terça-feira, 29 de maio de 2007

A visão espirita da cremação


A visão Espírita da cremação
Maria Aparecida Romano

O espírito desencarnado sofre quando seu corpo é queimado?
Quais são os motivos que estão levando um número cada vez maior de pessoas a optar pela cremação? O que o Espiritismo aconselha?

Quando se estuda o comportamento da Humanidade ao longo dos milénios, observa-se a nítida preocupação do homem com seu futuro após a morte. Um indivíduo é declarado oficialmente morto no momento que cessam suas funções vitais. Como cada grupo recebe a herança social e religiosa das tradições cultivadas pelas gerações anteriores, cabe aos membros do grupo que o indivíduo pertence cumprir os ritos tradicionais até a instalação definitiva do corpo em sua morada.

INUMAÇÃO E CREMAÇÃO

A Inumação é o ritual mais praticado. Consiste no sepultamento do cadáver em campas, geralmente no cemitério da comunidade. Cremação, acto de queimar o cadáver reduzindo-o as cinzas colocadas em urnas e em seguidas sepultadas ou esparzidas em local previamente determinada. Embora conhecida e praticada desde a mais remota antiguidade pelos povos primitivos da Terra não é muito utilizada.

O fogo passou a ser utilizado pelo homem na Idade da Pedra Lascada e, pela sua pureza e actividade, era considerado pelos Antigos como o mais nobre dos elementos, aquele que mais se aproximava da Divindade. Com a eclosão da religiosidade, o ser humano foi descobrindo que havia algo entre o Céu e a Terra e o fogo passou a ser utilizado em rituais religiosos.

Predominava a crença que ao queimar o cadáver, com ele seriam queimados todos os seus defeitos e ao mesmo tempo a alma se libertaria definitivamente do corpo, chegando ao céu purificada e não retornaria à Terra em forma de "aparições" assustando os vivos.

A cremação teve como base a força purificadora do fogo. Nos últimos tempos, em todo o continente europeu têm sido encontradas vasilhas do Período Neolítico (Idade da Pedra Polida) cheias de cinzas dos indivíduos. Esses indícios revelam que a cremação já era praticada nos primórdios da Civilização Terrena.

Com o decorrer dos séculos a cremação foi se tornando prática consagrada no oriente (Índia, Japão, etc), regiões da Grécia e Antiga Rosa onde viviam civilizações adiantadas que utilizavam o processo graças ao "status". Entre os povos ibéricos tornou-se um rito generalizado, precedido de músicas, bailes e até banquetes. Com estas cerimónias esperava-se obter atitudes benévolas dos deuses, visando conduzir as almas ao Reino dos Mortos e lá chegando seria recebida e cuidada com carinho.

A INFLUÊNCIA DO CRISTIANISMO

A evolução natural da Humanidade e o ciclo iniciado com Jesus há 2000 anos modelando uma nova mentalidade, influenciavam sensivelmente nos costumes culturais e religiosos dos povos. Com a expansão do cristianismo, na tentativa de se solidificar a fé, foram se estabelecendo dogmas, entre eles, o da Ressurreição. Jesus, como descendente de uma das doze tribos de Judá, foi sepultado conforme as tradições da Lei Mosaica. A Igreja proclamou como Dogma de fé que o Messias ressuscitou de corpo e alma.

Com excepção dos países orientais onde a prática é normal, o rito da cremação ficou esquecido até o ano de 1876, quando em Washington, nos Estados Unidos, na tentativa de revificar o processo, foi estabelecido o primeiro forno crematório dos dias actuais, provocando polémicas e controvérsias, sobretudo da Igreja que se posicionou contra a destruição voluntária do cadáver.

Só a partir de 1963, mediante a propagação do processo em diversos países do planeta, o Vaticano através do Papa Paulo VI apresentou uma abertura, mas não se posicionando claramente quando se expressou que não proibia a cremação, mas recomendava aos cristãos o piedoso e tradicional costume do enterro. A Igreja teve suas razões para defender a Inumação. Aprovar plenamente a cremação seria negar o dogma por ela estabelecido.

Nessas sequências histórica observa-se que na cultura religiosa de todos os povos sempre pairou uma nebulosa noção de espiritualidade e nela a preocupação do homem com seu destino após a morte. Até que nos meados do século XIX, o francês Allan Kardec, codificador da doutrina espírita, lançou uma nova luz nos horizontes mentais do homem quando entreviu um mundo de inteligências incorpóreas.

Os espíritos são os seres inteligentes da Criação que habitam esse mundo. Simples e ignorantes no seu ponto de partida, caminham para o progresso indefinido reencarnando sucessivamente. Na encarnação, a ligação entre o perispírito e o corpo é feita através de um cordão fluídico. Sendo a existência terrena uma fase temporária, após o cumprimento da missão moral, com a morte do corpo físico o espírito retorna ao seu lado de origem conservando a individualidade.

O DESLIGAMENTO NÃO É SÚBITO

Os laços que unem o espírito ao corpo se desfazem lentamente. De uma forma geral todos sentem essa transição que se converte num período de perturbações variando de acordo com o estágio evolutivo de cada um. Para alguns se apresenta como um bálsamo de libertação, enquanto que para outros são momentos de terríveis convulsões. O desligamento só ocorre quando o laço fluídico se rompe definitivamente.

Diante da Nova Revelação apresentada pela doutrina dos espíritos e levando-se em consideração a perturbação que envolve o período de transição, questionou-se: cremando o corpo como fica a situação do espírito? Consultado, o mundo espiritual assim se expressou: "É um processo legítimo. Como espírito e corpo físico estiveram ligados muito tempo, permanecem elos de sensibilidade que precisam ser respeitados". Essas palavras revelam que embora o corpo morto não transmita nenhuma sensação física ao espírito, porém, a impressão do acontecido é percebida por este, havendo possibilidades de surgir traumas psíquicos. Recomenda-se aos adeptos da doutrina espírita que desejam optar pelo processo crematório prolongar a operação por um prazo de 72 horas após o desenlace.

Embora a Inumação continue sendo o processo mais utilizado, a milenar cremação, por muito tempo esquecida, voltou a ser praticada nos tempos modernos. Este procedimento vem se difundindo amplamente até em função da falta de espaço nas grandes cidades. Com o crescimento da população as áreas que outrora seriam destinadas a cemitérios tornaram escassas.

CREMAÇÃO: UMA QUESTÃO DE ECONOMIA

Adeptos de todas as seitas estão optando pela operação crematória. Seus partidários fundam-se em diversas considerações. Para alguns está ligada a factores sanitários, sendo que alguns cemitérios podem estar causando sérios danos ao meio ambiente e à qualidade de vida da população, enquanto que para muitos usuários do crematório o processo diminui os encargos básicos económicos, entre eles, a manutenção da tumba.
Actualmente, o Brasil conta com quatro áreas crematórias e está em fase de expansão. A área da Vila Alpina, na cidade de São Paulo, foi fundada em 1974. É a primeira área crematória do país e conta com quatro fornos importados da Inglaterra. Pertence à Prefeitura Municipal e leva o nome do seu idealizador, dr. Jayme Augusto Lopes. As outras três áreas são particulares e estão localizadas na cidade de Santos, no Estado do Rio de Janeiro e no Estado do Rio Grande do Sul.

Segundo a Lei, a cremação só será efectuada após o decurso de 24 horas, contadas a partir do falecimento e, desde que sejam atendidas as exigências prescritas. A prova relativa à manifestação do falecido em ser cremado deve estar consistente de Declaração de documento público ou particular.

As cinzas resultantes da cremação do corpo serão recolhidas em urna individual e a família dará o destino que o falecido determinou. Muitos países já contam com Jardins Memoriais e edifícios chamados "Columbários", com gavetas para serem depositadas as urnas com as cinzas dos falecidos podendo ser visitadas por parentes.
Kardec, o codificador disse: "O homem não tem medo da morte mas da transição".

À medida que houver amadurecimento e compreensão para a extensão da vida, o ser humano saberá valorizar cada momento da vida terrena e devotará ao corpo o devido valor que ele merece. Através do corpo, o espírito se ilumina. Resgata-se o passado, vive-se o presente e prepara-se o futuro. No desencarne é restituída a liberdade relativa ao espírito enquanto o corpo permanece na Terra com outros bens materiais.

O espírito preexiste e sobrevive ao corpo. Tanto inumação como cremação são formas de acomodar o cadáver. Expressam o livre arbítrio de cada um. Os dois processos destroem o corpo. Para se optar pela cremação é necessário haver um certo desapego aos laços materiais e mesmo com a inumação, caso o espírito não estiver devidamente preparado, poderá sofrer os horrores da decomposição. Quanto mais o espírito estiver preparado moralmente, menos dolorosa será a separação.

(Revista Cristã de Espiritismo - Nº 06 - Ano 01)

domingo, 27 de maio de 2007

o perispirito e os órgãos psicossomáticos


O perispírito e os órgãos psicossomáticos
(autor desconhecido)

Quando realizou seu trabalho na Codificação, Allan Kardec colocou a existência do corpo espiritual como sendo um dos alicerces no qual se assentava a fenomenologia mediúnica. Chamou esse corpo de ''perispírito'', designando-o como o elo invisível, fluídico, a unir o princípio espiritual ao princípio material. Disse tratar-se do veículo transmissor do desejo do Espírito ao corpo físico, como também das impressões desse último à apreciação do próprio Espírito. Concluiu também, que o corpo espiritual é feito de uma variação do fluido universal, retirada do orbe onde o Espírito está encarnado.

Sem o perispírito, disse o Codificador, o Espírito, fundamentalmente abstracto, não poderia agir sobre a matéria, ficando impossibilitado de encarnar-se para viver suas experiências evolutivas. Explicou ainda, que o corpo espiritual exerce um papel muito importante na saúde física, pois alterações na sua estrutura fluídica são capazes de perturbar a ordem molecular no corpo carnal, podendo levar ao enfraquecimento orgânico e originar doenças.

Em um de seus estudos, publicado na Revista Espírita, ano de 1866, Allan Kardec demonstrou que o corpo material e o espiritual são provenientes da mesma fonte, isto é, do fluido básico universal.

