


A matéria mental produz a “imagem” ilusória que nos escraviza. Por capricho nosso, somos “obsediados” pelos próprios desejos.


As Doenças espirituais compartilhadas:


Incluímos aqui o vampirismo e a obsessão. Dizemos compartilhada porque, são produzidas pela associação perturbadora de um espírito desencarnado e sua vítima, estando ambos sofrendo de um mesmo processo psicopatológico. A participação como vítima ou réu, frequentemente se alterna entre eles.


Vampirismo (8)


O mundo espiritual é povoado por uma população numerosíssima de espíritos que segundo informes deve ser 4 a 5 vezes maior que os 6 biliões de Almas encarnadas em nosso planeta. Como a maior parte desta população de espíritos, deve estar habitando as proximidades dos ambientes terrestres onde flúi toda vida humana, não é de estranhar que, estes espíritos, estejam compartilhando connosco todas as boas e más condutas do nosso cotidiano (9).
Contamos com eles como guias e protectores que constantemente nos inspiram, mas, na maioria das vezes, nós os atraímos pelos vícios e eles nos aprisionam pelo prazer.


Contam-se aos milhões os homens envolvidos com o álcool, o cigarro, as drogas ilícitas, os soporíferos, os desregramentos alimentares e os abusos sexuais.
Para todas estas situações as portas da invigilância estão escancaradas permitindo o acesso de entidades desencarnadas que passam a compartilhar connosco o elixir das satisfações mundanas da carne.


Nestes desvios da conduta humana a mente do responsável agrega em torno de si elementos fluídicos que aos poucos vão construindo “miasmas psíquicos” com extrema capacidade corrosiva do organismo que a hospeda. O alcoólico, o drogado ou o viciado de qualquer substância constrói para si mesmo os germens que passam a lhes obstruir os funcionamentos das células hepáticas, dos glomélulos renais, dos alvéolos pulmonares, dos dúctos prostáticos, cronificando lesões que a medicina tem a conta de processos incuráveis.
As entidades espirituais viciadas compartilham os prazeres do vício que o encarnado lhes favorece e ao seu tempo o estimula a permanecer no vício. Nesta associação há uma tremenda perda de energia por parte do responsável pelo vício, daí, a expressão, vampirismo, ser muito adequada para definir esta parceria.


Obsessão


No decurso de cada encarnação a misericórdia de Deus nos permite usufruir das oportunidades que melhor nos convém para estimular nosso progresso espiritual. Os reencontros ou desencontros são de certa maneira planejados ou atraídos por nós para os devidos resgates de compromissos que deixamos para traz ou as facilidades aparecem para cumprimos as grandes promessas que desenhamos no plano espiritual.


É assim que, pais e filhos, se reencontram como irmãos, como amigos, como parceiros de uma sociedade comum na actividade humana. Marido e mulher que se desrespeitaram, agora se reajustam como, pai e filha, chefe e subalterno ou como parentes distantes que a vida dificulta a aproximação. Mães que desprezaram os filhos, hoje passam de consultório a consultório numa peregrinação onde desfilam dificuldade para terem de novo seus próprios filho. A vida de uma maneira ou de outra vai reeducando a todos. Os obstáculos que à primeira vista parecem castigo ou punição trazem no seu emaranhado de provas a possibilidade de recuperar os danos físicos ou morais que produzimos no passado.


Com frequência, ganhamos ou perdemos na grande luta da sobrevivência humana. Nenhum de nós percorre esta jornada sem ter que tomar decisões, sem deixar de expressar seus desejos e sem fazer suas escolhas. É aí que muitas e muitas vezes contrariamos as decisões, os desejos e as escolhas daqueles que convivem próximo de nós.
Em cada existência amontoamos pessoas que não nos compreenderam, amigos que nos abandonaram por se contrariarem com opiniões diferentes da nossa, sócios que não cumpriram seus compromissos connosco, parentes ou simples conhecidos que difamaram gratuitamente nosso nome.


Em muitas outras ocasiões do passado, já tivemos oportunidade de participar de grandes disputas financeiras, de crimes que a justiça terrena não testemunhou, de aborto clandestino que as alcovas esconderam e de traições que a sociedade repudiou e escarneceu
Nos rastros destas mazelas humanas, nós todos, sem excepção, estamos endividados e altamente comprometidos com outras criaturas, também humanas e exigentes como nós mesmos, que, agora, estão a nos cobrar outros comportamentos, a nos exigir a quitação de dívidas que nos furtamos em outras épocas e a persistirem no seu domínio procurando nos dificultar a subida mais rápida para os mais elevados estágios da espiritualidade.
Embora a ciência médica de hoje ainda não a traga em seus registros nosológicos, a obsessão espiritual, na qual uma criatura exerce seu domínio sobre a outra, este é de longe o maior dos males da patologia humana.
Nas obras básicas do Espiritismo, Allan Kardec, esclareceu que a obsessão se estabelece em três domínios de submissão crescente: a “obsessão simples”, a “fascinação” e a “subjugação”. Os textos clássicos de Kardec e toda literatura espírita subsequente, principalmente de André Luiz e seus abnegados interpretes como Marlene Rossi Severino Nobre (A obsessão e suas máscaras) são mais do que suficientes para nos esclarecerem sobre este tema.


