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sexta-feira, 25 de maio de 2007

lei do progresso


Lei do Progresso

Estado natural – Marcha do progresso – Povos degenerados – Civilização – Progresso da legislação humana – Influência do Espiritismo sobre o progresso
Estado natural

776 O estado natural e a lei natural são a mesma coisa?

– Não. O estado natural é o estado primitivo. A civilização é incompatível com o estado natural, enquanto a lei natural contribui para o progresso da humanidade.

☼ O estado natural é a infância da humanidade, é o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, tendendo à perfeição e tendo em si o germe de seu aperfeiçoamento, não está destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não foi destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório, o homem liberta-se dele pelo progresso e pela civilização. A lei natural, ao contrário, rege a humanidade inteira e o homem se aperfeiçoa à medida que melhor compreende e pratica essa lei.

777 No estado natural, o homem, por ter menos necessidades, não tem todos os tormentos que cria para si mesmo num estado mais avançado; o que pensar da opinião que considera esse estado como a mais perfeita felicidade sobre a Terra?

– Que quereis! É a felicidade do bruto; há pessoas que não a compreendem de outro modo. É ser feliz à maneira dos bárbaros. Também as crianças são mais felizes do que os adultos.

778 O homem pode regredir para o estado natural?

– Não; o homem deve progredir sempre e não pode retornar à infância. Se progride, é porque Deus assim quer; pensar que possa regredir à sua condição primitiva seria negar a lei do progresso.

Marcha do progresso

779 O homem traz em si o impulso de progredir ou o progresso é apenas fruto de um ensinamento?

– O homem se desenvolve naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e do mesmo modo; é assim que os mais avançados ajudam pelo contacto social o progresso dos outros.

780 O progresso moral é sempre acompanhado do intelectual?

– É sua consequência, mas nem sempre o segue imediatamente.(Veja as questões 192 e 365.)

780 a Como o avanço intelectual pode gerar o progresso moral?

– Ao fazer compreender o bem e o mal; o homem, então, pode escolher. O desenvolvimento do livre-arbítrio segue o da inteligência e aumenta a responsabilidade dos seus actos.

780 b Por que os povos mais esclarecidos são, muitas vezes, os mais pervertidos?

– O progresso completo é a meta; mas os povos, como os indivíduos, o alcançam apenas passo a passo. Enquanto o sentido moral não estiver plenamente desenvolvido, eles se servem de sua inteligência para fazer o mal. O moral e a inteligência são duas forças que se equilibram apenas com o tempo. (Veja as questões 365 e 751.)

781 O homem pode deter a marcha do progresso?

– Não; mas pode impedi-lo algumas vezes.

781 a O que pensar dos homens que tentam deter essa marcha e fazer retroceder a humanidade?

– Pobres seres que serão punidos por suas próprias acções. Serão arrastados pela torrente que querem deter.

☼ Sendo o progresso uma condição da natureza humana, ninguém tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não sufocar. Quando essas leis se tornam incompatíveis com a sua marcha, ele as destrói e a todos que tentam mantê-las. Será assim até que o homem coloque suas leis em concordância com a justiça e com o bem de todos, e não leis feitas pelo forte em prejuízo do fraco.
782 Não há homens que impedem o progresso com sua boa-fé, pensando favorecê-lo porque o vêem sob seu ponto de vista e, muitas vezes, onde ele não está?
– São como uma pequena pedra colocada sob a roda de um grande carro e que não o impede de avançar.

783 O aperfeiçoamento da humanidade segue sempre uma marcha progressiva e lenta?

– Há o progresso regular e lento que resulta da força das coisas; mas quando um povo não avança rápido o suficiente a Providência provoca, de tempos em tempos, um abalo físico ou moral que o transforma.

☼ O homem não pode permanecer perpetuamente na ignorância, porque tem de atingir o objectivo marcado pela Providência; ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, germinam durante séculos, explodem de repente e fazem desabar o edifício apodrecido do passado, que não está mais em harmonia com as novas necessidades e aspirações.
Muitas vezes, o homem percebe nessas transformações apenas a desordem e a confusão momentâneas que atingem seus interesses materiais. Porém, aquele que eleva o pensamento acima dos interesses pessoais admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade e a agitação que purificam a atmosfera após a perturbação.

784 A perversidade do homem é muito grande. Não parece recuar em vez de avançar, pelo menos do ponto de vista moral?

– Engano vosso. Observai bem o conjunto e vereis que o homem avança, uma vez que compreende melhor o que é o mal e a cada dia corrige abusos. É preciso o mal chegar a extremos para fazer compreender a necessidade do bem e das reformas.

785 Qual é o maior obstáculo ao progresso?

– O orgulho e o egoísmo; quero falar do progresso moral, uma vez que o progresso intelectual avança sempre e parece, aliás, à primeira vista, dar ao egoísmo e ao orgulho força duplicada ao desenvolver a ambição e o amor às riquezas, que, por sua vez, estimulam o homem às pesquisas que esclarecem seu Espírito. É assim que tudo se relaciona no mundo moral como no físico e que do próprio mal pode sair o bem; mas essa situação não durará muito tempo, mudará à medida que o homem compreender melhor que além dos prazeres terrestres há uma felicidade infinitamente mais durável. (Veja “O Egoísmo”, Parte Terceira, cap. 12.)

☼ Há duas espécies de progresso que se apoiam mutuamente e que, entretanto, não marcham lado a lado: é o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados, o progresso intelectual recebeu, neste século, todos os incentivos possíveis e atingiu um grau desconhecido até os nossos dias. Falta algo ao progresso moral para que esteja no mesmo nível, e, entretanto, comparando os costumes sociais de hoje aos de alguns séculos atrás, seria preciso ser cego para negar que houve progresso moral. Por que razão deve a marcha ascendente do progresso moral atrasar-se em relação ao da inteligência? Por que duvidar que entre o século 19ºe o século 24º não ocorrerá tanto avanço, como houve no progresso intelectual entre os séculos 14º e 19º? Duvidar dessa possibilidade será pretender que a humanidade tenha atingido o auge da perfeição. Seria um absurdo. Ou que ela é moralmente incapaz de se aperfeiçoar, o que é desmentido pela experiência.

Povos degenerados

786 A história nos mostra muitos povos que, após os abalos que sofreram, caíram na barbárie; onde está o progresso nesse caso?

– Quando vossa casa ameaça desabar a derrubais para reconstruir uma mais sólida e mais cómoda; mas, até que esteja reconstruída, há problemas e confusão na vossa casa.
Compreendei o seguinte: éreis pobres e habitável um casebre; tornais-vos rico e o deixais para habitar um palácio. Depois, um pobre diabo, como vós, vem tomar vosso lugar no casebre e ainda fica muito contente, porque antes não tinha abrigo. Pois bem! Aprendei que os Espíritos encarnados nesse povo degenerado não são aqueles que o compuseram no tempo de seu esplendor; os de então, que avançaram, foram para habitações mais perfeitas, progrediram, enquanto outros menos avançados vieram e tomaram o lugar, que também, por sua vez, deixarão.

787 Não há raças que por sua natureza são rebeldes ao progresso?

– Sim, mas estas se destroem, corporalmente, a cada dia.

787 a Qual será a sorte futura das almas que animam essas raças?

– Elas chegarão como todas à perfeição ao passar por outras existências: Deus não deserda ninguém.

787 b Assim, os homens mais civilizados podem ter sido selvagens e antropófagos?

– Vós mesmo o fostes, mais de uma vez, antes de ser o que sois.

788 Os povos são individualidades colectivas que, como os indivíduos, passam pela infância, idade adulta e velhice; essa verdade constatada pela história não nos faz concluir que os mais adiantados deste século terão seu declínio e fim, como os da Antiguidade?

– Os povos materialistas, que vivem somente a vida do corpo, aqueles cuja grandeza é fundada apenas sobre a força e a extensão territorial, nascem, crescem e morrem, porque a força de um povo se esgota como a de um homem. Aqueles cujas leis egoístas retardam o progresso das luzes e da caridade morrem, porque a luz mata as trevas e a caridade mata o egoísmo; mas há para os povos, como para os indivíduos, a vida da alma. Aqueles, porém, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador viverão e serão o farol dos outros povos.