''A natureza íntima da alma, isto é, do princípio inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas investigações. Mas sabe-se agora que a alma é revestida de um envoltório ou corpo fluídico, que dela faz, após a morte do corpo material, como antes, um ser distinto, circunscrito e individual. A alma é o princípio inteligente considerado isoladamente; é a força actuante e pensante, que não podemos conceber isolada da matéria senão como uma abstração. Revestida de seu envoltório fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado Espírito, como quando está revestida do envoltório corporal, constitui o homem. Ora, posto que no estado de Espírito goze de propriedades e faculdades especiais, não cessou de pertencer à humanidade. Os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, pois cada um de nós torna-se Espírito após a morte do corpo, e cada Espírito torna-se homem pelo nascimento.

"Esse envoltório (o perispírito) não é a alma, pois não pensa: é apenas uma vestimenta; sem alma, o perispírito, assim como o corpo, é uma matéria inerte privada de vida e de sensações. Dizemos matéria porque, com efeito, o perispírito, posto que de uma natureza etérea e subtil, não é menos matéria como os fluidos imponderáveis e, demais, matéria da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria tangível, como logo veremos - (Revista Espírita, número de Marços de 1866, artigo "Introdução ao estudo dos fluidos espirituais", item 4).

A Codificação espírita revelou os princípios básicos a respeito de todas as questões importantes para quem pratica, estuda e pesquisa o Espiritismo. Consultando "O Livro dos Espíritos " pode-se encontrar instruções capazes de apontar rumos a serem seguidos no estudo das operações espirituais. São perguntas e respostas que dão a entender que o perispírito é algo mais que uma massa fluídica homogénea e que o fluido perispiritual se divide entre os órgãos do corpo físico. Na questão 137, por exemplo, Kardec pergunta aos Espíritos superiores se poderia haver uma divisão do Espírito durante a reencarnação:

Pergunta:
- O mesmo Espírito pode encarnar-se de uma vez em dois corpos diferentes?

Resposta:
"Não. O Espírito é indivisível e não pode animar simultaneamente duas criaturas diferentes".

Na questão 140, logo à frente, indaga:

Pergunta:
- Que pensar da teoria da alma subdividida em tantas partes quantos são os músculos, presidindo cada uma das diferentes funções do corpo?

Resposta:
"Isso depende do sentido que se atribuir à palavra alma. Se por ela se entende o fluido vital, está certo; se o Espírito quando encarnado, está errado. Já dissemos que o Espírito é indivisível: ele transmite o movimento aos órgãos através do fluido intermediário, sem por isso se dividir".

Na questão acima, o Codificador aprofunda a questão 137 e pergunta ao Espírito de Verdade sobre a possibilidade da alma se dividir em tantas partes quantas fossem os órgãos do corpo carnal, durante a encarnação. A entidade responde que tudo dependia do sentido que se atribuía à palavra "alma". Se por ela se entendia o fluido vital, estava certo. Quer dizer, haveria uma divisão fluídica dos fluidos perispirituais (fluido vital) em torno dos órgãos materiais. Se por ela se entendia o "Espírito", estava errado, pois tinha afirmado anteriormente que o Espírito era indivisível.

Na questão 140-A, o Codificador complementa:

"A alma age por meio dos órgãos e estes são animados pelo fluido vital que se reparte entre eles e, com mais abundância, nos que são os centros ou focos do movimento".

As obras subsidiárias do Espiritismo também nos trazem importantes revelações sobre a estrutura do perispírito. Nesse estudo, a opção de pesquisa foram os livros psicografados por Francisco Cândido Xavier, devido à reconhecida idoneidade do médium. Em várias mensagens publicadas nas suas obras, os seus guias espirituais revelaram que o perispírito trata-se de uma organização fluídica complexa e que o corpo carnal seria um grosseiro reflexo dele. Vejamos o que diz, por exemplo, André Luiz, no livro "Evolução em Dois Mundos":

"Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar, antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque na realidade, é o corpo físico que o reflecte, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a formação" - (Capítulo 2, Corpo Espiritual, item Retrato do Corpo Mental).

"Todos os órgãos do corpo espiritual e, consequentemente, do corpo físico foram, portanto, construídos com lentidão, atendendo à necessidade do campo mental em seu condicionamento e exteriorização no meio terrestre" - (Capítulo 4, Automatismo e Corpo Espiritual, item Génese dos Órgãos Psicossomáticos).

Pergunta: Qual a importância existente entre o baço e o centro esplénico, se o baço pode ser extirpado sem maiores prejuízos à continuação da existência do encarnado?
Resposta: Compreendamos que a extirpação do baço em sua expressão física no corpo carnal não significa a anulação desse órgão no corpo espiritual e que, interligado a outras fontes de formação sanguínea no sistema hematopoiético, prossegue funcionando, embora imperfeitamente, no campo somático atento às articulações do binário mente-corpo - (Capítulo Corpo Espiritual e volitação, 7ª questão).

Embora tais revelações mediúnicas não tenham a chancela do Controle Universal dos Espíritos, essas mensagens fornecem indícios lógicos e racionais mostrando que o perispírito é de facto um organismo complexo, dotado de células e de tecidos. E, o que é mais interessante, de órgãos funcionais, como aqueles que se têm no corpo físico. Mas, será que são reais? Sim, tudo indica que são tão verdadeiros como os do corpo carnal, só que constituídos por uma estrutura material menos densa. Tanto um como o outro são obras milenares construídas pelo pensamento do Espírito na sua ascensão para Deus.

Chega-se assim à definição que: o perispírito é o elo fluídico que une o corpo físico ao Espírito, permitindo sua autuação no meio material; que é o veículo das sensações, dando condições ao Espírito de se comunicar com o meio exterior onde existe; que reflecte o corpo mental do Espírito; que o corpo carnal é um reflexo do perispírito; que esse corpo possui órgãos fluídicos criados pela projecção do próprio Espírito, tão reais quanto os órgãos do corpo carnal.

sábado, 26 de maio de 2007

aparições no momento da morte


Aparições no Momento da Morte

José Lucas

Parte I

Momentos antes de morrer, muitas pessoas alegam ver junto de si seres conhecidos, familiares e amigos, também já falecidos. Estes estudos têm tido o interesse de muitos pesquisadores.


Ernesto Bozzano (1861-1943) foi um dos mais eruditos sábios dos últimos tempos. Foi um famoso escritor italiano, mundialmente conhecido pelas excelentes obras espíritas legadas ao mundo, através de suas investigações. Uma de suas pesquisas denomina-se «Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte» e relata muitos casos confirmados e catalogados de pessoas que tiveram contacto visual com seres conhecidos, familiares, amigos, todos eles já falecidos e que viriam então “buscá-los” para a sua nova vida. Factos muito interessantes que acontecem amiúde, e que os mais desavisados facilmente consideram ser apenas uma alucinação visual, não dando a menor importância aos mesmos.

Ao longo das próximas semanas iremos dissecar, neste espaço, algumas das nuanças existentes neste tipo de fenómenos psíquicos, no momento da morte do corpo físico.

Ensina-nos o Espiritismo (ver “O Livro dos Espíritos” de Allan Kardec) que as pessoas, quando o corpo físico se vai deteriorando ao ponto de não mais suportar a vida no planeta Terra, começam a desligar-se naturalmente, passo a passo, desse mesmo corpo.

«...é possível aos falecidos (chamados de desencarnados, isto é, fora do corpo de carne) tornarem-se visíveis perante nós encarnados, isto é, ainda no corpo de carne.»

Sendo o ser humano um espírito eterno, que tem temporariamente um corpo físico, esse ser volta um dia para o mundo espiritual, continuando aí a viver em várias cidades e organizações existentes nesse mesmo mundo espiritual, mas agora, vivendo com o corpo espiritual (denominado de perispírito), que é uma espécie de duplicação do corpo físico, só que em outro estado da matéria.

Nesse sentido, e por um processo de “condensação” molecular desse mesmo corpo espiritual, é possível aos falecidos (chamados de desencarnados, isto é, fora do corpo de carne) tornarem-se visíveis perante nós encarnados, isto é, ainda no corpo de carne. É o que acontece amiúde com pessoas que se encontram em estado de doença prolongada, e que vão assim desligando-se paulatinamente do corpo físico, estando por vezes, no momento da morte, mais “do lado de lá” do que “no lado de cá”, como é usual dizer-se. Essas pessoas, descrevem seres conhecidos, já falecidos, que estão ao seu lado, amistosamente, e relatam muitas vezes suas conversas com esses mesmo seres, podendo inclusive prever com alegria o momento da morte do corpo físico.


Um caso pessoal
Recordo-me de um caso curioso que aconteceu na minha família. A minha avó materna, excelente pessoa com quem tinha muita afinidade, já bastante idosa, entrou em estado de doença. Sendo diabética, poder-se-ia no entanto dizer que a sua doença seria aquilo a que comumente se designa de velhice.

Acamada, e com os extremados zelos da minha mãe, diariamente inteirava-me do seu estado de saúde. Um dia, a minha mãe, muito preocupada, veio dizer-me que a minha avó começara a delirar, isto é, que ao acordar de manhã, falava como se estivesse em outra casa, dizendo que queria ir para a sua casa (onde se encontrava acamada), e relatando com extrema felicidade que seu marido bem como seus pais (já falecidos), estavam muito luminosos, felizes, e que estavam ali com ela. Depois, com o passar dos minutos lá se apercebia que estava em sua casa, realmente.

Neófito no Espiritismo, informei a minha genitora que era muito comum isso acontecer às pessoas que estão para desencarnar (falecer), e que se fosse preparando para o desenlace pois tudo indicaria que assim acontecesse. De facto, passado três semanas de consecutivos relatos diários de visitas dos familiares já falecidos, minha avó acabou por desencarnar em muita paz e serenidade.

Parte II
Vamos hoje referir casos nos quais as aparições dos mortos são percebidas unicamente pelo moribundo e referem-se a pessoas cujo falecimento era por ele conhecido.



