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quinta-feira, 24 de abril de 2008

Polémica espírita


Polémica espírita

Várias vezes perguntaram-nos por que não respondemos, em nosso jornal, aos ataques de certas folhas dirigidos contra o Espiritismo em geral, contra seus partidários, e, algumas vezes mesmo, contra nós. Cremos que, em certos casos, o silêncio é a melhor resposta.
Aliás, há um género de polémica do qual fizemos uma lei nos abstermos, e é aquela que pode degenerar em personalismo; não somente ela nos repugna, mas nos toma um tempo que podemos empregar mais utilmente, e seria muito mais interessante para nossos leitores, que assinam para se instruírem, e não para ouvirem diatribes, mais ou menos espirituais; ora, uma vez iniciados nesse caminho, seria difícil dele sair, por isso preferimos não entrar e pensamos que o Espiritismo, com isso, não pode senão ganhar em dignidade. Não temos, até o presente, senão que nos aplaudir por nossa moderação; dela não nos desviaremos, e não daremos jamais satisfação aos amadores de escândalo.

Mas, há polémica e polémica; e há uma diante da qual não recuaremos jamais, que é a discussão séria dos princípios que professamos. Entretanto, aqui mesmo há uma distinção a fazer; se não se trata senão de ataques gerais, dirigidos contra a Doutrina, sem outro fim determinado que o de criticar, e da parte de pessoas que têm um propósito de rejeitar tudo o que não compreendem, isso não merece que deles se ocupe; o terreno que o Espiritismo ganha, cada dia, é uma resposta suficientemente peremptória, e que deve provar-lhes que seus sarcasmos não produziram grande efeito; também notamos que a sequência ininterrupta de gracejos, dos quais os partidários da Doutrina eram objecto recentemente, se apaga pouco a pouco; pergunta-se, quando se vêem tantas pessoas eminentes adoptarem essas ideias novas, se há do que se rir; alguns não riem senão com desprezo e por hábito, muitos outros não riem mais de tudo e esperam.
Notamos ainda que, entre os críticos, há muitas pessoas que falam sem conhecer a coisa, sem terem se dado ao trabalho de aprofundá-la; para responder-lhes seria preciso, sem cessar, recomeçar as explicações mais elementares, e repetir o que escrevemos, coisa que
cremos inútil. Não ocorre o mesmo com aqueles que estudaram, e que não compreenderam tudo, aqueles que querem seriamente se esclarecer, que levantam as objecções com conhecimento de causa e de boa fé; sobre esse terreno aceitamos a controvérsia, sem nos
gabar de resolvermos todas as dificuldades, o que seria muita presunção. A ciência espírita está no seu início, e ainda não nos disse todos os seus segredos, por maravilhas que nos haja revelado. Qual é a ciência que não tem ainda factos misteriosos e inexplicados?
Confessaremos, pois, sem nos envergonharmos, nossa insuficiência sobre todos os pontos aos quais não nos for possível responder. Assim, longe de repelir as objecções e as perguntas, nós as solicitamos, contanto que não sejam ociosas e nos façam perder nosso tempo em futilidades, porque é um meio de se esclarecer.
Aí está o que chamamos uma polémica útil, e o será sempre quando ocorrer entre duas pessoas sérias, que se respeitarem bastante para não se afastarem das conveniências. Pode-se pensar diferentemente, e, com isso, não se estimar menos. Que procuramos nós todos,
em definitivo, nessa questão tão palpitante e tão fecunda do Espiritismo? Esclarecer-nos; nós, primeiramente, procuramos a luz, de qualquer parte que ela venha, e, se emitimos a nossa maneira de ver, isso não é senão uma opinião individual que não pretendemos impor a ninguém; nós a entregamos à discussão, e estamos prontos para renunciá-la, se nos for demonstrado que estamos em erro. Essa polémica, nós a fazemos todos os dias em nossa Revista, pelas respostas ou refutações colectivas que tivemos ocasião de fazer a propósito de tal ou tal artigo, e aqueles que nos dão a honra de nos escreverem, ali encontram sempre a resposta ao que nos perguntam, quando não nos é possível dá-la individualmente por escrito, o que o tempo material nem sempre nos permite. Suas perguntas e suas objecções são igualmente assuntos de estudos, que aproveitamos para nós mesmos, e os quais ficamos felizes em fazer nossos leitores aproveitarem, tratando-os à medida que as circunstâncias trazem os factos que possam ter relação com eles. Igualmente nos alegramos em dar verbalmente explicações que podem nos ser pedidas pelas pessoas que nos honram com a sua visita, e nessas conferências, marcadas por uma benevolência recíproca, nos esclarecemos mutuamente.

Revista Espírita, Novembro de 1858

domingo, 6 de abril de 2008

Monomania religiosa


Variedades - Monomania religiosa

Leu-se, na Gazette de Mons: "Um indivíduo atacado de monomania religiosa, sequestrado há sete anos no estabelecimento do senhor Stuart, e que até ali se mostrara de uma natureza muito doce, chegou a enganar a vigilância de seus guardas e a se apoderar de uma faca.
Estes, não podendo fazê-lo devolver essa arma, informaram o director do que se passava.
"O senhor Stuart logo se colocou perto desse furioso, e, não consultando senão sua coragem, quis desarmá-lo; mas, apenas havia dado alguns passos ao encontro do louco, este se arrojou sobre ele com a rapidez do relâmpago e o atingiu a golpes redobrados. Não foi senão com muita dificuldade que se chegou a dominar o assassino.


"Das sete feridas, com as quais o senhor Stuart fora atingido, uma era mortal: a que recebera no baixo ventre; e segunda-feira, às três horas e meia, sucumbiu em consequência de uma hemorragia que se declarara nessa cavidade."

Que se diria se esse indivíduo estivesse atacado de uma monomania espírita, ou mesmo se, em sua loucura, tivesse falado de Espíritos? E todavia isso se poderia, uma vez que há muitas monomanias religiosas, e todas as ciências forneceram seu contingente. Que se poderia racionalmente disso concluir contra o Espiritismo, senão que, em consequência da fragilidade de sua organização, o homem pode se exaltar sobre esse ponto como sobre tantos outros? O meio de prevenir essa exaltação não é combater a ideia; de outro modo se correria o risco de se ver renovarem os prodígios das Cévènes. Se jamais se organizasse uma cruzada contra espiritismo, vê-lo-íamos propagar-se mais e mais; por que, como se opor a um fenómeno
que não tem nem lugar nem tempo preferidos; que pode se reproduzir em todos os países, em todas as famílias, na intimidade, no segredo mais absoluto, melhor ainda que em público?
O meio de prevenir os inconvenientes, dissemo-lo em nossa Instrução prática, é fazê-lo compreender de tal modo que nele não se veja mais que um fenómeno natural, mesmo
naquilo que ofereça de mais extraordinário.




Um dos nossos assinantes, o senhor Ch. Renard, de Rambouillet, nos dirigiu a carta seguinte:
"Senhor e digno irmão em Espiritismo, li, ou antes, devorei com um prazer indizível, os números de vossa Revista, à medida que os recebia. Isso não é de admirar de minha parte, visto que meus parentes eram adivinhadores de geração em geração. Uma de minhas tias-avó foi mesmo condenada ao fogo por contumácia no crime de Vauldrie e de assistente do sabbat; não evitou a fogueira senão porque se refugiou na casa de uma de suas irmãs, abadessa de religiosas enclausuradas. Isso fez com que eu herdasse algumas migalhas de ciências ocultas, o que não me impediu de passar pela crença, se fé há, pelo materialismo e pelo cepticismo. Enfim, fatigado, doente de negação, as obras do célebre extático Swedenborg me conduziram à verdade e ao bem; eu mesmo tornei-me extático, assegurei-me ad vivum de verdades que os Espíritos materializados do nosso globo não podem compreender. Tive comunicações de todas as espécies; factos de visibilidade, de tangibilidade, transporte de objectos perdidos, etc. Teríeis, bom irmão, a bondade de inserir a nota adiante num de vossos números? Certamente, não pelo meu amor-próprio, mas por causa da minha qualidade de Francês.


"As pequenas causas produzem, às vezes, grandes efeitos. Por volta de 1840, travei conhecimento com o senhor Cahagnet, torneiro marceneiro, vindo para Rambouillet por razões de saúde. Esse operário, fora de série pela sua inteligência, eu o apreciava e o iniciava no magnetismo humano; disse-lhe um dia: Tenho quase a certeza de que um sonâmbulo lúcido está apto para ver as almas dos falecidos e entabular conversação com elas; ele espantou-se. Convidei-o a fazer essa experiência quando tivesse um lúcido; foi bem sucedido e publicou um primeiro volume de experiências necromânticas, seguido de outros volumes e brochuras, que foram traduzidos na América sob o título de Telégrafo celeste. Em seguida o extático Davis publicou suas visões ou excursões no mundo espírita. Franklin fez, sobre os desmaterializados, pesquisas que conduziram às manifestações e à comunicações mais fáceis que outrora. As primeiras pessoas que ele mediatizou nos Estados Unidos foram uma senhora viúva Fox e suas duas senhoritas. Há uma singular coincidência entre esse nome e o meu, uma vez que a palavra inglesa fox significa renard.
"Há muito tempo os Espíritos disseram que se podia comunicar com os Espíritos de outros globos e deles receber desenhos e descrições. Expus essa coisa ao senhor Cahagnet, mas ele não foi mais longe que nosso satélite.
"SOU, etc. CH. RENARD."


