sexta-feira, 20 de abril de 2007

espiritismo e filosofia


Espiritismo e Filosofia.


A origem do conceito de filosofia está na sua própria estrutura verbal, ou seja, na junção das palavras gregas philos e sophia, que significam "amor à sabedoria". Filósofo é, pois, o amante da sabedoria. Mas o que é a sabedoria? É um termo que significa erudição, saber, ciência, prudência, moderação, temperança, sensatez, enfim um grande conhecimento.

Na própria Grécia Antiga o termo filosofia passou a designar não apenas o amor ou a procura da sabedoria, mas um tipo especial de sabedoria. Aquela que nasce do uso metódico da razão, da investigação racional em busca do conhecimento. Platão distingue a doxa, opinião, ou seja, o saber que temos sem tê-lo procurado, e a episteme, a ciência, que é o saber que temos porque o procuramos. Então, a filosofia já não significa "amor à sabedoria", nem tampouco significa o saber em geral, qualquer saber; senão que significa esse saber especial que temos, que adquirimos depois de tê-lo procurado e de tê-lo procurado metodicamente.


Durante a Idade Média o saber humano dividiu-se em dois grandes sectores: teologia e filosofia. A teologia é o conhecimento acerca de Deus. A filosofia são os conhecimentos humanos acerca das coisas e da Natureza e até mesmo de Deus por via racional. Nesta situação a palavra "filosofia" continua designando todo o conhecimento, menos o de Deus. E assim adentrou muito o século XVII. (Garcia Morente, 1970, p. 26 a 29)

A partir do século XVII, o campo imenso da filosofia começa a partir-se. Saem do seio da filosofia as ciências particulares: as matemáticas, física, química etc. Assim, actualmente, a filosofia é uma ciência que estuda as leis mais gerais do ser, do pensamento, do conhecimento e da acção. É uma concepção científica do mundo como um todo, da qual se pode deduzir certa forma de conduta. (Bazarian, s. d. p., p. 37)

A Filosofia Espírita é a interpretação dos fenómenos verificados e estudados pela Ciência Espírita. Esses fenómenos revelam ao homem a estrutura do Universo, que é a seguinte, como vemos em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec: Deus, Espírito e Matéria. Uma vez constatada essa realidade, e descoberto o mecanismo pelo qual o Espírito se manifesta através da matéria, cessa o trabalho da ciência, para começar a da filosofia”. (Allan Kardec) O carácter filosófico do Espiritismo está, portanto, no estudo que faz do Homem, sobretudo Espírito, de seus problemas, de sua origem, de sua destinação. Esse estudo leva ao conhecimento do mecanismo das relações dos Homens, que vivem na Terra, com aqueles que já se despediram dela, temporariamente, pela morte, estabelecendo as bases desse permanente relacionamento, e demonstra a existência, inquestionável, de algo que tudo ria e tudo comanda, inteligentemente - Deus. (Pedro Franco) O Espiritismo tem um aspecto filosófico porque, a partir dos fenómenos, dá uma interpretação da vida, isto é, responde àquelas perguntas que apresentamos (...) sobre o porquê da vida. De onde você veio e para onde você vai. A razão das desigualdades que observamos entre as criaturas. Trata-se de uma filosofia espiritualista porque admite, repito, com base nos factos mediúnicos e anímicos, a existência de um princípio espiritual no Universo, além do princípio material. Equivale dizer que o Espiritismo vê no ser humano, não apenas o corpo material, de carne e osso, de vísceras e sangue, de nervos e hormonas, mas também aquilo a que as religiões, há séculos, deram o nome de alma.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

ciência e espiritismo


Ciência e Espiritismo

SENTIDOS DA PALAVRA CIÊNCIA

A palavra ciência é usada com diversas significações. Em sentido amplo, ciência significa simplesmente conhecimento, como na expressão tomar ciência disto ou daquilo; em sentido restrito, ciência não significa um conhecimento qualquer, e sim um conhecimento que não só apreende ou registra factos, mas os demonstra pelas suas causas determinantes ou constitutivas. (Ruiz, 1979, p. 123)

CARACTERÍSTICAS DA CIÊNCIA

Cumpre observar que as definições de ciência são numerosas. Seria mais coerente enumerar algumas de suas características, ou seja:

Conhecimento pelas causas , ao contrário do conhecimento vulgar, o conhecimento científico implica em conhecer pelas causas. Se o cientista observa a chuva, ele quer saber porque chove, dispensando a influência dos deuses. Age da mesma forma com relação a um fato político. Com respeito ao aparecimento de Napoleão Bonaparte no quadro político internacional, o cientista não dirá simplesmente que Napoleão fora um génio militar, mas procurará as causas políticas e económicas que o fizeram emergir no cenário mundial.

Profundidade e generalidade de suas condições .

O conhecimento pelas causas é o modo mais íntimo e profundo de se atingir o real. A ciência não se contenta em registrar factos, quer também verificar a sua regularidade, a sua coerência lógica, a sua previsão etc. A ciência generaliza porque atinge a constituição íntima e a causa comum a todos os fenómenos da mesma espécie. A validade universal dos enunciados científicos confere à ciência a prerrogativa de fazer prognósticos seguros.

Objecto formal .

A finalidade da ciência é manifestar a evidência dos fatos e não das ideias. Procede por via experimental, indutiva, objectiva; suas demonstrações consistem na apresentação das causas físicas determinantes ou constitutivas das realidades experimentalmente controladas. Não se submete a argumentos de autoridade, mas tão-somente à evidência dos factos.

Controle dos factos

Ao utilizar a observação, a experiência e os testes estatísticos tenta dar um carácter de exactidão aos factos. Embora os enunciados científicos possam ser passíveis de revisões pela sua natureza “tentativa”, no seu estado actual de desenvolvimento, a ciência fixa degraus sólidos na subida para o integral conhecimento da realidade. (Ruiz, 1979, p. 124 a 126)

ALGUMAS DEFINIÇÕES

· Conhecimento certo do real pelas suas causas.
· Conjunto orgânico de conclusões certas e gerais metodicamente
· demonstradas e relacionadas com objecto determinado.
· Actividade que se propõe demonstrar a verdade dos factos experimentais e suas aplicações práticas.
. Estudo de problemas solúveis, mediante método científico.
· Conjunto de conhecimentos organizados relativos a uma determinada matéria, comprovados empiricamente. (Ruiz, 1979, p. 126)

HISTÓRICO

Garcia Morente, em Fundamentos de Filosofia, ao analisar o conceito de filosofia através dos tempos, conduz-nos à origem da ciência. Diz-nos ele que todo o conhecimento desde a Antiguidade clássica até a Idade Média era entendido como sendo filosófico. Somente a partir do século XVII, o campo imenso da filosofia começa a partir-se. Começam a sair do seio da filosofia as ciências particulares, não somente porque essas ciências vão se constituindo com seu objecto próprio, seus métodos próprios e seus progressos próprios, como também porque pouco a pouco os cultivadores vão igualmente se especializando. (1970, p. 28)

Devemos deixar claro que as ciências, por essa mesma razão se completam e uma necessita da outra. Observe que a Astronomia, a primeira das ciências, só atingiu a maioridade, depois que a Física veio revelar a lei de forças dos agentes naturais.