As pessoas mais distraídas facilmente dirão que se tratam de alucinações as descrições que os moribundos muitas vezes fazem, de seres conhecidos, já falecidos, que eles dizem estarem ali no momento da morte. No entanto, a investigação e uma análise mais cuidada do assunto, por parte de investigadores conceituados, mostra-nos o contrário. Diz Ernesto Bozzano , investigador e escritor ilustre, italiano, que «...se o pensamento, ardentemente voltado para as pessoas caras, fosse a causa determinante dos fenómenos, o moribundo, em lugar de experimentar exclusivamente formas alucinatórias representando defuntos – por vezes, mesmo, defuntos esquecidos pelo doente – deveria ser sujeito, as mais das vezes, a formas alucinatórias representando pessoas vivas às quais fosse vivamente ligado – o que não se produz... São bem conhecidos casos de agonizantes que têm tido visões de fantasmas que se crê sejam de pessoas vivas; mas, nesses casos, verifica-se invariavelmente, em seguida, que essas pessoas tinham morrido pouco antes, posto que nenhum dos assistentes nem o próprio doente o soubessem»(1)

São bem conhecidos casos de agonizantes que têm tido visões de fantasmas que se crê sejam de pessoas vivas; mas, nesses casos, verifica-se invariavelmente, em seguida, que essas pessoas tinham morrido pouco antes, posto que nenhum dos assistentes nem o próprio doente o soubessem

Refere ainda Ernesto Bozzano: «... Já citei um facto (VIII Caso), no qual o moribundo, percebendo aparições semelhantes, exclama:

- Como! Mas são pessoas como nós! – Sobre o que o narrador observa: “ Provavelmente ele sentia a imaginação cheia das imagens habituais dos anjos alados e das harpas angélicas; por consequência, nada mais provável que no último momento haja exprimido surpresa, vendo que os mortos que o vinham acolher tinham o aspecto de “pessoas como nós”. Contarei mais adiante (XXIV caso) um terceiro episódio concernente a uma menina de 10 anos, que, por seu turno, manifesta admiração vendo “anjos sem asas”. Ora, esses incidentes apresentam um valor probante real, pois que os fantasmas alucinatórios, como se sabe, tomam formas correspondentes às ideias que se têm figurado, anteriormente, na mentalidade do doente, e não podia ser de outra maneira. Resulta daí que, se a ideia dos anjos alados (de que temos ouvido falar por nossa mãe durante nossa infância e de que mais tarde lemos a descrição na Bíblia e vemos centenas de vezes representada nos quadros de assuntos religiosos), se tivesse gravado nas vias cerebrais do doente, este deveria supor estar vendo anjos com asas. Ora, como vimos nos casos narrados, os moribundos, dominados por essa ideia preconcebida, perceberam fantasmas cuja aparência era contrária á ideia em questão; devemos, pois, concluir que, nas circunstâncias descritas, se trata de aparições verídicas de fantasmas de defuntos e não de alucinações patológicas.» (1)

Caso do moribundo que vê fantasmas de defuntos desconhecidos mas conhecidos da família

Vamos ver um caso de um moribundo que vê fantasmas de defuntos que não conhece, se bem que fossem eles conhecidos dos de sua roda, o que elimina a hipótese da auto-sugestão. (extraído do “Journal of The American Society for Psychical Research, 1907, p-47)

«...Fui encontrar uma senhora, cujo filho, uma criança de 9 anos, morrera há 15 dias. Tinha sido operado de apendicite, dois ou três anos antes e a operação provocara uma peritonite, de que se tinha, no entanto, curado. Mas ficou de novo doente e foi preciso transportá-lo ao hospital para nova operação. Quando acordou da anestesia, estava perfeitamente consciente, reconheceu os seus pais, o médico e a enfermeira. Teve, no entanto, o pressentimento de morrer e pediu à sua mãe que lhe segurasse a mão até à hora de se ir embora... Olhando para o alto, disse:

- Mãe, não vês lá em cima a minha irmãzinha?

- Não, querido, onde a vês tu?

- Aqui; ela olha para mim.

Então a mãe para acalmá-lo, assegurou-lhe que a via também. Algum tempo depois, a criança sorriu de novo e disse:

- Quem está agora é a Sra. C...., que também vem ver-me. (Era uma senhora de quem ele gostava muito e que tinha morrido dois anos antes). Ela sorri e chama-me...

- Chega também Roy. Eu vou com eles, mas não te queria abandonar, mãe, e tu virás em breve ter comigo, não é? Abre a porta e pede-lhes para entrar. Eles estão á espera do lado de fora. E assim dizendo, expirou.

Ia esquecendo a mais importante visão: a da avó. Enquanto a mãe lhe segurava a mão, ele diz:

- Mãe, tu tornas-te cada vez menor; estás sempre com a minha mão presa? A avó está aqui comigo e é muito maior e mais forte que tu, não é?...» (in “Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte”, Ernesto Bozzano, FEB, 3ª edição, 1982).

Neste caso foi confirmado que o pequeno de 9 anos, falecido, nunca tinha visto a avó, morta 4 anos antes do seu nascimento, e Roy era um seu amigo morto um ano antes.

Na próxima semana abordaremos outro tipo de manifestações, recomendando a leitura do livro acima referido, que contém casos catalogados, bem interessantes.

(1) “Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte”, Ernesto Bozzano, FEB, 3ª edição, 1982


Parte III
Vamos hoje abordar casos nos quais outras pessoas, colectivamente com o moribundo, vêm o mesmo fantasma do defunto.

São comuns os casos em que moribundos relatam a presença de pessoas falecidas junto ao seu leito e que essas presenças são também apercebidas por familiares e / ou acompanhantes desse mesmo moribundo, mesmo que em outra divisão da casa.

Este grupo de casos, percepção colectiva do mesmo fantasma, tem um grande interesse, embora possamos igualmente no plano teórico encontrar outras hipóteses de explicação.

«Com efeito, a coincidência da aparição vista por terceiras pessoas, colectivamente com o moribundo, nos casos de visualidade simultânea, pode atribuir-se a ter este último servido de agente transmissor de uma forma alucinatória elaborada no seu cérebro. Se, ao contrário, o fantasma é percebido pelos assistentes e pelo moribundo, em momentos e em lugares diferentes, o caso, então, atinge grande significação teórica no sentido da sua interpretação espírita». (1)

As evidências das aparições de pessoas falecidas junto de moribundos, dizendo que os vêm buscar e auxiliar no momento do desenlace físico, são indicativos de que a vida continua para além da morte do corpo físico

De realçar os casos em que as pessoas que assistem ao moribundo percebem a aparição no momento em que o doente se encontra em estado de coma, o qual exclui toda e qualquer elaboração do seu pensamento, bem como quando o moribundo é uma criança de tenra idade, circunstância que, na maior parte dos casos, exclui a possibilidade de elaboração mental do doente.

Vejamos um caso bem interessante. Joy Suell, enfermeira diplomada, Inglaterra, depois de exercer a sua profissão durante vinte anos, escreveu um livro sobre Metapsíquica, “The Ministry of Angels”, em que conta as suas próprias experiências como sensitiva clarividente, à cabeceira de inumeráveis doentes a que assistira. O livro é interessante, atraente e instrutivo, e relata casos em que o moribundo percebe, ao lado do leito, personalidades de defuntos que reconhece, mas que são invisíveis para os outros. No seu caso, graças à mediunidade de vidência, ela podia confirmar a presenças de seres espirituais relatados pelo moribundo. Vejamos um caso:

«A primeira vez que tive esta prova ocular foi com M.lle. L..., graciosa jovem de 17 anos, que era minha amiga e morria de tísica, sem sofrimentos; mas o extremo langor do corpo tornava-a moralmente fatigada e desejosa de repouso eterno.

Chegada a hora suprema, percebi-lhe ao lado duas formas espirituais, uma à direita, outra à esquerda do leito. Não me havia apercebido da sua entrada; quando se me tornaram visíveis, estavam já dispostas ao lado da moribunda; eu via-as, porém, tão distintamente como pessoas vivas.

Designei essas radiosas entidades com o nome de anjos... Reconheci logo, nessas formas angélicas, duas meninas que tinham sido, quando vivas, as melhores amigas da doente, possuindo as três a mesma idade.

Um instante antes dessa aparição, a agonizante dissera:

- Fez-se, de repente, a obscuridade; não vejo mais nada. Apesar disso viu e reconheceu, logo depois, uma das suas amigas. Sorriso de suprema felicidade iluminou-lhe o rosto, e, estendendo os braços, perguntou ela, cheia de felicidade:

-Vieram buscar-me? Sinto-me feliz com isso, porque estou fatigada.

E enquanto a agonizante estendia as mãos aos anjos, estes faziam outro tanto, apertando-lhe um a mão direita e outro a esquerda. Seus rostos tinham um sorriso ainda mais doce do que aquele que brilhava no rosto da moribunda, alegre esta, por cedo encontrar o repouso que tanto almejava.

Não falou mais, mas continuou, durante cerca de um minuto, com os braços levantados ao céu, e as mãos unidas às das suas defuntas amigas, não cessando de contemplá-las, com expressão de ventura infinita.

Casos de aparições junto de moribundos em estado de coma ou em crianças de tenra idade, são indicativos da não interferência do psiquismo do doente nestes fenómenos

Em dado momento, as amigas abandonaram-lhe as mãos, que caíram pesadamente sobre o leito. A expirante emitiu um suspiro, como se se dispusesse tranquilamente a dormir, e, depois de alguns instantes, o seu espírito deixava o corpo para sempre. Sobre o rosto, porem, ficou-lhe gravado o doce sorriso que o tinha iluminado, quando percebeu ao lado as duas amigas mortas». (1)

Este e outros casos bem interessantes, que por falta de espaço não publicamos, bem como a análise dos mesmos, poderão ser encontrados no livro «Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte», do conceituado autor italiano Ernesto Bozzano, que recomendamos vivamente.

(1) “Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte”, Ernesto Bozzano, FEB, 3ª edição, 1982


Parte IV
Vamos hoje abordar casos de aparições no leito da morte, coincidindo com prenúncios ou confirmações análogas, obtidas através da mediunidade.