789 O progresso reunirá um dia todos os povos da Terra numa única nação?

– Não numa única nação, isso é impossível, uma vez que da diversidade dos climas nascem costumes e necessidades diferentes que constituem as nacionalidades; é por isso que sempre precisarão de leis apropriadas a esses costumes e necessidades. Mas a caridade não conhece diferenças nem faz distinção entre os homens pela cor. Quando a lei de Deus for a base da lei humana em todos os lugares, os povos praticarão a caridade entre si, como os indivíduos, de homem para homem; então, viverão felizes e em paz, porque ninguém fará mal a seu vizinho, nem viverão à custa uns dos outros.

☼ A humanidade progride por meio dos indivíduos que se aperfeiçoam pouco a pouco e se esclarecem; então, quando eles prevalecem em número, tomam a frente e conduzem os outros. De tempos em tempos surgem homens de génio que lhe dão um impulso, depois surgem homens com autoridade, instrumentos de Deus, que em alguns anos fazem a humanidade avançar muitos séculos. O progresso dos povos também evidencia a justiça da reencarnação. Os homens de bem praticam louváveis esforços para fazer avançarem uma nação moral e intelectualmente; os integrantes da nação transformada serão mais felizes neste mundo e no outro; mas, durante sua marcha lenta através dos séculos, milhares de indivíduos morrem a cada dia. Qual é o destino de todos que morrem no caminho? Sua inferioridade relativa os priva da felicidade reservada aos que chegam por último? Ou melhor, sua felicidade é relativa? A justiça divina não poderia consagrar semelhante injustiça. Pela pluralidade das existências, o direito à felicidade é o mesmo para todos, porque ninguém é deserdado do progresso. Aqueles que viveram no tempo da barbárie podem voltar no tempo da civilização no mesmo povo ou em outro, resultando disso que todos tiram proveito da marcha ascendente.

Mas o sistema da unicidade das existências apresenta ainda outra dificuldade. De acordo com esse sistema, a alma é criada no momento do nascimento; é claro que, se um homem é mais avançado que outro, é porque Deus criou para ele uma alma mais avançada. Por que esse favor? Que mérito tem ele que não viveu mais nem menos que um outro para ser dotado de uma alma superior? Mas não é só essa a principal dificuldade. Uma nação passa, em mil anos, da barbárie à civilização. Se os homens vivessem ali mil anos seria possível entender que nesse período tivessem tempo de progredir; mas todos os dias eles morrem, e em todas as idades, e se renovam sem parar, de modo que a cada dia vêem-se multidões aparecer e desaparecer. Decorridos os mil anos, não há mais traços dos antigos habitantes e a nação, de bárbara, torna-se civilizada. O que progrediu? Foram os indivíduos antigamente bárbaros? Mas eles estão mortos há muito tempo. São os recém-chegados? Mas se sua alma é criada no momento do nascimento, essas almas não existiam na época da barbárie, e então é preciso admitir que os esforços que se fazem para civilizar um povo têm o poder não de melhorar almas imperfeitas, mas de fazer com que Deus crie almas mais perfeitas.

Comparemos essa teoria do progresso com a que é dada pelos Espíritos. As almas vindas na época da civilização tiveram sua infância, como todas as outras, mas já tinham vivido, e, ao reencarnar, vêm adiantadas por um progresso anterior; vêm atraídas a um meio que lhes é simpático e em relação com seu estado actual. Assim, os cuidados dados à civilização de um povo não têm por objectivo criar no futuro almas mais perfeitas, mas atrair aquelas que já progrediram, seja as que já tenham vivido nesse mesmo povo na época da barbárie ou as que possam vir de outro lugar.

Aqui está a chave para entender o progresso de toda a humanidade. Quando todos os povos atingirem o mesmo padrão no sentimento do bem, a Terra será o ponto de encontro apenas dos bons Espíritos, que viverão uma união fraterna. Os maus, se encontrando rejeitados, irão procurar nos mundos inferiores o meio que lhes convém, até que sejam dignos de virem ao nosso meio, transformados.

Essa teoria tem ainda por consequência que os trabalhos de aperfeiçoamento social só resultam em proveito para as gerações presentes e futuras, e que é nulo para as gerações passadas, qualquer que seja o progresso feito, já que cometeram o erro de encarnar, muito cedo, e que são como são porque estão carregadas de seus actos de barbárie.

De acordo com a Doutrina dos Espíritos, os progressos contínuos e sucessivos servem igualmente a essas gerações passadas que reencarnam em condições melhores e podem, assim, se aperfeiçoar no meio da civilização. (Veja a questão 222.)

Civilização

790 A civilização é um progresso ou, conforme alguns filósofos, uma decadência da humanidade?

– Progresso incompleto; o homem não passa subitamente da infância à idade adulta.

790 a É racional condenar a civilização?

– Primeiramente condenai aqueles que abusam dela e não a obra de Deus.

791 A civilização se depurará um dia de modo a fazer desaparecer os males que tenha produzido?

– Sim, quando a moral também estiver tão desenvolvido quanto a inteligência. O fruto não pode vir antes da flor.

792 Por que a civilização não realiza imediatamente todo o bem que poderia produzir?

– Porque os homens ainda não estão prontos nem dispostos a obter esse bem.

792 a Não seria também porque, ao criar novas necessidades, ela super excita novas paixões?

– Sim, e porque nem todas as faculdades do Espírito progridem a um só tempo; é preciso tempo para tudo. Não podeis esperar frutos perfeitos de uma civilização incompleta. (Veja as questões 751 e 780.)

793 Com que sinais se podem reconhecer uma civilização completa?

– Vós a reconhecereis pelo desenvolvimento moral. Acreditais estar bem avançados, pelas grandes descobertas e invenções maravilhosas, e estais melhor alojados e vestidos do que os selvagens. Mas apenas tereis verdadeiramente o direito de vos dizer civilizados quando tiverdes banido da sociedade os vícios que a desonram e viverdes como irmãos praticando a caridade cristã. Até lá, sois somente povos esclarecidos, que percorreram apenas a primeira fase da civilização.

☼ A civilização tem seus graus como todas as coisas. Uma civilização incompleta é um estado de transição que origina males específicos, próprios dela, desconhecidos do homem no seu estado primitivo; mas isso não constitui senão um progresso natural, necessário, que já traz em si mesmo o remédio para o mal que provoca.
À medida que a civilização se aperfeiçoa, faz cessar alguns males que gerou, e esses males desaparecerão completamente com o progresso moral.

De dois povos chegados ao topo da escala social, o único que pode se dizer civilizado, na verdadeira acepção da palavra, é aquele em que não se encontra egoísmo, cobiça e orgulho; em que os hábitos são mais intelectuais e morais do que materiais; em que a inteligência pode se desenvolver com mais liberdade; em que há mais bondade, boa fé, benevolência e generosidade recíprocas; em que os preconceitos de casta e de nascimento são menos enraizados, porque são incompatíveis com o verdadeiro amor ao próximo; em que as leis não consagram nenhum privilégio e são as mesmas para o último como para o primeiro; em que a justiça é exercida com imparcialidade; em que o fraco encontra sempre apoio contra o forte; em que a vida do homem, suas crenças e opiniões são respeitadas; em que há menos infelizes e, enfim, em que todo homem de boa vontade esteja sempre seguro de não lhe faltar o necessário.

Progresso da legislação humana

794 A sociedade poderia ser regida só pelas leis naturais sem a colaboração das leis humanas?

– Poderia se as compreendesse bem, se o homem tivesse vontade suficiente para praticá-las; mas a sociedade tem suas exigências e precisa de leis particulares.

795 Qual a causa da instabilidade das leis humanas?

– Nos tempos da barbárie, são os mais fortes que fazem as leis, e as fazem para se beneficiarem. Foi preciso modificá-las muito, à medida que os homens compreenderam melhor a justiça. As leis humanas são mais estáveis quanto mais se aproximam da verdadeira justiça, isto é, conforme sejam as mesmas e iguais para todos e se identifiquem com a lei natural.

☼ A civilização criou para o homem novas necessidades, relativas à posição social em que vive. Devem-se regular os direitos e os deveres dessa posição por leis humanas. Mas sob a influência de suas paixões, frequentemente, criou direitos e deveres imaginários que a lei natural condena e que os povos apagam de seus códigos à medida que progridem. A lei natural é imutável, é a mesma para todos; a lei humana é variável e progressiva; somente pôde consagrar, na infância das sociedades, o direito do mais forte.