Nota. A questão de prioridade, em matéria de Espiritismo, sem contradita, é uma questão secundária; mas não é menos notável senão depois da importação dos fenómenos americanos, uma multidão de factos autênticos ignorados do público, revelaram a produção de fenómenos semelhantes seja em França, seja em outros países da Europa, em uma época contemporânea ou anterior. É do nosso conhecimento que muitas pessoas se ocupavam com os fenómenos espíritas bem antes que fossem questão de mesas girantes, e disso temos provas por datas seguras. Ó senhor Renard parece ser desse número, e segundo ele, suas experiências não foram estranhas às feitas na América. Registramos sua observação como interessando à história do Espiritismo e para provar, uma vez mais, que essa ciência tem raízes no mundo inteiro, o que tira, àqueles que gostariam de lhe opor uma barreira, toda possibilidade de sucesso. Abafada em um ponto, ela renascerá mais viva em muitos outros, até o momento em que a dúvida não será mais permitida, ela tomará seu lugar entre as crenças usuais; será bem preciso, então, que seus adversários, bom grado ou malgrado, nela tomem seu partido.


referencia: revista espirita Dezembro 1858

quarta-feira, 12 de março de 2008

A bela cordoeira


A Bela Cordoeira

Notícia. - Louise Charly, apelidada Labé, cognominada a Belle Cordière, nascida em Lyon, sob François I. Ela era de uma beleza perfeita e recebeu uma educação muito cuidadosa; sabia o grego e o latim, falava o espanhol e o italiano com uma pureza perfeita, e fazia, nessas duas línguas, poesias que não teriam renegado os escritores nacionais. Formada em todos os exercícios do corpo, conhecia a equitação, a ginástica e o manejo das armas. Dotada de um
carácter muito enérgico, distinguia-se, ao lado de seu pai, entre os mais valentes combatentes, no cerco de Perpignan, em 1542, sob o nome do capitão Loys. Esse cerco não tendo sido bem sucedido, ela renunciou ao ofício das armas e retornou a Lyon com seu pai.
Casou com um rico fabricante de cordames, de nome Ennemond Perrin, e logo ela não foi conhecida senão sob o nome de a Belle Cordière, nome que permaneceu na rua em que ela residia, e sobre o local no qual estavam as oficinas de seu marido. Ela instituiu em sua casa reuniões literárias, onde eram convidados os espíritos mais esclarecidos da província. Tem-se dela uma colecção de poesias. Sua reputação de beleza e de mulher de espírito, atraindo para sua casa a elite dos homens, excitou o ciúme das senhoras lionesas que procuraram vingar-se dela pela calúnia; mas sua conduta sempre foi irrepreensível.
Tendo-a evocado, na sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, de 26 de Outubro de 1858, nos foi dito que ela não podia vir ainda, por motivos que não foram explicados. No dia 9 de Novembro atendeu ao nosso chamado, e eis o retrato que dela fez o senhor Adrien, nosso médium vidente: Cabeça oval; tez pálida, mate; olhos negros, belos e notáveis, sobrancelhas arqueadas; fronte desenvolvida e inteligente, nariz grego, fino; boca média, lábios indicando a bondade de espírito; dentes muitos bonitos, pequenos, bem enfileirados; cabelos negros de azeviche, ligeiramente crespos. Belo porte da cabeça; talhe grande e bem solto. Vestuário de rouparias brancas.

Nota. - Sem dúvida, nada prova que esse retrato, e o precedente, não estavam na imaginação do médium, porque não temos controle; mas quando o faz com detalhes tão precisos de pessoas contemporâneas, que jamais viu, e que são reconhecidas por parentes ou amigos, não se pode duvidar da realidade; de onde se pode concluir que, uma vez que ele vê uns com uma verdade incontestável, pode vê-la em outros. Uma outra circunstância, que
deve ser tomada em consideração, é que ele vê sempre o mesmo Espírito sob a mesma forma, e que, ainda que o fosse com vários meses de intervalo, o retrato não varia. Seria preciso supor nele uma memória fenomenal, para crer que ele possa se lembrar assim dos
menores traços de todos os Espíritos, dos quais Fez a descrição e que se contam por centenas.

1. Evocação.
- R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos responder a algumas perguntas que gostaríamos de vos
endereçar?
- R. Com prazer.

3. Lembrai-vos da época em que fostes conhecida sob o nome de a Belle Cordière?
- R. Sim.

4. De onde poderiam provir as qualidades viris que vos levou a abraçar a profissão das armas que, segundo as leis da Natureza, está antes nas atribuições dos homens?
- R. Isso sorria ao meu espírito ávido de grandes coisas; mais tarde ele se voltou para um outro género de ideias mais sérias. As ideias com as quais se nasce, certamente, vêm de existências anteriores, das quais são o reflexo, todavia, elas se modificam muito, seja por novas resoluções, seja pela vontade de Deus.

5. Por que esses gostos militares não persistiram em vós, e como puderam, tão prontamente, ceder o lugar aos da mulher?
- R. Vi coisas que não vos desejaria ver.

6. Fostes contemporânea de François e de Charles-Quinto; poderíeis dar-nos vossa opinião sobre esses dois homens e traçar-lhes o paralelo?
- R. Não quero julgar; tinham defeitos, vós os conheceis; suas virtudes foram pouco numerosas: alguns traços de generosidade e eis
tudo. Deixai isso, seu coração poderia sangrar ainda; eles sofrem bastante!

7. Qual era a fonte dessa alta inteligência que vos tornou apta a receber uma educação tão superior à das mulheres do vosso tempo? - R. Existências penosas e a vontade de Deus!

8. Havia, pois, em vós um progresso anterior?
- R. Isso não pode ser de outro modo.

9. Essa instrução vos fez progredir como Espírito?
- R. Sim.

10. Pareceis haver sido feliz sobre a Terra: o sois mais agora?
- R. Que pergunta! Tão feliz que se seja na Terra, a felicidade do Céu é bem outra coisa! Quantos tesouros e quantas riquezas, que conhecereis um dia, e dos quais não suspeitais ou ignorais completamente!

11. Que entendeis por Céu?
- R. Entendo por Céu os outros mundos.

12. Que mundo habitais agora?
- R. Resido num mundo que não conheceis; mas sou pouco
ligada a ele: a matéria nos liga pouco.

13. É Júpiter?
- R. Júpiter é um mundo feliz; mas pensais que só ele, entre todos, seja favorecido por Deus? São tão numerosos quanto os grãos de areia do Oceano.

14. Conservastes o génio poético que tínheis neste mundo?
-R. Responder-vos-ia com prazer, mas temo chocar outros Espíritos, ou colocar-me abaixo do que sou: o que faria que minha
resposta se tornasse inútil, tomando-se sem razão.

15. Poderíeis nos dizer qual classe poderíamos vos consignar entre os Espíritos?
- Sem resposta.

(A São Luís.) São Luís poderia nos responder a esse respeito?
-R. Ela está aqui: não posso dizer o que ela não quer dizer. Não vedes que ela é das mais elevadas, entre os Espíritos que evocais comumente? De resto, nossos Espíritos não podem apreciar exactamente as distâncias que os separam: elas são incompreensíveis para vós, e todavia são imensas!

16. (A Louise Charly). Sob qual forma estais entre nós?
- R. Adrien acaba de me pintar.

17. Por que essa forma antes que uma outra, por que, enfim, no mundo em que estais, não sois tal qual éreis na Terra?
- R. Evocastes-me poeta, vim poeta.

18. Poderíeis nos ditar algumas poesias ou um trecho qualquer de literatura? Estaríamos felizes tendo alguma coisa vossa.
- R. Procurai vos proporcionar meus antigos escritos. Não gostamos dessas provas, sobretudo em público: fá-lo-ei, todavia, de outra vez.

Nota. - Sabe-se que os Espíritos não gostam das provas, e as perguntas dessa natureza têm sempre, mais ou menos, esse carácter, sem dúvida, é por isso que eles não se submetem a
elas quase nunca. Espontaneamente, e no momento em que menos esperamos, frequentemente, nos dão as coisas mais surpreendentes, as provas que teríamos solicitado em vão; mas basta, quase sempre, que se lhes peça uma coisa para que se não a obtenha, sobretudo, se ela denota um sentimento de curiosidade. Os Espíritos, e principalmente os Espíritos elevados, querem nos provar que não estão às nossas ordens.
A Belle Cordière, espontaneamente, no dia seguinte, fez escrever pelo médium escrevente, que lhe serviu de intérprete.
"Vou ditar-te o que prometi; não são versos, que não os quero mais fazer; aliás, não me lembro mais dos que fiz, e não gostarias deles: será a mais modesta prosa.

"Na Terra, gabei o amor, a doçura e os bons sentimentos: falei um pouco daquilo que não conhecia. Aqui, não é o amor que é preciso, é uma caridade grande, austera, esclarecida; uma caridade forte e constante que não há senão um exemplo na Terra.
"Pensai, ó homens! que de vós depende serdes felizes e fazerdes o vosso mundo um dos mais avançados do céu: não tendes que fazer senão calarem ódios e inimizades, senão
esquecer rancores e cóleras, senão perder o orgulho e a vaidade. Deixai tudo isso como um fardo que vos será preciso abandonar, cedo ou tarde. Esse fardo é para vós um tesouro na Terra, eu o sei; por isso teríeis o mérito em abandoná-lo e perdê-lo, mas no céu esse fardo toma-se um obstáculo para a vossa felicidade. Crede-me, pois: apressai vosso progresso, a felicidade que vem de Deus é a verdadeira felicidade. Onde encontrareis os prazeres que
valham as alegrias que dá aos seus eleitos, aos seus anjos?
"Deus ama os homens que procuram avançar em seu caminho, contai, pois, com seu apoio.
Não tendes confiança nele? Crede-o seja perjuro, porque não vos entregais a ele inteiramente, sem restrição? Infelizmente não quereis ouvir, ou poucos dentre vós, ouvem; preferis o hoje ao dia de amanhã; vossa visão limitada limita vossos sentimentos, vosso
coração e vossa alma, e sofreis para avançar, em lugar de avançar natural e facilmente pelo caminho do bem, por vossa própria vontade, porque o sofrimento é o meio que Deus emprega para vos moralizar. Que não eviteis vossa rota segura, mas terrível para o viajante.
Terminarei vos exortando a não mais olhar a morte como um flagelo, mas como a porta da verdadeira vida e da verdadeira felicidade.

LOUISE CHARLY.

Revista Espírita, dezembro de 1858

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Uma viúva de Malabar


Conversas familiares de além-túmulo


- Uma viúva de Malabar

Desejávamos interrogar uma dessas mulheres da índia, que têm o uso de se queimarem sobre o corpo de seu marido. Não as conhecendo, tínhamos pedido a São Luís se consentiria em nos enviar uma que estivesse em condições de responder às nossas perguntas, de maneira um pouco satisfatória. Ele respondeu-nos que o faria de bom grado, em alguma ocasião. Na sessão da Sociedade, do dia 2 de Novembro de 1858, o senhor Adrien, médium vidente, viu uma delas disposta a falar, e da qual fez o seguinte retrato:
Olhos grandes, negros, colorido amarelo no branco; figura arredondada, face rechonchuda e gorda; pele amarela-açafrão polido; cílios longos, sobrancelhas arqueadas, negras; nariz mais ou menos achatado, boca grande e sensual; belos dentes grandes e lisos; cabelos escorridos, abundantes, negros e espessos de gordura. Corpo bastante grosso, atarracado e gordo. Lenços de pescoço a envolvem deixando a metade do peito nu. Braceletes nos braços e nas pernas.