O Espiritismo entra nesse processo histórico dentro de uma característica sui generis, ou seja, enquanto a ciência propicia a revolução material, o Espiritismo deve propiciar a revolução moral. É que Espiritismo e Ciência se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo, se acha na impossibilidade de explicar certos fenómenos só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a Ciência, faltariam apoio e comprovação. O estudo das leis da matéria tinha que preceder o da espiritualidade, porque a matéria é que primeiro fere os sentidos. Se o Espiritismo tivesse vindo antes das descobertas científicas, teria abortado, como tudo quanto surge antes do tempo. (Kardec, 1975, p. 21)

RELAÇÃO ENTRE CIÊNCIA E RELIGIÃO

A estrutura do pensamento na Idade Média estava condicionada à Escolástica, movimento filosófico religioso, que submetia a razão à fé. Havia tamanha ingerência da Igreja nas questões sociais, políticas e económicas, que por qualquer desvio da ordem preestabelecida, muitos acabavam pagando com a própria vida por tal heresia. Acontece que as coisas se modificam e a verdade acaba por vencer os erros da ignorância.

Galileu, em 1609, constrói o telescópio e, com isso, muda radicalmente a visão do homem quanto ao Universo e à própria vida. Porém, o Santo Ofício contrapunha: o telescópio poderia, com efeito, revelar coisas inacessíveis à vista desarmada. Mas revelava-as, no dizer dos críticos, por mediação do demónio: era uma forma de magia e, por isso, fundamentalmente uma ilusão. Copérnico, Kepler e Galileu estavam a transformar o mundo visível num jogo de sombras. O Sol não se movia, a Terra sim, o céu tinha fantasmas escondidos. (Bronowski, 1988, p. 138)

Dizia Galileu acerca do uso de citações bíblicas nos assuntos da Ciência: “Parece-me que na discussão de problemas naturais, não devemos começar pela autoridade de passagens da Escritura, mas por experiências sensíveis e demonstrações necessárias. Pois, quer a Sagrada Escritura, quer a natureza, procedem ambas da Palavra Divina. (Bronowski, 1988, p. 140)

A consciência religiosa impregna-se de tal maneira em nosso psiquismo que não somos capazes de mudá-la a contento. Observe a perseguição que Calvino imputou a Serveto, médico e cientista que vivia em França, e que escreveu um livro atacando a doutrina ortodoxa da Trindade. A fúria de Calvino foi a ponto de, sendo ele mesmo herético da Igreja Católica, ter secretamente acusado Serveto de heresia junto da Inquisição católica da França. Embora o seu livro não tivesse sido escrito nem publicado em Genebra, Calvino prendeu Serveto e queimou-o na Fogueira. (Bronowski, 1988, p. 110)

Essa divergência entre ciência e religião continua ainda nos dias que correm. Contudo, de acordo com Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a Ciência e a Religião não puderam se entender até hoje, porque, cada uma examinando as coisas sob seu ponto de vista exclusivo, se repeliam mutuamente. Seria preciso alguma coisa para preencher o vazio que as separava, um traço de união que as aproximasse; esse traço de união está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as que regem o movimento dos astros e a existência dos seres. Essas relações, uma vez constatadas pela experiência, uma luz nova se fez: a fé se dirigiu à razão e a razão não tendo encontrado nada de ilógico na fé, o materialismo foi vencido. (1984, p. 37)

CIÊNCIA ESPÍRITA

CIÊNCIA NATURAL E CIÊNCIA ESPÍRITA

As Ciências Naturais, com o passar do tempo, deixaram de ser dogmáticas para serem teóricas experimentais. Elas tornam-se positivas, ou seja, baseiam-se em factos. Uma determinada teoria só existirá como lei se comprovada pelos factos. O Espiritismo não foge a essa regra e age da mesma sorte.


Ciência Espírita:

O conhecimento é fundamentado na observação e experiência. Formulam-se HIPÓTESES baseadas na mediunidade. Sobre as hipóteses estabelecem-se, dedutivamente CONSEQUÊNCIAS. As consequências serão aceitas como verdadeiras, se confirmadas pela observação e experiência mediúnicas — pela mediunidade.
O procedimento é idêntico. A diferença consiste na natureza das percepções consideradas. Desde que fique certificado que as percepções sensoriais e as percepções mediúnicas têm a mesma validade, o conhecimento é igualmente válido. (Curti, 1981, p. 17)

NOMES ESPÍRITAS

Embora o Espiritismo tenha feito muitos adeptos e conversões durante o próprio séc. XIX e início do séc. XX em diferentes meios sociais, chama a atenção o fascínio que a nova doutrina parece ter exercido no meio intelectual, artístico e científico da época, gerando tanto fervorosos adeptos como tenazes adversários. Arthur Conan Doyle, Victorien Sardou, Victor Hugo, Robert Owen, Cesare Lombroso, William Crookes, Oliver Lodge, Camille Flammarion, Charles Richet, entre outros, dedicaram-se a estudar o “outro lado”, recuperando o passado, revendo a religião à luz da ciência e encarando a morte sob novos aspectos. Grupos de cientistas reuniam-se em torno de médiuns, investigavam, eliminavam possibilidade de fraudes. Muitas dessas reuniões de estudos realizavam-se em centros de pesquisas e laboratórios e os convidados eram pessoas credenciadas pela comunidade intelectual e científica.
Um exemplo foram as 43 sessões organizadas pelo Instituto Geral Psicológico de Paris nos anos 1905, 1906 e 1907, com a médium Eusápia Paladino, que incluíram, na sua assistência, Bergson, o casal Curie e Debierne, o reitor da Sorbonne. Embora muitos dos assistentes do meio científico não ficassem convencidos, um grande número confessou a sua adesão.

Um dos mais importantes convertidos às novas descobertas propostas pelo Espiritismo foi Camille Flammarion ( 1842 - 1925 ), o eminente astrónomo e cientista do séc. XIX. Tornou-se espírita, amigo pessoal de Allan Kardec, e pronunciou o discurso fúnebre à beira de seu túmulo, imbuído pelas convicções doutrinárias espíritas, sobretudo a imortalidade da alma e a visão de que a morte era uma libertação, uma continuidade para uma nova existência espiritual.

Os fenómenos espíritas também repercutiram fora da França. Um dos cientistas mais importantes a dedicar-se ao estudo dos fenómenos foi o inglês William Crookes, cuja história está relacionada com a da médium Florence Cook e a materialização do espírito Katie King. Químico e astrónomo, a partir de 1856 fez parte da Sociedade Real de Londres dedicando-se a trabalhos fotográficos sobre a lua. Descobriu um processo, a amalgamação do sódio e pela análise espectral tornou conhecido um novo corpo metálico simples, o tálio. Através de uma série de experiências bem sucedidas demonstrou com exactidão um quarto estado da matéria, além do sólido, líquido e gasoso : O da matéria radiante. Com essa posição intelectual e científica, anunciou que iria se ocupar dos chamados fenómenos espíritas, com o rigor de um experimentador científico. Em 1874, publicou os primeiros resultados de suas pesquisa no “Quarterly Journal of Science”. Em Fevereiro de 1897 publicou suas observações sobre os fatos espíritas.

(...) Os fenómenos observados : Levitações, psicografia, telecinesia, materializações e aparições luminosas de objectos foram colocados como factos incontestáveis, que mereceriam uma laboriosa série de experiências e elaborações teóricas de acordo com as mais recentes descobertas científicas.

Para alguns outros convertidos, como Arthur Conan Doyle, o desabar da muralha entre o mundo dos mortos e dos vivos; os fatos que comprovam de forma cabal a sobrevivência após a morte e a comunicação entre mortos e vivos deveriam conduzir a uma grande transformação e esperança para o género humano pela formação de uma nova e actual expressão religiosa que levasse os homens a uma existência mais espiritualizada.