796 A severidade das leis penais não é uma necessidade no estado actual da sociedade?

– Uma sociedade depravada certamente tem necessidade de leis mais severas. Infelizmente, essas leis mais se destinam a punir o mal depois de feito em vez de secar a fonte do mal. Só a educação pode reformar os homens, que então não terão mais necessidade de leis tão rigorosas.

797 Como o homem poderia ser levado a reformar suas leis?

– Isso ocorre naturalmente pela força das coisas e a influência dos homens de bem que o conduzem no caminho do progresso. Já se reformaram muitas e se reformarão outras. Esperai!

Influência do Espiritismo sobre o progresso

798 O Espiritismo será para todos ou permanecerá como privilégio de algumas pessoas?

– Certamente, ele se tornará uma convicção íntima de todos e marcará uma nova era na história da humanidade, porque está na ordem natural das coisas, na natureza, e é chegado o tempo de ocupar o seu lugar entre os conhecimentos humanos.

Entretanto, haverá grandes lutas a sustentar, mais contra os interesses do que contra a convicção, porque não podemos desconhecer que há pessoas interessadas em combatê-lo, uns por amor-próprio, outros por interesses materiais. Mas os opositores, ao se encontrarem cada vez mais isolados, serão forçados a pensar como todo o mundo, sob pena de se tornarem ridículos.

☼ As ideias somente se transformam ao longo do tempo e não subitamente. De geração a geração vão se enfraquecendo e acabam por desaparecer pouco a pouco junto com seus seguidores, substituídos por outros indivíduos inspirados por novos princípios, como ocorre com as ideias políticas. Observai o paganismo; não há ninguém que actualmente aceite suas ideias religiosas; entretanto, muitos séculos após o surgimento do Cristianismo, ainda há traços do paganismo que somente a completa renovação das raças pode apagar. Ocorrerá o mesmo com o Espiritismo; ele fez muito progresso, mas haverá ainda, durante duas ou três gerações, um fermento de incredulidade que apenas o tempo destruirá. Todavia, sua marcha será mais rápida que a do Cristianismo, porque o próprio Cristianismo é quem lhe abre os caminhos e está nele apoiado. O Cristianismo tinha o que destruir; o Espiritismo só tem que edificar.

799 De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?

– Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e fazendo os homens compreenderem onde está seu verdadeiro interesse. A vida futura, não estando mais encoberta pela dúvida, fará o homem compreender melhor que pode, desde agora, no presente, preparar seu futuro. Ao destruir os preconceitos de seitas, de castas e de raças, ensina aos homens a grande solidariedade que deve uni-los como irmãos.

800 Não é de temer que o Espiritismo não possa vencer a indiferença dos homens e seu apego às coisas materiais?

– Seria conhecer pouco os homens, se pensássemos que uma causa qualquer pudesse transformá-los como por encantamento. As ideias se modificam pouco a pouco, de acordo com os indivíduos, e são necessárias gerações para apagar completamente os traços dos velhos hábitos. A transformação só pode, portanto, se operar a longo prazo, gradualmente, passo a passo. A cada geração uma parte do véu se dissipa. O Espiritismo veio rasgá-lo de uma vez e, conseguindo corrigir no homem um único defeito que seja, já o terá habilitado a dar um grande passo que representa, para ele, um grande bem, porque facilitará os outros que terá que dar.

801 Por que os Espíritos não ensinaram em todos os tempos o que ensinam hoje?

– Não ensinais às crianças o que ensinais aos adultos e não se pode dar ao recém-nascido um alimento que não poderá digerir. Cada coisa tem seu tempo. Eles ensinaram muitas coisas que os homens não compreenderam ou adulteraram, mas que podem compreender agora. Com o seu ensinamento, mesmo incompleto, prepararam o terreno para receber a semente que vai frutificar agora.

802 Uma vez que o Espiritismo deve marcar um progresso na humanidade, por que os Espíritos não aceleram esse progresso com manifestações tão generalizadas e evidentes que convençam até os mais descrentes?

– Quereis ver milagres; mas Deus espalha milagres a mãos cheias diante dos vossos olhos e, ainda assim, há homens que o renegam. Por acaso o próprio Cristo convenceu seus contemporâneos com os prodígios que realizou? Não vedes hoje homens negarem os fatos mais evidentes que se passam sob seus olhos? Não há os que dizem que não acreditariam mesmo se vissem? Não; não é por prodígios que Deus quer encaminhar os homens. Em sua bondade, quer deixar o mérito de se convencerem pela razão.

referência: o livro dos espiritos

quinta-feira, 24 de maio de 2007

lei da conservação


Lei de conservação

Instinto de conservação – Meios de conservação – Prazeres dos bens da terra – Necessário e supérfluo – Privações voluntárias. Mortificações
Instinto de conservação

702 O instinto de conservação é uma lei natural?

– Sem dúvida. Foi dado a todos os seres vivos, seja qual for o grau de inteligência. Para uns, é puramente mecânico; para outros, é racional.

703 Com que objectivo Deus deu a todos os seres vivos o instinto de conservação?

– Porque todos devem cumprir os desígnios da Providência; é por isso que Deus deu o instinto de conservação. Além disso, a vida é necessária ao aperfeiçoamento dos seres que têm instintivamente esse sentimento, sem se darem conta disso.
Meios de conservação

704 Deus, dando ao homem a necessidade de viver, sempre lhe forneceu os meios para isso?

– Sim. Se não os encontra, é por falta de iniciativa. Deus não poderia dar ao homem a necessidade de viver sem lhe dar os meios, por isso faz a terra produzir e fornecer o necessário a todos, porque só o necessário é útil. O supérfluo nunca é.

705 Por que nem sempre a terra produz o suficiente para fornecer o necessário ao homem?

– O homem a negligência por ingratidão e, no entanto, a terra continua sendo uma excelente mãe. Além disso, ele ainda acusa a natureza por sua própria imperícia ou imprevidência. A terra produziria sempre o necessário se o homem soubesse se contentar. Se o que produz não é bastante para todas as necessidades, é porque emprega no supérfluo o que deveria utilizar no necessário. Observai o árabe no deserto: encontra sempre com o que viver, porque não cria necessidades artificiais. Porém, quando a metade da produção é desperdiçada para satisfazer fantasias, deve o homem se espantar de não encontrar nada em seguida? E terá razão de se queixar por estar desprovido quando chega a época da escassez? Na verdade, não é a natureza que é imprevidente, é o homem que não sabe regrar sua vida.

706 Por bens da terra somente devemos entender os produtos do solo?

– O solo é a fonte primária de onde vêm todos os outros recursos, que são apenas uma transformação dos produtos do solo; por isso, é preciso entender por bens da terra tudo o que o homem pode desfrutar neste mundo.

707 Os meios de subsistência, muitas vezes, faltam a alguns, mesmo em meio à abundância que os cerca; por quê?

– É pelo egoísmo dos homens em geral e também, frequentemente, por negligência deles mesmos. Buscai e achareis; essas palavras não querem dizer que basta olhar a terra para encontrar o que se deseja, mas que é preciso procurar com ardor e perseverança e não com fraqueza, sem se deixar desencorajar pelos obstáculos que, muitas vezes, são apenas meios de colocar à prova a vossa constância, paciência e firmeza. (Veja a questão 534.)

☼ Se a civilização multiplica as necessidades, também multiplica as fontes de trabalho e os meios de vida; mas é preciso admitir que sob esse aspecto resta ainda muito a fazer. Quando a civilização terminar sua obra, ninguém poderá queixar-se de que lhe falta o necessário, senão por sua própria culpa. A infelicidade, para muitos, decorre de enveredarem por um caminho que não é o que a natureza traçou; é então que falta inteligência para terem êxito. Há lugar ao sol para todos, mas com a condição de cada um ter o seu, e não o dos outros. A natureza não pode ser responsável pelos vícios de organização social nem pelas consequências da ambição e do amor-próprio.