Vamos hoje abordar mais um caso extraído do livro «Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte» , Editora FEB, 3ª ed., 1982, Brasil, caso este retirado por sua vez dos «Annali dello Spiritismo in Italia» de 1875, páginas 120 e 149:
«O Dr. Vincent Gubernári, natural de Maremmes, na Toscana, instalou-se definitivamente em Arcétri, perto de Florença, e, se bem que não fosse médico oficial, exercia aí igualmente a sua profissão. Gubernári, favorecido dos bens da fortuna, esposara Isabel Segardi. Também ela era rica e tinha trazido ao marido um grande dote. Os esposos combinaram fazer uma doação recíproca dos bens e a Sra. Gubernári fizera o seu testamento nesse sentido e supusera que o marido tinha feito outro tanto em seu benefício.

Posto que o Sr. Gubernári, materialista como era, zombasse do Espiritismo e dos Espíritos, não pôde deixar de impressionar-se, vendo muitos dos seus amigos, que ele sabia bem instruídos, isentos de preconceitos, e outrora mais antiespíritas que ele, tornarem-se repentinamente crentes com as manifestações espíritas.

...E o espírito de sua tia manifestou-se, predizendo a sua morte e incentivando-o a melhorar a sua vida moral...

Um belo dia, pois, o doutor, ou porque se quisesse convencer pessoalmente, ou porque se quisesse divertir à custa dos amigos, manifestou-lhes o desejo de tentar uma experiência na própria casa e convidou-os a nela tomar parte. Logo que os experimentadores formaram a cadeia em torno da mesa, um Espírito agitou-a com força surpreendente...e o doutor ficou extremamente admirado quando, perguntando-se o nome do Espírito presente, este lhe respondeu:

- Tua tia Rosa.

O doutor ficara órfão, com pouca idade, e fora educado com ternura por essa tia, que lhe tinha servido de mãe. Quando voltou a si da surpresa exclamou:

- Pois bem, se és verdadeiramente minha tia Rosa, ajuda-me a ganhar muito dinheiro!

- Estou aqui para bem outra coisa – respondeu o Espírito.

- Aqui estou para aconselhar-te a mudar de vida e pensar na tua mulher.

- Já pensei na minha mulher – respondeu, sem vergonha, o doutor – tanto que ambos fizemos os nossos testamentos, com benefícios recíprocos.

- Mentira! – respondeu o Espírito, sacudindo fortemente a mesa, para demonstrar o seu descontentamento – Ela deixou-te tudo, sim, mas tu não lhe deixaste nada!

A Sra. Gubernári tomou parte, então, no diálogo e querendo persuadir o Espírito de que o seu marido tinha feito testamento em seu favor, disse, corajosamente, que ele podia prová-lo, mostrando o mesmo testamento aos amigos presentes.

O doutor, em consequência dessa intervenção inesperada da sua mulher, viu-se comprometido e sem saber como sair do aperto. Sabia o que lhe dizia a consciência e era-lhe impossível mostrar os documentos, declarando que o Espírito não tinha dito a verdade. Muito perturbado com o incidente, declarou, então, que não faria ver a ninguém o testamento. E o Espírito, agitando a mesa com força ainda maior, respondeu:

- Tu és um impostor! Sim, eu repito-te: esqueceste a tua mulher, e no teu testamento só te lembraste da tua criada, porque... Muda, sim, o teu modo de vida e o teu testamento, e apressa-te, porque não tens tempo a perder, dentro de alguns dias estarás connosco no mundo dos Espíritos.

Essa revelação foi como que um raio sobre a cabeça do doutor. Ele ficou aterrado e, depois, com raiva, gritou:

O falecido Dr. Panattôni foi visto pelo moribundo, sem que este soubesse que o espírito se tinha manifestado anteriormente, predizendo a sua morte.

- Como? Tenho que morrer antes da minha mulher, eu que sou mais novo que ela? Não, isso não acontecerá nunca; quero viver ainda e viverei. Assim dizendo, levantou-se irritado tendo terminado a sessão.

No dia seguinte, um amigo, o Coronel Maurício, para o acalmar, disse que fariam outra sessão na casa da Condessa Passeríni, como contraprova, mas sem a presença dele. Nessa reunião foi confirmada a veracidade da comunicação da tia Rosa, assegurando que o médico morreria antes do final do corrente ano. Os amigos disseram-lhe que “os espíritos confirmaram que tinha sido uma mistificação e que não acreditasse”, caso contrário ele ficaria perturbadíssimo. O médico riu-se, feliz, e seguiu a sua vida normalmente.

Na noite de 12 de Novembro o referido médico foi assaltado de febre muito forte, acompanhado de muitas dores, e como sofria horrivelmente, os amigos fizeram nova sessão na casa da Condessa. Aí, manifestou-se um espírito, dizendo-se médico, informando ser o Dr. Panattôni, (parente do deputado do mesmo nome, tinha sido um bom médico e havia exercido a sua profissão em Florença) e que o doente faleceria em breve.

Em 30 de Dezembro de 1874 falecia o Dr. Gubernári dizendo ver perto de si o Espírito do Dr. Panattôni, que não o abandonava um só momento, e à sua cabeceira os espíritos de sua mãe e sua tia Rosa, que o consolavam com a sua presença, e o encorajavam a deixar a vida terrestre (o Dr. Gubernári, nada sabia da manifestação do Dr. Panattôni na sessão em casa da Condessa).»


Parte V
Vamos hoje referir um caso no qual as aparições de pessoas falecidas são percebidas unicamente pelos familiares do moribundo.


Encontrámos um caso bem interessante, no livro «Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte», de Ernesto Bozzano, editora FEB, 3ª ed., 1982, Brasil, caso este retirado do «Journal of the Society for Psychical Research» (1908, pp. 308-311):
«O Dr. Burges envia ao Dr. Hodgson o episódio seguinte, que se passou em presença do Dr. Renz, especialista em moléstias nervosas. M. G., protagonista do episódio, escreve:

“... Antes de descrever os acontecimentos e no interesse daqueles que lerem estas páginas, tenho a declarar que não faço uso de bebidas alcoólicas, nem de cocaína, nem de morfina; que sou e fui sempre moderado em tudo, que não possuo um temperamento nervoso; que minha mentalidade nada tem de imaginativa e que sempre fui considerado como homem ponderado, calmo e resoluto. Acrescento que, não somente nunca acreditei no que se chama – Espiritismo – com os fenómenos relativos de materializações mediúnicas e do corpo astral visível, como fui sempre hostil a essas teorias.

Um caso espantoso em que assitiu ao trabalho espiritual na morte da esposa

A minha mulher morreu às 11h45, da noite de Sexta-feira, 23 de Maio de 1902; e só às 4 horas da tarde desse mesmo dia foi que me persuadi que estava perdida toda a esperança. Reunidos em torno do leito, na expectativa da hora fatal, estávamos muitos amigos, o médico e duas enfermeiras... Assim se passaram duas horas, sem que se observasse nenhuma alteração...às 6h45 (estou certo da hora porque havia um relógio colocado diante de mim, sobre um móvel) aconteceu-me voltar o olhar para a porta de entrada e percebi sobre o sólio, suspenso no ar, três pequenas nuvens muito distintas, dispostas horizontalmente, parecendo cada uma do comprimento de cerca de 4 pés, com 6 a 8 polegadas de volume... O meu primeiro pensamento foi que os amigos (e peço-lhes perdão por esse injustificado juízo) se tinham posto a fumar, além da porta, de maneira que o fumo dos seus charutos penetrasse no quarto. Levantei-me de um salto para ir reprová-los e notei que nas proximidades da porta, no corredor e no quarto, não havia ninguém. Espantado, voltei-me para olhar as nuvenzinhas que, lentamente, mas positivamente, se aproximavam da cama, até que a envolveram por completo.

Olhando através dessa nebulosa, percebi que ao lado da moribunda se conservava uma figura de mulher, de mais de 3 pés de altura, transparente, mas ao mesmo tempo resplandecente de uma luz de reflexos dourados; o seu aspecto era tão glorioso, que não há palavras capazes de descrevê-lo. Ela vestia um costume grego de mangas grandes, largas, abertas; tinha uma coroa à cabeça. Essa forma mantinha-se imóvel como uma estátua no esplendor de sua beleza; estendia as mãos sobre a cabeça da minha mulher, na atitude de quem recebe um hóspede alegremente, mas com serenidade.

Duas formas vestidas de branco, detinham-se de joelhos, ao lado da cama, velando ternamente a minha mulher, enquanto que outras formas, mais ou menos distintas, flutuavam em torno. Acima da minha mulher estava suspensa, em posição horizontal, uma forma branca e nua, ligada ao corpo da moribunda por um cordão que se lhe prendia acima do olho esquerdo, como se fosse o “corpo astral”. Em certos momentos, a forma suspensa ficava completamente imóvel; depois, contraía-se e diminuía até reduzir-se a proporções minúsculas, não superiores a 18 polegadas de comprimento, mas conservando sempre a sua forma exacta de mulher; a cabeça era perfeita, perfeitos o corpo, os braços, as pernas.

Quando o corpo astral se contraía e diminuía, entrava em luta violenta, com agitação e movimento dos membros, com o fim evidente de se desprender e libertar do corpo físico. E a luta persistia até que ele parecia cansar; sobrevinha, então, um período de calma; depois o corpo astral começava a aumentar, mas para diminuir de novo e recomeçar a luta.

Os familiares e amigos falecidos, vêm, no momento do desenlace, ajudar-nos a entrar no outro mundo.

Durante as cinco últimas horas de vida da minha mulher, assisti, sem interrupção, a essa visão pasmosa...Não havia maneira de fazê-la apagar dos meus olhos; se me distraía conversando com os amigos, se fechava as pálpebras, se me achava de outro lado, quando voltava a olhar o leito mortuário, revia inteiramente a mesma visão. No correr das cinco horas experimentei estranha sensação de opressão na cabeça e nos membros; sentia as minhas pálpebras pesadas como quando se está tomado pelo sono, e as sensações experimentadas, unidas ao facto da persistência da visão, faziam-me temer pelo meu equilíbrio mental, e então dizia ao médico muitas vezes: - «Doutor, eu enlouqueço». Enfim, chegou a hora fatal; depois de um último espasmo, a agonizante deixou de respirar e vi, ao mesmo tempo, a forma astral redobrar de esforços para libertar-se. Aparentemente, a minha mulher parecia morta, mas começava a respirar alguns minutos depois, e assim aconteceu por duas ou três vezes. Depois, tudo acabou. Com o último suspiro e o último espasmo, o cordão que a ligava ao corpo astral quebrou-se e eu vi esse corpo apagar-se. As outras formas espirituais, também, assim como a nebulosidade de que fora invadido o quarto, desapareceram subitamente; e, o que é estranho, a própria opressão que eu sentia sumiu-se como por encanto e permaneci de novo como fui sempre, calmo, ponderado, resoluto; dessa forma fiquei em condições de distribuir ordens e dirigir os tristes preparativos exigidos pelas circunstâncias...”