1. Lembrai-vos, mais ou menos, em que época vivestes na índia, e onde fostes queimada sobre o corpo de vosso marido?

- R. Ela fez sinal que não se lembra. - São Luís respondeu
que foi há cerca de cem anos.

2. Lembrai-vos do nome que tínheis?

- R. Fátima.

3. Que religião professáveis?

- R. O maometismo.

4. Mas o maometismo não manda tais sacrifícios?

- R. Nasci muçulmana, mas meu marido era da religião de Brahma. Tive que me conformar com o uso do país em que residia. As
mulheres não se pertencem.

5. Que idade tínheis quando morrestes?

- R. Tinha, creio, em tomo de vinte anos.

Nota. - O senhor Adrien observou que ela parecia ter pelo menos vinte e oito a trinta; mas que nesse país as mulheres envelhecem mais depressa.

6. Sacrificaste-vos voluntariamente?

- R. Preferiria casar-me com um outro. Reflecti bem, e
concebereis que pensamos todos do mesmo modo. Segui o costume; mas no fundo preferia não fazê-lo. Esperei vários dias o outro marido, e ninguém veio; então, obedeci à lei.

7. Que sentimento pôde ditar essa lei?

- R. Ideias supersticiosas. Afigura-se que, em se
queimando, se é mais agradável à Divindade; que resgatamos as faltas daquele que perdemos, e que vamos ajudá-lo a viver feliz no outro mundo.

8. Vosso marido teve vontade do vosso sacrifício?

- R. Jamais procurei rever meu marido.

9. Há mulheres que se sacrificam assim deliberadamente?

-R. Há pouco delas; uma em mil, e ainda, no fundo, elas não gostariam de fazê-lo.

10. Que se passou convosco no momento em que a vida corporal se extinguiu?

- R. A perturbação; tive uma neblina, e depois não sei o que se passou. Minhas ideias não se ordenaram senão depois de muito tempo. Ia por toda parte, e, entretanto, não via bem; e ainda agora, não estou inteiramente esclarecida; tenho muitas encarnações a sofrer para me elevar; mas não me queimarei mais... Não vejo a necessidade de se queimar, de se lançar no meio das chamas para se elevar... sobretudo por faltas que não se cometeu; depois, isso não
me agradou... De resto, não procurei sabê-lo, dar-me-íeis alegria orando um pouco por mim; porque compreendo que não há senão a prece para suportar com coragem as provas que nos são enviadas: Ah! se eu tivesse a fé!

11. Pedis para orarmos por vós; mas somos cristãos, e nossas preces poderiam ser-vos agradáveis?

- R. Não há senão um Deus para todos os homens.

Nota. - Em várias das sessões seguintes a mesma mulher veio entre os Espíritos que as assistiam. Ela disse que vinha para se instruir. Parecia sensível ao interesse que se lhe testemunhava, porque ela nos seguiu várias vezes em outras reuniões e mesmo na rua.

Revista Espírita, Dezembro de 1858

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Poesia espírita


Poesia espírita - O despertar de um Espírito


NOTA. - Estes versos foram escritos, espontaneamente, por meio de uma cesta sustentada por uma jovem senhora e uma criança. Pensamos que mais de um poeta poderia honrar-se com eles. Foram-nos comunicados por um de nossos assinantes.

Quanto a Natureza é bela e quanto o ar é ameno!

Senhor! Rendo graças e te admiro, de joelhos.

Possa o hino de alegria de meu reconhecimento

Subir, como o incenso, até a tua omnipotência.

Assim, diante dos olhos de suas duas irmãs em luto,

Fizeste sair outrora Lázaro de seu sepulcro;

De Jairo desvairado, a filha bem-amada

Foi em seu leito de morte por tua voz reanimada.

Do mesmo modo, Deus poderoso! Me estendeste a mão;

Levanta-te! Tu me disseste: não o disseste em vão.

Por que não sou, ai, senão um vil montão de lama?

Gostaria de te louvar com a voz de um anjo;

Tua obra jamais me pareceu tão bela!

É àquele que sai da noite do túmulo

Que o dia parece puro, a luz brilhante,

O sol radioso e a vida embriagadora.

Então o ar é mais doce que o leite e o mel;

Cada som parece uma palavra nos concertos do céu.

A voz surda dos ventos exala uma harmonia

Que aumenta no vago e se torna infinita.

O que o Espírito concebe, o que fere os olhos,

É que se pode adivinhar no livro dos céus,

No espaço dos mares, sob as vagas profundas,

Em todos os oceanos, os abismos, os mundos,

Tudo se arredonda em esfera, e sente-se que no meio

Esses raios convergentes conduzem a Deus.

E tu, cujo olhar plana sobre as estrelas,

Que te ocultas no céu como um rei sob seus véus,

Qual é, pois, tua grandeza, se esse vasto universo

Não é senão um ponto aos seus olhos, e o espaço dos mares

Não é mesmo um espelho para teu esplendor imenso?

Qual é, pois, tua grandeza, qual é, pois, tua essência?

Que palácio tão vasto construíste, ó Rei!

Os astros não saberiam nos separar de ti.

O sol a teus pés, poder sem medida,

Parece o ônix que um príncipe amarra ao seu sapato.

O que admiro em ti, sobretudo, 6 majestade!

É bem menos tua grandeza que a imensa bondade

Que se revela em tudo, assim como a luz,

E de um ser impotente atende a prece.

JODELLE.

Referencia: Revista espírita, Dezembro de 1858

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O papel da mulher


O papel da mulher

Sendo a mulher mais finamente desenhada que o homem, indica naturalmente uma alma mais delicada; assim é que, nos meios semelhantes, em todos os mundos, a mãe será sempre mais bonita que o pai; porque é ela que a criança vê primeiro; é para a figura
angélica de uma jovem que a criança volve seus olhos sem cessar; é para a mãe que a criança seca seu pranto, apoia seus olhares, ainda fracos e incertos. A criança tem, pois, uma intuição natural do belo.

A mulher, sobretudo, sabe-se fazer notar pela delicadeza de seus pensamentos, a graça de seus gestos, a pureza de suas palavras; tudo o que vem dela deve-se harmonizar com a sua pessoa, que Deus criou bela.
Seus longos cabelos, que ondeiam sobre seu pescoço, são a imagem da doçura, e da facilidade com a qual sua cabeça se dobra sem romper sob as provas. Reflectem a luz dos sóis, como a alma da mulher deve reflectir a mais pura luz de Deus. Jovens, deixai vossos
cabelos flutuarem; Deus os criou para isso: parecereis, ao mesmo tempo, mais naturais e mais ornadas.

A mulher deve ser simples em seu vestuário; ela saiu bastante bela da mão do Criador para não ter necessidade de adornos. Que o branco e o azul se casem sobre os vossos ombros.
Deixai também flutuar vossos vestidos; que vossos vestidos sejam vistos estendendo-se atrás de vós, em um longo traço de gaze, como uma leve nuvem indicando que ainda há pouco estivestes aí. Mas que farão o enfeite, o vestuário, a beleza, os cabelos ondulantes ou flutuantes, amarrados ou apertados, se o sorriso tão doce das mães e das amantes não brilharem sobre os vossos lábios! Se os vossos olhos não semeiam a bondade, a caridade, a esperança nas lágrimas de alegria que deixam correr, nos relâmpagos que jorram desse
braseiro de amor desconhecido!

Mulheres, não temais arrebatar os homens pela vossa beleza, pela vossa graça, pela vossa superioridade; mas que os homens saibam que, para serem dignos de vós, é preciso que sejam tão grandes quantos sois belas, tão sábios quanto sois boas, tão instruídos quanto sois ingénuas e simples. E preciso que ele saibam que devem merecer-vos, que sois o preço da virtude e da honra; não dessa honra que se cobre de um capacete, e de um escudo, e brilha nas lutas e nos torneios, o pé sobre a fronte de um inimigo caído; não, mas a honra segundo Deus.
Homens, sede úteis, e quando os pobres bendizerem vosso nome, as mulheres serão vossas iguais; formareis então um todo; sereis a cabeça e as mulheres serão o coração; sereis o pensamento benfazejo, e as mulheres serão as mãos liberais. Uni-vos, pois, não só pelo amor, mas ainda pelo bem que podereis fazer a dois. Que esses bons pensamentos e essas boas acções, realizadas por dois corações amantes, sejam os anéis dessa cadeia de ouro e de diamante que se chama o casamento e, então, quando os anéis forem bastante numerosos, Deus vos chamará para junto dele, e continuareis a ajuntar, ainda, as argolas precedentes, mas na Terra as argolas eram de um metal pesado e frio, no céu serão de luz e de fogo.


Referencia: Revista Espírita, dezembro de 1858

As flores



As flores


Nota. - Esta comunicação e a seguinte foram obtidas pelo senhor F..., o mesmo do qual falamos no nosso número de Outubro, a propósito dos Obsedados e Subjugados; pode-se julgar, por aí, a diferença que há entre a natureza de suas comunicações actuais e as de outrora. Sua vontade triunfou completamente da obsessão, da qual era objecto, e seu mau Espírito não reapareceu mais. Estas duas dissertações foram-lhe ditadas por Bemard Palissy.

As flores foram criadas, nos mundos, como símbolos da beleza, da pureza e da esperança.

Como o homem que vê as corolas se entreabrirem, todas as primaveras, e as flores fenecerem para darem frutos deliciosos, como o homem não pensa que sua vida florirá também, mas para produzir frutos eternos? Que vos importa, pois, a tempestade e as tormentas? Essas flores não perecerão jamais, nem a mais frágil obra do Criador. Coragem, pois, homens que tombais no caminho, levantai-vos de novo como o lírio depois da tempestade, mais puro e mais radioso. Como as flores, os ventos vos sacodem à direita e à esquerda, os ventos vos derrubam, vos arrastam para a lama, mas quando o sol reaparece, levantais de novo, também, vossas cabeças mais nobres e maiores.