Entretanto, seria preciso ser cego para não reconhecer o progresso que se realizou sob esse aspecto entre os povos mais avançados. Graças aos louváveis esforços que a filantropia e a ciência juntas não param de fazer para o melhoramento da condição material dos homens, e apesar do contínuo aumento das populações, a insuficiência da produção está atenuada em grande parte, pelo menos. Os anos mais calamitosos hoje nada têm de comparável aos de antigamente. A higiene pública, esse elemento tão essencial para o bem-estar e a saúde, desconhecida de nossos pais, é agora objecto de cuidados especiais; o infortúnio e o sofrimento encontram lugares de refúgio. Em toda parte a ciência contribui para aumentar o bem-estar. Pode-se dizer que já alcançou a perfeição? Certamente que não. Mas o que já se fez dá a medida do que se pode fazer com perseverança, se o homem é bastante sábio para procurar sua felicidade nas coisas positivas e sérias e não nas utopias que o fazem recuar em vez de progredir.

708 Não há situações em que os meios de subsistência não dependem de modo algum da vontade do homem, e a privação até daquilo que mais necessita é uma consequência das circunstâncias?

– É uma prova muitas vezes cruel que deve passar e à qual sabia que seria exposto. Seu mérito está em sua submissão à vontade de Deus, se sua inteligência não fornece nenhum meio de se livrar das dificuldades. Se a morte deve atingi-lo, deve se submeter sem reclamar e compreender que a hora da verdadeira libertação chegou e que o desespero do último momento pode lhe fazer perder o fruto de sua resignação.

709 Aqueles que, em certas posições críticas, se viram obrigados a sacrificar seus semelhantes para se alimentarem deles, cometeram um crime? Nesse caso, o crime pode ser atenuado pela necessidade de viver que lhes dá o instinto de conservação?

– Já respondi, ao dizer que há mais mérito em sofrer todas as provas da vida com coragem e abnegação. Nesse caso, há homicídio e crime de lesa-natureza, faltas que devem ser duplamente punidas.

710 Nos planetas onde o corpo é mais depurado, os seres vivos têm necessidade de alimentação?

– Sim, mas os alimentos estão de acordo com sua natureza. Esses alimentos não seriam muito substanciais para vossos estômagos grosseiros, do mesmo modo que, para eles, a vossa alimentação também não serviria.

Prazeres dos bens da terra


711 O uso dos bens da terra é um direito para todos os homens?

– Esse direito é a consequência da necessidade de viver. Deus não pode impor um dever sem dar o meio de satisfazê-lo.

712 Por que Deus colocou o atractivo do prazer na posse e uso dos bens materiais?

– Para estimular o homem ao cumprimento de sua missão e experimentá-lo por meio da tentação.

712 a Qual é o objectivo dessa tentação?

– Desenvolver sua razão, que deve preservá-lo dos excessos.
☼ Se o homem tivesse considerado o uso dos bens da Terra somente pela utilidade que eles têm, sua indiferença poderia comprometer a harmonia do universo: Deus lhe deu o atractivo do prazer para o cumprimento dos seus desígnios. Mas pelo que possa representar esse atractivo quis, por outro lado, prová-lo por meio da tentação que o arrasta para o abuso do qual sua razão deve defendê-lo.

713 Os prazeres têm limites traçados pela natureza?

– Sim, têm o limite do necessário; mas, pelos excessos, chegais ao extremo exagero e à repulsa e vos punis a vós mesmos.

714 O que pensar do homem que procura nos excessos de toda espécie um refinamento para seus prazeres?

– Pobre infeliz digno de lástima e não de inveja. Está bem próximo da morte!

714 a Da morte física ou moral?

– De ambas.
☼ O homem que procura nos excessos de toda espécie um requinte de prazeres coloca-se abaixo do animal, porque o animal sabe deter-se na satisfação da sua necessidade. Despreza o homem a razão que Deus lhe deu por guia, e, quanto maiores os seus excessos, mais domínio exerce sua natureza primitiva sobre sua natureza espiritual. As doenças, a decadência, a morte prematura decorrentes dos abusos são a consequência da transgressão da lei divina.

Necessário e supérfluo

715 Como o homem pode conhecer o limite do necessário?

– Aquele que é sensato o conhece pela intuição; muitos o conhecem pela experiência e à sua própria custa.

716 A natureza não traçou o limite de nossas necessidades em nossa estrutura orgânica?

– Sim, mas o homem é insaciável. A natureza traçou o limite às suas necessidades no seu próprio organismo, mas os vícios lhe alteraram a constituição e criaram necessidades que não são reais.

717 O que pensar dos que monopolizam os bens da terra para obter o supérfluo em prejuízo dos que precisam do necessário?

– Eles desconhecem a lei de Deus e terão que responder pelas privações que impuseram aos outros.
☼ O limite entre o necessário e o supérfluo não tem nada de absoluto, de indiscutível. A civilização criou necessidades que o selvagem desconhece, e os Espíritos que ditaram esses ensinamentos não pretendem que o homem civilizado viva como o selvagem. Tudo é relativo e cabe à razão distinguir cada coisa. A civilização desenvolve o senso ético e ao mesmo tempo o sentimento de caridade, que leva os homens ao apoio mútuo. Os que vivem à custa das necessidades dos outros exploram os benefícios da civilização em seu proveito; têm da civilização apenas o verniz, como há pessoas que têm da religião apenas a máscara.

Privações voluntárias. Mortificações

718 A lei de conservação obriga o homem a prover as necessidades do corpo?

– Sim, sem força e saúde o trabalho é impossível.

719 É condenável ao homem procurar o seu bem-estar?

– O bem-estar é um desejo natural. Os abusos são condenáveis porque contrariam a lei de conservação. O bem-estar é condenável se foi adquirido à custa dos outros e se comprometeu o equilíbrio moral e físico do homem.

720 As privações voluntárias, que resultam numa expiação igualmente voluntária, têm algum mérito aos olhos de Deus?

– Quanto mais fazeis o bem aos outros mais méritos tereis.

720 a Há privações voluntárias que sejam meritórias?

– Sim, a renúncia aos prazeres inúteis, que liberta o homem da matéria e eleva sua alma. O meritório é resistir à tentação que o conduz aos excessos ou ao prazer das coisas inúteis; é tirar do que lhe é necessário para doar àqueles que não têm o suficiente. Se a privação é apenas fingimento, é uma zombaria.

721 A vida de mortificações ascéticas1 dos devotos e dos místicos, praticada desde a Antiguidade e entre diferentes povos, é meritória sob algum ponto de vista?

– Perguntai para o que e a quem ela serve e tereis a resposta. Se serve apenas àquele que a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, qualquer que seja o pretexto com o qual se disfarce. Renegar-se a si mesmo e trabalhar para os outros é a verdadeira mortificação, conforme a caridade cristã.

722 A abstenção de alguns alimentos, regra entre diversos povos, é fundada na razão?

– Tudo aquilo com que o homem pode se alimentar sem prejuízo para a sua saúde é permitido. Porém, alguns legisladores resolveram proibir alguns alimentos com um objectivo útil e, para dar maior autoridade às suas leis, as apresentaram como se fossem vindas de Deus.

723 A alimentação animal é, para o homem, contrária à lei natural?

– Em vossa constituição física, a carne alimenta a carne; de outro modo, o homem enfraquece. A lei de conservação dá ao homem o dever de manter suas forças e sua saúde para cumprir a lei do trabalho. Ele deve, portanto, se alimentar conforme as exigências de seu organismo.

724 A abstenção de alimento animal ou outro, como purificação, é meritória?

– Sim, se essa abstenção for em benefício dos outros; mas Deus não pode ver uma mortificação quando não é séria e útil. Por isso dizemos que aqueles que se privam apenas na aparência são hipócritas. (Veja a questão720.)

725 Que pensar das mutilações que se fazem no corpo do homem e dos animais?

– Por que tal questão? Perguntai, a vós mesmos, ainda uma vez e sempre, se uma coisa é útil. O que é inútil não pode ser agradável a Deus e o que é nocivo é sempre desagradável; porque, deveis saber, Deus só é sensível aos sentimentos daqueles que lhe elevam a alma; é praticando Sua Lei que podereis vos libertar da matéria terrestre, e não violando-a.

726 Se os sofrimentos deste mundo nos elevam pela maneira que os suportamos, elevam-nos também os que criamos voluntariamente?