Afirma o Dr. Renz: “Desde que a doente se extinguiu, M. G., que durante cinco horas havia ficado à sua cabeceira, sem dali sair, levantou-se e deu ordens que as circunstâncias requeriam, com expressão tão calma, de homem de negócios, que os assistentes ficaram surpresos. Se ele tivesse sido submetido, durante cinco horas, a um acesso de alucinação, o espírito não se lhe teria tornado claro e normal de um momento para o outro. Dezassete dias já se passaram depois da visão e da morte da sua mulher; M. G. continua a mostrar-se perfeitamente são e normal de corpo e de espírito. (Assinado: Dr. C. Renz)”.»

Parte VI

Terminamos aqui uma série de seis artigos sobre aparições no leito de morte, com exemplo de aparições de defunto produzidas pouco depois de um caso de morte, e percebidas na mesma casa em que jaze o cadáver.


Embora estes factos sejam dos mais raros, não podemos deixar de os referir nesta série de artigos, casos estes retirados do livro «Fenómenos Psíquicos no Momento da Morte» do famoso investigador italiano Ernesto Bozzano. O seguinte caso foi retirado do volume V, pag. 422, dos «Proceedings of the S.P.R.»:
«Agosto , 1886. No sábado, 24 de Outubro de 1868, despedimo-nos dos nosso amigos (os marqueses de Lyns) - com os quais permanecêramos em Malvern Well -, para irmos a Cheltenham, residência de um cunhado do meu marido, Georges Copeland.

Desde algum tempo, já este estava doente, em consequência de um ataque de paralisia, que o havia reduzido à imobilidade, ficando, no entanto, perfeitamente sãs as suas faculdades mentais.

Esta última circunstância fazia que os seus amigos ficassem perto do doente, a fim de adoçar-lhe a desventura, tanto quanto possível. Aproveitando a pouca distância que nos separava, resolvemos, por nossa vez, fazer outro tanto. Fomos, porém, informados de que o doente já tinha outras pessoas em sua casa; decidimos, então, ir para Cheltenham, sem o prevenir, a fim de alugar um apartamento, antes que ele no-lo impedisse de fazer, por um convite. Tomamos vários quartos situados na vizinhança da habitação de Copeland.

Na agonia da morte, muitos familiares e amigos vêm ajudar-nos a desembaraçarmo-nos dos laços que nos ligam ao corpo físico

Feito isto, estávamos prontos para nos ausentar do hotel, quando muitos frascos de remédios, dispostos numa mesa, atraíram o nosso olhar. Perguntámos se havia doentes na casa e informaram-nos que certa senhora R...., hóspede no hotel com a sua filha, estava doente desde algum tempo; era coisa de pouca importância e não havia perigo. Depois dessa ocasião não pensámos mais no assunto. Logo após fomos à casa de Copeland, e no correr da tarde, veio a pronunciar-se o nome dos nossos vizinhos de hotel. Copeland disse, então, que conhecia a Sra. R....; explicou que era viúva de um doutor, ex-clínico em Cheltenham, e que uma das suas filhas se casara com um professor de colégio, um certo Sr. V... Lembrei-me então de Ter conhecido a Sra. V... por ocasião de uma recepção em casa do Dr. Barry e Ter nela feito reparo por causa da sua grande beleza, enquanto ela conversava com a dona da casa. Era tudo o que eu sabia a respeito dessas senhoras.

Na manhã de Domingo, à hora do almoço, observei que o meu marido parecia preocupado. Terminado que foi o repasto, perguntou-me ele:

- Ouviste arrastar uma cadeira há pouco? A velha que mora em baixo morreu na própria cadeira, esta noite; arrastaram esse móvel, trouxeram-na para o quarto.

Fiquei muito impressionada; era a primeira vez que me encontrava nas proximidades de um cadáver; desejei, pois, mudar sem demora, de apartamento. Muitos dos nosso amigos, sabendo do facto, tinham-nos gentilmente oferecido hospitalidade; mas o meu marido, opusera-se, lembrando que uma mudança é sempre um aborrecimento, que meus terrores eram tolos, que ele não achava nenhum prazer em deslocar-se num dia de Domingo, que não era generoso partir porque uma pessoa havia morrido e que, enfim, se assim procedessem para connosco, não nos deixaríamos de aborrecer. Em suma, tivemos de ficar.

Passei o dia na companhia do cunhado e das sobrinhas e só voltamos ao hotel à hora de ir para a cama. Depois de haver adormecido, acordei de repente, como de hábito, alta noite, sem causa aparente e vi distintamente, ao pé da cama, um velho fidalgo, de rosto gordo, rosado e sorridente, com um chapéu na mão.

Estava vestido com um casaco azul-celeste, de talhe antigo, guarnecido de botões de metal; tinha um colete claro e calças da mesma cor.

Visões e descrições da presença de falecidos junto dos moribundos são evidências que muitas vezes não podem ser explicadas de outro modo

Quanto mais o encarava, melhor lhe discernia os menores detalhes do rosto e das vestes. Não me senti muito impressionada; depois de algum tempo ensaiei fechar os olhos durante um ou dois minutos; quando os reabri, o velho fidalgo tinha desaparecido.

Dormi algum tempo depois. Vindo a manhã, propus-me nada dizer a ninguém, do que me tinha acontecido, até que tivesse visto uma das minhas sobrinhas, à qual queria expor o facto, a fim de saber se, por acaso, não haveria nenhuma semelhança entre o Dr. R... e o fidalgo da minha visão. Apesar de me parecer absurda esta ideia, queria certificar-me. Encontrei minha sobrinha, Maria Copeland (hoje senhora Brandling), de volta da igreja, e logo lhe perguntei:

- O Dr. R... não tinha o aspecto de velho fidalgo, de rosto cheio, rosado e sorridente, etc., etc.?...

Ela estremeceu de espanto.

- Quem to disse? - perguntou. - Nós dizíamos, de facto, que ele se assemelhava mais a um bom feitor de fazenda do que a um doutor. Como é estranho que um homem de aspecto tão vulgar tivesse por filha tão bela criatura!

Tal é a narrativa rigorosamente exacta do que me aconteceu. As minhas duas sobrinhas estão ainda vivas e devem lembrar-se exactamente de tudo isso. Naturalmente, não estou em condições de explicar o facto. O corpo da velha senhora jazia no quarto que ficava imediatamente abaixo do nosso. O que me surpreende, sobretudo, é que eu tivesse ficado tão pouco impressionada e que pudesse dormir alguns instantes depois, sem incomodar ninguém. (Assinado: D. Bacchus).»

O marido da Sra. Bacchus confirma o acontecimento:

«Leamington, 27 de Setembro de 1886 - Li a narração da minha mulher a respeito do que sucedeu em Cheltenham, quando nós aí estivemos em 1868. Ela corresponde exactamente ao que a minha mulher contou de viva voz, na manhã que se seguiu ao facto, de que perfeitamente me recordo. Também me lembro que nessa manhã mesma, ela contou todos os detalhes do acontecimento à sua sobrinha. (Assinado: Henry Bacchus).»

De realçar que a declaração da precipiente não ter nunca conhecido e não ter tido nunca a ideia do aspecto do defunto Dr. R..., admitindo-se assim a realidade objectiva da aparição, afastando a hipótese de um fenómeno de auto-sugestão alucinatória, provocado na Sra. Bacchus, pelo pensamento desagradável de ter perto de si o cadáver da Senhora R...»


(Série de seis artigos reproduzidos com autorização da ADEP e dispostos de forma contínua para mais fácil estudo)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

lei do progresso


Lei do Progresso

Estado natural – Marcha do progresso – Povos degenerados – Civilização – Progresso da legislação humana – Influência do Espiritismo sobre o progresso
Estado natural

776 O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?

– Não. O estado natural é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado natural, enquanto a lei natural contribui para o progresso da humanidade.

☼ O estado natural é a infância da humanidade, é o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, tendendo à perfeição e tendo em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não foi destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório, o homem liberta-se dele pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário, rege a humanidade inteira e o homem se aperfeiçoa à medida que melhor compreende e pratica essa lei.

777 No estado natural, o homem, por ter menos necessidades, não tem todos os tormentos que cria para si mesmo num estado mais avançado; o que pensar da opinião que considera esse estado como a mais perfeita felicidade sobre a Terra?

– Que quereis! É a felicidade do bruto; há pessoas que não a compreendem de outro modo. É ser feliz à maneira dos bárbaros. Também as crianças são mais felizes do que os adultos.

778 O homem pode regredir para o estado natural?

– Não; o homem deve progredir sempre e não pode retornar à infância. Se progride, é porque Deus assim quer; pensar que possa regredir à sua condição primitiva seria negar a lei do progresso.

Marcha do progresso

779 O homem traz em si o impulso de progredir ou o progresso é apenas fruto de um ensinamento?

– O homem se desenvolve naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e do mesmo modo; é assim que os mais avançados ajudam pelo contacto social o progresso dos outros.

780 O progresso moral é sempre acompanhado do intelectual?

– É sua consequência, mas nem sempre o segue imediatamente.(Veja as questões 192 e 365.)

780 a Como o avanço intelectual pode gerar o progresso moral?

– Ao fazer compreender o bem e o mal; o homem, então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio segue o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos seus actos.

780 b Por que os povos mais esclarecidos são, muitas vezes, os mais pervertidos?

– O progresso completo é a meta; mas os povos, como os indivíduos, o alcançam apenas passo a passo. Enquanto o sentido moral não estiver plenamente desenvolvido, eles se servem de sua inteligência para fazer o mal. O moral e a inteligência são duas forças que se equilibram apenas com o tempo. (Veja as questões 365 e 751.)