Amai, pois, as flores, elas são os emblemas de vossa vida, e não deveis corar por serdes comparados a elas. Tende-as em vossos jardins, em vossas casas, mesmos em vossos templos, elas estão por toda parte; em todos os lugares elas levam à poesia, elevam a alma
daquele que sabe compreendê-las. Não foi nas flores que Deus ostentou todas as suas magnificências?

Depois onde conheceríeis as cores suaves com as quais o Criador alegrou a natureza sem as flores? Antes que o homem tivesse escavado as entranhas da terra para encontrar os rubis e
os topázios, tinha as flores diante de si, e essa variedade infinita de nuanças já o consolava na monotonia da superfície terrestre. Amai, pois, as flores: sereis mais puros, mais amantes; talvez sereis mais crianças, mas sereis as crianças queridas de Deus, e vossas almas, simples e sem mácula, serão acessíveis a todo seu amor, a toda alegria com a qual abraça vossos corações.

As flores querem ser cuidadas por mãos esclarecidas; a inteligência é necessária para a sua prosperidade; errastes, por muito tempo sobre a Terra, em deixar esse cuidado a mãos inábeis que as mutilam, crendo embelezá-las. Nada é mais triste que as árvores redondas ou
pontiagudas de vossos jardins: pirâmides de verdura que fazem o efeito de pilha de feno.
Deixai a natureza progredir sob mil formas diversas: aí está a graça. Feliz aquele que sabe admirar a beleza de um talo que se balança semeando sua poeira fecundante! Feliz aquele que vê em suas tintas brilhantes um infinito de graça, de delicadeza, de colorido, de nuanças que se afastam e se procuram, se perdem e se reencontram! Feliz aquele que sabe compreender a beleza da gradação dos tons, desde a raiz castanha escura que se casa com a terra, como as cores se fundem, desde o vermelho-escarlate da tulipa e da papoila! (Por que esses nomes rudes e bizarros?) Estudai tudo isso, e notai as folhas que saem, umas das outras, como gerações infinitas até o seu desabrochamento completo sob a cúpula do céu.


As flores não parecem deixar a terra para se lançarem até os outros mundos? Não parecem, frequentemente, baixar a cabeça de dor por não poderem se elevar mais alto ainda? Não as credes, em sua beleza, mais perto de Deus? Imitai-as, pois, e tornai-vos sempre maiores, mais e mais belos.
Vossa maneira de aprender a botânica é também defeituosa; não é tudo saber o nome de uma planta. Convidar-te-ei, quando tiveres tempo, a trabalhar também numa obra desse género. Remeto, pois, para mais tarde as lições que queria dar-te nestes dias; serão mais
úteis quando tiverdes a aplicação sob a mão. Aí falaremos do género de cultura, dos lugares que lhes convém, da arrumação do edifício para o arejamento e a salubridade das habitações.
Se fores imprimir isso, passa os últimos parágrafos; seriam tomados por anúncios.

Referencia: Revista Espírita, Dezembro de 1858

domingo, 20 de janeiro de 2008

Dissertações de além- túmulo- o Sono


Dissertações de além-túmulo – O Sono

Revista Espírita, Dezembro de 1858

Pobres homens que poucos conheceis os fenómenos mais comuns que fazem vossa vida!
Credes ser bem sábios, credes possuir uma vasta erudição, e a esta pergunta de todas as crianças: Que fazemos quando dormimos? O que são os sonhos? Permaneceis interditados.
Não tenho a pretensão de vos fazer compreender o que vou vos explicar, porque há coisas às quais vosso Espírito não pode ainda se submeter, não admitindo senão o que compreende.
O sono liberta inteiramente a alma do corpo. Quando se dorme, se está, momentaneamente,
no estado em que se acha de um modo fixo depois da morte. Os Espíritos que são logo desligados da matéria em sua morte, tiveram sonos inteligentes; aqueles, quando dormem, juntam-se à sociedade de outros seres superiores a eles: viajam, conversam e se instruem com eles; trabalham mesmo em obras que encontram prontas quando morrem. Isso deve
nos ensinar, uma vez mais, a não temermos a morte, porque morreis todos os dias, segundo
a palavra de um santo.
É assim para os Espíritos elevados; mas para a massa dos homens que na morte devem permanecer longas horas nessa perturbação, nessa incerteza da qual vos falaram, aqueles vão, seja em mundos inferiores à Terra, onde antigas afeições o chamam, seja procurar prazeres talvez ainda mais baixos que aqueles que têm aqui; vão aurir doutrinas mais vis, mais ignóbeis, mais nocivas do que aquelas que professam em vosso meio. E o que faz a simpatia na Terra não é outra coisa senão esse facto, que se sente ao despertar, de se aproximar pelo coração daqueles com quem viemos de passar oito ou nove horas de felicidade ou de prazer. O que explica essas antipatias invencíveis, é que se sabe, no fundo de seu coração, que aquelas pessoas têm uma outra consciência que a nossa porque são
conhecidas sem tê-las jamais visto com os olhos. É ainda o que explica a indiferença, uma vez que não se deseja fazer novos amigos, quando se sabe que existem outros que vos amam e que vos querem. Em uma palavra, o sono influi mais que pensais em vossa vida.
Pelo efeito do sono, os Espíritos encarnados estão sempre em relação com o mundo dos Espíritos, e é o que faz que os Espíritos superiores consintam, sem muita repulsa, se encarnarem entre vós. Deus quis que, durante seu contacto com o vício, eles possam ir se retemperarem nas fontes do bem, para eles mesmos não falirem, eles que vêm instruir os outros. O sono é a porta que Deus lhes abre até os amigos do céu; é a recreação depois do
trabalho, na espera da grande libertação, a liberação final que deverá devolvê-los ao seu
verdadeiro meio.
O sonho é a lembrança daquilo que vosso Espírito viu durante o sono, mas notai que não sonhais sempre, porque não vos lembrais sempre do que vistes, ou de tudo o que vistes.
Vossa alma não está em todo desenvolvimento; não é, frequentemente, senão a lembrança de uma perturbação que acompanha vossa partida ou vossa reentrada, à qual se junta a do que fizestes ou do que vos preocupou no estado de vigília; sem isso, como explicaríeis esses sonhos absurdos que têm os mais sábios como os mais simples? Os maus Espíritos se servem também dos sonhos para atormentar as almas fracas e pusilânimes.
De resto, vereis em pouco se desenvolver uma nova espécie de sonho; ela é tão antiga quanto a que conheceis, mas a ignorais. O sonho de Joana, o sonho de Jacó o sonho dos profetas judeus e de alguns adivinhos indianos; aquele sonho é a lembrança da alma inteiramente desligada do corpo, a lembrança dessa segunda vida, da qual vos falei ainda há pouco.
Procurai distinguir bem essas duas espécies de sonho dos quais vos lembrareis, sem isso
cairíeis nas contradições e nos erros, que seriam funestos à vossa fé.

Nota. - O Espírito que ditou esta comunicação, instado a dar seu nome, respondeu: "Para
quê? Credes, pois, que não haja senão os Espíritos de vossos grandes homens que vêm dizer-vos
coisas boas? Contai, pois, por nada todos aqueles que não conheceis ou que não têm nome sobre a vossa Terra? Sabei que muitos não tomam um nome senão para vos contentar.

Revista Espírita, Dezembro de 1858

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Sensações dos Espiritos


Sensações dos Espíritos

Revista Espírita, Dezembro de 1858

Os Espíritos sofrem? Que sensações experimentam? Tais são as perguntas que se dirigem naturalmente e que tentaremos resolver. Devemos dizer, primeiramente, que para isso não nos contentamos com as respostas dos Espíritos; devemos, por numerosas observações, de
alguma sorte, tomar a sensação sobre o facto.

Em uma de nossas reuniões, e pouco antes que São Luís nos desse a bela dissertação sobre a avareza, que inserimos em nosso número do mês de Fevereiro, um de nossos sócios contou o facto seguinte, a propósito dessa mesma dissertação.

"Estávamos, disse ele, ocupados com evocações em uma pequena reunião de amigos, quando se apresentou, inopinadamente e sem que o tivéssemos chamado, o Espírito de um homem que havíamos conhecido muito, e que, quando vivo servira de modelo ao retrato do avaro traçado por São Luís; um desses homens que vive miseravelmente no meio da fortuna, que se privam, não pelos outros, mas para amontoar sem proveito para ninguém. Era Inverno, estávamos perto do fogo; de repente, esse Espírito nos lembrou seu nome, com o
qual não sonhávamos de modo algum, e nos pediu a permissão de vir, durante três dias, aquecer-se na nossa lareira, dizendo que sofre horrivelmente do frio que ele, voluntariamente suportou durante sua vida, e que fez os outros suportarem por sua avareza. Será, acrescentou ele, um abrandamento que obtive, se consentis em mo concedê-lo."

Esse Espírito sentia uma sensação penosa de frio; mas como o sentia? Aí estava a dificuldade. Dirigimos a São Luís as perguntas seguintes a esse respeito:

Consentiríeis em nos dizer como esse Espírito de avaro, que não tem mais corpo material, podia sentir o frio e pedir para se aquecer?

- R. Podes imaginar os sofrimentos do Espírito pelos sofrimentos morais.

- Concebemos os sofrimentos morais, como os desgostos, os remorsos, a vergonha; mas o calor e o frio, a dor física, não são efeitos morais; os Espíritos sentem essas espécies de sensações?

- R. Tua alma sente o frio? Não; mas tem a consciência da sensação que actua sobre o corpo.

- Disso pareceria resultar que esse Espírito de avaro não sente um frio efectivo; mas que ele teria a lembrança da sensação do frio que suportou, e que essa lembrança, sendo para ele como uma realidade, tornava-se um suplício.
- R. E quase isso. Está bem entendido que há uma distinção, que compreendeis perfeitamente, entre a dor física e a dor moral; não se deve confundir o efeito com a causa.