Cientistas de renome na Itália também passaram a integrar o conjunto de estudiosos dos chamados fenómenos psíquicos. Shiaparelli, Chiaia, Brotasi, Lombroso e Bozzano fizeram parte dessa galeria. Ernesto Bozzano destacou-se nesse grupo dedicando trinta anos às pesquisas psíquicas. Publicou inúmeros trabalhos científicos sobre o assunto, expondo os princípios básicos que o levaram a aderir à hipótese espírita por ser uma “necessidade lógica”.

Uma das conversões mais intrigantes do final do séc. XIX foi a de Cesare Lombroso, médico, higienista, psiquiatra e antropólogo. Seus famosos estudos estavam na área da Antropologia Criminal, nos quais revelava sua incondicional adesão aos de investigação científica positiva de sua época. Estudava homens e factos numa mesma perspectiva, como ponto de partida do método experimental. Estabeleceu uma teoria em que expunha a Génese Natural do Delito e as bases do sistema penal positivo, associando Direito Penal e Antropologia Criminal.

(...) Durante muitos anos, negou os fenómenos psíquicos e espirituais como charlatanice e credulidade simplória. Porém, após assistir a algumas sessões mediúnicas realizadas por Eusápia Paladino, e verificando a veracidade e autenticidade da produção dos fenómenos e das manifestações espirituais, Lombroso começou suas pesquisas.

Em 15 de Julho de 1891 foi publicada uma carta onde declarou sua rendição aos factos espirituais : Estou muito envergonhado e desgostoso por haver combatido com tanta persistência a possibilidade dos factos chamados espiríticos; digo factos, porque continuo ainda contrário à teoria. Mas os factos existem, e deles me orgulho de ser escravo.

No desenvolvimento de suas observações e estudos, Lombroso caminhou na direcção de aceitar a interferência e influência de seres espirituais sobre as manifestações e os fenómenos produzidos. Em 1909 publicou “Hipnotismo e Mediunidade”, onde descreveu, de forma categórica e imbuída do mais ortodoxo espírito científico, os resultados de seus estudos, diante das hipóteses espíritas e de sua veracidade e lógica.

(...) Também na Alemanha foram realizadas experiências científicas da sobrevivência após a morte. Faziam parte do grupo de especialistas, entre outros, Johann Karl Friedrich Zöllner, professor de física e astronomia da Universidade de Leipzig e elaborador da hipótese da teoria sobre a quarta dimensão do espaço; professor Wilhelm Edward Weber, de física e autor da doutrina da Vibração das Forças; Schneiber, matemático de renome na Universidade de Leipzig; Gustav Friedrich Fechner, físico e filósofo na mesma Universidade. Este grupo publicou em 1879 o resultado de suas pesquisas. Para eles tratava-se de uma Nova Ciência baseada em outra classe de Fenómenos Físicos, provando a existência e um outro mundo de seres inteligentes. Liderados por Zöllner, realizaram experiências com o famoso médium americano Henry Slade. Ocorreram materializações, levitações, aparições, psicografia de mensagens, que foram meticulosamente observadas, descritas e estudadas. Submetidos a considerações teóricas, os fenómenos observados revelavam uma dimensão científica e verdadeira, como um dos elementos fundamentais para a construção da teoria do espaço em quarta dimensão e da sobrevivência espiritual.

(...) É muito grande a galeria de cientistas ilustres dessa época seduzidos pelos fenómenos espíritas, realizando estudos, pesquisas, construindo teorias e revelando sua adesão, em maior ou menor grau, às novas crenças. Em vários países europeus e do continente americano, esses estudos apontam um mesmo caminho, que marcou a história do pensamento contemporâneo : A necessidade de comprovar pelos argumentos científicos aquilo que antes estava no domínio da fé religiosa”.

Artigo obtido da FEB.

Einstein, um dos maiores Cientistas de todos os tempos, disse certa vez : "A percepção do desconhecido é a mais fascinante das experiências. O homem que não tem os olhos abertos para o misterioso, passará pela vida sem ver nada". É dele também a frase : "Estamos começando a conceber a relação entre a ciência e a religião de um modo totalmente diferente da concepção clássica. Afirmo com todo o vigor que a religião cósmica é o móvel mais poderoso e mais generoso da pesquisa científica".

O Espiritismo, por sua vez, caracteriza-se por abordar, ao mesmo tempo, o factor Religioso, Científico e Filosófico, tornando-se assim uma Doutrina completa e bem fundamentada. Os factos a seguir têm como maior finalidade, examinar o relacionamento do Espiritismo com a Ciência, e mostrar que, já em nossos dias, eles caminham muito próximos e apenas um fino véu os separa diante dos nossos olhos.

O objectivo é mostrar que a Teoria Espírita não parte de ideias preconcebidas e imaginárias ; é fruto de um árduo trabalho de Pesquisa das inter-relações entre matéria e Espírito. Para tanto, procede da mesma forma que as Ciências Naturais..

A Ciência aumentou sobremaneira a capacidade de instrumentalização do homem. Desenvolvendo tecnologias avançadas, liberou a mão-de-obra para actuar na área de serviços e Pesquisas Científicas. À medida que a Ciência avança, o indivíduo fica com mais tempo livre. Os Princípios Espíritas auxiliam não só a dar uma direcção ao tempo livre do homem como também na criação e na utilização da nova tecnologia. Sem uma clara distinção entre o bem e o mal, podemos enveredar todo o nosso progresso Científico para a destruição do nosso Planeta.

O Espiritismo surgiu no momento oportuno, quando as Ciências já tinham desenvolvido o método teórico-experimental, facilitando a sua aceitação com mais naturalidade. Sabe-se que cada um deve progredir por si mesmo, descobrindo as suas próprias verdades. Porém, a presença de um Professor diminui o tempo que levaríamos, caso quiséssemos descobrir tudo por nós mesmos. O Espiritismo é esse Professor que nos estimula o pensamento na busca da verdade e na prática da caridade como meio de salvação de nossas alma

Por oportuno, vale lembrar aqui as pesquisas do Dr. Ian Stevenson, Psiquiatra americano, respeitadíssimo do ponto de vista de rigor científico e credibilidade a nível mundial, o qual tem se dedicado, praticamente toda a sua vida, às investigações relativas à Reencarnação. São quase 40 anos de pesquisas científicas com milhares de casos identificados em todo o mundo, relativas a crianças que se lembram de suas vidas passadas. Não sendo Espírita nem crente na Reencarnação, os fatos começaram a despertar nele a curiosidade e vontade de pesquisar.

Stevenson acha que se pode acreditar na Reencarnação com base em provas. Com mais de meia vida à procura de crianças que recordam vidas anteriores, estudou perto de 3 mil casos, alguns impressionantes.
Stevenson sabe que é ignorado por alguns dos seus pares, mas o seu trabalho é espantoso. Dos 14 livros publicados, as demonstrações para que os mais racionais acreditem na Reencarnação são fantásticas.

Um dia, quando as pessoas se consciencializarem desta realidade, haverá profunda alteração no tecido social do planeta, já que o homem sabendo que o seu futuro dependerá do seu agir de agora, não mais fará a guerra, deixará de ser xenófobo, racista, deixará de desprezar o pobre ou o marginal ou a pessoa do outro sexo, deixará de poluir a natureza, pois saberá que na próxima existência ele poderá passar pelas situações até então desprezadas para aprender a valorizá-las dentro da vida como experiências importantes para todos nós.

Parte dos Textos acima foi obtida de : Notícias Magazine, 02 Junho 2002, Portugal, «A reencarnação com base em provas».

CULTIVO DA CIÊNCIA ESPÍRITA

· A conquista dos segredos da natureza exige pesquisa paciente e metódica. Ninguém pretenda alcançar o conhecimento das leis naturais, agindo atabalhoadamente, sem um roteiro, sem um sistema racional, sem um método.