– Os únicos sofrimentos que elevam são os sofrimentos naturais, por que vêm de Deus; os sofrimentos voluntários não servem para nada quando não contribuem para o bem dos outros. Por acaso acreditais que avançam no caminho do progresso os que abreviam sua vida nos rigores sobre-humanos, como fazem os bonzos2, os faquires3 e alguns fanáticos de muitas seitas? Por que não trabalham antes pelo bem de seus semelhantes? Que vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem por aquele que está enfermo; sofram necessidades para o alívio dos infelizes; então, sim, suas vidas serão útil e agradável a Deus. Quando os sofrimentos voluntários têm em vista apenas a si mesmo, é egoísmo; quando se sofre pelos outros, é caridade: são estes os preceitos do Cristo.

727 Se não devemos criar sofrimentos voluntários sem utilidade para os outros, devemo-nos preservar daqueles que prevemos ou que nos ameaçam?

– O instinto de conservação foi dado a todos contra os perigos e os sofrimentos. Mortificai o Espírito e não vosso corpo, exterminai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que parece uma serpente que vos tortura o coração, e fareis mais por vosso adiantamento do que por meio de rigores que não são mais deste século.

1. Ascéticas: dedicadas à meditação com o fim de ser virtuoso (N. E.).
2. Bonzos: monges do Budismo. São dados a martírios e suplícios (N. E.).
3. Faquires: que se deixam mutilar ou se submetem a jejuns. Exibem-se para provar o domínio e a insensibilidade da dor sobre o corpo (N. E.).

referência: o livro dos espiritos

lei da reprodução


Repensando Kardec - Da Lei da Reprodução

(O Livro dos Espíritos, questões 686 a 701)
Inaldo Lacerda Lima

População do Globo. A primeira indagação do Codificador é a propósito da reprodução dos seres vivos como lei da Natureza. E os Espíritos Reveladores respondem que o mundo corporal pereceria sem a reprodução deles.

Entretanto, diante da preocupação com a possibilidade de a população do Globo tornar-se excessiva, respondem eles, sempre amparados na lógica, que a tudo Deus provê, mantendo em tudo o equilíbrio da vida, pois coisa alguma Ele faz inútil. Nós, os homens, é que temos o hábito de observar a Natureza por partes, e quase nunca em seu conjunto.

Sucessão e aperfeiçoamento das raças. Constitui este um outro aspecto da lei de reprodução. E ao falar de raças humanas, que evidentemente decrescem, indaga Kardec em nome da Doutrina Espírita se ocorrerá um momento, na História, em que estarão elas desaparecidas.

E os Espíritos informam que assim acontecerá de facto, pois que outras raças, um dia, deverão tomar o lugar das que hoje existem.

Mas, esclarecem, em face da questão 689, que serão os mesmos Espíritos que voltarão a aperfeiçoar-se em novas indumentárias físicas, embora ainda imperfeitos.
Desse modo, a actual raça humana que tende a invadir toda a Terra, substituindo as que se extinguem, terá também sua fase de decrescimento e desaparecerá com o surgimento de outras mais aperfeiçoadas, tal como os homens mais civilizados de hoje são descendentes dos seres brutos e selvagens dos tempos primitivos, e tudo isso como lei natural. Já atendendo à questão seguinte, em relação aos corpos das raças actuais, se são de criação especial, respondem que “a origem das raças se perde na noite dos tempos”, o que significa que os corpos humanos também se aperfeiçoam com a evolução dos seres que os vestem.

Quanto ao carácter distintivo e dominante das raças primitivas, em que se destacava o “desenvolvimento da força bruta, à custa da força intelectual”, dá-se o contrário em nossos dias, quando o homem realiza mais e melhor, pela inteligência, ao aprender como aproveitar os recursos da Natureza.

Na questão 692, embora compreendendo-a bem, Allan Kardec, ao salientar algo sobre o aperfeiçoamento das raças animais através da Ciência, enseja aos Espíritos esclarecerem que tudo deve ser feito a serviço da perfeição; que o próprio homem, nesse sentido, é instrumento de que Deus se serve; a perfeição é meta a que tende a Natureza, de modo que facilitá-la é corresponder à Sua visão divina. Ao objectar, ainda, o Codificador sobre o facto de os esforços de que o homem se serve estarem relacionados sempre ao acréscimo de seus gozos, não lhe diminui isso o mérito, respondem os Espíritos incumbidos da revelação do Consolador com outra indagação:
“Que importa seja nulo o merecimento, desde que o progresso se realize? Cabe-lhe tornar meritório, pela intenção, o seu trabalho. Demais, mediante esse trabalho, ele exercita e desenvolve a inteligência e sob este aspecto é que maior proveito.

Obstáculos à reprodução. Já as questões seguintes – 693 e 694 – relacionam-se com os obstáculos à reprodução, indagando se tais obstáculos não são contrários à lei da Natureza. E a resposta não se faz esperar, com a mesma lógica de sempre: “Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrário à lei geral.”

Allan Kardec, prevendo decerto novas objecções do próprio homem, lembra que há espécies de seres vivos – animais e plantas –, cuja reprodução indefinida poderia ser nociva a outras espécies; desse modo praticaria o homem acção repreensível impedindo-a? Damos, aqui, destaque a três advertências fundamentais dos Espíritos, nesse sentido:

1. Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar sem abuso, podendo pois regular tal reprodução de acordo com suas necessidades.

2. A acção inteligente do homem é sempre um contrapeso que Deus dispôs para estabelecer equilíbrio entre as forças da Natureza, desde que haja conhecimento
de causa. E isso, inegavelmente, vem sendo mostrado pelos cientistas actuais.

3. Mas, no caso dos animais, os mesmos também concorrem para a existência desse equilíbrio, porquanto o instinto de destruição que lhes foi dado faz com que, provendo à própria conservação, obstem ao desenvolvimento excessivo, quiçá perigoso, das espécies animais e vegetais de que se alimentam.

Cabe-nos, aqui, na oportunidade, lembrar que o homem, mormente em nosso riquíssimo país, se comporta, em muitos casos, como ser abusivo, contra a própria Natureza, sofrendo as consequências amargas desse abuso, qual seja o caso do desmatamento em regiões que não o devem sofrer, de modo descontrolado; do cultivo abusivamente excessivo de plantas como a maconha, e de outros recursos para a fabricação perversa de drogas; e, ainda, a extinção de espécies animais, tudo com vistas à manutenção de interesses egocêntricos.

Há práticas humanas que consistem no propósito de evitar a reprodução, como satisfações sensuais, o que levou o mestre Kardec – a respeito da seriedade do assunto – a buscar o pensamento dos Espíritos Reveladores. E responderam eles que tal prática “prova a predominância do corpo sobre a alma e quanto o homem é material”.

Casamento e celibato. A seguir, nas questões 695 a 699, procura o Codificador ouvir os Espíritos Superiores a fim de, através deles, oferecer-nos preciosas orientações a respeito do casamento; e que efeito teria sobre a sociedade a sua abolição;
se está na Natureza ou apenas nas leis humanas a sua indissolubilidade absoluta e, ainda, se o celibato representa um estado de perfeição meritório aos olhos de Deus.
Eles, pacientemente, nos levam a reflectir, mostrando que o casamento é um progresso na marcha da Humanidade, e a sua abolição seria um regresso à vida irracional.

O Codificador nos faz sentir que, volvendo à infância da Humanidade, o homem se colocaria abaixo de certos animais que lhe dão exemplos de uniões constantes nesse sentido; e que a dissolução do casamento não deixaria de ser lei humana contrária à Natureza, porquanto esta é imutável.

Quanto ao celibato voluntário, nada tem de meritório aos olhos de Deus, salvo os que dele se utilizam, não por egoísmo, mas por uma questão de renúncia ou sacrifício a serviço do Bem e da Humanidade, caso em que o homem, nisso, não atenta contra a lei de Deus.

Poligamia. No que tange às questões 700 e 701, referentes à poligamia, Allan Kardec indaga se a igualdade numérica mais ou menos existente entre os sexos não é indício da proporcionalidade de união entre eles. Os Espíritos o confirmam, mostrando, em resposta à questão seguinte (701), que a abolição da poligamia, lei ainda existente entre alguns povos, marcará um progresso social – que dizemos grandioso –, porquanto “o casamento, segundo as vistas de Deus, tem que se fundar na afeição dos seres que se unem”. E concluem sabiamente:
“Na poligamia não há afeição real: há apenas sensualidade.”