Mediunismo


Pretendemos, com esta denominação, discutir os quadros de manifestações sintomáticas apresentadas por aqueles que, incipientemente, inauguram suas manifestações mediúnicas (10). Com muita frequência, a mediunidade, para certas pessoas, se manifesta de forma tranquila e é tida como tão natural que, o médium, quase sempre ainda muito jovem, mal se dá conta de que, o que vê, o que percebe e o que escuta, de diferente, são comunicações espirituais e que só ele está detectando estas manifestações, embora, lhes pareçam ser compartilhadas por todos.
Outras vezes, os fenómenos são apresentados de forma abundante e o principiante é tomado de medos e insegurança, principalmente, por não saberem do que se trata e costumam se retraírem, por perceberem que são diferente das pessoas com quem convivem.
Em outras ocasiões, temos a mediunidade atormentada por espíritos perturbadores e o médium, sem contar com qualquer protecção que o possa ajudar, se vê as voltas com uma série de quadros da psicopatologia humana. Frequentemente ocorrem crises do tipo pânico, histeria ou manifestações somatiformes que se expressam em dores, paralisias, anestesias, “inchaço” dos membros, insónia rebelde, sonolência incontrolável etc.


Uma grande maioria tem pequenos sintomas psicossomáticos e se sentem influenciados ou acompanhados por entidades espirituais (11). São médiuns com aptidões ainda muito acanhadas que estão em fase de aprendizado e domínio de suas potencialidades. Trata-se de uma tenra semente que precisa ser cultivada para se desabrochar.


Doenças cármica


Sempre que pelas nossas intemperanças desconsideramos os cuidados com o nosso corpo e nas vezes que por agressividade gratuita atingimos o equilíbrio físico ou psíquico do nosso próximo, estamos imprimindo estes desajustes nas células do corpo espiritual que nos serve.
É assim que, na patologia humana, ficam registrados os quadros de “lúpus” que nos compromete as artérias, do “pênfigo” que nos queima a pele, das “malformações” que deformam o coração ou o cérebro, da “esclerose múltipla” que nos imobiliza no leito ou das demência que nos compromete a lucidez e nos afasta da sociedade.


Precisamos compreender que estas e todas as outras manifestações de doença não devem serem vistas a conta de castigos ou punições.
O Espiritismo ensina que estas e todas outras dificuldades que enfrentamos, são oportunidades de resgate, as quais, com frequência, fomos nós mesmos quem as escolhemos para acelerar nosso progresso e nos impulsionar da retaguarda que as vezes nos mantém distantes daqueles que nos esperam adiante de nós.


Mais do que a cura das doenças, a medicina tibetana, há milénios atrás, ensinava que, médico e pacientes, devem buscar a oportunidade da iluminação. Os padecimentos pela dor e as limitações que as doenças trazem, nos possibilitam o esclarecimento se nos predispormos a buscá-lo. Mais importante do que aceitar o sofrimento numa resignação passiva e pouco produtiva, faz-se necessário, superar qualquer limitação ou revolta, para promovermos o crescimento espiritual, através desta descoberta interior e individual.


Tratamento das doenças espirituais


Corrigir os problemas espirituais implica em reeducar o espírito. Os tratamentos sintomáticos podem trazer um socorro imediato ou um alívio importante, mas, transitório.
Percorrer as casas espíritas em busca de alívio pelo passe magnético, pela água fluida magnetizada com os fluidos revitalizadores ou para desfrutar de alguns momentos de saudável harmonia com a espiritualidade, apenas repetem as buscas superficiais que a maioria das pessoas fazem em qualquer consultório médico ou recinto de cura de outras instituições religiosas que prometem curas rápidas.