· O método não significa exclusivamente ordem. Faz, também, parte integrante dele a honestidade, o amor à verdade, o equilíbrio emocional, a ausência de prejuízos doutrinários e muitas outras atitudes positivas devem aureolar o verdadeiro investigador.

· Lembremo-nos de que o maior inimigo do pesquisador espírita é, sem dúvida, o seu emocional, carregado muitas vezes do pensamento mágico.

· Toda experiência carece ser cuidadosamente planejada e seus resultados submetidos a rigorosa análise. Ao legítimo pesquisador não interessa seja confirmada este ou aquele ponto vista, e sim revelado qual o que está certo. Para ele só há um objectivo: a verdade.

·Toda experimentação precisa ser repetida um grande número de vezes, e seus resultados convém anotados cuidadosamente para posterior tratamento estatístico.

· O Pesquisador científico do Espiritismo deve ter conhecimento das Ciências Naturais e da matemática. (Andrade, 1960, cap. II)

· Não se aprende a ciência espírita sem tempo para reflexão. Por isso, nada de precipitação. O correcto é aplicar-se de maneira exaustiva, excluir toda a influência material, e observar criteriosamente os fenómenos, tanto os bons quanto os maus.



8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ANDRADE, H. G. Novos Rumos à Experimentação Espirítica. São Paulo, Livraria Batuíra,1960. BRONOWSKI, J. e MAZLICHE, ___. A Tradição Intelectual do Ocidente. Lisboa, Edições 70, 1988.CURTI, R. Espiritismo e Reforma Íntima. 3. ed., São Paulo, FEESP, 1981.DELANNE, G. O Fenómeno Espírita. 5. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1990.FREIRE, J. Ciência e Espiritismo (Da Sabedoria Antiga à Época Contemporânea). 2 ed., Rio de Janeiro, FEB, 1955. GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.KARDEC, A. A Gênese - Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo. 17. ed., Rio de Janeiro, FEB, 1976.KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 39. ed., São Paulo, IDE, 1984.RUIZ, J. A. Metodologia Científica - Guia para Eficiência nos Estudos. São Paulo, Atlas, 1979.

domingo, 15 de abril de 2007

o passe espírita


O passe espírita

"E Deus, pelas mãos de Paulo, fazia milagres extraordinários, a ponto de levarem aos enfermos lenços e aventais do seu uso pessoal, diante dos quais as enfermidades fugiam das suas vítimas, e os Espíritos malignos se retiravam" - (Atos, cap. 19 - 11 e 12).

7.0 - O QUE É O PASSE

Desde os tempos mais antigos, a imposição das mãos é uma das fórmulas usadas pelas pessoas para auxiliar os enfermos ou afastar deles as más influências espirituais. Em muitos trechos da Bíblia, vemos Jesus e seus discípulos imporem as mãos sobre os necessitados, rogando a Deus que os curassem. Jesus fez largo uso dessa prática e disse que, se quiséssemos, poderíamos fazer o mesmo.

E desde aquele tempo o homem utiliza-se desse recurso para aliviar, consolar, melhorar e até curar doenças físicas e espirituais. Antes do advento do Espiritismo, sabia-se pouco sobre a prática desse costume. Os fenómenos de curas eram envoltos em mistérios e tidos como acontecimentos sobrenaturais.

Ao menos publicamente, ninguém se aventurou a dar explicações para o estranho poder que tinham as mãos para curar e aliviar os males físicos e espirituais. Com a chegada da Doutrina Espírita, os Espíritos superiores explicaram o porquê das coisas. Ensinaram que as mãos serviam como um instrumento para a projecção de fluidos magnetizados, doados pelo operador, e fluidos espirituais, trazidos pelos Espíritos. Segundo eles, os fluidos curativos eram absorvidos pela pessoa necessitada por meio dos centros vitais (chacras), acumuladores e distribuidores de energias, localizados no perispírito e pelo próprio corpo astral que age como uma esponja. Estavam assim explicadas, teoricamente, as curas promovidas por Jesus e pelos curadores de todos os tempos.

Entre nós, seguidores de Allan Kardec, a imposição de mãos sobre uma criatura com a intenção de aliviar sofrimentos, curá-la de algum mal, ou simplesmente fortalecê-la, ficou conhecida como "passe". O passe é um dos métodos utilizados nos centros espíritas para o alívio ou cura dos sofrimentos das pessoas. Quando ministrado com fé, o passe é capaz de produzir verdadeiros prodígios. Têm como objectivo o reequilíbrio do corpo físico e espiritual.

7.1 - O PASSISTA

O passista é aquele que ministra o passe. Ser um passista espírita é uma tarefa de grande responsabilidade, pois trata-se de ajudar e abençoar as pessoas em nome de Deus. Pessoas carentes e sedentas de melhoria, procuram no centro espírita o recurso do passe como forma de alívio das pressões psicológicas e sustentação para suas forças morais e físicas.

O passista não precisa ser um santo, mas necessita esforçar-se na melhoria íntima e no aprendizado intelectual. Armado do desejo sincero de servir, quase todos os iniciantes podem trabalhar neste sagrado ministério. O passista deve procurar viver uma vida sadia, tanto física quanto moralmente. Aos poucos, os vícios terrenos têm que ceder lugar às virtudes. O uso do cigarro e da bebida devem ser evitados. Como o passista doa de si uma parte dos fluidos que vão fortalecer o lado material e espiritual do necessitado, esses fluidos precisam estar limpos de vibrações deletérias oriundas de vícios.

No aspecto mental, o passista deve cultivar bons pensamentos no seu dia-a-dia. O orgulho, o egoísmo, a maledicência, a sensualidade exagerada e a violência nas atitudes devem ser combatidos constantemente. A Espiritualidade superior associa equipes de Benfeitores aos trabalhadores que se esforçam, multiplicando-lhes a capacidade de serviço.

A fé racional e a certeza no amparo dos bons Espíritos são sentimentos que devem estar presentes no coração de todos os passistas. É fundamental no trabalho de passe, doar-se com sinceridade à tarefa sob sua responsabilidade, vendo em todo sofredor uma alma carente de amparo e orientação. O passista não deve ter preferência por quem quer que seja. Seu auxílio deve ser igualmente distribuído a todas as criaturas. As elevadas condições morais do passista são fundamentais para que ele consiga obter um resultado satisfatório no serviço do passe. Portanto, todos podemos ministrar passes, porém é necessário um mínimo preparo moral a fim de que a ajuda seja o mais eficaz possível. Como todas as tarefas realizadas dentro do centro espírita, esta também carece de cuidados e atenção por parte de quem se propõe a executá-la.

"Como a todos é dado apelar aos bons Espíritos, orar e querer o bem, muitas vezes basta impor as mãos sobre a dor para a acalmar; é o que pode fazer qualquer um, se trouxer a fé, o fervor, a vontade e a confiança em Deus" - (Allan Kardec - Revista Espírita, Setembro, 1865).

O que é necessário para ser um bom passista?

Allan Kardec nos instrui a respeito: "A primeira condição para isto é trabalhar em sua própria depuração (moral e ética), a fim de não alterar os fluidos salutares que está encarregado de transmitir. Esta condição não poderia ser executada sem o mais completo desinteresse material e moral. O primeiro é o mais fácil, e o segundo é o mais raro, porque o orgulho e o egoísmo são sentimentos difíceis de se extirpar, e porque várias causas contribuem para os superexcitar nos médiuns" - (Allan Kardec - Revista Espírita, Novembro, 1866).

Condições básicas para o exercício do passe espírita

Fé; Amor ao próximo; Disciplina; Vontade; Conhecimento; Equilíbrio psíquico; Humildade; Devotamento; Abnegação.