Fonte: Revista Reformador – jan/2005

lei do trabalho


Lei do Trabalho
Roque Jacinto

O TRABALHO

O trabalho, queiramos ou não, é uma lei da Natureza e, por isso, o trabalho é uma necessidade imperiosa de que não nos convém furtar.

A civilização, à medida que avança, consequentemente obriga o homem a mais trabalho, já que os tempos modernos aumentam as nossas necessidades e aumentam, consequentemente, os nossos prazeres.

Não devemos entender, porém que o trabalho seja tão só o das ocupações profissionais que nos asseguram o equilíbrio psíquico e os prazeres do corpo físico.

ATIVIDADE DO ESPÍRITO

O nosso Espírito, em si, deverá trabalhar tanto quanto o nosso próprio corpo físico, sabendo-se que toda ocupação útil é uma actividade necessária para o nosso próprio equilíbrio espiritual.

E toda ocupação útil é trabalho.

O trabalho em si, é consequência da nossa própria natureza física, impondo-se como o meio de superar-se e nos realizarmos e, ao mesmo tempo, é o mais apropriado recurso para aprimorar e ampliar a nossa própria inteligência.

Sem o trabalho, o ser humano permaneceria num estado primário da inteligência, incapaz de liberar-se para alcançar a maturidade espiritual necessária.

Somos induzidos a uma actividade útil, por necessitarmos de alimentação e segurança e de bem-estar e, nesse conjunto de necessidades naturais, somente o trabalho físico ou a actividade intelectual nos dá a sensação de vida e de bem-estar.

Aos que tenham um corpo físico frágil, o Pai Celestial lhes atribui mais inteligência, para que possam desempenhar um trabalho ajustado à sua própria fragilidade.

A NATUREZA

Dentro da Natureza todos trabalham, movimentando-se de acordo com o que podem e devam realizar e os próprios animais desempenham actividades, de acordo com os rudimentos de inteligência que alcancem dentro da Lei de Conservação.

O HOMEM

O trabalho do homem, contudo, tem uma dupla finalidade, ou seja, a da conservação do corpo físico e o do desabrochar o seu pensamento, o que lhe é uma necessidade imperiosa, já que somente o desenvolvimento de sua inteligência poderá elevá-lo acima de si mesmo.

OS ANIMAIS

O trabalho dos animais está voltado para a sua própria conservação e este é o objectivo de sua actividades primárias.

Entregando-se, contudo, a prover as suas próprias necessidades materiais, eles se tornam agentes, embora inconscientes, dos desígnios do Pai Celestial.

O trabalho que os animais desenvolvem, também contribui para o objectivo final da Natureza, se bem que não descubramos ainda qual seja o resultado imediato dessa actividade.

TRABALHO RELATIVO

Em planos mais amadurecidos do que o nosso, todos se acham dentro da mesma necessidade de trabalhar, convindo, porém, observar que a natureza de cada actividade guarda estreita relação com a natureza das necessidades de cada Espírito.
Mesmo que seja, portanto, material o trabalho, menos será a actividade material.
Não creia, porém, que em algum lugar do Universo Divino, possa a criatura permanecer inactiva e inútil, já que o não trabalho seria um suplício e não um benefício.

AÇÃO NO CAMPO DO BEM

O homem que possua bens suficientes para assegurar a sua própria existência poderá estar, talvez, livre do trabalho de ordem material. Ele deverá, contudo, render-se à obrigação de tornar-se útil, conforme com os meios de que disponha, a fim de aperfeiçoar a sua própria inteligência ou, então, para colaborar para que outros se aperfeiçoem e essa sua atitude é igualmente um trabalho.

Se o homem, a quem o Pai Celestial facultou bens suficientes para assegurar a sua existência não está certamente, constrangido a nutrir-se com o suor do seu rosto, mas a obrigação dele ser útil a seus semelhantes é muito mais, quanto mais ocasiões ele tem de praticar o Bem.

IMPOSSIBILIDADE DE TRABALHAR

Há seres humanos, é certo, que estão impossibilitados de trabalhar ou de desenvolver qualquer actividade útil, em função de circunstancias físicas ou mentais adversas.
Lembremo-nos, contudo, que o Pai Celestial é absolutamente justo e não submete a nenhum de seus filhos a um constrangimento aos que não podem, involuntariamente, exercer actividades materiais.

O que é condenável, portanto, dentro da Lei do Trabalho, é aquele que inutiliza a sua própria existência, fazendo-se um inútil, voluntariamente, no campo da vida, já que assim procedendo passa a ter uma existência inútil.

PAIS E FILHOS

A Lei da Natureza impõe a obrigação de trabalhar a favor de seus parentes e, muito principalmente, a obrigação de trabalhar a favor de seus pais mais idosos. O Pai Celestial criou, em cada um de nós, o amor filial e o amor paternal e maternal e, essa expressão de amor, passou a ser um sentimento instintivo e natural, a fim de que, por essa afeição recíproca, os membros de uma mesma família se amparem mutuamente.

Infelizmente, contudo, esse amor recíproco é facilmente esquecido pela nossa sociedade actual, notadamente quando se extrema a indiferença.

LIMITE DO TRABALHO

O repouso é, também, uma lei da Natureza, sem nenhuma dúvida, já que através do repouso, as forças físicas se recompõem e o repouso é também necessário, a fim de liberar um tanto mais a inteligência, para que o homem se exercite a pôr-se acima da própria matéria.

O limite do trabalho, por isso, está no limite da força física ou intelectual e, sobre esse limite, o Pai Celestial deixa o homem inteiramente livre, cabendo à criatura ajustar-se ao limite de sua própria capacidade produtiva.

EXCESSOS

Em algumas regiões da Terra e em algumas circunstâncias, alguém que utiliza a força dos trabalhadores poderá impor a seus subordinados um excesso de trabalho.
Esse excesso é, sem dúvida, uma má e irresponsável acção, já que todo aquele que tem o poder do mando, responderá pelo excesso do trabalho que imponha a seus subordinados e isso é uma transgressão da lei do Pai Celestial.

REPOUSO

Atingida a velhice, já com as forças físicas desgastadas, é justo que tenha o homem de repousar, uma vez que trabalho deverá ser sempre de acordo com as suas próprias forças físicas.

` Ocorre por vezes, no entanto, que o velho necessita trabalhar para viver e nem sempre dispõe de forças para tanto.

A regra justa da própria caridade é, neste caso, que o mais jovem deve trabalhar, para compensar a incapacidade do mais idoso.

Cabe, pois, à sociedade, como um todo, que se o velho não tenha família que o ampare, a sociedade deve, ampará-lo integralmente, já que no seu passado, esse homem trabalhou para muitos.

CONSIDERAÇÕES

Não basta alertar o homem sobre a obrigação de trabalhar. Faz-se necessário, acima de tudo, que aquele que tem do que se prover para a sua subsistência através do trabalho, encontre sempre no que se ocupar, facto este que nem sempre ocorre. Quando se generaliza a falta de emprego, estaremos sempre diante de um flagelo social e graves consequências, por se inclinarem os homens para a miséria.

A Ciência Económica, diante desse facto doloroso, deve buscar a solução desse desequilíbrio entre a produção e o consumo de bens, mas esse equilíbrio, se for possível obtê-lo experimentará sempre intermitências durante os intervalos do não-emprego e, naturalmente, nesses intervalos o trabalhador não deixa de ter que viver e sobreviver.

Há, contudo, um elemento que nem sempre se costuma pesar na balança e sem o qual a Ciência Económica não passa de simples e complexa teoria.
Esse elemento é a educação.

Não nos referimos, por certo, somente à educação intelectual, que poderemos absorver nos bancos escolares. Referimo-nos, isto sim, à educação moral.

Anote, contudo, que não nos referimos à educação moral obtida na leitura de livros e, sim, à educação que forma o carácter, aquela que interioriza hábitos saudáveis, ao conjunto de atitudes igualmente saudáveis.

Considerando-se, por outro lado, a massa de indivíduos que todos os dias se injecta na torrente da população terrena, sem princípios saudáveis, sem os freios morais e sujeitas, por isso, a seus próprios instintos rudimentares, por acaso poderemos ficar perplexos, espantados, com as consequências desastrosas de que isso resulta?