- Se compreendemos bem, poder-se-ia, isso nos parece, explicar a coisa assim como segue:

O corpo é o instrumento da dor; senão a causa primeira, ao menos a causa imediata. A alma tem percepção dessa dor: essa percepção é o efeito. A lembrança que dela conserva pode ser tão penosa quanto a realidade, mas não pode ter acção física. Com efeito, um frio nem um calor intensos, podem desorganizar os tecidos: a alma não pode nem gelar nem queimar.
Não vemos, todos os dias, a lembrança ou apreensão de um mal físico produzir o efeito da realidade? Ocasionar mesmo a morte? Todo o mundo sabe que as pessoas amputadas sentem dor no membro que não existe mais. Seguramente, não é nesse membro que está a sede, nem mesmo o ponto de partida da dor. O cérebro dela conservou a impressão, eis tudo. Pode-se, pois, acreditar que há alguma coisa análoga no sofrimento do Espírito depois da morte. Essas reflexões são justas?

R. Sim; mais tarde compreendereis melhor ainda Esperai que factos novos venham vos fornecer novos motivos de observação, e então deles podereis tirar consequências mais completas.

Isso se passou no começo do ano 1858; desde então, com efeito, um estudo mais aprofundado do perispírito, que desempenha um papel tão importante em todos os
fenómenos espíritas, e do qual não se havia percebido, as aparições vaporosas ou tangíveis, o estado do Espírito no momento da morte, a ideia tão frequente no Espírito que ainda está vivo, o quadro tão impressionante dos suicidas, dos supliciados, das pessoas absorvidas nos gozos materiais, e tantos outros factos, vieram lançar luz sobre essa questão, e deram lugar às explicações das quais damos aqui o resumo.

O perispírito é o laço que une o Espírito à matéria do corpo: ele é aurido no meio ambiente, no fluido universal; tem, ao mesmo tempo, algo da electricidade, do fluido magnético e, até a um certo ponto, da matéria inerte. Poder-se-ia dizer que é a quintessência da matéria: é o princípio da vida orgânica, mas não o é da vida intelectual: a vida intelectual está no Espírito.
É, além disso, o agente das sensações exteriores. No corpo, essas sensações estão localizadas pelos órgãos que lhes servem de canal. Destruído o corpo, as sensações são
gerais. Eis porque o Espírito não diz que sofre antes da cabeça que dos pés. De resto, é preciso guardar-se de confundir as sensações do perispírito, tornado independente, com as do corpo: não podemos tomar essas últimas senão como termo de comparação, e não como
analogia. Um excesso de calor ou de frio pode desorganizar os tecidos do corpo e não pode resultar nenhum prejuízo ao perispírito. Desligado do corpo, o Espírito pode sofrer, mas esse sofrimento não é o do corpo: entretanto, esse sofrimento não é um sofrimento exclusivamente moral, como o remorso, uma vez que se queixa do frio e do calor; não sofre mais no Inverno que no verão: vimo-los passar através de chamas sem nada sentirem de penoso; a temperatura, portanto, não causa sobre eles nenhuma impressão. A dor que sentem, portanto, não é uma dor física propriamente dita: é um vago sentimento íntimo, do
qual o próprio Espírito não se apercebe perfeitamente, precisamente porque a dor não é localizada e porque não é produzida por agentes exteriores: é antes uma lembrança que uma realidade, mas uma lembrança também muito penosa. Há, entretanto, algumas vezes, mais que uma lembrança, como vamos ver.

A experiência nos ensina que no momento da morte o perispírito se desliga mais ou menos lentamente do corpo; durante os primeiros instantes, o Espírito não se dá conta da sua situação; não crê estar morto; sente-se viver; vê seu corpo de um lado, sabe que é o seu, e não compreende que esteja dele separado: esse estado dura tão longo tempo quanto exista um laço entre o corpo e o perispírito. Que se reporte à evocação do suicida dos banhos da
Samaritana, que narramos no nosso número de Junho. Como todos os outros, ele dizia: Não, não estou morto, e acrescentava: E, entretanto, sinto os vermes que me roem. Ora, seguramente os vermes não roíam o perispírito, e ainda menos o Espírito, não roíam senão o corpo. Mas como a separação do corpo e do perispírito não estava completa, disso resultava uma espécie de repercussão moral que lhe transmitia a sensação do que se passava no corpo. Repercussão talvez não seja a palavra, poderia fazer crer em um efeito muito material; era antes a visão do que se passava em seu corpo, ao qual se ligava seu perispírito,
que produzia nele uma ilusão, que tomava por uma realidade. Assim, não era uma lembrança, uma vez que, durante a vida, não havia sido roído pelos vermes: era o
sentimento da actualidade. Vê-se por aí as deduções que se podem tirar dos factos, quando são observados atentamente. Durante a vida, o corpo recebe as impressões exteriores e as transmite ao Espírito, por intermédio do perispírito que constitui, provavelmente, o que se chama fluido nervoso. Estando o corpo morto não sente mais nada, porque não há mais nele nem Espírito nem perispírito. O perispírito, desligado do corpo, sente a sensação; mas como esta não lhe chega mais por um canal limitado, ela é geral. Ora, como, em realidade, não é
senão um agente de transmissão, uma vez que é o Espírito quem tem a consciência, disso resulta que se pudesse existir um perispírito sem Espírito, não sentiria mais do que o corpo quando está morto; do mesmo modo que se o Espírito não tivesse perispírito, seria inacessível a toda sensação penosa; é o que ocorre para os Espíritos completamente depurados. Sabemos que quanto mais se depuram, mais a essência do perispírito se torna
etérea; de onde se segue que a influência material diminui à medida que o Espírito progride, quer dizer, à medida que o próprio perispírito se torna menos grosseiro.

Mas, dir-se-á, as sensações agradáveis são transmitidas ao Espírito pelo perispírito, como as sensações desagradáveis; ora, se o Espírito puro é inacessível a umas, deve sê-lo igualmente às outras. Sim, sem dúvida, para aquelas que provêm unicamente da influência da matéria que conhecemos; o som de nossos instrumentos, o perfume de nossas flores não lhe causam nenhuma impressão, e, todavia, há neles sensações íntimas de um encanto indefinível, das quais não podemos fazer nenhuma ideia, porque somos, a esse respeito, como cegos de nascença a respeito da luz; sabemos que isso existe; mas por qual meio? Aí se detém para nós a ciência. Sabemos que há percepção, sensação, audição, visão, que essas faculdades
são atributos de todo o ser, e não, como no homem, de uma parte do ser; mas, ainda uma vez, por qual intermediário? É o que não sabemos. Os próprios Espíritos não podem disso nos darem conta, porque nossa língua não foi feita para exprimir ideias que não temos, não mais
que numa população de cegos não existiriam termos para exprimirem os efeitos da luz; não mais que na língua dos selvagens, não há termos para exprimir nossas artes, nossas ciências e nossas doutrinas filosóficas.

Dizendo que os Espíritos são inacessíveis às impressões da nossa matéria, queremos falar de Espíritos muito elevados, cujo envoltório etéreo não tem analogia neste mundo. Não ocorre o mesmo com aqueles cujo perispírito é mais denso: e estes percebem nossos sons e nossos odores, mas não por uma parte limitada de seu ser, como quando vivo. Poder-se-ia dizer que as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o seu ser e chegam assim ao seu sensorium commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diferente, e talvez também com uma impressão diferente, o que produz uma modificação na percepção. Eles ouvem o
som de nossa voz, e todavia nos compreendem sem o socorro da palavra, unicamente pela transmissão do pensamento, e o que vem em apoio ao que dizemos, é que essa penetração é tanto mais fácil quanto o Espírito esteja mais desmaterializado. Quanto à visão, ela é independente de nossa luz. A faculdade de ver é um atributo essencial da alma: para ela não há obscuridade; entretanto, ela é mais extensa, mais penetrante, naqueles que estão mais
depurados. A alma, ou o Espírito, portanto, tem em si mesma a faculdade de todas as percepções; na vida corpórea, elas estão obliteradas pela grosseria de nossos órgãos; na vida extra- corpórea, elas o são menos e menos à medida que se torna menos compacto o envoltório semi-material.

Esse envoltório, aurido do meio ambiente, varia segundo a natureza dos mundos. Passando de um mundo a outro, os Espíritos mudam de envoltório, como nós mudamos de vestuário, passando do Inverno ao verão, ou do pólo ao equador. Os Espíritos mais elevados, quando vêm nos visitar, revestem, pois, o perispírito terrestre, e desde então suas percepções se operam como nos Espíritos vulgares; mas tanto inferiores, como superiores, não ouvem e não sentem senão o que querem ouvir ou sentir. Sem terem órgãos sensitivos podem tomar-se,
à vontade, suas percepções activas ou nulas; não há senão uma coisa que são obrigados a ouvir, são os conselhos dos bons Espíritos. A visão é sempre activa, mas podem,
reciprocamente, se tornarem invisíveis uns aos outros. Segundo a classe que ocupem, eles podem se ocultar daqueles que lhes são inferiores, mas não daqueles que lhes são superiores. Nos primeiros momentos que seguem à morte, a visão do Espírito é sempre perturbada e confusa; clareia à medida que ele se desliga, e pode adquirir a mesma claridade que durante a vida, independentemente de sua penetração através dos corpos que nos são opacos. Quanto à sua extensão através do espaço indefinido, no passado e no futuro, depende do grau de pureza e de elevação do Espírito.

Toda essa teoria, dir-se-á, não é muito tranquilizadora. Pensávamos que uma vez desembaraçado de nosso grosseiro envoltório, instrumento das nossas dores, não
sofreríamos mais, e eis que nos ensinais que sofreremos ainda; que, seja de uma maneira ou de outra, isso não é menos sofrer. Ah! sim, podemos ainda sofrer, e muito, e por muito tempo, mas podemos também não mais sofrer, mesmo desde o instante em que deixamos esta vida corpórea.