"Se pretendes, pois guardar as vantagens do passe, que em substância, é ato sublime de fraternidade cristã, purifica o sentimento e o raciocínio, o coração e o cérebro" - (Espírito Emmanuel, no livro Segue-me).

Factores negativos físicos, que prejudicam o passe

Uso do fumo e do álcool ; Desequilíbrio nervoso; Alimentos inadequados.

Factores negativos espirituais e morais, que prejudicam o passe

Mágoas, más paixões, egoísmo, orgulho, vaidade, cupidez, vida desonesta, adultério etc.

"O fluido humano está sempre mais ou menos impregnado de impurezas físicas e morais do encarnado; o dos bons Espíritos é necessariamente mais puro e, por isto mesmo, tem propriedades mais activas, que acarretam uma cura mais pronta. Mas, passando através do encarnado pode alterar-se. Daí, para todo médium curador, a necessidade de trabalhar para seu melhoramento moral" - (Allan Kardec - Revista Espírita, Setembro, 1865).

7.2 - TIPOS DE PASSES

Os passes podem ser classificados em três categorias: Passe magnético, Passe espiritual e Passe misto.

a) Passe magnético

É um tipo de passe em que a pessoa doa apenas seus fluidos, utilizando a força magnética existente no próprio corpo perispiritual. Pelo menos em tese, qualquer criatura pode ministrá-lo. Suas qualidades variam segundo a condição moral do passista, sua capacidade de doar fluidos e seu desejo sincero de amparar o próximo. No passe magnético, geralmente se recebe assistência espiritual. Isso acontece porque os Espíritos superiores sempre ajudam aqueles que, imbuídos de boa vontade, atendem aos mais carentes. Lembramos aqui, que o socorro dos Benfeitores é independente da crença que o passista ou magnetizador possa ter em Deus ou na Espiritualidade. Os Espíritos disseram a Allan Kardec, em "O Livro dos Médiuns", questão 176 :
"...muito embora uma pessoa desejosa de fazer o bem não acredite em Deus, Deus acredita nela".

b) Passe espiritual

É uma espécie de magnetização feita pelos bons Espíritos, sem intermediários, directamente no perispírito das pessoas enfermas ou perturbadas. No passe espiritual o necessitado não recebe fluidos magnéticos de médiuns, mas outros, mais finos e puros, trazidos dos planos superiores da Vida, pelo Espírito que veio assisti-lo. Pelo fato de não estar misturado ao fluido animalizado, o passe espiritual é bem mais limitado que as outras modalidades de passes. Com isso, pode-se compreender que os recursos oferecidos nas reuniões públicas de Espiritismo, onde participam grande quantidade de encarnados e Espíritos desencarnados, são bem maiores do que aqueles que podemos contar em nossas residências, só com a ajuda do anjo guardião.

c) Passe misto

É uma modalidade de passe onde se misturam os fluidos do passista com os da Espiritualidade. A combinação é muito maior do que no passe puramente magnético e seus efeitos bem mais salutares. Este é o tipo de passe que é aplicado nos centros espíritas, contando com a ajuda de equipes espirituais que trabalham nessa área, para ajuda dos necessitados. Os benfeitores espirituais comparecem no momento do passe, atendendo aos encarnados e também ministrando eficiente socorro às entidades do plano espiritual. Eles agem aumentando, dirigindo e qualificando nossos fluidos. Mas para que se possa contar sempre com a ajuda dos bons Espíritos, é necessário observar os cuidados já ditos anteriormente sobre a depuração íntima de cada um dos que estão imbuídos do desejo de fazer o bem.

"...Para curar pela acção fluídica, os fluidos mais depurados são os mais saudáveis; desde que esses fluidos benéficos são dos Espíritos superiores, então é o concurso deles que é preciso obter. Por isto a prece e a evocação são necessárias. Mas para orar e, sobretudo, orar com fervor, é preciso fé. Para que a prece seja escutada é preciso que seja feita com humildade e dilatada por um real sentimento de benevolência e de caridade. Ora, não há verdadeira caridade sem devotamente, nem devotamente sem desinteresse" - (Allan Kardec - Revista Espírita, Janeiro, 1864).

7.3 - O PASSE NO CENTRO ESPÍRITA

O passe destina-se ao tratamento e profilaxia de enfermidades físicas e espirituais junto aos necessitados que procuram o centro espírita. A equipe de passistas deve estar alinhada no mesmo pensamento de ajudar essas pessoas carentes de amparo. O serviço de aplicação do passe requer critério, discernimento, responsabilidade e conhecimento doutrinário. É um complemento aos recursos de automelhoramento e de reeducação espiritual utilizados normalmente.

a) A Técnica do Passe Espírita

Há uma certa discussão no meio espírita sobre como deveria ser aplicado o passe. Alguns defendem a tese de que os passes deveriam ser ministrados movimentando-se as mãos ao redor do corpo do indivíduo, de modo que as energias espirituais pudessem melhor atingir seus objectivos de cura. Outros, acham que o ato de apenas impor as mãos sobre a cabeça de quem vai receber o passe já é suficiente. André Luiz nos informa em "Conduta Espírita" que o passe dispensa qualquer recurso espectacular. José Herculano Pires, no livro "Mediunidade", diz que o passe é tão simples que não se pode fazer nada mais do que dá-lo.

Allan Kardec, referindo-se ao assunto na Revista Espírita, número de Setembro de 1865, diz aos médiuns que: "Apenas sua ignorância lhes faz crer na influência desta ou daquela forma. Às vezes, mesmo, a isto misturam práticas evidentemente supersticiosas, às quais se deve emprestar o valor que merecem".

Oficialmente, a Doutrina Espírita não prescreve uma metodologia para o passe. Cada grupo é livre para se posicionar de um modo ou de outro, desde que sem exageros. A técnica deve ser o mais simples possível, evitando-se fórmulas, exageros e gesticulação em torno do paciente. Cada grupo deve ter o bom senso de trabalhar da forma que achar mais conveniente desde que dentro de uma fundamentação doutrinária lógica. O que é preciso levar em conta é que nenhuma das duas formas de aplicar o passe surtirá efeito se o médium não tiver dentro de si a vontade de ajudar e condições morais salutares para concretizá-lo. Mesmo que se aplique a melhor metodologia, não se conseguirão bons resultados se o passista for pessoa de má índole.

b) Quando o Passe deve ser aplicado?

A variação das condições fluídicas perispirituais de qualquer criatura viva produz desequilíbrios orgânicos e psicológicos, que podem dar origem a enfermidades. Alterações psicológicas ou traumas orgânicos podem provocar mudanças fluídicas na camada exterior do perispírito, agravando doenças ou iniciando estados mórbidos. Daí, a importância da terapia energética dos passes como tratamento, mas principalmente como profilaxia das enfermidades. Por isso o passe deve ser aplicado regularmente, desde que seja esclarecido que o procedimento não é obrigatório, para desvinculá-lo de ritual ou dogma.

sábado, 14 de abril de 2007

Allan Kardec


Allan Kardec

Nascido em Lion, a 3 de Outubro de 1804, de uma família antiga que se distinguiu na magistratura e na advocacia, Allan Kardec (Hippolyte Léon Denizard Rivail) não seguiu essas carreiras. Desde a primeira juventude, sentiu-se inclinado ao estudo das ciências e da filosofia.
Educado na Escola de Pestalozzi, em Yverdun (Suíça), tornou-se um dos mais eminentes discípulos desse célebre professor e um dos zelosos propagandistas do seu sistema de educação, que tão grande influência exerceu sobre a reforma do ensino na França e na Alemanha.