Quando a moral for conhecida, compreendida e praticada, o homem exercitará os hábitos da ordem e da previdência para consigo mesmo e para com os seus, respeitando a tudo o que é respeitável, sem fazer-se mesquinho e sem fazer-se perdulário.

Seus novos e saudáveis hábitos, portanto, lhe permitirão atravessar menos penosamente os inevitáveis maus dias.

Vejamos, pois, que a desordem e a imprevidência, são duas chagas dolorosas que somente uma boa educação moral poderá sanar.

A educação é o ponto de partida para alcançar o bem-estar mais contínuo, para consolidar a segurança de todos.

ECONOMIA DIRIGIDA

Para realizar a Lei do Trabalho, a economia deve de ser dirigida, no tocante à técnica de produção e aos processos de consumo.

Nada, contudo, deverá prejudicar a lei das trocas, já que qualquer ingerência nessa lei natural, resultará em graves consequências para toda a colectividade.
A vida, em si, depende de trocas contínuas e toda e qualquer restrição que se estabeleça, cria uma inversão de todos os valores da vida, dando margem à violência e ao extermínio.

DAS LEIS MORAIS – Roque Jacinto

lei da adoração


lei da adoração

1 Objectivo da adoração. 2 Adoração exterior. 3 Vida contemplativa. 4 A prece. 5 Politeísmo. 6 Sacrifícios.

1 Objectivo da adoração

adoração consiste na elevação do pensamento a Deus. É um sentimento inato no homem, como o da existência de Deus. A consciência da sua fraqueza leva o homem a curvar-se diante daquele que o pode proteger. Nunca houve povos destituídos de todo sentimento de adoração. Todos compreendem que acima de tudo há um ente supremo.

2 Adoração exterior

A adoração verdadeira não precisa de manifestações exteriores, pois ela parte do coração. A adoração exterior, se não constituir num vão simulacro, tem seu valor relativo. Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimónias que os não tornam melhores para com os seus semelhantes. Todos os homens são irmãos e filhos de Deus. Ele atrai a si todos os que lhe obedecem às leis, qualquer que seja a forma sob que se exprimam. É hipócrita aquele cuja piedade se cifra nos actos exteriores. Mau exemplo dá todo aquele cuja adoração é afectada e contradiz seu procedimento. A adoração em comum dá mais força aos homens para atrair a si os bons Espíritos. Entretanto, não devemos crer que menos valiosa seja a adoração particular, pois que cada um pode adorar a Deus pensando nele.

3 Vida contemplativa

Perante Deus não tem mérito a vida contemplativa, porquanto, se é certo que não fazem o mal também o é que não fazem o bem e são inúteis. Demais, não fazer o bem já é um mal. Quem passa todo o tempo na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque vive uma vida toda pessoal e inútil à humanidade e Deus lhe pedirá contas do bem que não houver feito.

4 A prece

A prece é sempre agradável a Deus, quando ditada pelo coração, pois, para ele, a intenção é tudo. Assim, preferível lhe é a prece do íntimo à prece lida. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunhão com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer. A prece torna melhor o homem, porquanto aquele que ora com fervor e confiança se faz mais forte contra as tentações do mal e Deus lhe envia bons Espíritos para assisti-lo. O essencial não é orar muito, mas orar bem. Aquele que pede perdão de suas faltas só obtém-no mudando de procedimento. As boas acções são a melhor prece, por isso que os actos valem mais que as palavras.

O pensamento e a vontade representam em nós um poder de acção que alcança muito além dos limites da nossa esfera corporal. A prece que façamos por outrem é um acto dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar, em auxílio daquele por quem oramos, os bons Espíritos, que lhe virão sugerir bons pensamentos e dar força de que necessitem seu corpo e sua alma.

As nossas provas estão nas mãos de Deus e algumas hão que ser suportadas até o fim; mas, sempre Deus leva em conta a resignação. A prece traz para junto de nós os bons Espíritos e, dando-nos estes a força de suportá-las, corajosamente, menos rudes elas nos parecem.

Os desígnios de Deus não podem ser mudados, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira aquele que por ela pede e também porque o desgraçado sente sempre um refrigério, quando encontra almas caridosas que se compadecem de suas dores. Amai-vos uns aos outros, disse o Cristo. Esta recomendação contém a de empregar o homem todos os meios possíveis para testemunhar aos outros homens afeição, sem haver entrado em minúcias quanto à maneira de atingir ele esse fim. Pode-se também orar aos bons Espíritos, como sendo os mensageiros de Deus e os executores de sua vontade.

5 Politeísmo

Uma das crenças mais antigas e espalhadas pelo mundo, foi o politeísmo. A concepção de um Deus único não poderia existir no homem, senão como resultado do desenvolvimento de suas ideias. Incapaz, pela sua ignorância, de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, actuando sobre a matéria, conferiu-lhe o homem atributos da natureza corpórea, isto é, uma forma e um aspecto e, desde então, tudo o que parecia ultrapassar os limites da inteligência comum era, para ele, uma divindade. Daí crer em tantas potências distintas quantos os efeitos que observava. Em todos os tempos, porém, houve homens instruídos que compreenderam ser impossível a existência desses poderes múltiplos a governarem o mundo, sem uma direcção superior, e que, em consequência, se elevaram à concepção de um Deus único.

6 Sacrifícios

Remonta à mais alta antiguidade o uso dos sacrifícios humanos, e isso se explica porque o homem não compreendia Deus como sendo a fonte da bondade. Nos povos primitivos, a matéria sobrepuja o Espírito; eles se entregam aos instintos do animal selvagem. Em segundo lugar, é natural que os homens primitivos acreditassem ter uma criatura animada muito mais valor, aos olhos de Deus, do que um corpo material. Foi isto que os levou a imolarem, primeiro, animais e, mais tarde, homens. Não foi de um sentimento de crueldade que se originaram os sacrifícios humanos e sim de uma ideia errónea quanto a maneira de agradar a Deus. Com o correr dos tempos, os homens entraram a abusar dessas práticas, imolando seus inimigos comuns, até mesmo seus inimigos particulares. As Guerras Santas, por exemplo, são feitas por homens impelidos pelos maus Espíritos que contravêm à vontade de Deus. Todas as religiões, ou, antes, todos os povos adoram um mesmo Deus, não se justificando uma guerra sob o fundamento de ser a religião destes diferente da daqueles. Deus abençoa sempre os que fazem o bem, e o melhor meio de honrá-lo consiste em minorar os sofrimentos dos pobres e dos aflitos. O homem que se atém às exterioridades, e não ao coração, é um Espírito de vistas acanhadas.

rederência: ABC do espiritismo

lei divina ou natural


Da lei divina ou natural

1 Caracteres da lei natural. 2 Origem e conhecimento da lei natural. 3 O bem e o mal. 4 Divisão da lei natural.

1 Caracteres da lei natural

A lei natural é lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta. Todas as leis da Natureza são leis divinas, pois que Deus é o autor de tudo. Para que o homem possa aprofundar-se nas leis de Deus é preciso muitas existências.
Entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta: as leis físicas, cujo estudo pertence ao domínio da Ciência. As outras dizem respeito especialmente ao homem considerado em si mesmo e nas suas relações com Deus e com seus semelhantes. Contêm as regras da vida do corpo, bem como as da vida da alma: são as leis morais.

2 Origem e conhecimento da lei natural

Todos podem conhecer a lei de Deus, mas nem todos a compreendem. Os homens de bem e os que se decidem a investigá-la são os que melhor a compreendem. Todos, entretanto, a compreenderão um dia, porquanto forçoso é que o progresso se efectue. A alma compreende a lei de Deus de acordo com o grau de perfeição que tenha atingido e dela guarda a intuição quando unida ao corpo. Essa lei está escrita na consciência do homem. Como ele a esquece e despreza, Deus a lembra através de seus missionários, que são Espíritos superiores que se encarnam na Terra, com a missão de fazer progredir a humanidade.