Os sofrimentos deste mundo são, algumas vezes, independentes de nós, mas muitos são as consequências de nossa vontade. Que se remonte à fonte e ver-se-á que o maior número é a consequência de causas que poderíamos evitar. Quantos males, quantas enfermidades, o homem deve aos excessos, à sua ambição, às suas paixões, em uma palavra! O homem que houvesse sempre vivido sobriamente, que não houvesse abusado de nada, que houvesse sempre sido simples em seus gostos, modesto em seus desejos, se pouparia de muitas tributações. Ocorre o mesmo com o Espírito: os sofrimentos que suporta são sempre a consequência da maneira com a qual viveu na Terra; não terá mais, sem dúvida, a gota e os reumatismos, mas terá outros sofrimentos que não valem mais. Vimos que esses sofrimentos são o resultado de laços que ainda existem entre ele e a matéria; que quanto mais desligado da matéria, dito de outro modo, quanto mais desmaterializado, menos tem sensações penosas; ora, dele depende se livrar dessa influência, desde esta vida; tem o seu livre arbítrio e, por consequência, a escolha entre fazer ou não fazer: que dome suas paixões animais, que não tenha ódio, nem inveja, nem ciúme, nem orgulho; que não seja dominado pelo egoísmo, que purifique sua alma pelos bons sentimentos, que faça o bem, que dê às coisas deste mundo a importância que elas merecem, então, mesmo sob seu envoltório corporal, está já depurado, e já desligado da matéria, e quando deixa esse envoltório, dele não sofre mais a influência; os sofrimentos físicos que experimenta não lhe deixam nenhuma lembrança penosa; dele não lhe resta nenhuma impressão desagradável, porque não
afectaram senão o corpo e não o Espírito; é feliz de estar livre dele, e a calma de sua consciência o livra de todo sofrimento moral. Disso interrogamos milhares, tendo pertencido a todas as classes da sociedade, a todas as posições sociais; estudamo-los em todos os períodos de sua vida espírita, desde o instante em que deixaram seus corpos; nós os seguimos passo a passo, nessa vida de além-túmulo, para observar as mudanças que se
operaram neles, em suas ideias, em suas sensações, e sob esse aspecto os homens mais vulgares não foram os que nos forneceram os objectos de estudo menos preciosos.

Ora, vimos sempre que os sofrimentos estão em relação com a conduta, da qual sofrem as consequências, e que essa nova existência é a fonte de uma felicidade inefável para aqueles que seguiram o bom caminho; donde se segue que aqueles que sofrem, é porque o quiseram, e não devem disso culpar senão a si mesmos, tão bem no outro mundo quanto neste.

Alguns críticos ridicularizaram certas de nossas evocações, a do assassino Lemaire, por exemplo, achando singular que se ocupasse com seres tão ignóbeis, quando existem tantos
Espíritos superiores à sua disposição. Esquecem que é por aí que, de algum modo, aprendemos a natureza do facto, ou, para melhor dizer, na sua ignorância da ciência espírita,
não vêem, nessas entrevistas, senão uma conversa, mais ou menos divertida, da qual não compreendem a importância. Lemos em alguma parte que um filósofo dizia, depois de conversar com um camponês: Eu mais aprendi com esse rústico que com todos os sábios; é que ele sabia ver outra coisa senão a superfície. Para o observador nada é perdido, encontra úteis ensinamentos até no criptógamo que cresce sobre o estrume. O médico recusa tocar
uma chaga horrenda, quando se trata de aprofundar a causa de um mal?

Acrescentamos ainda uma palavra a esse respeito. Os sofrimentos de além-túmulo têm um fim; sabemos que é dado ao Espírito mais inferior elevar-se e purificar-se por novas provas; isso pode ser longo, muito longo, mas depende dele abreviar esse tempo penoso, porque
Deus o escuta sempre se ele se submete à sua vontade. Quanto mais o Espírito está desmaterializado, mais suas percepções são vastas e lúcidas; quanto mais está sob o império da matéria, o que depende inteiramente de seu género de vida terrestre, mais elas são limitadas e como veladas; tanto a visão moral de um se estende ao infinito, tanto a do outro é restrita. Os Espíritos inferiores não têm, pois, senão uma noção vaga, confusa, incompleta e frequentemente nula do futuro; não vêem o fim de seus sofrimentos, por isso crêem sofrer sempre, e ainda para eles é um castigo. Se a posição de uns é aflitiva, terrível mesmo, não é desesperadora; a de outros eminentemente consoladora; está pois em nós escolher. Isto é da
mais alta moralidade. Os cépticos duvidam da sorte que nos espera depois da morte, nós lhes mostramos o que isso é, e com isso cremos prestar-lhes serviço; também vimos mais de um corrigir-se de seu erro, ou pelo menos pôr-se a reflectir sobre o que criticavam antes. Não há de tal senão de se aperceber da possibilidade das coisas. Se fora sempre assim, não haveria tantos incrédulos, e a religião e a moral pública ganhariam com isso. A dúvida religiosa não
vem entre muitos, senão da dificuldade, para eles, de compreenderem certas coisas; são Espíritos positivos não organizados para a fé cega, que não admitem senão o que, para eles, tem uma razão de ser. Tornai essas coisas acessíveis à sua inteligência, e as aceitam, porque
no fundo não pedem melhor do que crerem, sendo a dúvida para eles uma situação mais penosa que se crê ou que querem dizê-lo.

Em tudo o que precede não há nada de sistemas, nada de ideias pessoais; não foram mesmo alguns Espíritos privilegiados que nos ditaram essa teoria, é um resultado de estudos feitos sobre as individualidades, corroborados e confirmados por Espíritos dos quais a linguagem não pode deixar dúvida sobre sua superioridade. Nós o julgamos por suas palavras, e não sobre o nome que trazem ou que podem se dar.

Referencia: Revista Espírita, Dezembro de 1858

domingo, 9 de dezembro de 2007

Fenómeno de bicorporeidade



Fenómeno de bicorporeidade

Revista Espírita, Dezembro de 1858

Um dos membros da Sociedade nos comunica uma carta de um de seus amigos, de Bolognesur-Mer, na qual se lê a passagem seguinte. Essa carta está datada de 26 de Julho de 1856.
"Meu filho, desde que o magnetizei, por ordens de nossos Espíritos, tomou-se um médium muito raro, pelo menos foi o que me revelou em seu estado sonâmbulo, no qual o colocara a seu pedido, no dia 14 de Maio último, e quatro ou cinco vezes depois.
"Para mim, está fora de dúvida que meu filho desperto conversa livremente com os Espíritos que deseja, por intermédio de seu guia, que chama familiarmente seu amigo; que, à sua vontade, transporta-se em Espírito para onde deseja, e disso vou citar-vos um facto, do qual
tenho as provas escritas nas mãos.
"Há justamente um mês de hoje, estávamos os dois na sala de jantar. Eu lia o curso de magnetismo do senhor Du Potet, quando meu filho toma o livro e o folheia; chegado a um certo lugar, seu guia lhe disse ao ouvido: Leia isso. Era a aventura de um doutor da América, cujo Espírito visitara um amigo, a 15 ou 20 léguas dali, enquanto ele dormia. Depois de lê-lo, meu filho disse: Bem que gostaria de fazer uma pequena viagem semelhante. - Pois bem!
Onde queres tu ir? disse-lhe seu guia. - A Londres, respondeu meu filho, ver meus amigos, e ele designou aqueles que queria visitar.
"Amanhã é domingo, respondeu-lhe; não estás obrigado a levantar cedo para trabalhar.
Dormirás às oito horas e irás viajar a Londres até as oito e meia. Sexta-feira próxima, receberás uma carta de teus amigos, que te censurarão por permanecer tão pouco tempo com eles.
"Efectivamente, na manhã do dia seguinte, na hora indicada, ele adormeceu com um sono de chumbo; às oito e meia despertou, e não se lembrava de nada; de minha parte, não disse uma palavra, esperando a consequência.
"Na sexta-feira seguinte, eu trabalhava em uma de minhas máquinas e, segundo meu hábito, fumava, porque era antes do almoço; meu filho olha a fumaça de meu cachimbo e me diz:
Olha! há uma carta em tua fumaça. - Como vês uma carta em minha fumaça? - Vais vê-la, respondeu, pois eis o carteiro que a traz. Efectivamente, o carteiro veio entregar uma carta de Londres, na qual os amigos de meu filho lhe fazem uma censura por ter ido nessa cidade, no
domingo precedente, e não ter ido vê-los, tendo uma pessoa de seu conhecimento o encontrado. Tenho a carta, como disse, que prova que não inventei nada."
Contado o facto acima, um dos assistentes disse que a história narra vários factos semelhantes.
Citou Santo Alfonso de Liguori, que foi canonizado antes do tempo previsto por haver se mostrado, simultaneamente, em dois lugares diferentes, o que passou por um milagre.
Santo António de Pádua estava na Espanha, e no momento em que pregava, seu pai (em Pádua) ia ao suplício, acusado de uma morte. Nesse momento, Santo António aparece, demonstra a inocência de seu pai, e faz conhecer o verdadeiro criminoso, que mais tarde sofreu o castigo. Foi constatado que Santo António, no mesmo momento, pregava na Espanha.
Santo Alfonso de Liguori, tendo sido evocado, foram lhe dirigidas as perguntas seguintes.

1. O facto pelo qual fostes canonizado é real? - R. Sim.

2. Esse fenómeno é excepcional? - R. Não; pode se apresentar em todos os indivíduos desmaterializados.

3. Era um motivo justo para vos canonizar? - R. Sim, uma vez que, pela minha virtude, havia me elevado a Deus; sem isso, não poderia me transportar a dois lugares ao mesmo tempo.

4. Todos os indivíduos, nos quais esses fenómenos se apresenta, merecem ser canonizados?
- R. Não, porque nem todos são igualmente virtuosos.
5. Poderíeis dar-nos a explicação desse fenómeno? - Sim; o homem, quando está completamente desmaterializado pela sua virtude, que elevou sua alma a Deus, pode
aparecer em dois lugares ao mesmo tempo, eis como. O Espírito encarnado, sentido chegar o sono, pode pedir a Deus para se transportar para um lugar qualquer. Seu Espírito, ou sua alma, como quiserdes chamá-lo, abandona então seu corpo, seguido de uma parte de seu perispírito, e deixa a matéria imunda num estado vizinho da morte. Digo vizinho da morte, porque resta no corpo um laço que liga o perispírito e a alma à matéria, e esse laço não pode
ser definido. O corpo aparece, pois, no lugar pedido. Creio que é tudo o que desejais saber.

6. Isso não nos dá a explicação da visibilidade e da tangibilidade do perispírito. - R. Achandose o Espírito desligado da matéria, segundo seu grau de elevação, pode-se tomar tangível à matéria.

7. Entretanto, certas aparições tangíveis, de mãos e de outras partes do corpo, pertencem evidentemente a Espíritos de uma ordem inferior. - R. São os Espíritos superiores que se servem de Espíritos inferiores para provarem a coisa.