781 O homem pode deter a marcha do progresso?

– Não; mas pode impedi-lo algumas vezes.

781 a O que pensar dos homens que tentam deter essa marcha e fazer retroceder a humanidade?

– Pobres seres que serão punidos por suas próprias acções. Serão arrastados pela torrente que querem deter.

☼ Sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não sufocar. Quando essas leis se tornam incompatíveis com a sua marcha, ele as destrói e a todos que tentam mantê-las. Será assim até que o homem coloque suas leis em concordância com a justiça e com o bem de todos, e não leis feitas pelo forte em prejuízo do fraco.
782 Não há homens que impedem o progresso com sua boa-fé, pensando favorecê-lo porque o vêem sob seu ponto de vista e, muitas vezes, onde ele não está?
– São como uma pequena pedra colocada sob a roda de um grande carro e que não o impede de avançar.

783 O aperfeiçoamento da humanidade segue sempre uma marcha progressiva e lenta?

– Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas quando um povo não avança rápido o suficiente a Providência provoca, de tempos em tempos, um abalo físico ou moral que o transforma.

☼ O homem não pode permanecer perpetuamente na ignorância, porque tem de atingir o objectivo marcado pela Providência; ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, germinam durante séculos, explodem de repente e fazem desabar o edifício apodrecido do passado, que não está mais em harmonia com as novas necessidades e aspirações.
Muitas vezes, o homem percebe nessas transformações apenas a desordem e a confusão momentâneas que atingem seus interesses materiais. Porém, aquele que eleva o pensamento acima dos interesses pessoais admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade e a agitação que purificam a atmosfera após a perturbação.

784 A perversidade do homem é muito grande. Não parece recuar em vez de avançar, pelo menos do ponto de vista moral?

– Engano vosso. Observai bem o conjunto e vereis que o homem avança, uma vez que compreende melhor o que é o mal e a cada dia corrige abusos. É preciso o mal chegar a extremos para fazer compreender a necessidade do bem e das reformas.

785 Qual é o maior obstáculo ao progresso?

– O orgulho e o egoísmo; quero falar do progresso moral, uma vez que o progresso intelectual avança sempre e parece, aliás, à primeira vista, dar ao egoísmo e ao orgulho força duplicada ao desenvolver a ambição e o amor às riquezas, que, por sua vez, estimulam o homem às pesquisas que esclarecem seu Espírito. É assim que tudo se relaciona no mundo moral como no físico e que do próprio mal pode sair o bem; mas essa situação não durará muito tempo, mudará à medida que o homem compreender melhor que além dos prazeres terrestres há uma felicidade infinitamente mais durável. (Veja “O Egoísmo”, Parte Terceira, cap. 12.)

☼ Há duas espécies de progresso que se apoiam mutuamente e que, entretanto, não marcham lado a lado: é o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados, o progresso intelectual recebeu, neste século, todos os incentivos possíveis e atingiu um grau desconhecido até os nossos dias. Falta algo ao progresso moral para que esteja no mesmo nível, e, entretanto, comparando os costumes sociais de hoje aos de alguns séculos atrás, seria preciso ser cego para negar que houve progresso moral. Por que razão deve a marcha ascendente do progresso moral atrasar-se em relação ao da inteligência? Por que duvidar que entre o século 19ºe o século 24º não ocorrerá tanto avanço, como houve no progresso intelectual entre os séculos 14º e 19º? Duvidar dessa possibilidade será pretender que a humanidade tenha atingido o auge da perfeição. Seria um absurdo. Ou que ela é moralmente incapaz de se aperfeiçoar, o que é desmentido pela experiência.

Povos degenerados

786 A história nos mostra muitos povos que, após os abalos que sofreram, caíram na barbárie; onde está o progresso nesse caso?

– Quando vossa casa ameaça desabar a derrubais para reconstruir uma mais sólida e mais cómoda; mas, até que esteja reconstruída, há problemas e confusão na vossa casa.
Compreendei o seguinte: éreis pobres e habitável um casebre; tornais-vos rico e o deixais para habitar um palácio. Depois, um pobre diabo, como vós, vem tomar vosso lugar no casebre e ainda fica muito contente, porque antes não tinha abrigo. Pois bem! Aprendei que os Espíritos encarnados nesse povo degenerado não são aqueles que o compuseram no tempo de seu esplendor; os de então, que avançaram, foram para habitações mais perfeitas, progrediram, enquanto outros menos avançados vieram e tomaram o lugar, que também, por sua vez, deixarão.

787 Não há raças que por sua natureza são rebeldes ao progresso?

– Sim, mas estas se destroem, corporalmente, a cada dia.

787 a Qual será a sorte futura das almas que animam essas raças?

– Elas chegarão como todas à perfeição ao passar por outras existências: Deus não deserda ninguém.

787 b Assim, os homens mais civilizados podem ter sido selvagens e antropófagos?

– Vós mesmo o fostes, mais de uma vez, antes de ser o que sois.

788 Os povos são individualidades colectivas que, como os indivíduos, passam pela infância, idade adulta e velhice; essa verdade constatada pela história não nos faz concluir que os mais adiantados deste século terão seu declínio e fim, como os da Antiguidade?

– Os povos materialistas, que vivem somente a vida do corpo, aqueles cuja grandeza é fundada apenas sobre a força e a extensão territorial, nascem, crescem e morrem, porque a força de um povo se esgota como a de um homem. Aqueles cujas leis egoístas retardam o progresso das luzes e da caridade morrem, porque a luz mata as trevas e a caridade mata o egoísmo; mas há para os povos, como para os indivíduos, a vida da alma. Aqueles, porém, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador viverão e serão o farol dos outros povos.

789 O progresso reunirá um dia todos os povos da Terra numa única nação?

– Não numa única nação, isso é impossível, uma vez que da diversidade dos climas nascem costumes e necessidades diferentes que constituem as nacionalidades; é por isso que sempre precisarão de leis apropriadas a esses costumes e necessidades. Mas a caridade não conhece diferenças nem faz distinção entre os homens pela cor. Quando a lei de Deus for a base da lei humana em todos os lugares, os povos praticarão a caridade entre si, como os indivíduos, de homem para homem; então, viverão felizes e em paz, porque ninguém fará mal a seu vizinho, nem viverão à custa uns dos outros.

☼ A humanidade progride por meio dos indivíduos que se aperfeiçoam pouco a pouco e se esclarecem; então, quando eles prevalecem em número, tomam a frente e conduzem os outros. De tempos em tempos surgem homens de génio que lhe dão um impulso, depois surgem homens com autoridade, instrumentos de Deus, que em alguns anos fazem a humanidade avançar muitos séculos. O progresso dos povos também evidencia a justiça da reencarnação. Os homens de bem praticam louváveis esforços para fazer avançarem uma nação moral e intelectualmente; os integrantes da nação transformada serão mais felizes neste mundo e no outro; mas, durante sua marcha lenta através dos séculos, milhares de indivíduos morrem a cada dia. Qual é o destino de todos que morrem no caminho? Sua inferioridade relativa os priva da felicidade reservada aos que chegam por último? Ou melhor, sua felicidade é relativa? A justiça divina não poderia consagrar semelhante injustiça. Pela pluralidade das existências, o direito à felicidade é o mesmo para todos, porque ninguém é deserdado do progresso. Aqueles que viveram no tempo da barbárie podem voltar no tempo da civilização no mesmo povo ou em outro, resultando disso que todos tiram proveito da marcha ascendente.

Mas o sistema da unicidade das existências apresenta ainda outra dificuldade. De acordo com esse sistema, a alma é criada no momento do nascimento; é claro que, se um homem é mais avançado que outro, é porque Deus criou para ele uma alma mais avançada. Por que esse favor? Que mérito tem ele que não viveu mais nem menos que um outro para ser dotado de uma alma superior? Mas não é só essa a principal dificuldade. Uma nação passa, em mil anos, da barbárie à civilização. Se os homens vivessem ali mil anos seria possível entender que nesse período tivessem tempo de progredir; mas todos os dias eles morrem, e em todas as idades, e se renovam sem parar, de modo que a cada dia vêem-se multidões aparecer e desaparecer. Decorridos os mil anos, não há mais traços dos antigos habitantes e a nação, de bárbara, torna-se civilizada. O que progrediu? Foram os indivíduos antigamente bárbaros? Mas eles estão mortos há muito tempo. São os recém-chegados? Mas se sua alma é criada no momento do nascimento, essas almas não existiam na época da barbárie, e então é preciso admitir que os esforços que se fazem para civilizar um povo têm o poder não de melhorar almas imperfeitas, mas de fazer com que Deus crie almas mais perfeitas.

Comparemos essa teoria do progresso com a que é dada pelos Espíritos. As almas vindas na época da civilização tiveram sua infância, como todas as outras, mas já tinham vivido, e, ao reencarnar, vêm adiantadas por um progresso anterior; vêm atraídas a um meio que lhes é simpático e em relação com seu estado actual. Assim, os cuidados dados à civilização de um povo não têm por objectivo criar no futuro almas mais perfeitas, mas atrair aquelas que já progrediram, seja as que já tenham vivido nesse mesmo povo na época da barbárie ou as que possam vir de outro lugar.

Aqui está a chave para entender o progresso de toda a humanidade. Quando todos os povos atingirem o mesmo padrão no sentimento do bem, a Terra será o ponto de encontro apenas dos bons Espíritos, que viverão uma união fraterna. Os maus, se encontrando rejeitados, irão procurar nos mundos inferiores o meio que lhes convém, até que sejam dignos de virem ao nosso meio, transformados.

Essa teoria tem ainda por consequência que os trabalhos de aperfeiçoamento social só resultam em proveito para as gerações presentes e futuras, e que é nulo para as gerações passadas, qualquer que seja o progresso feito, já que cometeram o erro de encarnar, muito cedo, e que são como são porque estão carregadas de seus actos de barbárie.

De acordo com a Doutrina dos Espíritos, os progressos contínuos e sucessivos servem igualmente a essas gerações passadas que reencarnam em condições melhores e podem, assim, se aperfeiçoar no meio da civilização. (Veja a questão 222.)