Trabalhar para conhecer e tratar a doença espiritual exige uma reforma interior que demanda esforço, disciplina e dedicação.
Neste sentido o médico não está ali para controlar a doença de quem a procura, mas, deve se comprometer em desempenhar o papel de orientador seguro, com atitudes condizentes com as que propõe ao paciente.
O postulado número um neste tratamento deve ser, portanto, um código de conduta moral, que deve partir do compromisso que o médico e qualquer outro terapeuta devam assumir.
São de grande sensibilidade os conselhos de Allan Kardec:
“...Dome suas paixões animais; não alimente ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; não se deixe dominar pelo egoísmo; purifique-se, nutrindo bons sentimentos; pratique o bem; não ligue às coisas deste mundo importância que não merecem (12) ”.
No nosso ambiente de trabalho temos adoptado conduta simples que até agora tem nos parecido de grande repercussão no tratamento:


Desde a sala de espera, criamos um ambiente onde o paciente já começa a perceber que nosso trabalho está comprometido com a espiritualidade. Sem qualquer ostentação de misticismo vulgar ou crenças supersticiosas, na sala de espera, o paciente lê um convite para participar da nossa reunião de “diálogo com o evangelho” feita no período da manhã. Entre outras mensagens, as quais ele pode retirar e levar para uma leitura mais demorada, fizemos constar a presença de um “livro de preces” onde pode ser colocado nomes e endereços para serem encaminhadas as “vibrações” nos dias das leituras do evangelho, que são sempre precedidas e encerradas com meditação e prece.


Os quadros de obsessão e outras patologias nos quais se supõe interferências mais graves de entidades espirituais, devem ser obrigatoriamente referidos para as casas espíritas, que estão preparadas adequadamente para lidarem com estes dramas.


1- Ver : Willian Miller : Integrating Spirituality into Treatment : Resource for Practioners
2- Ver: “Paradigmas Espíritas na Prática Médica” no meu livro “Muito Além dos Neurónios”.
3- Livro dos Espíritos. Alan Kardec.
4- A classificação que aqui adoptamos é arbitrária. Nós a temos divulgado em várias ocasiões, sempre que falamos sobre “Doenças Espirituais”. O livro Missionários da Luz de André Luiz/Chico Xavier nos serviu de inspiração para a descrição dos quadros aqui apresentados.
5- Mecanismos da Mediunidade. André Luiz/Chico Xavier.
6- Livro dos Espíritos. Ver pergunta 471.
7- Mecanismos da Mediunidade. André Luiz/Chico Xavier
8- Este termo é sugerido por André Luiz. Ver : Missionários da Luz.
9- Livro dos Espíritos. Ver perguntas 456, 457 e 459.
10- Livro dos Médiuns. Ver: Capítulo XVIII. “Dos inconvenientes e perigos da mediunidade”.
11- Livro dos Espíritos. Ver : “Influência Oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e actos”. Perguntas 459 a 472.
12- Livro dos Espíritos. Pergunta 257. Ver: Texto de Alan Kardec sobre : “Ensaio Teórico das Sensações nos Espíritos”. págs. 165 a 170.

catalepsia e letargia


Faculdades em Estudo – Catalepsia e Letargia
Ivone do Amaral Pereira


"A letargia e a catalepsia derivam do mesmo princípio, que é a perda temporária da sensibilidade e do movimento, por uma causa biológica ainda inexplicada. Diferem uma da outra, em que, na letargia, a suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte; na catalepsia fica localizada, podendo atingir uma parte mais ou menos extensa do corpo, de sorte a permitir que a inteligência se manifeste livremente, o que a torna inconfundível com a morte. A letargia é sempre natural; a catalepsia é por vezes magnética. " Allan Kardec.


Por sua vez, respondendo a uma pergunta que lhe fizemos acerca de determinados fenómenos espíritas, o venerável Espírito Bezerra de Menezes disse-nos o seguinte, pequena lição que colocamos à disposição do leitor para observação e meditação:


- Podereis dizer-nos algo sobre a catalepsia e a letargia? - Perguntamos – pois o que conhecemos a respeito é pouco satisfatório.


E benemérita Entidade respondeu:


- Quem for atento ao edificante estudo das Escrituras Cristãs encontrará em o Novo Testamento de N. S. Jesus Cristo, exactamente nos capítulos IX, de Mateus; V, de Marcos; VIII de Lucas, e XI, de João, versão do Padre António Pereira de Figueiredo, a excelente descrição dos fenómenos de catalepsia ( talvez os fenómenos sejam, de preferência, de letargia, segundo as analises dos compêndios espíritas acima citados) ocorridos no círculo messiânico e registrados pelos quatro cronistas do Evangelho, lembrando ainda o caso, igualmente empolgante, do filho da viúva de Naim, caso que nada mais seria do que a mesma letargia, ou catalepsia.