8. O sono do corpo é indispensável para que o Espírito apareça em outros lugares? - R. A alma pode se dividir quando se sente levada para um lugar diferente daquele onde se encontra o corpo.

9. Um homem, estando mergulhado no sono, ao passo que seu Espírito aparece alhures, que ocorreria se fosse despertado subitamente? - R. Isso não ocorreria porque se alguém tivesse a intenção de despertá-lo, o Espírito reentraria no corpo, e preveria a intenção, já que o Espírito lê no pensamento.

Tácito reporta um facto análogo:
Durante os meses que Vespasiano passou em Alexandria, para esperar o retorno periódico dos ventos de verão e a estação na qual o mar se torna seguro, vários prodígios ocorreram, por onde se manifestou o favor do céu e o interesse que os deuses pareciam ter por esse
príncipe....
Esses prodígios redobraram em Vespasiano o desejo de visitar a morada sagrada de deus para consultá-lo a respeito do império. Ordenou que o templo fosse fechado a todo mundo: tendo entrado ele mesmo todo atento ao que ia pronunciar o oráculo, percebeu, atrás de si, um dos principais Egípcios, de nome Basilídio, que sabia estar acamado, a várias jornadas de Alexandria. Informou-se com os sacerdotes se Basilídio viera esse dia ao templo; informou-se com os transeuntes se o viram na cidade, enfim, enviou homens a cavalo, e se assegurou que naquele mesmo momento, ele estava a vinte e quatro milhas de distância. Então, ele não duvidou mais que a visão não fora sobrenatural, e o nome de Basilídio tomou o lugar do oráculo. (TÁCITO, Histórias, liv. IV, cap. 81 e 82. Tradução de Burnouf.)

Depois que essa comunicação nos foi dada, vários factos do mesmo género, cuja fonte é autêntica, nos foram contados, e entre eles há muito recentes, que ocorreram, por assim
dizer no nosso meio, e que se apresentaram com as circunstâncias mais singulares. As explicações, às quais deram lugar, alargaram singularmente o campo das observações psicológicas.
A questão dos homens duplos, relegada outrora entre os contos fantásticos, parece ter, assim, um fundo de verdade. A ela retornaremos brevemente.

Referencia: Revista espírita, Dezembro de 1958

domingo, 25 de novembro de 2007

Um espirito no enterro de seu corpo


Um Espírito no enterro de seu
Corpo

Estado da alma no momento da morte.
Os Espíritos sempre nos disseram que a separação da alma e do corpo não se faz
instantaneamente; ela começa, algumas vezes, antes da morte real, durante a agonia,
quando a última pulsação se faz sentir, o desligamento não está ainda completo; ele se opera
mais ou menos lentamente segundo as circunstâncias, e até a sua inteira liberdade a alma
experimenta uma perturbação, uma confusão que não lhe permite tomar consciência de sua
situação; está no estado de uma pessoa que desperta e cujas ideias são confusas. Esse
estado nada tem de penoso para o homem cuja consciência é pura; sem muito se explicar do
que vê, é calmo e espera sem medo o despertar completo; ao contrário, é cheio de angústias
e de terror para aquele que teme o futuro. A duração dessa perturbação, dizemos nós, é
variável; é muito menos longa naquele que, durante a vida, já elevou seus pensamentos e
purificou sua alma; dois ou três dias lhe bastam, ao passo que, em outros, é preciso,
algumas vezes, oito ou mais. Frequentemente, assistimos a esse momento solene, e sempre
vimos a mesma coisa; isso não é, pois, uma teoria, mas um resultado da observação, uma
vez que é o Espírito quem fala e quem pinta sua própria situação. Eis aqui um exemplo mais
característico e tanto mais interessante para o observador, que não se trata mais de um
Espírito invisível escrevendo por um médium, mas bem de um Espírito visto e ouvido na
presença de seu corpo, seja na câmara mortuária, seja na igreja durante o serviço fúnebre.

O senhor X... vinha de ser atingido por um ataque de apoplexia; algumas horas depois de sua
morte, o senhor Adrien, um de seus amigos, se encontrava em seu quarto com a mulher do
defunto; ele viu distintamente o Espírito deste passear em todos os sentidos, olhar
alternativamente seu corpo e as pessoas presentes, depois sentar-se numa poltrona; tinha
exactamente a mesma aparência de quando vivo; estava vestido do mesmo modo, sobrecasaca
preta, calça preta; tinha as mãos nos bolsos e o ar preocupado.
Durante esse tempo, a mulher procurava um papel na escrivaninha, seu marido a olha e diz:
Procuras inutilmente, não encontrarás nada. Ela não desconfiava nada do que se passava,
porque o senhor X... não era visível senão para o senhor Adrien.

No dia seguinte, durante o serviço fúnebre, o senhor Adrien viu de novo o Espírito de seu
amigo preambular ao lado do caixão, mas não tinha mais o vestuário da véspera; estava
envolvido com uma espécie de roupagem. A conversação seguinte se iniciou entre eles.
Notemos, de passagem, que o senhor Adrien não é sonâmbulo; que nesse momento, como
no dia precedente, estava perfeitamente desperto, e que o Espírito lhe aparecia como se
fosse um dos assistentes do enterro.

- P. Diga um pouco, caro Espírito, que sentes agora?
- R. Do bem e do sofrimento.
- P. Não compreendo isso.
- R. Sinto que estou vivo, com minha verdadeira vida e, entretanto, sinto
que vivo, que existo: sou, pois, dois seres? Ah! deixai-me sair desta noite, tenho pesadelo.

Referencia: Revista espírita Dezembro 1958

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Senhor Adrien,médium vidente



Senhor Adrien, médium vidente
Revista Espírita, Dezembro de 1858

Toda pessoa que pode ver os Espíritos sem auxílio de terceiro é, por isso mesmo, médium
vidente; mas, em geral, as aparições são fortuitas, acidentais. Não conhecemos, ainda,
ninguém apto a vê-los de modo permanente, e à vontade. É dessa notável faculdade que
está dotado o senhor Adrien, um dos membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
Ele é, ao mesmo tempo, médium vidente, escrevente, audiente e sensitivo. Como médium
escrevente, ele escreve sob o ditado dos Espíritos, mas raramente de modo mecânico, como
os médiuns puramente passivos; quer dizer que, embora escreva coisas estranhas ao seu
pensamento, tem consciência do que escreve. Como médium audiente, ouve as vozes ocultas
que lhe falam. Temos, na Sociedade, dois outros médiuns que gozam dessa última faculdade
em muito alto grau. São, ao mesmo tempo, muito bons médiuns escreventes. Enfim, como
médium sensitivo, sente os toques dos Espíritos e a pressão que exercem sobre ele; sente-lhes
mesmo comoções eléctricas muito violentas, que se comunicam às pessoas presentes.
Quando magnetiza alguém, pode, à vontade, quando isso é necessário à saúde, produzir
sobre ele os abalos da pilha voltaica.
Uma nova faculdade acaba de se revelar nele, a da dupla vista; sem ser sonâmbulo, e
embora esteja perfeitamente desperto, vê à vontade, a uma distância ilimitada, mesmo além
dos mares, o que se passa em uma localidade; vê as pessoas e o que elas fazem; descreve
os lugares e os factos com uma precisão cuja exactidão foi verificada. Apressamo-nos em dizer
que o senhor Adrien não é um desses homens fracos e crédulos que se deixam ir pela
imaginação; ao contrário, é um homem de carácter muito frio, muito calmo, e que vê tudo
isso com o mais absoluto sangue frio, não dizemos com indiferença, longe disso, porque ele
toma suas faculdades a sério, e as considera como um dom da Providência, que lhe foi
concedido para o bem, também não se serve deles senão para as coisas úteis, e jamais para
satisfazer uma vã curiosidade. É um homem jovem, de uma família distinta, muito honrada,
de um carácter ameno e benevolente, e cuja educação cuida de se revelar em sua linguagem
e em todas as suas maneiras. Como marinheiro e como militar, percorreu uma parte da
África, da índia, e de nossas colónias.
De todas suas faculdades como médium, a mais notável, e em nossa opinião a mais preciosa,
é a de médium vidente. Os Espíritos lhe aparecem sob a forma que descrevemos em nosso
artigo precedente sobre as aparições; ele os vê com uma precisão da qual pode-se julgar
pelos retratos, que damos adiante, da viúva de Malabar e da Belle Cordière de Lyon. Mas, dir-se-
á, o que prova que ele vê bem e que não é o joguete de uma ilusão? O que o prova, é que
quando uma pessoa, que ele não conhece, evoca por seu intermédio um parente, um amigo
que ele jamais viu, e dele faz um retrato surpreendente de semelhança e que pudemos
mesmo constatar; não há, pois, para nós nenhuma dúvida sobre essa faculdade que ele goza
no estado de vigília, e não como sonâmbulo.
O que há de mais notável ainda, talvez, é que não vê só os Espíritos evocados; ao mesmo
tempo, vê todos aqueles que estão presentes, evocados ou não; ele os vê entrarem, saírem,
irem, virem escutarem o que se diz, rirem ou levarem a sério, segundo seu carácter; em uns
há gravidade; em outros, um ar zombeteiro e sardónico; algumas vezes um deles avança até
um dos assistentes, lhe coloca a mão sobre a espádua ou se coloca ao seu lado, alguns se
mantêm afastado; em uma palavra, em toda reunião, há sempre uma assembleia oculta Senhor Adrien, médium vidente
composta de Espíritos atraídos por sua simpatia pelas pessoas, e pelas coisas pelas quais se
ocupem. Nas ruas vê uma multidão, porque além dos Espíritos familiares que acompanham
seus protegidos, há ali, como entre nós, a massa dos indiferentes e dos vadios. Em sua casa,
disse-nos, não está jamais só, e não se entedia nunca; tem sempre uma sociedade com a
qual ele conversa.
Sua faculdade se estende não somente aos Espíritos dos mortos, mas aos dos vivos; quando
vê uma pessoa, pode fazer abstracção do corpo; então o Espírito lhe aparece como se
estivesse separado dele, e pode conversar com ele: Em uma criança, por exemplo, pode ver
o Espírito que está encarnado nela, apreciar a sua natureza, e saber o que era antes de sua
encarnação.
Essa faculdade, estendida a esse grau, nos inicia melhor, que todas as comunicações escritas,
na natureza do mundo dos Espíritos; no-lo mostra tal qual é, e se não o vemos pelos nossos
olhos, a descrição que dele nos dá fá-lo ver pelo pensamento; os Espíritos não são mais seres
abstractos, são seres reais, que estão ali ao nosso lado, que nos acotovelam sem cessar, e
como sabemos agora que seu contacto pode ser material, compreendemos a causa de uma
multidão de impressões que sentimos sem delas nos rendermos conta. Também colocamos o
senhor Adrien no número dos mais notáveis médiuns, e na primeira classe daqueles que
forneceram os elementos mais preciosos para o conhecimento do mundo espírita. Sobretudo,
o colocamos na primeira classe por suas qualidades pessoais, que são as de um homem de
bem por excelência, e que o tornam eminentemente simpático aos Espíritos da mais elevada
ordem, o que não ocorre sempre entre os médiuns de influências puramente físicas. Sem
dúvida, entre estes últimos, aos que farão mais sensação, cativarão melhor a curiosidade;
mas para o observador, para aquele que quer sondar os mistérios desse mundo maravilhoso,
o senhor Adrien é o mais poderoso auxiliar que já vimos. Também colocamos sua faculdade,
e sua complacência, em proveito de nossa instrução pessoal, seja na intimidade, seja nas
sessões da Sociedade, seja, enfim, na visita de diversos lugares de reunião. Estivemos juntos
no teatro, nos bailes, nos passeios, nos hospitais, nos cemitérios, nas igrejas; assistimos a
enterros, a casamentos, a baptismos, a sermões: por toda parte observamos a natureza dos
Espíritos que ali vinham se agrupar, entabulamos conversação com alguns, os interrogamos e
aprendemos muitas coisas das quais aproveitaremos aos nossos leitores, porque nosso
objectivo é fazê-los penetrarem, como nós, nesse mundo tão novo para nós. O microscópio
nos revelou um mundo dos infinitamente pequenos que não supúnhamos, embora estivesse
sob nossos dedos; o telescópio nos revelou a infinidade de mundos celestes, que não
supúnhamos mais; o Espiritismo nos descobre o mundo dos Espíritos que está por toda parte,
ao nosso lado como nos espaços; mundo real que reage incessantemente sobre nós.