Dotado de notável inteligência e atraído para o ensino, pelo seu carácter e pelas suas aptidões especiais, já aos catorze anos ensinava o que sabia àqueles dos seus condiscípulos que haviam aprendido menos do que ele. Foi nessa escola que lhe desabrocharam as ideias que mais tarde o colocariam na classe dos homens progressistas e dos livre -pensadores.


Nascido sob a religião católica, mas educado num país protestante, os actos de intolerância que por isso teve de suportar, no tocante a essa circunstância, cedo o levaram a conceber a ideia de uma reforma religiosa, na qual trabalhou em silêncio durante longos anos com o intuito de alcançar a unificação das crenças. Faltava-lhe, porém, o elemento indispensável à solução desse grande problema.


O Espiritismo veio, a seu tempo, imprimir-lhe especial direcção aos trabalhos.
Concluídos seus estudos, voltou para a França. Conhecendo a fundo a língua alemã, traduzia para a Alemanha diferentes obras de educação e de moral e, o que é muito característico, as obras de Fénelon, que o tinham seduzido de modo particular.


Era membro de várias sociedades sábias, entre outras, da Academia Real de Arras, que, em o concurso de 1831, lhe premiou uma notável memória sobre a seguinte questão: Qual o sistema de estudos mais de harmonia com as necessidades da época?


De 1835 a 1840, fundou, em sua casa, à rua de Sèvres, cursos gratuitos de Química, Física, Anatomia comparada, Astronomia, etc., empresa digna de encómios em todos os tempos, mas, sobretudo, numa época em que só um número muito reduzido de inteligências ousava enveredar por esse caminho.


Preocupado sempre com o tornar atraentes e interessantes os sistemas de educação, inventou, ao mesmo tempo, um método engenhoso de ensinar a contar e um quadro mnemónico da História de França, tendo por objectivo fixar na memória as datas dos acontecimentos de maior relevo e as descobertas que iluminaram cada reinado.


Entre as suas numerosas obras de educação, citaremos as seguintes: Plano proposto para melhoramento da Instrução pública (1828); Curso prático e teórico de Aritmética, segundo o método Pestalozzi, para uso dos professores e das mães de família (1824); Gramática francesa clássica (1831); Manual dos exames para os títulos de capacidade; Soluções racionais das questões e problemas de Aritmética e de Geometria (1846); Catecismo gramatical da língua francesa (1848); Programa dos cursos usuais de Química, Física, Astronomia, Fisiologia, que ele professava no Liceu Polimático; Ditados normais dos exames da Municipalidade e da Sorbona, seguidos de Ditados especiais sobre as dificuldades ortográficas (1849), obra muito apreciada na época do seu aparecimento e da qual ainda recentemente eram tiradas novas edições.
Antes que o Espiritismo lhe popularizasse o pseudónimo de Allan Kardec, já ele se ilustrara, como se vê, por meio de trabalhos de natureza muito diferente, porém tendo todos, como objectivo, esclarecer as massas e prendê-las melhor às respectivas famílias e países.

Pelo ano de 1855, posta em foco a questão das manifestações dos Espíritos, Allan Kardec se entregou a observações perseverantes sobre esse fenómeno, cogitando principalmente de lhe deduzir as consequências filosóficas. Entreviu, desde logo, o princípio de novas leis naturais: as que regem as relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Reconheceu, na acção deste último, uma das forças da Natureza, cujo conhecimento haveria de lançar luz sobre uma imensidade de problemas tidos por insolúveis, e lhe compreendeu o alcance, do ponto de vista religioso.


Suas obras principais sobre esta matéria são: O Livro dos Espíritos, referente à parte filosófica, e cuja primeira edição apareceu a 18 de Abril de 1857; O Livro dos Médiuns, relativo à parte experimental e científica (Janeiro de 1861); O Evangelho segundo o Espiritismo, concernente à parte moral (Abril de 1864); O Céu e o Inferno, ou A justiça de Deus segundo o Espiritismo (Agosto de 1865); A Génese, os Milagres e as Predições (Janeiro de 1868); A Revista Espírita, jornal de estudos psicológicos, periódico mensal começado a 1º de Janeiro de 1858. Fundou em Paris, a 1º de Abril de 1858, a primeira Sociedade espírita regularmente constituída, sob a denominação de Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cujo fim exclusivo era o estudo de quanto possa contribuir para o progresso da nova ciência. Allan Kardec se defendeu, com inteiro fundamento, de coisa alguma haver escrito debaixo da influência de ideias preconcebidas ou sistemáticas. Homem de carácter frio e calmo, observou os factos e de suas observações deduziu as leis que os regem. Foi o primeiro a apresentar a teoria relativa a tais factos e a formar com eles um corpo de doutrina, metódico e regular.


Demonstrando que os factos erroneamente qualificados de sobrenaturais se acham submetidos a leis, ele os incluiu na ordem dos fenómenos da Natureza, destruindo assim o último refúgio do maravilhoso e um dos elementos da superstição.


Durante os primeiros anos em que se tratou de fenómenos espíritas, estes constituíram antes objecto de curiosidade, do que de meditações sérias. O Livro dos Espíritos diz que o assunto fosse considerado sob aspecto muito diverso. Abandonaram-se as mesas volantes, que tinham sido apenas um prelúdio, e começou-se a atentar na doutrina, que abrange todas as questões de interesse para a Humanidade.


Data do aparecimento de O Livro dos Espíritos a fundação de Espiritismo que, até então, só contara com elementos esparsos, sem coordenação, e cujo alcance nem toda gente pudera apreender. A partir daquele momento, a doutrina prendeu a atenção de homens sérios e tomou rápido desenvolvimento. Em poucos anos, aquelas ideias conquistaram numerosos aderentes em todas as camadas sociais e em todos os países. Esse êxito sem precedentes decorreu sem dúvida da simpatia que tais ideias despertaram, mas também é devido, em grande parte, à clareza com que foram expostas e que é um dos característicos dos escritos de Allan Kardec.


Evitando as fórmulas abstractas da Metafísica, ele soube fazer que todos o lessem sem fadiga, condição essencial à vulgarização de uma ideia. Sobre todos os pontos controversos, sua argumentação, de cerrada lógica, poucas ensanchas oferece à refutação e predispõe à convicção. As provas materiais que o Espiritismo apresenta da existência da alma e da vida futura tendem a destruir as ideias materialistas e panteístas. Um dos princípios mais fecundos dessa doutrina e que deriva do precedente é o da pluralidade das existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos antigos e modernos e, nestes últimos tempos, por João Reynaud, Carlos Fourier, Eugênio Sue e outros. Conservara-se, todavia, em estado de hipótese e de sistema, enquanto o Espiritismo lhe demonstrara a realidade e prova que nesse princípio reside um dos atributos essenciais da Humanidade. Dele promana a explicação de todas as aparentes anomalias da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais, facultando ao homem saber donde vem, para onde vai, para que fim se acha na Terra e por que aí sofre.


As ideias inatas se explicam pelos conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e da Humanidade, pela acção dos homens dos tempos idos e que revivem, depois de terem progredido; as simpatias e antipatias, pela natureza das relações anteriores. Essas relações, que religam a grande família humana de todas as épocas, dão por base, aos grandes princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de solidariedade universal, as próprias leis da Natureza e não mais uma simples teoria.


Em vez do postulado: Fora da Igreja não há salvação, que alimenta a separação e a animosidade entre as diferentes seitas religiosas e que há feito correr tanto sangue, o Espiritismo tem como divisa: Fora da Caridade não há salvação, isto é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância, a liberdade de consciência e a benevolência mútua.