Civilização

790 A civilização é um progresso ou, conforme alguns filósofos, uma decadência da humanidade?

– Progresso incompleto; o homem não passa subitamente da infância à idade adulta.

790 a É racional condenar a civilização?

– Primeiramente condenai aqueles que abusam dela e não a obra de Deus.

791 A civilização se depurará um dia de modo a fazer desaparecer os males que tenha produzido?

– Sim, quando a moral também estiver tão desenvolvido quanto a inteligência. O fruto não pode vir antes da flor.

792 Por que a civilização não realiza imediatamente todo o bem que poderia produzir?

– Porque os homens ainda não estão prontos nem dispostos a obter esse bem.

792 a Não seria também porque, ao criar novas necessidades, ela super excita novas paixões?

– Sim, e porque nem todas as faculdades do Espírito progridem a um só tempo; é preciso tempo para tudo. Não podeis esperar frutos perfeitos de uma civilização incompleta. (Veja as questões 751 e 780.)

793 Com que sinais se podem reconhecer uma civilização completa?

– Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar bem avançados, pelas grandes descobertas e invenções maravilhosas, e estais melhor alojados e vestidos do que os selvagens. Mas apenas tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando tiverdes banido da sociedade os vícios que a desonram e viverdes como irmãos praticando a caridade cristã. Até lá, sois somente povos esclarecidos, que percorreram apenas a primeira fase da civilização.

☼ A civilização tem seus graus como todas as coisas. Uma civilização incompleta é um estado de transição que origina males específicos, próprios dela, desconhecidos do homem no seu estado primitivo; mas isso não constitui senão um progresso natural, necessário, que já traz em si mesmo o remédio para o mal que provoca.
À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns males que gerou, e esses males desaparecerão completamente com o progresso moral.

De dois povos chegados ao topo da escala social, o único que pode se dizer civilizado, na verdadeira acepção da palavra, é aquele em que não se encontra egoísmo, cobiça e orgulho; em que os hábitos são mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência pode se desenvolver com mais liberdade; em que há mais bondade, boa fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento são menos enraizados, porque são incompatíveis com o verdadeiro amor ao próximo; em que as leis não consagram nenhum privilégio e são as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça é exercida com imparcialidade; em que o fraco encontra sempre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e opiniões são respeitadas; em que há menos infelizes e, enfim, em que todo homem de boa vontade esteja sempre seguro de não lhe faltar o necessário.

Progresso da legislação humana

794 A sociedade poderia ser regida só pelas leis naturais sem a colaboração das leis humanas?

– Poderia se as compreendesse bem, se o homem tivesse vontade suficiente para praticá-las; mas a sociedade tem suas exigências e precisa de leis particulares.

795 Qual a causa da instabilidade das leis humanas?

– Nos tempos da barbárie, são os mais fortes que fazem as leis, e as fazem para se beneficiarem. Foi preciso modificá-las muito, à medida que os homens compreenderam melhor a justiça. As leis humanas são mais estáveis quanto mais se aproximam da verdadeira justiça, isto é, conforme sejam as mesmas e iguais para todos e se identifiquem com a lei natural.

☼ A civilização criou para o homem novas necessidades, relativas à posição social em que vive. Devem-se regular os direitos e os deveres dessa posição por leis humanas. Mas sob a influência de suas paixões, frequentemente, criou direitos e deveres imaginários que a lei natural condena e que os povos apagam de seus códigos à medida que progridem. A lei natural é imutável, é a mesma para todos; a lei humana é variável e progressiva; somente pôde consagrar, na infância das sociedades, o direito do mais forte.

796 A severidade das leis penais não é uma necessidade no estado actual da sociedade?

– Uma sociedade depravada certamente tem necessidade de leis mais severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de feito em vez de secar a fonte do mal. Só a educação pode reformar os homens, que então não terão mais necessidade de leis tão rigorosas.

797 Como o homem poderia ser levado a reformar suas leis?

– Isso ocorre naturalmente pela força das coisas e a influência dos homens de bem que o conduzem no caminho do progresso. Já se reformaram muitas e se reformarão outras. Esperai!

Influência do Espiritismo sobre o progresso

798 O Espiritismo será para todos ou permanecerá como privilégio de algumas pessoas?

– Certamente, ele se tornará uma convicção íntima de todos e marcará uma nova era na história da humanidade, porque está na ordem natural das coisas, na natureza, e é chegado o tempo de ocupar o seu lugar entre os conhecimentos humanos.

Entretanto, haverá grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra a convicção, porque não podemos desconhecer que há pessoas interessadas em combatê-lo, uns por amor-próprio, outros por interesses materiais. Mas os opositores, ao se encontrarem cada vez mais isolados, serão forçados a pensar como todo o mundo, sob pena de se tornarem ridículos.

☼ As ideias somente se transformam ao longo do tempo e não subitamente. De geração a geração vão se enfraquecendo e acabam por desaparecer pouco a pouco junto com seus seguidores, substituídos por outros indivíduos inspirados por novos princípios, como ocorre com as ideias políticas. Observai o paganismo; não há ninguém que actualmente aceite suas ideias religiosas; entretanto, muitos séculos após o surgimento do Cristianismo, ainda há traços do paganismo que somente a completa renovação das raças pode apagar. Ocorrerá o mesmo com o Espiritismo; ele fez muito progresso, mas haverá ainda, durante duas ou três gerações, um fermento de incredulidade que apenas o tempo destruirá. Todavia, sua marcha será mais rápida que a do Cristianismo, porque o próprio Cristianismo é quem lhe abre os caminhos e está nele apoiado. O Cristianismo tinha o que destruir; o Espiritismo só tem que edificar.

799 De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?

– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e fazendo os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais encoberta pela dúvida, fará o homem compreender melhor que pode, desde agora, no presente, preparar seu futuro. Ao destruir os preconceitos de seitas, de castas e de raças, ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.

800 Não é de temer que o Espiritismo não possa vencer a indiferença dos homens e seu apego às coisas materiais?

– Seria conhecer pouco os homens, se pensássemos que uma causa qualquer pudesse transformá-los como por encantamento. As ideias se modificam pouco a pouco, de acordo com os indivíduos, e são necessárias gerações para apagar completamente os traços dos velhos hábitos. A transformação só pode, portanto, se operar a longo prazo, gradualmente, passo a passo. A cada geração uma parte do véu se dissipa. O Espiritismo veio rasgá-lo de uma vez e, conseguindo corrigir no homem um único defeito que seja, já o terá habilitado a dar um grande passo que representa, para ele, um grande bem, porque facilitará os outros que terá que dar.

801 Por que os Espíritos não ensinaram em todos os tempos o que ensinam hoje?

– Não ensinais às crianças o que ensinais aos adultos e não se pode dar ao recém-nascido um alimento que não poderá digerir. Cada coisa tem seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam ou adulteraram, mas que podem compreender agora. Com o seu ensinamento, mesmo incompleto, prepararam o terreno para receber a semente que vai frutificar agora.

802 Uma vez que o Espiritismo deve marcar um progresso na humanidade, por que os Espíritos não aceleram esse progresso com manifestações tão generalizadas e evidentes que convençam até os mais descrentes?

– Quereis ver milagres; mas Deus espalha milagres a mãos cheias diante dos vossos olhos e, ainda assim, há homens que o renegam. Por acaso o próprio Cristo convenceu seus contemporâneos com os prodígios que realizou? Não vedes hoje homens negarem os fatos mais evidentes que se passam sob seus olhos? Não há os que dizem que não acreditariam mesmo se vissem? Não; não é por prodígios que Deus quer encaminhar os homens. Em sua bondade, quer deixar o mérito de se convencerem pela razão.

referência: o livro dos espiritos

quinta-feira, 24 de maio de 2007

lei da conservação


Lei de conservação

Instinto de conservação – Meios de conservação – Prazeres dos bens da terra – Necessário e supérfluo – Privações voluntárias. Mortificações
Instinto de conservação

702 O instinto de conservação é uma lei natural?

– Sem dúvida. Foi dado a todos os seres vivos, seja qual for o grau de inteligência. Para uns, é puramente mecânico; para outros, é racional.

703 Com que objectivo Deus deu a todos os seres vivos o instinto de conservação?

– Porque todos devem cumprir os desígnios da Providência; é por isso que Deus deu o instinto de conservação. Além disso, a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres que têm instintivamente esse sentimento, sem se darem conta disso.
Meios de conservação

704 Deus, dando ao homem a necessidade de viver, sempre lhe forneceu os meios para isso?

– Sim. Se não os encontra, é por falta de iniciativa. Deus não poderia dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar os meios, por isso faz a terra produzir e fornecer o necessário a todos, porque só o necessário é útil. O supérfluo nunca é.

705 Por que nem sempre a terra produz o suficiente para fornecer o necessário ao homem?

– O homem a negligência por ingratidão e, no entanto, a terra continua sendo uma excelente mãe. Além disso, ele ainda acusa a natureza por sua própria imperícia ou imprevidência. A terra produziria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se o que produz não é bastante para todas as necessidades, é porque emprega no supérfluo o que deveria utilizar no necessário. Observai o árabe no deserto: encontra sempre com o que viver, porque não cria necessidades artificiais. Porém, quando a metade da produção é desperdiçada para satisfazer fantasias, deve o homem se espantar de não encontrar nada em seguida? E terá razão de se queixar por estar desprovido quando chega a época da escassez? Na verdade, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe regrar sua vida.

706 Por bens da terra somente devemos entender os produtos do solo?

– O solo é a fonte primária de onde vêm todos os outros recursos, que são apenas uma transformação dos produtos do solo; por isso, é preciso entender por bens da terra tudo o que o homem pode desfrutar neste mundo.

707 Os meios de subsistência, muitas vezes, faltam a alguns, mesmo em meio à abundância que os cerca; por quê?

– É pelo egoísmo dos homens em geral e também, frequentemente, por negligência deles mesmos. Buscai e achareis; essas palavras não querem dizer que basta olhar a terra para encontrar o que se deseja, mas que é preciso procurar com ardor e perseverança e não com fraqueza, sem se deixar desencorajar pelos obstáculos que, muitas vezes, são apenas meios de colocar à prova a vossa constância, paciência e firmeza. (Veja a questão 534.)