A ciência moderna oficial, a Medicina, conhece a catalepsia e a letargia, classifica-as, mas não se interessa por elas, talvez percebendo não ser da sua alçada o facto de curá-las. A ciência psíquica, no entanto, assim também a Doutrina Espírita, não só as conhecem como se interessam grandemente por elas, pois que as estudam, tirando delas grandes ensinamentos e revelações em torno da alma humana, e por isso podem curá-las e até evitá-las, ao mesmo tempo que também poderão provocá-las, contorná-las, dirigi-las, orientá-las e delas extrair conhecimentos esplendentes para a instrução cientifico-transcendente a benefício da Humanidade.


Se os adeptos encarnados dessa grande revelação celeste – a Doutrina Espírita – não curam, no presente momento, as crises catalépticas do próximo, as quais até mesmo uma obsessão poderá provocar, será porque elas são raras ou, pelo menos, ignoradas, ou porque, lamentavelmente, se descuram da instrução doutrinária necessária à habilitação para o importante certame.


A catalepsia, tal como a letargia, não é uma enfermidade física, mas uma faculdade que, como qualquer outra faculdade medianímica incipiente ou incompreendida, ainda descurada e mal orientada, se torna prejudicial ao seu possuidor. Como as demais faculdades suas companheiras, a catalepsia e a letargia, também poderão ser exploradas pela mistificação e pela obsessão de inimigos e perseguidores invisíveis, degenerando então em um estado mórbido do Perispírito, tendência viciosa das vibrações perispirituais para o aniquilamento, as quais se recolhem e se fecham em si mesmas como a planta sensitiva ao ser tocada, negando-se às expansões necessárias ao bom funcionamento do consorcio físico-psíquico, o que arrasta uma como neutralidade do fluido vital, dando em resultado o estado de anestesia geral ou parcial, a perda da sensibilidade, quando todos os sintomas da morte e até mesmo o inicio da decomposição física se apresentam, e somente a consciência estará vigilante, visto que esta, fagulha da Mente Divina animando a criatura, jamais se deterá num aniquilamento, mesmo temporário.


Tanto a catalepsia como a letargia, pois elas são faculdades gémeas, se espontâneas ( pois elas poderão ser também provocadas e dirigidas, uma vez que a personalidade humana é rica de poderes espirituais, sendo, como foi, criada à imagem e semelhança de Deus), se espontâneas, serão, portanto, um como vicio que impõe o acontecimento, como os casos de animismo nas demais faculdades mediúnicas, vicio que, mais melindroso que os outros lembrados, se a tempo não for corrigido, poderá acarretar consequências imprevisíveis, tais como a morte total da organização física, a loucura, dado que as células cerebrais, se atingidas frequentemente e por demasiado tempo, poderão levar à obsessão, ao suicídio, ao homicídio e a graves enfermidades nervosas: esgotamento, depressão, alucinações, etc. Mas, uma vez contornadas por tratamento psíquico adequado, transformar-se-ão em faculdades anímicas importantes, capazes de altas realizações supra normais, consoante a prática o tem demonstrado, fornecendo aos estudiosos e observadores dos factos mediúnicos vasto campo de elucidação científica-transcendental.
Entretanto, se os adeptos da grande doutrina da imortalidade – os espíritas – não sabem, conscientemente, ou não querem resolver os intrincados problemas oferecidos pela catalepsia e sua irmã gémea, a letargia (eles, os espíritas, não se preocupam com esses fenómenos), sem o quererem e o saberem corrigem a sua possibilidade de expansão com o cultivo geral da mediunidade comum, visto que, ao contacto das correntes vibratórias magnéticas constantes, e o suprimento das forças vitais próprias dos fenómenos mediúnicos mais conhecidos, aquele vicio, se ameaça, será corrigido, podendo, não obstante, a faculdade cataléptica ser orientada inteligentemente para fins dignificantes a bens a bem da evolução do seu possuidor e da colectividade. De outro modo, o tratamento magnético através dos passes, em particular os passes ditos espirituais, aplicados por médium idóneos e não por magnetizadores, e a intervenção oculta, mas eficiente, dos mestres da Espiritualidade, têm evitado que a catalepsia e a letargia se propaguem entre os homens com feição de calamidade, daí advindo a relativa raridade, espontânea, de tais fenómenos nos dias presentes. E essa nossa assertiva também revela que todas as criaturas mais ou menos possuem em germe as ditas faculdades e as poderão dirigir à própria vontade, se conhecedoras dos seus fundamentos, uma vez que nenhum filho de Deus jamais foi agraciado com predilecções ou menosprezado com desatenções pela obra da Criação.