Revista espirita 1858 Dezembro

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Das aparições



Das aparições
Revista Espírita, Dezembro de 1858

O fenómeno das aparições se apresenta hoje sob um aspecto de alguma sorte novo, e que
lança uma luz viva sobre os mistérios da vida além-túmulo. Antes de abordarmos os factos
estranhos que vamos relatar, cremos dever retornar sobre a explicação que deles foi dada, e
completá-la.
Não se pode perder de vista que, durante a vida, o Espírito está unido ao corpo por uma
substância semi-material que designamos sob o nome de perispírito. O Espírito tem, pois,
dois envoltórios: um grosseiro, pesado e destrutível: é o corpo; o outro etéreo, vaporoso e
indestrutível: é o perispírito. A morte não é senão a destruição do envoltório grosseiro, é a
veste de cima usada que se deixa; o envoltório semi-material persiste, e constitui, por assim
dizer, um novo corpo para o Espírito. Essa matéria etérea não ó a alma, anotemos bem, não
é senão o primeiro envoltório da alma. A natureza íntima dessa substância, ainda, não nos é
perfeitamente conhecida, mas a observação nos colocou no caminho de algumas dessas
propriedades. Sabemos que ela desempenha um papel capital em todos os fenómenos
espíritas; depois da morte ó o agente intermediário entre o Espírito e a matéria, como o
corpo durante a vida. Por aí se explicam uma multidão de problemas até agora insolúveis.
Ver-se-á, num artigo subsequente, o papel que ela desempenha nas sensações do Espírito.
Também a descoberta, se assim se pode exprimir, do perispírito, fez dar um passo imenso à
ciência espírita; fê-la entrar num caminho todo novo. Mas esse perispírito, direis, não é uma
criação fantástica da imaginação? Não é uma dessas suposições como, frequentemente, faz-se
na ciência para explicar certos efeitos? Não, não é uma obra de imaginação, porque foram
os próprios Espíritos que o revelaram; não é uma ideia fantástica, porque pode ser
constatada pelos sentidos, porque se pode vê-lo e tocá-lo. A coisa existe, só a palavra é
nossa. São necessárias palavras novas para exprimirem coisas novas. Os próprios Espíritos a
adoptaram nas comunicações que temos com eles.
Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é indivisível para nós, mas pode
sofrer modificações que o tomem perceptível à visão, seja por uma espécie de condensação,
seja por uma mudança na disposição molecular é então que nos aparece sob forma vaporosa.
A condensação (não é preciso tomar essa palavra pela letra, empregamo-la na falta de uma
outra), a condensação, dizíamos, pode ser tal que o perispírito adquire as propriedades de
um corpo sólido e tangível; mas ele pode, instantaneamente, retomar seu estado etéreo e
invisível. Podemos entender esse efeito pelo do vapor, que pode passar da invisibilidade ao
estado brumoso, depois líquido, depois sólido, e vice-versa. Esses diferentes estados do
perispírito são o produto da vontade do Espírito, e não de uma causa física exterior. Quando
nos aparece, é que dá ao seu perispírito a propriedade necessária para torná-lo visível, e essa
propriedade ele pode estender, restringi-la, fazê-la cessar à sua vontade.
Uma outra propriedade da substância do perispírito é a da penetrabilidade. Nenhuma matéria
lhe faz obstáculo: atravessa todas, como a luz atravessa os corpos transparentes.
O perispírito, separado do corpo, afecta uma forma determinada e limitada, e essa forma
normal é a do corpo humano, mas não é constante; o Espírito pode dar-lhe, à sua vontade,
as aparências mais variadas e até a de um animal ou de uma chama. De resto, isto se
concebe muito facilmente. Não se vêem homens darem, ao seu rosto, as expressões mais diversas, imitarem, ao ponto de enganarem, a voz, o rosto de outras pessoas, parecerem
corcundas, coxos, etc.? Quem reconheceria na cidade certos actores que não se vira senão
caracterizado no palco? Se, pois, o homem pode assim dar ao seu corpo material e rígido
aparências tão contrárias, com mais forte razão o Espírito pode fazê-lo com um envoltório
eminentemente flexível, e que pode prestar-se a todos os caprichos da vontade.
Os Espíritos nos aparecem, pois, geralmente sob uma forma humana; em seu estado normal,
essa forma nada tem bem característica, nada que os distingue uns dos outros, de um modo
bem marcado; nos bons Espíritos, ela é ordinariamente bela e regular: os longos cabelos
flutuam sobre os ombros, roupagens envolvem o corpo. Mas, se querem dar-se a conhecer,
tomam exactamente todos os traços sob os quais foram conhecidos, e até a aparência das
vestes, se isso for necessário. Assim, Esopo, por exemplo, como Espírito não é disforme, mas
se for evocado, enquanto Esopo, tivesse mesmo várias existências depois, apareceria
disforme e corcunda, com o costume tradicional. Esse vestuário, talvez, é o que mais
espanta; mas considerando-se que faz parte integrante do envoltório semi-material, concebesse
que o Espírito possa dar, a esse envoltório, a aparência de tal ou tal vestuário, como a de
tal ou de tal rosto.
Os Espíritos podem aparecer seja em sonho, seja no estado de vigília. As aparições no estado
de vigília não são nem raras nem novas; houve-as em todos os tempos; delas a história
narra um grande número; mas, sem remontar tão alto, em nossos dias elas são muito
frequentes, em muitas pessoas que as tiveram, à primeira vista, tomaram-nas pelo que se
convencionou chamar de alucinações. São frequentes, sobretudo, nos casos de morte de
pessoas ausentes, que vêm visitar seus parentes ou amigos. Frequentemente, elas não têm
objectivo determinado, mas pode-se dizer que, em geral, os Espíritos que nos aparecem assim
são seres atraídos a nós pela simpatia. Conhecemos uma jovem senhora que via, muito
frequentemente, em sua casa, em seu quarto, com ou sem luz, homens que ali penetravam e
dali se iam apesar das portas fechadas. Com isso estava muito atemorizada, e isso a tornara
de uma pusilanimidade que se achava ridícula. Um dia, ela viu distintamente seu irmão, que
estava na Califórnia, e que não estava morto de todo: prova que o Espírito dos vivos pode
também transpor as distâncias e aparecer em um lugar ao passo que o corpo está algures.
Depois que essa senhora se iniciou no Espiritismo, não tem mais medo, porque tem
consciência de suas visões, e sabe que os Espíritos que vêm visitá-la, não podem fazer-lhe
mal. Quando seu irmão lhe apareceu, provavelmente estava adormecido; se ela entendesse a
sua presença, poderia conversar com ele, e este último, em seu despertar, poderia disso conservar vaga lembrança. É provável, além disso, que nesse momento ele estivesse
sonhando que estava perto de sua irmã. Dissemos que o perispírito pode adquirir a tangibilidade; disso falamos a propósito das
manifestações produzidas pelo senhor Home. Sabe-se que, várias vezes, fez aparecer mãos que se podiam apalpar, como mãos vivas, e que, de repente, se esvaneciam como uma sombra; mas não se vira, ainda, corpo inteiro sob essa forma tangível; isso não é todavia
uma coisa impossível. Numa família do conhecimento íntimo de um de nossos assinantes, um Espírito se ligou à filha da casa, criança de 10 a 11 anos, sob a forma de um lindo rapaz da mesma idade. Era visível por ela como uma pessoa comum, e se tornava, à vontade, visível ou invisível a outras pessoas; prestou-lhe todas as espécies de bons ofícios, trouxe-lhe brinquedos, bombons, fez serviço da casa, vai comprar o que se tem necessidade, e o que é
mais, lhe paga. Isto não é uma lenda da mística Alemanha, nem é uma história da Idade
Média, é um fato actual, que se passa, no momento em que escrevemos, em uma cidade da
França, e numa família muito honrada. Fomos capazes de fazer, sobre esse facto, estudos
plenos de interesse e que nos forneceram as revelações mais estranhas e as mais
inesperadas. Dele proveremos nossos leitores, de modo mais completo, em um artigo
especial que publicaremos brevemente.

REVISTA ESPIRITA DE 1858 DEZEMBRO