☼ Se a civilização multiplica as necessidades, também multiplica as fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso admitir que sob esse aspecto resta ainda muito a fazer. Quando a civilização terminar sua obra, ninguém poderá queixar-se de que lhe falta o necessário, senão por sua própria culpa. A infelicidade, para muitos, decorre de enveredarem por um caminho que não é o que a natureza traçou; é então que falta inteligência para terem êxito. Há lugar ao sol para todos, mas com a condição de cada um ter o seu, e não o dos outros. A natureza não pode ser responsável pelos vícios de organização social nem pelas consequências da ambição e do amor-próprio.

Entretanto, seria preciso ser cego para não reconhecer o progresso que se realizou sob esse aspecto entre os povos mais avançados. Graças aos louváveis esforços que a filantropia e a ciência juntas não param de fazer para o melhoramento da condição material dos homens, e apesar do contínuo aumento das populações, a insuficiência da produção está atenuada em grande parte, pelo menos. Os anos mais calamitosos hoje nada têm de comparável aos de antigamente. A higiene pública, esse elemento tão essencial para o bem-estar e a saúde, desconhecida de nossos pais, é agora objecto de cuidados especiais; o infortúnio e o sofrimento encontram lugares de refúgio. Em toda parte a ciência contribui para aumentar o bem-estar. Pode-se dizer que já alcançou a perfeição? Certamente que não. Mas o que já se fez dá a medida do que se pode fazer com perseverança, se o homem é bastante sábio para procurar sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que o fazem recuar em vez de progredir.

708 Não há situações em que os meios de subsistência não dependem de modo algum da vontade do homem, e a privação até daquilo que mais necessita é uma consequência das circunstâncias?

– É uma prova muitas vezes cruel que deve passar e à qual sabia que seria exposto. Seu mérito está em sua submissão à vontade de Deus, se sua inteligência não fornece nenhum meio de se livrar das dificuldades. Se a morte deve atingi-lo, deve se submeter sem reclamar e compreender que a hora da verdadeira libertação chegou e que o desespero do último momento pode lhe fazer perder o fruto de sua resignação.

709 Aqueles que, em certas posições críticas, se viram obrigados a sacrificar seus semelhantes para se alimentarem deles, cometeram um crime? Nesse caso, o crime pode ser atenuado pela necessidade de viver que lhes dá o instinto de conservação?

– Já respondi, ao dizer que há mais mérito em sofrer todas as provas da vida com coragem e abnegação. Nesse caso, há homicídio e crime de lesa-natureza, faltas que devem ser duplamente punidas.

710 Nos planetas onde o corpo é mais depurado, os seres vivos têm necessidade de alimentação?

– Sim, mas os alimentos estão de acordo com sua natureza. Esses alimentos não seriam muito substanciais para vossos estômagos grosseiros, do mesmo modo que, para eles, a vossa alimentação também não serviria.

Prazeres dos bens da terra


711 O uso dos bens da terra é um direito para todos os homens?

– Esse direito é a consequência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem dar o meio de satisfazê-lo.

712 Por que Deus colocou o atractivo do prazer na posse e uso dos bens materiais?

– Para estimular o homem ao cumprimento de sua missão e experimentá-lo por meio da tentação.

712 a Qual é o objectivo dessa tentação?

– Desenvolver sua razão, que deve preservá-lo dos excessos.
☼ Se o homem tivesse considerado o uso dos bens da Terra somente pela utilidade que eles têm, sua indiferença poderia comprometer a harmonia do universo: Deus lhe deu o atractivo do prazer para o cumprimento dos seus desígnios. Mas pelo que possa representar esse atractivo quis, por outro lado, prová-lo por meio da tentação que o arrasta para o abuso do qual sua razão deve defendê-lo.

713 Os prazeres têm limites traçados pela natureza?

– Sim, têm o limite do necessário; mas, pelos excessos, chegais ao extremo exagero e à repulsa e vos punis a vós mesmos.

714 O que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento para seus prazeres?

– Pobre infeliz digno de lástima e não de inveja. Está bem próximo da morte!

714 a Da morte física ou moral?

– De ambas.
☼ O homem que procura nos excessos de toda espécie um requinte de prazeres coloca-se abaixo do animal, porque o animal sabe deter-se na satisfação da sua necessidade. Despreza o homem a razão que Deus lhe deu por guia, e, quanto maiores os seus excessos, mais domínio exerce sua natureza primitiva sobre sua natureza espiritual. As doenças, a decadência, a morte prematura decorrentes dos abusos são a consequência da transgressão da lei divina.

Necessário e supérfluo

715 Como o homem pode conhecer o limite do necessário?

– Aquele que é sensato o conhece pela intuição; muitos o conhecem pela experiência e à sua própria custa.

716 A natureza não traçou o limite de nossas necessidades em nossa estrutura orgânica?

– Sim, mas o homem é insaciável. A natureza traçou o limite às suas necessidades no seu próprio organismo, mas os vícios lhe alteraram a constituição e criaram necessidades que não são reais.

717 O que pensar dos que monopolizam os bens da terra para obter o supérfluo em prejuízo dos que precisam do necessário?

– Eles desconhecem a lei de Deus e terão que responder pelas privações que impuseram aos outros.
☼ O limite entre o necessário e o supérfluo não tem nada de absoluto, de indiscutível. A civilização criou necessidades que o selvagem desconhece, e os Espíritos que ditaram esses ensinamentos não pretendem que o homem civilizado viva como o selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão distinguir cada coisa. A civilização desenvolve o senso ético e ao mesmo tempo o sentimento de caridade, que leva os homens ao apoio mútuo. Os que vivem à custa das necessidades dos outros exploram os benefícios da civilização em seu proveito; têm da civilização apenas o verniz, como há pessoas que têm da religião apenas a máscara.

Privações voluntárias. Mortificações

718 A lei de conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo?

– Sim, sem força e saúde o trabalho é impossível.

719 É condenável ao homem procurar o seu bem-estar?

– O bem-estar é um desejo natural. Os abusos são condenáveis porque contrariam a lei de conservação. O bem-estar é condenável se foi adquirido à custa dos outros e se comprometeu o equilíbrio moral e físico do homem.

720 As privações voluntárias, que resultam numa expiação igualmente voluntária, têm algum mérito aos olhos de Deus?

– Quanto mais fazeis o bem aos outros mais méritos tereis.

720 a Há privações voluntárias que sejam meritórias?

– Sim, a renúncia aos prazeres inúteis, que liberta o homem da matéria e eleva sua alma. O meritório é resistir à tentação que o conduz aos excessos ou ao prazer das coisas inúteis; é tirar do que lhe é necessário para doar àqueles que não têm o suficiente. Se a privação é apenas fingimento, é uma zombaria.

721 A vida de mortificações ascéticas1 dos devotos e dos místicos, praticada desde a Antiguidade e entre diferentes povos, é meritória sob algum ponto de vista?

– Perguntai para o que e a quem ela serve e tereis a resposta. Se serve apenas àquele que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, qualquer que seja o pretexto com o qual se disfarce. Renegar-se a si mesmo e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, conforme a caridade cristã.

722 A abstenção de alguns alimentos, regra entre diversos povos, é fundada na razão?

– Tudo aquilo com que o homem pode se alimentar sem prejuízo para a sua saúde é permitido. Porém, alguns legisladores resolveram proibir alguns alimentos com um objectivo útil e, para dar maior autoridade às suas leis, as apresentaram como se fossem vindas de Deus.

723 A alimentação animal é, para o homem, contrária à lei natural?

– Em vossa constituição física, a carne alimenta a carne; de outro modo, o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem o dever de manter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele deve, portanto, se alimentar conforme as exigências de seu organismo.

724 A abstenção de alimento animal ou outro, como purificação, é meritória?

– Sim, se essa abstenção for em benefício dos outros; mas Deus não pode ver uma mortificação quando não é séria e útil. Por isso dizemos que aqueles que se privam apenas na aparência são hipócritas. (Veja a questão720.)

725 Que pensar das mutilações que se fazem no corpo do homem e dos animais?

– Por que tal questão? Perguntai, a vós mesmos, ainda uma vez e sempre, se uma coisa é útil. O que é inútil não pode ser agradável a Deus e o que é nocivo é sempre desagradável; porque, deveis saber, Deus só é sensível aos sentimentos daqueles que lhe elevam a alma; é praticando Sua Lei que podereis vos libertar da matéria terrestre, e não violando-a.

726 Se os sofrimentos deste mundo nos elevam pela maneira que os suportamos, elevam-nos também os que criamos voluntariamente?

– Os únicos sofrimentos que elevam são os sofrimentos naturais, por que vêm de Deus; os sofrimentos voluntários não servem para nada quando não contribuem para o bem dos outros. Por acaso acreditais que avançam no caminho do progresso os que abreviam sua vida nos rigores sobre-humanos, como fazem os bonzos2, os faquires3 e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que não trabalham antes pelo bem de seus semelhantes? Que vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem por aquele que está enfermo; sofram necessidades para o alívio dos infelizes; então, sim, suas vidas serão útil e agradável a Deus. Quando os sofrimentos voluntários têm em vista apenas a si mesmo, é egoísmo; quando se sofre pelos outros, é caridade: são estes os preceitos do Cristo.

727 Se não devemos criar sofrimentos voluntários sem utilidade para os outros, devemo-nos preservar daqueles que prevemos ou que nos ameaçam?

– O instinto de conservação foi dado a todos contra os perigos e os sofrimentos. Mortificai o Espírito e não vosso corpo, exterminai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que parece uma serpente que vos tortura o coração, e fareis mais por vosso adiantamento do que por meio de rigores que não são mais deste século.

1. Ascéticas: dedicadas à meditação com o fim de ser virtuoso (N. E.).
2. Bonzos: monges do Budismo. São dados a martírios e suplícios (N. E.).
3. Faquires: que se deixam mutilar ou se submetem a jejuns. Exibem-se para provar o domínio e a insensibilidade da dor sobre o corpo (N. E.).

referência: o livro dos espiritos