Dos casos citados nos Evangelhos cristãos, todavia, destaca-se o de Lázaro pela sua estranha particularidade. Aí vemos um estado cataléptico super agudo, porque espontâneo, relaxamento dos elos vitais pela depressão causada por uma enfermidade, facto patológico, portanto, provando o desejo incontido que o Espírito encarnado tinha de deixar a matéria para alçar-se ao infinito, e onde o próprio fluido vital, que anima os organismos vivos, se encontrava quase totalmente extinto, e cujos liames magnéticos do Perispírito em direcção à carne se encontravam de tal forma frágeis, danificados pelo enfraquecimento das vibrações e da vontade (Lázaro já cheirava mal, o que é frequente em casos de crises catalépticas agudas, mesmo se provocadas, quando o paciente poderá até mesmo ser sepultado vivo, ou antes, não de todo no estado de cadáver), que fora necessário, com efeito o poder restaurador de uma alma virtuosa como a do Nazareno para se impor ao facto, substituir as células já corrompidas, renovar a vitalidade animal, fortalecer liames magnéticos com o seu poderoso magnetismo em acção. Na filha de Jairo, porém, e no filho da viúva de Naim as forças vitais se encontravam já em desorganização adiantada, e não fora o concurso dos liames magnéticos ainda aproveitáveis e as reservas vitais conservadas pelo Perispírito nas constituições físicas robustas ( o Perispírito age qual um reservatório de forças vitais e os laços magnéticos são os agentes transmissores que suprem a organização física) e se não fossem aquelas reservas Jesus não se abalaria à cura porque esta seria impossível. Muitos homens e até crianças assim têm desencarnado. E se tal acontece antes da época prevista pela programação da Lei de Criação, nova existência corpórea os reclamará para o cumprimento dos deveres assumidos e, portanto, para a continuação da própria evolução.
"Por que tal coisa é possível sob as vistas da harmoniosa lei da Criação? que culpa tem o homem de sofrer tais ou quais acidentes se não é ele quem os provoca e que se e que se realizam, muitas vezes, à revelia da sua vontade?


A resposta será então a seguinte: " Tais acidentes são próprios do carreiro da evolução, e enquanto o homem não se integrar de boa mente na sua condição de ser divino, vibrando satisfatoriamente no âmbito das expansões sublimes da Natureza mecanicamente estará sujeito a esses e demais distúrbios.


Segue-se que, para a lei da Criação, a chamada morte não só não existe como é considerada fenómeno natural, absolutamente destituído da importância que os homens lhe atribuem, excepção feita aos casos de suicídio e homicídio. A morte natural, então, em muitos casos será um acidente facilmente reparável e não repercutirá com os foros de anormalidade como acontece entre os homens.


De outro modo, sendo a catalepsia e a letargia uma faculdade, património psíquico da criatura e não propriamente uma enfermidade, compreender-se-á que nem sempre a sua acção comprova inferioridade do seu possuidor, pois que, uma vez adestradas, ambas poderão prestar excelentes serviços à causa do bem, tais como as demais faculdades mediúnicas, que, não adestradas, servem de pasto a terríveis obsessões, e quando bem compreendidas e dirigidas atingirão feição sublime. Não se poderá afirmar, entretanto, que o próprio homem, ou a sua mente, a sua vontade, o seu pensamento, se encontrem isentos de responsabilidade no caso vertente, tanto na acção negativa como na positiva, ou seja, tanto nas manifestações prejudiciais como nas úteis e beneméritas.


"Um Espírito encarnado, por exemplo, já evolvido, ou apenas de boa vontade, senhor das próprias vibrações, poderá cair em transe cataléptico, ou letárgico, voluntariamente (1), alçar-se ao Espaço para desfrutar o consolador convívio dos amigos espirituais mais intensamente, dedicar-se a estudos profundos, colaborar com o Bem e depois retornar à carne, reanimado e apto a excelentes realizações. Não obstante, homens comuns ou inferiores poderão cair nos mesmos transes, conviver com entidades espirituais inferiores como eles e retornar obsediados, predispostos aos maus actos e até inclinados ao homicídio e ao suicídio.


Um distúrbio vibratório poderá ter várias causas, e uma delas será o próprio suicídio em passada existência. Um distúrbio vibratório agudo poderá ocasionar um estado patológico, um transe cataléptico, tal o médium comum que, quando esgotado ou desatento da própria higiene mental ou moral (queda de vibrações e, portanto, distúrbio vibratório), dará possibilidade às mistificações do animismo e à obsessão.