Em vez da fé cega, que anula a liberdade de pensar, ele diz: Não há fé inabalável, senão a que pode encarar face a face a razão, em todas as épocas da Humanidade. A fé, uma base se faz necessária e essa base é a inteligência perfeita daquilo em que se tem de crer. Para crer, não basta ver, é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é para este século. É precisamente ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje tão grande o número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abolição de uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio.


Trabalhador infatigável, sempre o primeiro a tomar da obra e o último a deixá-la, Allan Kardec sucumbiu, a 31 de Março de 1869, quando se preparava para uma mudança de local, imposta pela extensão considerável de suas múltiplas ocupações. Diversas obras que ele estava quase a terminar, ou que aguardavam oportunidade para vir a lume, demonstrarão um dia, ainda mais, a extensão e o poder das suas concepções.


Morreu conforme viveu: trabalhando. Sofria, desde longos anos, de uma enfermidade do coração, que só podia ser combatida por meio do repouso intelectual e pequena actividade material. Consagrado, porém, todo inteiro à sua obra, recusava-se a tudo o que pudesse absorver um só que fosse de seus instantes, à custa das suas ocupações predilectas. Deu-se com ele o que se dá com todas as almas de forte têmpera: a lâmina gastou a bainha.


O corpo se lhe entorpecia e se recusava aos serviços que o Espírito lhe reclamava, enquanto este último, cada vez mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, ia sempre alargando o círculo de sua actividade.


Nessa luta desigual não podia a matéria resistir eternamente. Acabou sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e Allan Kardec caiu fulminado. Um homem houve de menos na Terra; mas, um grande nome tomava lugar entre os que ilustraram este século; um grande Espírito fora retemperar-se no Infinito, onde todos os que ele consolara e esclarecera lhe aguardavam impacientemente a volta!


A morte, dizia, faz pouco tempo, redobra os seus golpes nas fileiras ilustres!... A quem virá ela agora libertar?
Ele foi, como tantos outros, recobrar-se no Espaço, procurar elementos novos para restaurar o seu organismo gasto por um vida de incessantes labores. Partiu com os que serão os fanais da nova geração, para voltar em breve com eles a continuar e acabar a obra deixada em dedicadas mãos.


O homem já aqui não está; a alma, porém, permanecerá entre nós. Será um protector seguro, uma luz a mais, um trabalhador incansável que as falanges do Espaço conquistaram. Como na Terra, sem ferir a quem quer que seja, ele fará que cada um lhe ouça os conselhos oportunos; abrandará o zelo prematuro dos ardilosos, amparará os sinceros e os desinteressados e estimulará os mornos. Vê agora e sabe tudo o que ainda há pouco previa! Já não está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos e nos fará partilhar da sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo a meta, apontando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que o tornou aureolado nos anais literários.


Já não existe o homem, repetimo-lo. Entretanto, Allan Kardec é imortal e a sua memória, seus trabalhos, seu Espírito estarão sempre com os que empunharem forte e vigorosamente o estandarte que ele soube sempre fazer respeitado.


Uma individualidade pujante constituiu a obra. Era o guia e o fanal de todos. Na Terra, a obra subsistirá o obreiro. Os crentes não se congregarão em torno de Allan Kardec; congregar-se-ão em torno do Espiritismo, tal como ele o estruturou e, com os seus conselhos, sua influência, avançaremos, a passos firmes, para as fases ditosas prometidas à Humanidade regenerada.


Extraído de “obras póstumas” de Allan Kardec

A História das irmãs Fox


A História das Irmãs Fox

Este é um fenómeno de obsessão que chamou a atenção sobre as manifestações dos Espíritos, na América, no século XIX. Golpes, dos quais ninguém pode adivinhar a causa, se fizeram ouvir pela primeira vez em 1846 na casa de alguém denominado Veckmann, habitante de uma pequena vila chamada Hydesville no estado de New-York. Tudo foi feito para descobrir o autor desses ruídos misteriosos, mas nada se conseguiu. Seis meses mais tarde, em 1847, essa família vendeu a casa que foi então habitada por um membro da igreja episcopal metodista: Sr. John Fox e sua família, composta de sua mulher e de suas filhas, Margaret então com 14 anos e Kate, de 11 anos. A família Fox era composta de seis crianças mas apenas Margaret e Kate Viviam então com seus pais.

Durante três meses eles ficaram tranquilos, depois os golpes recomeçaram num alto grau. Primeiro vieram ruídos mais rápidos, como se algo caísse sobre o soalho de um dos quartos de dormir, e, a cada vez, uma vibração se fazia sentir sobre o soalho, que era percebida mesmo se estando deitado. O solo vibrava tão forte que as camas tremiam e se sentia essa vibração tendo início sobre o soalho. Os golpes se faziam ouvir sem parar, não havendo mais meio de se dormir na casa.

Em 31 de Março de 1848, a senhora Fox e suas filhas, não tendo podido dormir durante a noite precedente, e exaustas de fadiga, se deitaram cedo, no mesmo quarto, esperando assim escapar às manifestações que se produziam ordinariamente no meio da noite. O Sr. Fox estava então ausente. Logo os golpes começaram, e as duas jovens meninas, acordadas com a algazarra, começaram a imitar fazendo batidas com seus dedos. Para seu grande espanto os golpes responderam a cada batida, então a mais jovem das meninas, Kate, querendo verificar o facto surpreendente; deu uma batida, ouviram um golpe, dois, três, etc., e sempre o ser ou agente invisível devolvia o mesmo número de golpes. Sua irmã disse brincando: “Agora faça como eu, conte um, dois, três, quatro, etc.,” batendo com suas mãos, de cada vez, o número indicado. Os golpes se seguiram com a mesma precisão, mas esse sinal de inteligência alarmou a mais jovem, e ela logo cessou a experiência.

A Sra. Fox disse então: “Conte até dez.” O agente bateu dez vezes. A mãe colocou uma série de perguntas e as respostas, dadas por cifra, mostraram um grande conhecimento de seus próprios assuntos que ela mesma não recordava; porque os golpes insistiam sobre o facto de que ela tinha sete crianças enquanto que ela protestava não ter posto no mundo senão seis, até que um sétimo, morto precocemente, lhe viesse à memória. A esta questão: “Você que bate é um homem?” nenhuma resposta vinha; mas àquela “Você é um Espírito?” era respondida por golpes rápidos e nítidos. Chamou-se uma vizinha, madame Redfield; seu divertimento mudou em admiração e depois em terror à medida que ouvia, ela mesmo, as respostas correctas à questões íntimas.

A Madame Fox disse então ao seu interlocutor invisível: “Se nós fizermos vir os vizinhos, os golpes continuarão a responder?” Um golpe se fez ouvir em sinal de afirmação. Os vizinhos chamados não demoraram a vir, contando descobrir o batedor invisível por todos os meios de busca possíveis; mas a exactidão de uma multidão de detalhes dados assim por golpes, em resposta às questões endereçadas ao ser invisível, sobre os assuntos particulares de cada um, convenceram os mais incrédulos. Os rumores dessas coisas se propagaram ao longe, e logo chegaram de todos os lados padres, juízes, médicos e uma multidão de cidadãos.

Os vizinhos acorreram em multidões enquanto que se expandiam os rumores a propósito dessa maravilha; as duas crianças foram levadas por um deles enquanto a Sra. Fox ia passar as noites em casa da Sra. Redfield. Em sua ausência, o fenómeno se produzia exactamente como antes, o que, de uma vez por todas, reduziu ao silêncio todas as teorias de quebra dos artelhos e de joelhos deslocados que as pessoas perfeitamente ignorantes dos factos reais frequentemente colocaram. Todos os meios de pesquisa foram praticados para descobrir o batedor invisível, mas a averiguação da família, e de toda a vizinhança, foi inútil. Não se pode descobrir a causa natural dessas manifestações singulares.