O carácter do verdadeiro profeta é ser um homem de bem, inspirado por Deus. Podemos reconhecê-lo pelas suas palavras e pelos actos. Impossível é que Deus se sirva da boca de um mentiroso para ensinar a verdade. Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito divino o animava. Jesus pregava amiúde, na sua linguagem, alegorias e parábolas, porque falava de conformidade com os tempos e os lugares. Faz-se mister, agora, que a verdade se torne inteligível para todo mundo, daí porque vieram os Espíritos trazer o ensino claro e sem equívocos, para que ninguém possa pretextar ignorância e para que todos o possam julgar e apreciar com a razão. Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.

3 O bem e o mal

A moral é a regra do bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Deus deu inteligência ao homem para distinguir por si mesmo o que é bem do que é mal.
Os Espíritos foram criados simples e ignorantes. Deus deixa que o homem escolha o caminho. Tanto pior para ele, se toma o caminho mau: mais longa será sua peregrinação. É preciso que o Espírito ganhe experiência; é preciso, portanto, que conheça o bem e o mal. Eis porque se une ao corpo.

A lei de Deus é a mesma para todos; porém, o mal depende, principalmente, da vontade que se tenha de o praticar. Tanto mais culpado é o homem, quanto melhor sabe o que faz. Não basta que o homem deixe de praticar o mal; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem. Não há quem não possa fazer o bem. Somente o egoísta nunca encontra ensejo de o praticar. Para certos homens, o meio onde se acham colocados representa a causa primária de muitos vícios e crimes, mas, ainda aí, há uma prova que o Espírito escolheu, quando em liberdade, levado pelo desejo de expor-se à tentação para ter o mérito da resistência. O mérito do bem está na dificuldade em praticá-lo. Nenhum merecimento há em fazê-lo sem esforço e quando nada custe. Em melhor conta tem Deus o pobre que divide com outro o seu único pedaço de pão, do que o rico que apenas dá do que lhe sobra, disse Jesus, a propósito do óbulo da viúva.

4 Divisão da lei natural

A lei de Deus se acha contida toda no preceito do amor ao próximo, ensinado por Deus. Esse preceito encerra todos os deveres dos homens uns para com os outros. Demais, a lei natural abrange todas as circunstâncias da vida e esse preceito compreende só uma parte da lei. Aos homens são necessárias regras precisas; os preceitos gerais e muito vagos deixam grande número de portas abertas a interpretações.

A divisão da lei natural em dez partes, compreendendo as leis de adoração, trabalho, reprodução, conservação, destruição, sociedade, progresso, igualdade, liberdade e, por fim, a de justiça, amor e caridade, é de natureza a abranger todas as circunstâncias da vida, o que é essencial. Entretanto, a última lei é a mais importante, por ser a que faculta ao homem adiantar-se mais na vida espiritual, visto que resume todas as outras.

referência:ABC do espiritismo

quarta-feira, 23 de maio de 2007

lei da igualdade


Lei de Igualdade
Augusta Airosa

Revista de Espiritismo nº. 33, Outubro/Dezembro 1996

Todos os homens são iguais, pois todos foram criados com o mesmo fim: o de progredirem sempre até atingir a perfeição.
Ao longo da sua existência multissecular todos são submetidos às mesmas leis naturais, tendo que passar, mais ou menos, as mesmas provas. Assim, pode-se afirmar que Deus não concedeu superioridade original ou natural a nenhum homem.
Apesar de naturalmente serem iguais, ninguém pode negar a desigualdade de aptidões existentes entre os homens, desigualdade esta que não foi criada por Deus, mas que é antes fruto do tempo que cada um já viveu (reencarnou), ou seja, do tempo que cada um teve para realizar mais ou menos aquisições.

— a diferença está no grau de experiência e no exercício do livre-arbítrio. Esta desigualdade é necessária a fim de que cada um desempenhe e possua a sua função útil, que se complementará com a dos outros. Também habitantes (espíritos elevados em sabedoria e amor) de mundos superiores, habitam, por vezes, mundos inferiores ao seu, para servirem de exemplo aos mais atrasados. No estado de espíritos desencarnados, eles podem escolher uma situação mais precária do que a anterior, desde que tenha por função ajudar alguém ou mesmo a si próprio. Porém, só pelo facto dele passar a habitar (reencarnar) um mundo inferior ao seu, não implica que ele perca as faculdades já adquiridas, pois um espírito que progrediu não regride mais.
O espírito ao unir-se ao corpo conserva os atributos de natureza espiritual que conquistou até então. No entanto, o exercício das faculdades depende dos órgãos que lhes servem de instrumento. Estas vão ser enfraquecidas pela matéria, pois ela é um obstáculo à sua livre manifestação. Não se pode concluir, no entanto, que os órgãos sejam um obstáculo ao desenvolvimento das faculdades, pois não são estes que nos fornecem as faculdades mas antes as faculdades que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos. É um pouco o que acontece com o treino muscular: o músculo adapta-se e conforma-se segundo os estímulos do exercício; assim também os órgãos fisiológicos em relação às faculdades. Se as faculdades fossem efeito ou se originassem nos órgãos, o homem não seria mais do que uma máquina dependente dos órgãos que a "sorte" lhe fornecesse, sem livre-arbítrio e sem responsabilidade nos seus actos.
As desigualdades sociais não são obra de Deus e sim do homem. Como tal, elas desaparecerão à medida que o egoísmo e o orgulho desapareçam também. Nesta altura, os homens deixarão de se ver como sendo de sangue mais ou menos puro, pois só o espírito é mais ou menos puro, independentemente da sua condição social.

A desigualdade das riquezas poderá ter a sua origem na desigualdade de faculdades (o que permite que uns possuam mais meios de adquirir do que outros), mas o normal é derivar de outras fontes. Uma delas poderá ser uma herança — no caso da riqueza ter sido mal adquirida os herdeiros não são responsáveis (pois ninguém é responsável pelo mal que os outros fazem). No entanto, se eles tiverem conhecimento da má proveniência da riqueza, poderão, apesar de não serem responsáveis, reparar o mal feito por outro (a fortuna pode destinar-se na direcção de uma pessoa a fim de que ela possa reparar uma injustiça).

Há quem pense que a solução para todos os males sociais estaria na igualdade absoluta das riquezas. No entanto, esta igualdade é impraticável, pois seria logo rompida pelas circunstâncias. A maior chaga social não é a desigualdade das riquezas, mas sim o egoísmo, que deverá ser combatido para pôr termo a todo o tipo de males sociais.

Apesar da igualdade das riquezas ser impossível, não se pode dizer o mesmo em relação ao bem-estar, pois este é relativo e não decorre da riqueza; o bem-estar consiste no emprego do tempo de acordo com a vontade e não em trabalhos pelos quais não se tem nenhum gosto.

A riqueza e a miséria são provas escolhidas pelos próprios espíritos. Não se poderá atribuir maior dificuldade a uma ou a outra, pois ambas constituem uma prova mais ou menos difícil de suportar, de acordo com a elevação do espírito que as experimenta. Se, por um lado, a miséria pode alimentar a revolta, por outro, a riqueza pode conduzir a todos os excessos; quanto mais rico o homem for, mais obrigações tem a cumprir e mais meios para o fazer. Deus experimenta o pobre pela resignação e o rico pelo uso que faz de sua riqueza e poder, recursos capazes de despertar todas as paixões que nos prendem à matéria, se mal utilizados.

Homem e mulher são iguais perante Deus, pois este concedeu a ambos a faculdade de progredir e a consciência do bem e do mal. Se a mulher é fisicamente mais fraca que o homem, é porque as funções que lhes cabem são diferentes. A fragilidade feminina não a coloca de forma alguma dependente do homem, pois a força serve para proteger o mais fraco e não para o escravizar. Pelo facto de ambos possuírem funções diferentes, não quer dizer que a função de um é mais importante que a do outro — ambas se complementa.

Assim se pode concluir que homem e mulher devem ter igualdade de direitos, mas nem sempre de funções; todo o privilégio concedido a um e a outro não é contrário à lei de justiça; relativamente a funções, cada um deve ocupar um lugar determinado.
Conclui-se que a desigualdade é uma expressão actual do nosso enquadramento evolutivo e que é o efeito do modo como ocupamos o tempo e as circunstâncias, no imenso roteiro de aperfeiçoamento espiritual, que vimos há milénios palmilhando. Porém, ela deve-se ao uso individual do arbítrio humano.

(Reflexão sobre o Cap. IX, Leis Morais, de "O Livro dos Espíritos")