Nesse caso, no entanto, o transe cataléptico trará feição de enfermidade grave, embora não o seja propriamente e será interpretado como ataques incuráveis, indefiníveis, etc. O alcoólatra poderá renascer predisposto à catalepsia porque o álcool lhe viciou as vibrações, anestesiando-as, o mesmo acontecendo aos viciados em entorpecentes, todos considerados suicidas pelos códigos da Criação. Em ambos os casos a terapêutica psíquica bem aplicada, mormente a renovação mental, influindo poderosamente no sistema de vibrações nervosas, será de excelentes resultados para a correcção do distúrbio, enquanto que a actuação espírita abrirá novos horizontes para o porvir daquele distúrbio, que evoluirá para o seu justo plano de faculdade anímica. E tudo isso, fazendo parte de uma expiação, porque será o efeito grave de causas graves, também assinalará o estado de evolução, visto que, se o indivíduo fosse realmente superior, estaria isento de padecer os contratempos que acima descrevemos. Todavia, repetimos, tanto a catalepsia quanto a letargia, uma vez bem compreendidas e dirigidas, quer pelos homens quer pelos Espíritos Superiores, transformar-se-ão em faculdades preciosas, conquanto raras e mesmo perigosas, pois que ambas podem causar o desenlace físico do seu paciente se uma assistência espiritual poderosa não o resguardar de possíveis acidentes. A letargia, contudo, presta-se mais à acção do seu possuidor no plano espiritual. Ao despertar o paciente trará apenas intuições, às vezes úteis e preciosas, das instruções que recebeu e sua aplicação nos ambientes terrenos. É faculdade comum aos génios e sábios, sem contudo constituir privilégio, agindo sem que eles próprios dela se apercebam, porque se efectivam durante o sono e sob a vigilância de Espíritos prepostos ao caso.


"A provocação desses fenómenos nada mais é que a acção magnética anestesiando as forças vibratórias até o estado agudo, e anulando, por assim dizer, os fluidos vitais, ocasionando a chamada morte aparente, por suspender-lhe, momentaneamente, a sensibilidade, as correntes de comunicação com o corpo carnal, qual ocorre no fenómeno espontâneo, se bem que este possa ocupar um agente oculto, espiritual, de elevada ou inferior categoria. Se, no entanto, o fenómeno espontâneo se apresentar frequentemente e de forma obsessiva, a cura será inteiramente moral e psíquica, com a aproximação do paciente aos princípios nobres do Evangelho moralizador e ao cultivo da faculdade sob normas espíritas ou magnéticas legitimas, até ao seu pleno florescimento nos campos mediúnicos. O tratamento físico medicinal, atingindo o sistema neurovegetativo, fortalecendo o sistema nervoso com a aplicação de fortificantes, etc. , também será de importância valiosa, visto que a escassez de fluidos vitais poderá incentivar o acontecimento, emprestando-lhe feição de enfermidade.


Recordações da Mediunidade, recomendações do dr. Bezerra de Menezes.

sonambulismo,êxtase e dupla vista


RESUMO TEÓRICO DO SONAMBULISMO, DO ÊXTASE E DA DUPLA VISTA


455. Os fenómenos do sonambulismo natural se produzem espontaneamente e independentemente de qualquer causa exterior conhecida; mas, entre algumas pessoas, dotadas de organização especial, podem ser provocados artificialmente, pela acção do agente magnético.
O estado designado pelo nome de sonambulismo magnético não difere do sonambulismo natural, senão pelo facto de ser provocado, enquanto o outro é espontâneo.


O sonambulismo natural é um facto notório, que ninguém pensa pôr em dúvida, apesar do aspecto maravilhoso dos seus fenómenos. Que haveria pois, de mais extraordinário ou de mais irracional no sonambulismo magnético, por ser ele produzido artificialmente, como tantas outras coisas? Dizem que os charlatães o têm explorado; mais uma razão para que não seja deixado nas suas mãos. Quando a Ciência se tiver apropriado dele, o charlatanismo terá muito menos crédito entre as massas. Mas, enquanto se espera, como o sonambulismo natural ou artificial são um facto, e contra factos não há argumentos, ele se firma, apesar da má vontade de alguns, e isso no próprio seio da Ciência, onde penetra por uma infinidade de portas laterais, em vez de passar pela central. E, quando lá estiver plenamente firmado, será necessário lhe conceder o direito da cidadania.


Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do que um fenómeno fisiológico, é uma luz projectada sobre a Psicologia. É nele que se pode estudar a alma, porque é nele que ela se mostra a descoberto. Ora, um dos fenómenos pelos quais ela se caracteriza é o da clarividência, independente dos órgãos comuns da visão. Os que contestam o facto se fundam em que o sonâmbulo não vê sempre, e à vontade dos experimentadores, como através dos olhos. Seria de admirar que os meios sendo diferentes, os efeitos não sejam os mesmos? Seria racional buscar efeitos semelhantes, quando não existe o instrumento? A alma tem as suas propriedades, como os olhos têm a deles; é preciso julgá-los em si mesmos, e não por analogia.