As experiências se seguiram, numerosas e precisas. Na manhã seguinte, a casa estava cheia a crepitar, mais de trezentas pessoas estavam presentes nesse momento. Os curiosos, atraídos por esses fenómenos novos, não se contentavam mais em perguntas e respostas. Um deles, chamado Isaac Post, teve a ideia de recitar em alta voz as letras do alfabeto, rogando ao Espírito a gentileza de bater um golpe sobre aquelas que compusessem as palavras que ele queria fazer compreender. Nesse dia, a telegrafia espiritual havia sido descoberta: esse procedimento é aquele que veremos aplicar às mesas girantes.

Tal foi a primeira conversação que teve lugar nos tempos modernos e que se haja constatado, entre os seres de outro mundo e deste aqui. De certa maneira, a Sra. Fox conseguiu saber que o Espírito que lhe respondia, era aquele de um homem que tinha sido assassinado na casa que habitava, vários anos antes, que se chamava Charles B. Rosma, que era mascate e tinha trinta e um anos, enquanto a pessoa com a qual morava o molestou para pegar seu dinheiro e o enterrou na adega. Ossada humana foi efectivamente encontrada mais tarde.

Eis em sua simplicidade, o início do fenómeno que viria revolucionar o mundo inteiro. Negado pelos sábios oficiais, ridicularizado pela imprensa dos dois mundos, colocado no ‘indexe pelas religiões receosas e ciumentas, suspeito na justiça, explorado pelos charlatães sem vergonha, o Espiritismo deveria entretanto fazer seu caminho e conquistar aderentes, cujas cifras se elevam a milhões, porque possui a força mais possante de todas: a verdade.

O espírito engaja as jovens a divulgar suas manifestações, com o que convencerá os incrédulos de sua existência. A família Fox se fixa em Rochester e, seguindo os conselhos de seu amigo do espaço, as jovens missionárias não hesitam em desafiar o fanatismo protestante propondo se submeterem ao mais rigoroso controle.

Acusados de impostura e submetidos pelos ministros de sua confissão a renunciar a essas práticas, o Sr. e a Sra. Fox, fizeram da propagação do conhecimento desses fenómenos, que eles consideravam como uma grande e consoladora verdade, útil para todos, um dever supremo, e recusando a se submeter, foram perseguidos pela sua Igreja. Os adeptos que se reunissem em torno deles sofreriam a mesma reprovação.

Os conservadores fanáticos conduziram a população contra a família Fox. Os apóstolos da nova fé ofereceram, então, fazer a prova pública da realidade das manifestações diante da população reunida no Corynthia-Hall, o maior salão da vila. Começou-se por uma conferência onde foram expostos os progressos do fenómeno após os primeiros dias. Essa comunicação, acolhida por vaias, terminou contudo com a nomeação de uma comissão encarregada de examinar os factos. Contra a expectativa geral, e contra sua convicção própria, a comissão foi forçada declarar que após o exame mais minucioso, não teria podido descobrir nenhum traço de fraude. Eles davam crédito de que esses golpes chegavam sobre os muros e as portas, de qualquer distância das mocinhas, ocasionando vibrações sensíveis. Malograram descobrir qualquer meio pelo qual se teria podido obtê-los.

Nomeou-se imediatamente uma segunda comissão que recorreu a procedimentos de investigação ainda mais rigorosos; fez-se revistar e mesmo despir as médiuns, por senhoras, bem entendido, sempre ouvindo os ‘rappings’ (golpes batidos na mesa), os móveis em movimento, as respostas a todas as questões, mesmo mentais; nada de ventriloquismo, de subterfúgios, de possíveis dúvidas. O segundo relatório foi ainda mais favorável que o primeiro, sobre a perfeita boa fé dos espíritos e a realidade do incrível fenómeno. É impossível – disse a Sra. Hardinge – descrever a indignação que se manifestou a essa segunda decepção. O relatório final declara que “os ruídos estão entendidos e que seu exame completo tinha mostrado de maneira decisiva que eles não eram produzidos nem por um mecanismo nem por ventriloquismo, ainda que, sobre a natureza do agente que os produziram, fossem incapazes de se pronunciar.”

Uma terceira comissão foi imediatamente escolhida entre os mais incrédulos e os mais ridicularizadores. O resultado dessas investigações, ainda mais ultrajantes que as duas outras para as pobres jovens meninas, provocaram ainda, mais do que nunca, a confusão de seus detractores. O comité testemunhou em seguida que suas questões, algumas colocadas mentalmente, tinham recebido respostas correctas.

A multidão, exasperada, convencida da traição dos comissários e de sua conivência com as impostoras, tinha declarado que, se o relatório fosse favorável, linchariam as médiuns e seus advogados. As jovens meninas, malgrado seu terror, escoltadas por sua família e alguns amigos, se apresentaram na reunião e tomaram lugar sobre o estrado do grande salão, totalmente decididas a perecer, se preciso fosse, mártires de uma impopular mas indiscutível verdade.
A leitura do relatório foi feita por um membro da comissão que tinha jurado que descobriria o truque, mas que confessou que a causa dos golpes, malgrado as mais minuciosos pesquisas, lhe era desconhecida. No mesmo instante teve lugar um tumulto horrendo: a populaça queria linchar as jovens meninas, e elas o teriam sido sem a intervenção de um quaker, de nome Georges Villets, que as protegeu com seu corpo e reconduziu a multidão a sentimentos mais humanos.

Vê-se, pela narração, que o Espiritismo foi estudado severamente desde seu início. Não foram apenas os vizinhos, mais ou menos ignorantes, que constataram um fato inexplicável, mas comissões, regularmente nomeadas, que, após pesquisas minuciosas, foram obrigadas a reconhecer a autenticidade absoluta do fenómeno. As tentativas para desmascarar as fraudes nos fenómenos tiveram lugar regularmente. Deve-se notar que este evento, que está no nascimento do Espiritismo, está sujeito a numerosas deformações e desinformações da parte dos oponentes do Espiritismo. Assim o jesuíta Lucien Roure, na sua obra “O Espiritismo maravilhoso” defende que ninguém tinha colocado a questão de saber se o fenómeno seria devido a fraudes e deixa mesmo insinuar que poderiam ter sido produzidos pelo joelho, pelos artelhos ou pela cavilha! Outros irão até dizer que a mais jovem das meninas era ventríloqua! Essas afirmativas gratuitas, sem fundamentos, não podem explicar os efeitos dos fenómenos constatados, e sua autenticidade confirmada por comissões hostis e fanáticas.

É bom anotar:
Os golpes de batidas tinham começado antes da chegada das irmãs Fox.
Nenhuma sugestão poderia explicar esse fenómeno uma vez que o Espiritismo não tinha ainda nascido.
Nenhuma manifestação inconsciente poderia também explicar este fenómeno , encontrou-se as ossadas do Espírito que se comunicou conforme suas indicações.
Os fenómenos foram desde o início submetidos à mais severa crítica e disso saíram autenticados.

Para saber mais :
História do Espiritismo de Arthur Conan Doyle. (cap. IV, o episódio de Hydesville)
O Fenómeno espírita de Gabriel Delanne. (1ª parte, cap. II)
Le Spiritisme devant la Science de Gabriel Delanne. (3ème partie, chap. I, historique)
No Invisível - Léon Denis. (2ª parte, cap. XVI)
Le Spiritisme du Dr Paul Gibier. (1ère partie, chap. III)
La Revue Spirite 1998 - nº 36, p.39 e 37, p.22 (A história das irmãs Fox)