A causa da clarividência do sonambulismo magnético e do sonambulismo natural são a mesma: um atributo da alma, uma faculdade inerente a todas as partes do ser incorpóreo que existe em nós, e que não tem limites além dos que são assinalados à própria alma. O sonâmbulo vê em toda parte a que sua alma possa transportar-se, qualquer que seja a distância.


No caso da visão à distância, o sonâmbulo não vê as coisas do lugar em que se encontra o seu corpo, à semelhança de um efeito telescópio. Ele as vê presentes, como se estivesse no lugar em que elas existem, porque a sua alma lá se encontra realmente; eis porque o seu corpo fica como aniquilado e privado de sensações, até o momento em que a alma se reapossar dele. Essa separação parcial da alma e do corpo é um estado anormal, que pode ter uma duração mais ou menos longa, mas não indefinida. Essa a causa da fadiga que o corpo experimenta, após um certo tempo, sobretudo quando a alma se entrega a um trabalho activo.


A vista da alma ou do Espírito não sendo circunscrita e não tendo sede determinada, isso explica porque os sonâmbulos não podem assinalar para ela um órgão especial; eles vêem porque vêem, sem saber por que nem como, pois a vista não tem, para eles, como Espíritos, lugar próprio. Se eles se reportam ao corpo, esse lugar parece estar nos centros em que a actividade vital é maior, principalmente no cérebro, ou na região epigástrica, ou no órgão que, para eles, é o ponto de ligação mais intenso entre o Espírito e o corpo.


O poder de lucidez sonambúlica não é indefinido. O Espírito, mesmo quando completamente livre, é limitado em suas faculdades e em seus conhecimentos, segundo o grau de perfeição que tenha atingido; e é mais ainda, quando ligado à matéria, da qual sofre a influência. Essa a causa por que a clarividência sonambúlica não é universal nem infalível. E tanto menos se pode contar com a sua infalibilidade, quanto mais a desviem do fim proposto pela natureza e a transformem em objecto de curiosidade e de experimentação.


No estado de desprendimento em que se encontra o Espírito do sonâmbulo, entra ele em comunicação mais fácil com os outros Espíritos, encarnados ou não. Essa comunicação se estabelece pelo contacto dos fluidos que compõem o perispírito e servem de transmissão ao pensamento, como o fio à electricidade. O sonâmbulo não tem, pois, necessidade de que o pensamento seja articulado através da palavra: ele o sente e adivinha; é isso que o torna eminentemente impressionável e acessível às influências da atmosfera moral em que se encontra. É também por isso que uma influência numerosa de espectadores, e sobretudo de curiosos mais ou menos malévolos, prejudica essencialmente o desenvolvimento de suas faculdades, que, por assim dizer, se fecham sobre si mesmas e não se desdobram com toda a liberdade, como na intimidade e num meio simpático. A presença de pessoas malévolas ou antipáticas produz sobre ele o efeito do contacto da mão sobre a sensitiva.


O sonâmbulo vê, ao mesmo tempo, o seu próprio Espírito e o seu corpo; eles são, por assim dizer, dois seres que lhe representam a dupla existência espiritual e corporal, confundidos, entretanto, pelos laços que os unem. Nem sempre o sonâmbulo se dá conta dessa situação, e essa dualidade faz que frequentemente ele fale de si mesmo como se falasse de uma pessoa estranha. É que num momento, o ser corporal fala ao espiritual, e noutro é o ser espiritual que fala ao ser corporal.


O Espírito adquire um acréscimo de conhecimentos e de experiências em cada uma de suas existências corpóreas. Esquece-os, em parte, durante a sua encarnação numa matéria demasiado grosseira, mas recorda-os como Espírito. É assim que certos sonâmbulos revelam conhecimentos superiores ao seu grau de instrução, e mesmo à sua capacidade intelectual aparente. A inferioridade intelectual e científica do sonâmbulo, em seu estado de vigília, não permite, portanto, prejulgar-se nada sobre os conhecimentos que ele pode revelar no estado lúcido. Segundo as circunstâncias e o objectivo que se tenha em vista, ele pode auri-los na sua própria experiência, na clarividência das coisas presentes, ou nos conselhos que recebe de outros Espíritos; mas, como o seu próprio Espírito pode ser mais ou menos adiantado, ele pode dizer coisas mais ou menos justas.


Pelos fenómenos do sonambulismo, seja natural, seja magnético, a Providência nos dá a prova irrecusável da existência e da independência da alma, e nos faz assistir ao espectáculo sublime da sua emancipação; por esses fenómenos, ela nos abre o livro do nosso destino. Quando o sonâmbulo descreve o que se passa à distância, é evidente que ele o vê, mas não pelos olhos do corpo: vê-se a si mesmo no local, e para lá se sente transportado; lá existe, portanto qualquer coisa dele, e essa qualquer coisa, não sendo o seu corpo, só pode ser a sua alma ou seu Espírito. Enquanto o homem se extravia nas subtilezas de uma metafísica abstracta e ininteligível, na busca das causas de nossa existência moral, Deus põe diariamente sob os seus olhos e sob as suas mãos os meios mais simples e mais patentes para o estudo da psicologia experimental.
O êxtase é o estado pelo qual a independência entre a alma e o corpo se manifesta da maneira mais sensível, e se torna, de certa forma, palpável.


No sonho e no sonambulismo a alma erra pelos mundos terrestres; no êxtase, ela penetra um mundo desconhecido, o dos Espíritos etéreos com os quais entra em comunicação, sem entretanto poder ultrapassar certos limites, que ela não poderia transpor sem romper inteiramente os laços que a ligam ao corpo. Um fulgor resplandecente e inteiramente novo a envolve, harmonias desconhecidas na Terra a empolgam, um bem-estar indefinível a penetra: ela goza, por antecipação, da beatitude celeste, e pode-se dizer que pousa um pé no limiar da eternidade.


No estado de êxtase o aniquilamento do corpo é quase completo; ele só conserva, por assim dizer, a vida orgânica. Sente-se que a alma não se liga a ele mais que por um fio, que um esforço a mais poderia romper seu remédio.


Nesse estado, todos os pensamentos terrenos desaparecem, para darem lugar ao sentimento puro que é a própria essência do nosso ser imaterial. Todo entregue a essa contemplação sublime, o extático não encara a vida senão como uma parada momentânea; para ele, os bens e os males, as alegrias grosseiras e as misérias deste mundo não são mais que fúteis incidentes de uma viagem da qual se sente feliz ao ver o termo.


Acontece com os extáticos o mesmo que com os sonâmbulos: sua lucidez pode ser mais ou menos perfeita, e seu próprio Espírito, conforme for mais ou menos elevado, é também mais ou menos apto a conhecer e a compreender as coisas. Verifica-se nele, às vezes, mais exaltação do que verdadeira lucidez, ou, melhor dito, sua exaltação prejudica a lucidez; é por isso que suas revelações são frequentemente uma mistura de verdades e erros, de coisas sublimes e de coisas absurdas, ou mesmo ridículas. Espíritos inferiores aproveitam-se muitas vezes dessa exaltação, que é sempre uma causa de fraqueza, quando não se sabe vencê-la, para dominar o extático, e para tanto se revestem aos seus olhos de aparências que o mantêm nas suas ideias preconceitos do estado de vigília. Este é um escolho, mas nem todos são assim; cabe-nos julgar friamente e pesar as suas revelações na balança da razão.


A emancipação da alma se manifesta às vezes no estado de vigília, e produz o fenómeno designado pelo nome de dupla vista, que dá aos que o possuem a faculdade de ver, ouvir e sentir além dos limites dos nossos sentidos. Eles percebem as coisas ausentes, por toda parte, até onde a alma possa estender a sua acção; vêem, por assim dizer, através da vista ordinária, como por uma espécie de miragem.


No momento em que se produz o fenómeno da dupla vista, o estado físico é sensivelmente modificado: os olhos têm qualquer coisa de vago, olhando sem ver, e toda a fisionomia reflecte uma espécie de exaltação. Constata-se que os órgãos da visão são alheios ao fenómeno, ao verificar-se que a visão persiste, mesmo com os olhos fechados.


Esta faculdade se afigura, aos que a possuem, tão natural como a de ver: consideram-na um atributo normal, que não lhes parece constituir excepção. O esquecimento se segue, em geral, a essa lucidez passageira, cuja lembrança se torna cada vez mais vaga, e acaba por desaparecer, como a de um sonho.


O poder da dupla vista varia desde a sensação confusa até à percepção clara e nítida das coisas presentes ou ausentes. No estado rudimentar, ela dá a algumas pessoas o tacto, a perspicácia, uma espécie de segurança nos seus actos, a que se pode chamar a justeza do golpe de vista moral. Mais desenvolvida, desperta os pressentimentos, e ainda mais desenvolvida, mostra acontecimentos já realizados ou em vias de realização.


O sonambulismo natural e artificial, o êxtase e a dupla vista, não são mais do que variedades ou modificações de uma mesma causa. Esses fenómenos da mesma maneira que os sonhos, pertencem à ordem natural. Eis por que existiram desde todos os tempos: a História nos mostra que eles foram conhecidos, e até mesmo explorados, desde a mais alta antiguidade, e neles se encontra a explicação de uma infinidade de factos que os preconceitos fizeram passar como sobrenaturais.


autor desconhecido